setembro 21, 2026

NGC 2775 (Caldwell 48), a galáxia de Câncer: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2775 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

NGC 2775 é uma galáxia que engana: parece uma espiral vista de frente, com um centro brilhante e liso, mas os braços que a definem são tão fechados e tão fracos que, mesmo nas fotografias mais profundas, parecem mais anéis concêntricos do que braços. Ela é a Caldwell 48, fica no canto sul-sudeste da constelação de Câncer, quase na divisa com Hidra e Leão, e é um daqueles alvos que o catálogo Caldwell inclui para dar variedade ao repertório. Para quem observa do Rio de Janeiro, é um objeto de altura muito boa no verão e no outono, que rende uma noite de treino de "saltos" mais do que uma noite de espetáculo.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste do novo formato de guia de objeto. Ele substitui o guia de astrofotografia e a página de exploração do objeto. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 2775 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é uma galáxia de disco com braços fechados

Uma galáxia espiral típica tem um bojo central, um disco achatado e braços que se abrem como uma hélice. NGC 2775 tem tudo isso, mas em versão contida: um bojo grande e brilhante, um disco liso e, mais fora, braços delicados e muito fechados. Mobberley a compara a uma versão mais simples da Galáxia do Girassol (M 63): o disco central é plano e brilhante e muda de repente para detalhes finos e frágeis, com a diferença de que, aqui, "frágil" pode ser trocado por "quase invisível".

O SIMBAD a lista como galáxia candidata, sem tipo firme, e as classificações variam. Bakich chama de espiral; Mobberley descreve a estrutura, sem dar tipo. O que importa para quem observa é o resultado: o núcleo é a única coisa fácil, e o resto só aparece em imagens longas.

Outro ponto: à primeira vista parece de frente, mas na verdade está inclinada quase 40° em relação à nossa linha de visada (Mobberley), o que explica o contorno elíptico. Se aceitarmos a distância de cerca de 55 milhões de anos-luz (Mobberley), o diâmetro é de cerca de 75.000 anos-luz, ligeiramente menor que a Via Láctea. Como o SIMBAD não fornece paralaxe para galáxias, esse valor vem dos livros e deve ser lido como ordem de grandeza.

Números que importam. Segundo o SIMBAD, o eixo maior é de cerca de 4,9′, com 3,9′ no eixo menor e ângulo de posição de 166°. A magnitude visual do SIMBAD é de cerca de 10,5; os livros dão 10,0 (Mobberley) e 10,1 (Bakich). Uma supernova de Tipo Ia, de magnitude 13, foi descoberta nela no fim de setembro de 1993 (Mobberley).

Estruturas notáveis

  • O núcleo e o disco interno. É a parte brilhante e lisa, que aparece até em telescópios pequenos.
  • Os braços fechados. Parecem anéis concêntricos, quase impossíveis de ver ao telescópio. Nas melhores imagens de amadores, são resolvidos como espirais cinza e fracas (Mobberley).
  • A faixa de poeira externa. Imagens muito esticadas revelam uma faixa de poeira mais afastada, como na fotografia de Keller e equipe que Mobberley reproduz.
  • As vizinhas fracas. NGC 2777 (mag. 13,1) é uma companheira real, e NGC 2773 (mag. 13,6) está muito mais longe, quatro vezes a distância de NGC 2775, e não tem relação física com ela (Bakich). Um campo de meio grau captura as duas, e talvez uma galáxia de 16ª magnitude (Mobberley).
  • A galáxia inteira como projeto. Com os anéis fracos, ela pede uma sessão longa e um céu bom.

Como localizar

Mobberley recomenda, em vez do longo salto a partir de Regulus, começar pelas duas estrelas de terceira magnitude no topo de Hidra, a 2° uma da outra, quase na fronteira com Câncer. A partir da mais oriental, Zeta de Hidra, ande quase 4° para leste e um pouco mais de 1° para norte, atravessando a fronteira das duas constelações. Bakich fornece os mesmos números por outro caminho: cerca de 3,8° a leste-nordeste de Zeta de Hidra. O percurso alternativo é traçar a linha entre Regulus e Procyon: a galáxia fica logo ao sul dela e um pouco mais perto de Regulus, mas é uma caminhada longa (Mobberley). Se você estiver no aglomerado M 67 (veja o guia), NGC 2775 fica a 5° dele, para sudeste. Para a vizinhança, veja também o guia da constelação de Câncer e o Presépio (M 44).

