setembro 22, 2026

Centauro: guia da constelação de Rigil Kentaurus, Ômega Centauri e Centaurus A

Carta estelar do Centauro como aparece do Brasil, olhando para o sul: Rigil Kentaurus e Hadar embaixo, ao lado do Cruzeiro do Sul, a linha de estrelas subindo até Menkent, a Via Láctea ao fundo e Ômega Centauri, Centaurus A, NGC 5286, NGC 4945 e NGC 3766 marcados em verde

O Centauro é dos poucos lugares do céu em que a lista de recordes não para: a estrela mais próxima do Sol fora do Sistema Solar, o maior e mais brilhante aglomerado globular da Via Láctea, e uma galáxia tão estranha que os astrônomos amadores a apelidaram de "hambúrguer". Tudo isso ao lado do Cruzeiro do Sul, no coração do céu austral. Quem observa do Brasil tem sorte dupla: o Centauro nunca se põe totalmente ao sul do país e passa bem alto em praticamente todo o território, do Rio Grande do Sul a Roraima. Neste guia você vai aprender a encontrá-lo, conhecer suas estrelas principais e os objetos de céu profundo que o cercam, e entender por que ele carrega o nome de um dos centauros mais sábios da mitologia grega.

Uma constelação enorme ao redor do Cruzeiro

O Centauro (Centaurus, abreviatura Cen) é a nona maior constelação do céu, com cerca de 1.060 graus quadrados (Mourão, verbete Centaurus, p. 156). Ele envolve o Cruzeiro do Sul por três lados: ao sul faz fronteira com o Compasso, o próprio Cruzeiro e a Mosca; a oeste, com a Quilha, a Vela e a Máquina Pneumática; ao norte, com a Hidra Fêmea; e a leste, com o Lobo e de novo o Compasso (Mourão, p. 156). É uma figura polar austral, tão ao sul que boa parte dela nunca é vista do hemisfério norte — mas do Brasil ela é generosa: culmina bem alto mesmo nas latitudes do Sudeste e do Sul.

Mourão registra que o Centauro é "facilmente reconhecível graças às suas estrelas principais", que formam, junto com o Cruzeiro do Sul, "o conjunto estelar mais belo da região circumpolar sul" (Mourão, p. 156). Não é exagero: além de duas estrelas entre as mais brilhantes do céu, a constelação concentra um dos maiores tesouros de céu profundo ao alcance de binóculo.

Quando e como achar

Melhor época. O centro do Centauro culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais perto do final de maio, o que faz dele uma constelação típica do outono no Brasil. Na prática, a temporada é longa: ele já aparece bem no início da noite em março e abril, domina o céu de maio a julho, e ainda é visível ao anoitecer até por volta de setembro, antes de se perder no brilho do crepúsculo do lado oeste.

Para onde olhar. O Centauro é uma constelação austral profunda, e do Brasil ele culmina voltado para o sul: a carta abaixo mostra o céu olhando para essa direção, com o norte para cima e o leste para a esquerda.

Cidade Rigil Kentaurus Hadar Ômega Centauri Centaurus A Menkent
Boa Vista (RR) 26° 27° 40° 44° 51°
Manaus (AM) 32° 33° 46° 50° 57°
Recife (PE) 37° 38° 51° 55° 62°
Brasília (DF) 45° 45° 58° 63° 69°
Rio de Janeiro (RJ) 52° 53° 65° 70° 77°
São Paulo (SP) 53° 53° 66° 71° 77°
Porto Alegre (RS) 59° 60° 73° 77° 84°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do SIMBAD e a latitude de cada cidade; valores arredondados. O Centauro é visível, e bem alto, em todo o território brasileiro.

Carta estelar do Centauro como aparece do Brasil, olhando para o sul: Rigil Kentaurus e Hadar embaixo, ao lado do Cruzeiro do Sul, a linha de estrelas subindo até Menkent, a Via Láctea ao fundo e Ômega Centauri, Centaurus A, NGC 5286, NGC 4945 e NGC 3766 marcados em verde
Carta estelar do Centauro como ele aparece do Brasil ao olhar para o sul: o norte fica em cima e o leste à esquerda. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. A linha tracejada dourada larga é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Ache primeiro o Cruzeiro do Sul, a constelação mais famosa do céu austral. Rigil Kentaurus e Hadar, as duas estrelas mais brilhantes do Centauro, ficam a pouca distância dele, do lado leste (à esquerda na carta), e por isso são conhecidas como "os Ponteiros": a linha entre elas, prolongada, aponta para perto do Cruzeiro (Vieira, p. 80; fv-p059).
  2. Rigil Kentaurus é a mais próxima do Cruzeiro e a mais brilhante das duas; a olho nu, tem cor levemente amarelada. Hadar fica um pouco mais afastada, branco-azulada.
  3. Do par, suba para o norte (para baixo, na carta) por uma fileira de estrelas de brilho médio até chegar a Menkent, isolada mais ao norte da constelação.
  4. Entre Hadar e Menkent, praticamente no meio da figura, fica a região mais rica em céu profundo: Ômega Centauri, Centaurus A e o globular NGC 5286.

