setembro 22, 2026

Cães de Caça: guia da constelação de Cor Caroli, do Redemoinho M51 e do Girassol M63

Carta estelar de Cães de Caça como aparece do Brasil, olhando para o norte: Cor Caroli e Chara em destaque, e as galáxias M3, M51, M63, M94, M106, NGC 4631, NGC 4449, NGC 4244 e NGC 5005 marcadas em verde

Cães de Caça é uma constelação pequena, moderna e sem mitologia antiga — mas dificilmente existe, no céu do hemisfério norte, uma região com uma coleção de galáxias tão espetacular em tão pouco espaço. Foi aqui que, em 1845, um astrônomo irlandês apontou o maior telescópio do mundo para uma mancha nebulosa e viu, pela primeira vez na história, os braços em espiral de outra galáxia. Neste guia você vai aprender a achar os Cães de Caça do Brasil, conhecer a única estrela batizada da constelação — em homenagem a um rei da Inglaterra — e visitar M51, M3, M63, M94 e M106, um roteiro de galáxias que rivaliza com qualquer outro do céu.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

Uma criação de Hevelius entre a Ursa e o Boieiro

Cães de Caça (Canes Venatici, abreviatura CVn) ocupa cerca de 465 graus quadrados do céu, encaixada entre a Ursa Maior ao norte e oeste, o Boieiro (Boötes) a leste e a Cabeleira de Berenice ao sul. Diferente do Escorpião ou de Áries, ela não vem da Antiguidade: foi criada pelo astrônomo polonês Johannes Hevelius em 1687, para preencher um espaço do céu que os gregos e romanos nunca haviam desenhado (fonte de pesquisa baseada em Ridpath).

A ideia de Hevelius foi representar dois cães de caça — tradicionalmente chamados Asterion e Chara — presos pela coleira do vizinho Boieiro, o "pastor" ou "guardião de bois" que os usa para perseguir a Ursa Maior ao redor do polo celeste. É uma constelação sem herói, sem monstro e sem deusa: uma invenção cartográfica direta, como boa parte das constelações "modernas" do fim do século XVII. Ainda assim, ela guarda uma das estrelas com a história de batismo mais peculiar do céu, e um campo de galáxias tão rico que boa parte dos catálogos de observação lhe dedica capítulo próprio.

A olho nu, Cães de Caça é quase vazia: só duas estrelas relevantes, nenhuma acima da 3ª magnitude, aparecendo isoladas num trecho do céu sem forma óbvia. É outra prova de que uma constelação obscura pode, mesmo assim, hospedar alguns dos alvos mais fotografados do céu — a fama de Cães de Caça vem inteiramente dos objetos de céu profundo.

Quando e como achar

Melhor época. A constelação está centrada perto de 13 horas de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em meados de maio. A temporada boa vai de março a agosto, com o pico de altura em abril e maio.

Para onde olhar. Cães de Caça fica bem ao norte do equador celeste, e por isso é uma constelação baixa para quem observa do Sul e do Sudeste do Brasil. A tabela mostra a altura máxima de Cor Caroli (Dec +38,3°).

Cidade Altura máxima de Cor Caroli
Boa Vista (RR) 55°
Manaus (AM) 49°
Recife (PE) 44°
Brasília (DF) 36°
Rio de Janeiro (RJ) 29°
São Paulo (SP) 29°
Porto Alegre (RS) 22°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com a declinação do SIMBAD e a latitude de cada cidade; valores arredondados. A constelação é visível do Brasil inteiro, mas fica baixa no Sul, o que exige um horizonte norte bem desimpedido, sem prédios ou morros.

Carta estelar de Cães de Caça como aparece do Brasil, olhando para o norte: Cor Caroli e Chara em destaque, e as galáxias M3, M51, M63, M94, M106, NGC 4631, NGC 4449, NGC 4244 e NGC 5005 marcadas em verde
Carta estelar de Cães de Caça como aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado dourado é o limite oficial da constelação; Cães de Caça não é zodiacal, então não há linha de eclíptica. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Localize a Ursa Maior e a "panela" (o Grande Carro), baixa e invertida no céu do Brasil. Cães de Caça fica logo abaixo da alça da panela (das estrelas Alcaid/Mizar), na direção do Boieiro.
  2. Outra opção: ache Arcturus, a estrela alaranjada e brilhante do Boieiro, e suba (para o norte) a partir dela — Cor Caroli é a estrela isolada mais próxima nessa direção.
  3. Cor Caroli é a única estrela realmente destacada da constelação: brilhante o bastante para chamar atenção, sozinha numa região sem vizinhas de brilho parecido.
  4. Cães de Caça, o Boieiro, Arcturus, Espiga (em Virgem) e Denébola (no Leão) formam, juntos, um grande losango que ajuda a organizar o céu de outono do hemisfério norte (nosso outono/inverno) — um bom exercício de orientação depois de dominar essas estrelas individualmente.

As estrelas de Cães de Caça

Estrela Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Cor Caroli (α² CVn) 2,89 A0 V pec (estrela Ap magnética) cerca de 110 anos-luz
Chara (β CVn) 4,24 G0 V (parecida com o Sol) cerca de 27 anos-luz

Brilhos, tipos espectrais e distâncias consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo); prevalecem sobre livros mais antigos quando há divergência.

Cor Caroli, "o coração de Carlos", é a única estrela batizada da constelação e uma das histórias de nome mais curiosas do céu: não vem da Antiguidade árabe ou grega, como a maioria dos nomes próprios estelares, mas de uma homenagem política do século XVIII. O astrônomo Edmond Halley deu à estrela o nome em referência a um rei Stuart da Inglaterra — as fontes consultadas divergem sobre se a homenagem era a Carlos I (executado em 1649) ou a Carlos II (que reinou depois da Restauração); o mais repetido nos livros de observação é que Halley batizou a estrela em 1725, em memória de Carlos II, mas o texto regista a divergência. Fisicamente, Cor Caroli é uma estrela Ap, um tipo raro de estrela quente com campo magnético anormalmente forte e variações periódicas de brilho e espectro — um objeto de interesse real para a astrofísica estelar, não só uma curiosidade histórica.