Carta de localização de NGC 2775: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de +7°, NGC 2775 culmina a cerca de 60° de altura no Rio de Janeiro, ao norte do zênite. Isso é confortável, porque a altura é boa para uma galáxia fraca, mas o objeto não sobe tanto quanto os do céu equatorial. A melhor época vai de janeiro a abril (Mobberley: janeiro a abril). Quando o objeto culmina, olhamos para o norte, e o telescópio mostra o norte para baixo e o leste à direita.

Os gráficos abaixo mostram a altura ao longo do ano e a trajetória no céu nesta noite.

Altura de NGC 2775 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de dezembro a abril. O objeto chega a 60° à meia-noite em fevereiro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ5 fev · 60°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de dezembro a abril (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 60° em 5 de fevereiro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 29°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · 29° ENE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
35 mag 10,2
Enquadramento
38 ocupa 9 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 2775 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 01:50 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 29°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO02:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -74° — 87°
20:00 -73° — 88°
20:30 -70° — 88°
21:00 -65° — 88°
21:30 -59° — 88°
22:00 -52° — 89°
22:30 -46° — 89°
23:00 -39° — 89°
23:30 -32° — 89°
00:00 -25° — 90°
00:30 -18° — 90°
01:00 -11° — 90°
01:30 -4° — 90°
02:00 3° E 81° 91°
02:30 9° ENE 78° 91°
03:00 16° ENE 75° 91°
03:30 23° ENE 71° 91°
04:00 29° ENE 67° 92°
Altura de NGC 2775 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 29°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 29°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Fora de alcance.
Binóculo (10×50) Provavelmente só um ponto difuso em céu escuro, e em céu urbano nada. Os livros consultados não descrevem a galáxia em binóculo.
Telescópio de 150 a 200 mm Mobberley recomenda 15 cm ou mais. Bakich, com 200 mm, descreve uma forma oval orientada de nor-noroeste a sul-sudeste. O que se vê é o núcleo e um halo fraco.
Telescópio de 300 mm ou mais Com 300 mm e 250 aumentos, Bakich descreve um halo tênue ao redor do núcleo. Mesmo com telescópios grandes, o que se vê é o núcleo e o halo fraco, com quase nada de cor, no máximo um creme amarronzado central (Mobberley). Um filtro de céu profundo "pode ajudar" (Mobberley).

Expectativa honesta: Mobberley diz que a galáxia parece muito melhor nas fotografias de amadores do que ao ocular, mesmo de um telescópio grande de quintal. Em Bortle 7, conte com o núcleo e um esboço do halo.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 4,9′ × 3,9′, NGC 2775 é pequena. Numa configuração de 1.000 mm de focal com uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado), ela ocupa uma fração pequena do quadro. Em imagens de meio grau de altura, cabem as galáxias NGC 2777 e NGC 2773 e, talvez, uma terceira bem fraca (Mobberley); isso pede uma focal de 1.500 a 2.000 mm para que o objeto principal tenha tamanho decente.

Desafios do alvo

  • Detalhe fino e fraco. Os braços são quase invisíveis; só um empilhamento muito profundo e um processamento cuidadoso os revelam. Mobberley classifica a fotografia como "complicada", e a imagem de referência usou 40 minutos de luminância com uma câmera de 1,2 m de abertura e cores de 10 minutos cada.
  • Céu iluminado. Em Bortle 7 o gradiente e o ruído de fundo atrapalham exatamente a parte tênue, a mais interessante.
  • Cor sutil. Há pouca cor na galáxia, só um centro creme e braços cinza, e por isso uma imagem monocromática perde pouco (Mobberley).

Equipamento e filtros

Como em toda galáxia, filtros de banda estreita não ajudam. Uma câmera colorida de um disparo com filtro anti-poluição leve funciona; uma monocromática com luminância longa é melhor para os braços. Se o seeing for bom, uma focal longa e um empilhamento seletivo de quadros ajudam a resolver os anéis.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (luminância ou RGB) 100 a 150 120 a 180 s Núcleo, halo e braços; o tempo total é o que mais conta
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida do autor do guia, e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

Num smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°), NGC 2775 aparece como uma mancha pequena no meio do quadro. Só um empilhamento longo mostra o núcleo e o halo. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 2775 é o tipo de objeto que recompensa a paciência mais que a abertura. Para observar, é uma parada de treino de saltos a partir de Hidra; para fotografar, é um projeto em que o processamento decide se os braços aparecem. Como combinação, vale planejar a noite com os aglomerados vizinhos M 67 e M 44.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 103 (NGC 2775).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 48, p. 108-109.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, dimensões e fotometria de NGC 2775, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.