setembro 21, 2026

NGC 5286 (Caldwell 84), o globular de Centauro: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 5286 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Centauro guarda uma das regiões mais ricas do céu do sul: o Ômega Centauri, a galáxia Centaurus A, a Nebulosa do Pequeno Escorpião… e, no meio disso tudo, um globular que quase ninguém cita, o NGC 5286. Mobberley o chama de "negligenciado por causa das outras maravilhas de Centauro". Ele é um aglomerado distante e de brilho médio, que se apresenta ao telescópio como uma bola de luz com muitas estrelas fracas, ao lado de uma estrela intrusa muito mais brilhante que ele. No Rio de Janeiro, ele passa perto de 60° de altura e é um bom alvo de outono. Este guia reúne os dados, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.

Texto em revisão. Este é um guia do novo formato, do segundo lote Caldwell. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 5286 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado globular

Um aglomerado globular é uma esfera densa de estrelas muito antigas, presas pela gravidade e espalhadas em um halo em volta da Galáxia. Os brilhantes, como o Ômega Centauri, têm centenas de milhares de estrelas; os fracos, como este, parecem apagados principalmente por estarem longe.

O NGC 5286 em números. A paralaxe listada no SIMBAD (0,088 milissegundo de arco) dá cerca de 37.100 anos-luz, valor adotado aqui; Mobberley cita 35.000. O tamanho aparente é de cerca de 9′ (SIMBAD e Bakich; Mobberley dá 11′), o que corresponde a cerca de 100 anos-luz de diâmetro. A idade é de cerca de 12 bilhões de anos (Mobberley). A magnitude integrada varia de 7,2 a 7,3 nos livros de Bakich e Mobberley e é de 8,31 no catálogo do site: a diferença é grande, e o texto trata o objeto como de "magnitude 7 a 8". É também o Caldwell 84.

Uma estrela intrusa. Mobberley destaca a presença de uma estrela de magnitude 4,6, M Centauri, no extremo sudeste do globular, onde as estrelas do aglomerado se dissolvem no fundo do céu. Ela está a cerca de 260 anos-luz, ou seja, umas 130 vezes mais perto que o aglomerado (Bakich fala em 200 vezes), e tem 70 vezes a luminosidade do Sol. Como está tão mais perto, brilha cerca de 10 vezes mais que o globular inteiro. É uma estrela binária, com a companheira detectável só por espectroscopia, em uma órbita de 437 dias (Mobberley). Serve de excelente marcador de posição, mas ofusca a observação.

O parente do hemisfério norte. Mobberley compara o NGC 5286 ao M 68, em Hidra: magnitude e tamanho parecidos, mas M 68 está numa declinação mais acessível para o hemisfério norte.

Estruturas notáveis

  • M Centauri. A estrela de magnitude 4,6 no bordo sudeste; o núcleo do aglomerado fica a menos de 5′ ao noroeste dela (Mobberley). Bakich dá 4′.
  • As estrelas do aglomerado. A maioria é de magnitude 15 ou mais fraca, mas há estrelas de magnitude 13 e 14 em número suficiente para o aglomerado "cintilar um pouco" mesmo em telescópios modestos (Mobberley). As mais brilhantes têm magnitude 13,5 (Bakich).
  • O halo. A luz de M Centauri atrapalha as estrelas externas (Bakich).
  • O vizinho gigante. O Ômega Centauri fica a cerca de 5° a noroeste (Mobberley) e pode ser incluído em um campo largo.

Como localizar

Trace uma linha entre Epsilon Centauri (magnitude 2,3) e Zeta Centauri (2,5) e ande 35% do caminho a partir de Epsilon: é ali (Mobberley), cerca de 2° ao norte e 1° a leste de Epsilon. Bakich diz 2,3° a nor-nordeste de Epsilon Centauri. A estrela M Centauri, de magnitude 4,6, é o marcador final. Para chegar à região, use o Cruzeiro do Sul e os Ponteiros (Alfa e Beta Centauri) como guia.