Chara, a segunda estrela da constelação, é bem mais discreta e quase do mesmo tipo espectral do Sol — outro bom exemplo, como Beta da Cabeleira de Berenice, de uma estrela "gêmea solar" relativamente próxima.

Y CVn, a "La Superba". Vale menção à parte: é uma supergigante vermelha, uma das estrelas de carbono mais vermelhas visíveis a olho nu, variável, com brilho oscilando entre magnitude 5,0 e 6,5 num ciclo de aproximadamente 157 a 160 dias. Em binóculo ou telescópio pequeno, sua cor rubi profunda é um espetáculo à parte, bem diferente do branco ou amarelo da maioria das estrelas visíveis.

As galáxias de Cães de Caça

Praticamente toda a fama observacional da constelação vem daqui. Cinco objetos Messier — um globular e quatro galáxias — e uma dúzia de NGC formam um dos roteiros de galáxia mais ricos do céu do hemisfério norte.

M51 — a Galáxia do Redemoinho. É o objeto mais famoso da constelação e um dos alvos mais fotografados do céu: uma espiral vista quase de frente, interagindo com sua companheira menor, NGC 5195, ligada por uma ponte de matéria na ponta de um dos braços. Foi descoberta por Charles Messier em 1773, mas o momento decisivo da sua história veio em 1845, quando Lord Rosse, usando o refletor de 1,8 m ("Leviatã de Parsonstown") em Birr Castle, na Irlanda, tornou-se a primeira pessoa a ver e desenhar a estrutura em espiral de uma galáxia — a primeira vez que essa forma foi identificada em qualquer objeto do céu profundo. Fica a cerca de 3,5° de Alkaid, a última estrela da alça da Ursa Maior, o que a torna relativamente fácil de localizar mesmo sem carta detalhada.

M63 — a Galáxia do Girassol. Uma espiral vista de ângulo, com uma estrutura de braços fragmentada que lembra pétalas, daí o apelido. Fica perto da estrela 20 CVn e é um bom alvo de telescópio pequeno a médio, aparecendo como uma mancha alongada.

M94 — galáxia. Espiral compacta e de alto brilho superficial, com um núcleo tão concentrado que costuma parecer quase estelar em aumentos baixos — um dos alvos mais fáceis da constelação para céu urbano, exatamente por causa desse brilho concentrado.

M106 — galáxia. Uma espiral grande e brilhante, com um núcleo ativo (um buraco negro supermassivo em atividade) que a torna um objeto de estudo importante em astrofísica extragaláctica, além de um bom alvo visual.

M3 — aglomerado globular. Embora fique perto do limite com o Boieiro, tecnicamente pertence a Cães de Caça, entre Cor Caroli e Arcturus. É um dos globulares mais ricos e populares do céu do hemisfério norte, resolvido em estrelas já em telescópios pequenos, com magnitude integrada por volta de 6.

Para quem tem telescópio maior, a constelação ainda guarda: NGC 4631, apelidada de Galáxia da Baleia por sua forma alongada e irregular, em interação gravitacional com uma vizinha menor; NGC 4449, uma galáxia irregular compacta e brilhante, com formação estelar intensa; NGC 4244, uma espiral vista quase exatamente de perfil, fina como uma agulha (o mesmo tipo de objeto que NGC 4565 representa em Coma); e NGC 5005, uma espiral mais discreta perto do limite leste da constelação. Nenhuma dessas quatro tem guia próprio publicado no site ainda.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Cor Caroli isolada, marcando a constelação; Chara, mais fraca, ao lado.
Binóculo (10×50) M3 como uma bola de luz desfocada, M51 e M94 como manchinhas redondas, M63 e M106 mais difíceis, exigindo céu escuro.
Telescópio pequeno (100 a 150 mm) M51 com um vislumbre de estrutura e a companheira NGC 5195 ao lado, M3 já parcialmente resolvido em estrelas, o núcleo brilhante de M94, o disco alongado de M106.
Telescópio grande (250 mm ou mais) / astrofotografia Os braços espirais de M51 bem definidos, a "Baleia" de NGC 4631, o perfil fino de NGC 4244 e a cor vermelha intensa de Y CVn.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre março e agosto, com o horizonte norte bem livre de obstáculos — a constelação nunca sobe muito alto no Sul e Sudeste do Brasil.
  • Parta de Alkaid, na Ursa Maior, para chegar a M51 quase por reflexo: é um dos saltos de estrela-guia mais curtos do céu.
  • Reserve uma noite só para "colecionar" as quatro galáxias Messier da constelação (M51, M63, M94, M106) em sequência — um bom treino de star-hopping.
  • Não deixe de comparar a cor de Cor Caroli com a de Y CVn: uma é branco-azulada, a outra, vermelho profundo — um contraste e tanto no mesmo campo do céu.

Referências

  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Cães de Caça, Cor Caroli, M3, M51 e M63, p. 160.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. M51, história de Lord Rosse, galáxias de Cães de Caça, Cor Caroli e Y CVn, p. 103-106 (noites de 23, 24 e 26 de março).
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. New York: Springer, Patrick Moore's Practical Astronomy Series. M94, M106, M63 e Cor Caroli, p. 94-100.
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do Céu. Losango de outono, Cor Caroli, M51 e M3, p. 83-84.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e distâncias, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.