setembro 21, 2026
NGC 4945 (Caldwell 83), a galáxia de Centauro: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
O Centauro não guarda só Omega Centauri e Alfa Centauri. A poucos graus do maior globular do céu, uma galáxia longa e fina, vista quase de perfil, atravessa o campo como uma agulha de luz: NGC 4945, Caldwell 83. Bakich a chama de galáxia enorme e brilhante, boa em qualquer telescópio (nº 322), e Cooke a descreve como um objeto de perfil "excepcional" (Cooke, Visual Astronomy in the Suburbs). Do Brasil, a galáxia fica alta no céu de outono e é um dos melhores alvos do Caldwell sul. Há ainda uma história local: em 2005, a supernova achada nessa galáxia foi descoberta por astrônomos amadores brasileiros. Este guia reúne os dados, os mapas e uma estratégia de observação e de captura.
Texto em revisão. Este é um guia de teste no novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma galáxia de perfil
Quando o disco de uma galáxia espiral é visto de lado, ela aparece como uma faixa longa e fina, e a poeira do plano do disco se destaca como uma linha escura contra a luz das estrelas. É o caso de NGC 4945. O SIMBAD lista as dimensões em 20,4′ × 4,3′, e os livros trazem valores parecidos, de 15′ × 2,5′ a 23′ × 5,9′. A orientação é nordeste–sudoeste (Bakich, nº 322).
Tipo e natureza. Bakich e Cooke a classificam como espiral barrada (SBc). O SIMBAD registra o núcleo como do tipo Seyfert 2, ou seja, uma galáxia com núcleo ativo. Essa é uma pista de que o centro esconde algo energético; para além disso, o texto não avança, porque os livros consultados não detalham esse ponto.
Distância. O SIMBAD não traz paralaxe para galáxias, e a velocidade radial de cerca de 680 km/s não é medida de distância. Mobberley dá cerca de 17 milhões de anos-luz (p. 174). Kambič cita um grupo em torno de M83, com 14 galáxias, a 15 milhões de anos-luz (p. 144), mas não liga NGC 4945 a ele; essa associação fica como conhecimento geral, a conferir.
A supernova brasileira. Em fevereiro de 2005, C. Jacques e E. Pimentel, do CEAMIG e da REA, com o projeto de busca de supernovas BRASS, descobriram uma supernova em NGC 4945 usando um Schmidt-Cassegrain de 30 cm; ela tinha magnitude 12,5 (Mobberley, p. 174). É um bom exemplo de contribuição de amadores brasileiros.
Vizinhas. NGC 4976, uma elíptica de magnitude 10,1 (Bakich, nº 323) ou 11,1 (Mobberley), fica cerca de 0,5° a leste, e NGC 4945A (magnitude 12,5) a 0,3° a sudeste (Bakich, nº 322).
Estruturas notáveis
- A faixa longa e fina. O brilho é razoavelmente uniforme, exceto nas pontas; a extremidade nordeste é mais brilhante (Bakich, nº 322).
- A faixa de poeira. Com grandes aberturas, a poeira escurece o meio e dá à galáxia o aspecto de "pinça" (Mobberley, p. 174). Bakich indica procurar, com 300 mm ou mais a 300x, um recorte escuro perto da ponta nordeste.
- O núcleo. Sede da atividade Seyfert 2 (SIMBAD).
- NGC 4976. Elíptica no mesmo campo de baixa ampliação; veja "Como localizar".
- A supernova de 2005. Descoberta por brasileiros, como contado acima.
Como localizar
NGC 4945 fica no Centauro, ao sul da estrela Xi¹ Centauri (magnitude 4,8): Bakich diz que a galáxia está a cerca de 0,3° a leste dessa estrela (nº 322). Mobberley sugere partir de Gama Centauri, ir 0,5° ao sul e 4° a leste, ou ainda 4° a sudoeste de Omega Centauri (p. 174). Para chegar ao campo, use o aglomerado Omega Centauri (NGC 5139) como ponte, e aproveite para ver a vizinha Centaurus A (NGC 5128), a cerca de 7° ao norte-nordeste (estimativa a partir das coordenadas). Ache o campo com um buscador de campo largo; depois use ocular de baixa ampliação.