Carta de localização de NGC 5286: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −51,4°, o NGC 5286 passa pelo meridiano do Rio de Janeiro a cerca de 62° de altura e não é circumpolar (Mobberley: só abaixo de 39°S). Mobberley indica março a junho como a melhor época. Pela ascensão reta (13h46m), ele culmina à meia-noite por volta de meados de abril, e no início da noite de outono está alto no céu do leste. Uma boa altura ajuda: ele perde pouco brilho pela atmosfera.

Olhando para o sul, o norte fica para baixo e o leste, à esquerda.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho dele pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.

Altura de NGC 5286 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de fevereiro a junho. O objeto chega a 61° à meia-noite em abril.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ16 abr · 61°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de fevereiro a junho (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 61° em 16 de abril.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 8°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
19:20 · 8° SW
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
64 mag 8,3
Enquadramento
59 ocupa 15 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 5286 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 8°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 7° SW 216° 32°
20:00 3° SW 214° 32°
20:30 -1° — 32°
21:00 -4° — 32°
21:30 -7° — 32°
22:00 -10° — 32°
22:30 -12° — 32°
23:00 -14° — 32°
23:30 -15° — 32°
00:00 -16° — 32°
00:30 -16° — 32°
01:00 -15° — 32°
01:30 -14° — 32°
02:00 -12° — 32°
02:30 -10° — 32°
03:00 -7° — 32°
03:30 -4° — 33°
04:00 -1° — 33°
Altura de NGC 5286 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 8°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não visível em Bortle 7.
Binóculo (7×50 a 15×70) Uma mancha muito discreta ao lado de M Centauri, que serve de guia. Em Bortle 7 é difícil.
Telescópio de 100 a 150 mm Mobberley recomenda 10 cm ou mais, sem filtro. Uma bola de luz com o brilho central e, com sorte, algumas estrelas no halo, ofuscada por M Centauri.
Telescópio de 250 a 400 mm A resolução do halo só vem de fato com 355 mm ou mais (Bakich). Com uma abertura assim e um céu razoável, as estrelas de magnitude 13 a 14 saltam do fundo.

Expectativa honesta: em um céu Bortle 7, com a estrela de magnitude 4,6 no campo, o aglomerado é uma mancha discreta. Tire M Centauri do campo, se puder, para ver as bordas. O objeto vale mais pelo contexto (uma estrela brilhante e próxima diante de um aglomerado distante) do que pelo espetáculo.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Mobberley classifica o NGC 5286 como alvo fácil. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): o globular, de cerca de 9′, ocupa uma fração pequena do quadro, com M Centauri no canto. Para incluir também o Ômega Centauri, a 5°, use um campo de 8° a 10° (lente de 100 a 200 mm).

Desafios do alvo

  • A estrela de magnitude 4,6. M Centauri estoura o quadro e cria halos e espículas de difração. Use máscara ou combine exposições curtas e longas (HDR).
  • Campo estelar rico. A Via Láctea está por perto; um empilhamento longo é necessário para separar as estrelas do aglomerado das do campo.
  • Estrelas fracas. A maioria das estrelas do globular é de magnitude 15 ou mais fraca (Mobberley).

Equipamento e filtros

Como em todo globular, não há filtro que ajude. Uma câmera colorida de um disparo ou uma monocromática com LRGB funciona bem. Uma imagem de Daniel Verschatse, publicada por Mobberley, usou 50, 12, 12 e 12 minutos em L, R, G e B, com um refletor de 37 cm f/9.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou colorida) 60 a 100 60 a 120 s Estrelas do aglomerado; o mais importante é o tempo total
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros (a referência de Verschatse está acima).

Smart telescopes e campo de visão

O NGC 5286 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com M Centauri no quadro. O brilho da estrela cria halos, mas o aglomerado, sendo compacto, sai bem em algumas dezenas de minutos de empilhamento. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

O NGC 5286 não é o globular mais espetacular, mas é um bom exemplo do que a distância faz: um aglomerado real, com dezenas de milhares de estrelas, aparece ao lado de uma estrela solitária que, sozinha, o ofusca. Combine-o com o Ômega Centauri, a 5°, e com o NGC 3201, outro globular menos famoso, para uma noite de comparação entre globulares do sul.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 343 (NGC 5286).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 84, p. 176-177.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 5286, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.