As estrelas do Centauro

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Rigil Kentaurus (alfa) Ponteiro mais próximo do Cruzeiro -0,27 (sistema) G2 V + K1 V (par próximo) cerca de 4,3 anos-luz
Hadar/Agena (beta) Ponteiro mais distante do Cruzeiro 0,61 B1 III cerca de 390 anos-luz
Menkent (teta) Isolada, mais ao norte 2,06 K0 III (gigante laranja) cerca de 59 anos-luz
Gama Centauri entre os Ponteiros e Menkent 2,20 A0 IV (dupla igual) cerca de 130 anos-luz
Epsilon Centauri próxima de Ômega Centauri 2,29 B1 III cerca de 430 anos-luz
Eta Centauri leste da figura 2,33 B1,5 Vne cerca de 310 anos-luz
Zeta Centauri perto de Centaurus A 2,55 B2,5 IV cerca de 380 anos-luz
Delta Centauri oeste, perto de NGC 3766 2,58 B2 IVne cerca de 395 anos-luz

Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo). As distâncias vêm de paralaxes de satélite (Hipparcos e Gaia); livros mais antigos trazem valores diferentes, especialmente para Hadar.

Rigil Kentaurus, também chamada Alfa Centauri, é a terceira estrela mais brilhante do céu noturno e a vizinha mais próxima do Sol depois do próprio Sol. A olho nu, parece uma única estrela amarelada; um telescópio pequeno revela que são duas, Alfa Centauri A e B, que orbitam uma à outra a cada quase 80 anos e se separam bem em instrumentos modestos (Vieira, p. 80; fv-p059). Um terceiro membro do sistema, Proxima Centauri, é uma anã vermelha muito fraca (11ª magnitude) que só aparece em telescópios maiores, mas que carrega o título de estrela mais próxima do Sol, a cerca de 4,25 anos-luz (fv-p059; p179-alfa-centauri-e-proxima). Proxima tem pelo menos dois planetas conhecidos, incluindo o batizado Proxima b, descoberto em 2016 — descoberta posterior aos livros de referência deste guia, tratada aqui como conhecimento geral.

Hadar, também conhecida como Agena, é uma supergigante azul-branca centenas de vezes mais luminosa que o Sol. Junto com Rigil Kentaurus, forma os "Ponteiros do Cruzeiro", um dos alinhamentos mais úteis do céu para quem está aprendendo a se localizar: a linha imaginária entre as duas, estendida, indica a direção do Cruzeiro do Sul (Vieira, p. 80).

Menkent, a estrela mais ao norte da figura entre as brilhantes, é uma gigante laranja isolada, sem ligação física com o par Rigil Kentaurus–Hadar; está muito mais próxima da Terra do que Hadar.

O Centauro tem ainda outras estrelas notáveis para quem observa com telescópio: Gama Centauri é uma dupla de estrelas quase idênticas, de magnitude 2,9 cada, com um período orbital de cerca de 84,5 anos (Moore, Observer's Year, noites de 24-25 de abril). Perto dela, a variável R Centauri, do tipo Mira, oscila entre a magnitude 5,3 e 11,8 em um ciclo de cerca de 546 dias (Moore, Observer's Year).

Objetos de céu profundo

NGC 5139, Ômega Centauri: o maior globular da Galáxia

O NGC 5139 — Ômega Centauri é o maior e mais brilhante aglomerado globular da Via Láctea, visível a olho nu como uma "estrela" gorda e desfocada entre Menkent e Gama Centauri. Em binóculo, já se mostra uma bola de luz do tamanho aparente da Lua cheia; em telescópio, um enxame de milhares de estrelas que preenche o campo de ponta a ponta. Reúne provavelmente mais de um milhão de estrelas e fica a cerca de 16.900 anos-luz (ver as divergências entre fontes no guia dedicado ao objeto). Há inclusive quem defenda que Ômega Centauri seja o núcleo remanescente de uma galáxia anã, engolida pela Via Láctea há bilhões de anos (Vieira, p. 80).