Quando e como observar
Com declinação de −49,5°, NGC 4945 passa pelo meridiano a cerca de 63° de altura no Rio, ao sul do zênite. Ela não é circumpolar: no ponto mais baixo, se põe. A culminação à meia-noite ocorre no início de abril, e a melhor janela vai de março a junho (Bakich sugere abril). Como o Centauro é uma constelação austral, a altura é muito superior à de qualquer observador do hemisfério norte, para quem a galáxia mal sai do horizonte.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 4°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · 4° SE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 10 mag 11,9
- Enquadramento
- 100 ocupa 52 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 0° | SW 215° | 35° |
| 20:00 | -3° | — | 35° |
| 20:30 | -7° | — | 35° |
| 21:00 | -10° | — | 35° |
| 21:30 | -13° | — | 35° |
| 22:00 | -15° | — | 35° |
| 22:30 | -16° | — | 35° |
| 23:00 | -17° | — | 35° |
| 23:30 | -18° | — | 35° |
| 00:00 | -17° | — | 35° |
| 00:30 | -16° | — | 35° |
| 01:00 | -15° | — | 35° |
| 01:30 | -13° | — | 35° |
| 02:00 | -11° | — | 35° |
| 02:30 | -8° | — | 36° |
| 03:00 | -4° | — | 36° |
| 03:30 | 0° | — | 36° |
| 04:00 | 4° | SE 143° | 36° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Não é visível. |
| Binóculo | Difícil em céu urbano; em céu escuro, uma faixa alongada e tênue. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Mobberley indica 20 cm como abertura mínima (p. 174). Uma linha de luz apagada, com o centro mais brilhante. |
| Telescópio de 200 a 250 mm | A galáxia longa e fina aparece, com brilho uniforme e a ponta nordeste mais forte (Bakich, nº 322). |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Com 300x, o recorte escuro perto da ponta nordeste (Bakich); em grandes aberturas, a faixa de poeira mostra a forma de pinça (Mobberley). |
Expectativa honesta. A magnitude total (de 8,8 a 9,2, segundo os livros) sugere um objeto mais fácil do que ele é: a luz é espalhada por uma faixa comprida. Em Bortle 7 é um alvo para telescópios de 200 mm ou mais e uma noite de céu bom.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 20′ de comprimento, NGC 4945 cabe bem em sensores médios. Com um refletor de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75°: a galáxia cabe na diagonal, e é possível incluir NGC 4976 e NGC 4945A. Uma boa opção de composição é inclinar o quadro para acompanhar a orientação nordeste–sudoeste.
Desafios do alvo
- A poeira do disco. O contraste entre o brilho do bojo e a faixa escura exige um bom tratamento de curvas para não estourar o centro.
- Brilho baixo nas pontas. Só longas exposições mostram as extremidades e o halo; em Bortle 7, o tempo total é o que conta.
- Campo estelar denso. O Centauro está sobre a Via Láctea, e o campo tem muitas estrelas; um bom tratamento de estrelas é recomendável.
Equipamento e filtros
Câmera colorida com filtro anti-poluição luminosa ajuda a segurar o brilho do céu; uma câmera monocromática com luminância e RGB é o caminho mais eficiente. Fotografe perto do meridiano, com a galáxia mais alta.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (luminância ou RGB) | 80 a 150 | 180 s | Galáxia e faixa de poeira; o tempo total é o que conta |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
NGC 4945 cabe no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), na diagonal. O brilho baixo das pontas pede muitas horas de empilhamento. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 4945 é, ao mesmo tempo, um bom alvo visual para um telescópio de 200 mm em céu razoável e uma ótima imagem para quem fotografa do Brasil. Ela combina com Omega Centauri e Centaurus A numa noite de outono, e traz de brinde uma história de amadores brasileiros. Para continuar na região, veja os guias de NGC 5139 e de NGC 5128.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objetos nº 322 (NGC 4945) e nº 323 (NGC 4976).
- COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer. Lista de galáxias do céu sul, NGC 4945 (página a conferir).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Aglomerados de galáxias próximos, p. 144 (a conferir).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 83, p. 174-175.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões, magnitude V e velocidade radial de NGC 4945, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.