NGC 5128, Centaurus A: a galáxia "hambúrguer"

A poucos graus de Ômega Centauri fica o NGC 5128 — Centaurus A, uma galáxia elíptica cortada de ponta a ponta por uma larga faixa escura de poeira — daí o apelido de "galáxia hambúrguer" entre observadores. É uma das rádio-fontes mais fortes do céu e a radiogaláxia ativa mais próxima da Terra, a cerca de 12 a 15 milhões de anos-luz. Em telescópios de 10 cm ou mais, sob céu transparente, a faixa escura já aparece contra o brilho da galáxia (Vieira, p. 80-82). Moore recomenda localizá-la a partir do pequeno triângulo formado por Mu, Ni e Fi Centauri (Observer's Year, noites de 24-25 de abril).

NGC 5286, o globular discreto ao lado de Ômega Centauri

O NGC 5286 é um aglomerado globular mais distante e discreto, ofuscado pela fama dos vizinhos — mas vale a visita, sobretudo por ficar acompanhado de uma estrela intrusa bem mais brilhante, M Centauri, a poucos minutos de arco do seu centro.

NGC 4945, a galáxia de perfil

Também nas vizinhanças de Ômega Centauri está a NGC 4945, uma galáxia espiral vista quase de perfil, longa e fina como uma agulha de luz. Em 2005, uma supernova encontrada nela foi descoberta por astrônomos amadores brasileiros.

NGC 3766, o aglomerado das Pérolas

No canto oeste da constelação, perto do limite com o Cruzeiro do Sul, fica o NGC 3766, um aglomerado aberto compacto e brilhante, apelidado de "Pearl Cluster" (aglomerado das Pérolas) por causa do tapete denso de estrelas que mostra em telescópios pequenos.

Mitologia: o centauro que virou estrelas

Segundo Mourão, o nome Centaurus é, de acordo com Eratóstenes, uma homenagem a Quíron, "o mais célebre e sábio dos centauros", conhecido por seus saberes em medicina, astronomia e navegação (Mourão, verbete Centaurus, p. 156). Os centauros, na mitologia grega, eram seres híbridos, metade homem e metade cavalo, geralmente descritos como violentos e selvagens — mas Quíron era uma exceção, por sua origem divina e sua sabedoria. A lenda conta que ele foi ferido acidentalmente por uma flecha envenenada durante o massacre dos centauros promovido por Héracles; como era imortal e a ferida, incurável, Quíron pediu para morrer, e Prometeu, que era mortal, trocou seu destino pelo dele. Assim, Quíron encontrou repouso entre as estrelas, perto da constelação que representa o navio Argo — cuja tripulação, segundo o mito, havia aprendido a arte da navegação justamente com ele (Mourão, p. 156).

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Os Ponteiros Rigil Kentaurus e Hadar apontando para o Cruzeiro do Sul, a cor amarelada de Rigil Kentaurus, Ômega Centauri como uma "estrela" borrada e a faixa da Via Láctea atravessando a constelação.
Binóculo (10×50) Ômega Centauri já se resolvendo em uma nuvem de estrelas, Centaurus A como uma mancha oval, NGC 3766 como um tapete de pontos e o campo estelar riquíssimo entre Hadar e o Cruzeiro.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) A dupla Rigil Kentaurus A/B bem separada, Ômega Centauri resolvido em milhares de estrelas, a faixa de poeira de Centaurus A contra o brilho da galáxia e o globular NGC 5286 ao lado da estrela intrusa M Centauri.
Câmera DSLR ou celular no tripé O Centauro inteiro sobre a Via Láctea, com o Cruzeiro do Sul e o Saco de Carvão no mesmo enquadramento; teleobjetivas de 100 a 200 mm aproximam Ômega Centauri e Centaurus A.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre maio e agosto, em céu escuro e com boa visão do horizonte sul.
  • Use os Ponteiros como ponto de partida: eles levam ao Cruzeiro de um lado e a Ômega Centauri e Centaurus A do outro.
  • Reserve tempo extra para Ômega Centauri: em céu realmente escuro, ele recompensa longos minutos de observação em baixo aumento.

Referências

  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Centaurus", p. 156.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 24 e 25 de abril (Centauro, Alfa Centauri, Beta Centauri, Gama Centauri, R Centauri e Centaurus A).
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Centauro, Rigil Kent, Hadar, Ômega Centauri e NGC 5128, p. 80-82.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.