setembro 21, 2026

M 63, a Galáxia do Girassol em Cães de Caça: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M63 — Galáxia do Girassol — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Nem toda galáxia deste catálogo é fácil de ver do Rio de Janeiro, e M 63 é a prova disso. A Galáxia do Girassol fica em Cães de Caça, bem ao norte, e — diferente do trio de galáxias do Leão ou dos globulares de Cabeleira de Berenice — passa baixa no horizonte norte de quem observa do Brasil. Ainda assim, ela tem uma história e uma estrutura que valem o guia: foi a primeira descoberta astronômica de Pierre Méchain, tem um padrão de braços espirais fragmentados e irregulares (o que os astrônomos chamam de "flocculento") e é generosa o bastante em brilho para valer a tentativa, mesmo baixa.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto do site, feito a partir de fontes de referência e do SIMBAD. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M63 — Galáxia do Girassol — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma espiral "flocculenta"

M 63 é uma galáxia espiral sem barra (tipo SA no SIMBAD), mas o que chama atenção nela não é a barra ausente e sim o padrão dos braços: em vez de dois braços bem definidos e contínuos, como em M 51 ou M 74, M 63 mostra fragmentos curtos e desconexos de formação estelar espalhados pelo disco, um aspecto que os astrônomos chamam de galáxia "flocculenta" (Bakich). Em fotografias de longa exposição, esses fragmentos criam a textura granulada e as manchas amareladas que lembram as pétalas de um girassol — daí o apelido.

Tamanho, massa e distância. O SIMBAD dá 13,18′ × 7,94′ de tamanho aparente e magnitude 8,59, valores muito próximos aos dos livros. A distância é mais complicada: o SIMBAD traz um valor de paralaxe para M 63, mas ele é claramente incompatível com a física da galáxia — daria uma distância menor que a de muitas estrelas da nossa própria Via Láctea, o que não faz sentido para um objeto com o tamanho e o desvio para o vermelho observados. Trata-se, quase certamente, de um artefato do ajuste astrométrico para um objeto extenso, e não de uma paralaxe real; este guia ignora esse valor e usa a distância dos livros, cerca de 35 milhões de anos-luz (Kier), o que corresponde a um diâmetro real de cerca de 60 mil anos-luz e uma massa estimada em 10 bilhões de sóis (Kier).

Parte do grupo de M51. M 63 fica a cerca de 5,7° da Galáxia do Redemoinho (M 51) e pertence ao mesmo grupo de galáxias (Bakich).

Descoberta. Segundo Bakich, M 63 foi a primeira descoberta astronômica de Pierre Méchain, em 14 de junho de 1779; Messier a incluiu depois em seu catálogo.

Estruturas notáveis

  • O núcleo estelar. Brilhante e concentrado, é a parte mais fácil de ver mesmo em telescópios pequenos.
  • O halo oval. Um disco difuso de cerca de 3′ em telescópios modestos, que cresce e ganha textura com mais abertura (Bakich).
  • Os fragmentos "flocculentos". Pequenas regiões de formação estelar espalhadas de forma irregular pelo disco, em vez de braços contínuos; aparecem como grumos com 250 mm ou mais, sob céu escuro (Bakich).
  • A cor amarelada do disco em fotos. Vem da mistura de estrelas mais velhas do disco geral com as manchas de formação estelar mais recente — o efeito que sugere o nome Girassol.

Como localizar

M 63 fica cerca de 1°29′ da estrela 20 Canum Venaticorum (Mollise), na direção geral de Cor Caroli (Alfa CVn, mag. 2,8), a estrela mais brilhante de Cães de Caça. Um bom ponto de partida é localizar Cor Caroli e depois M 51, mais ao sul: M 63 fica cerca de 5,7° dali, na mesma constelação (Bakich).

Carta de localização de M63: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Aqui a honestidade é necessária: com declinação de cerca de +42°, M 63 tem uma altura máxima de apenas 90° − |−23° − 42°| ≈ 25° sobre o horizonte norte do Rio de Janeiro. Ela nasce e se põe, não é circumpolar nem permanentemente invisível, mas nunca sobe muito — bem diferente do trio de galáxias do Leão ou da Lagoa, que passam perto do zênite. A mesma conta, para quem mora mais ao norte do Brasil ou no hemisfério norte, dá alturas bem maiores: cerca de 48° a 40° de latitude norte e 58° a 50° N, onde M 63 é um alvo de primeira linha da primavera boreal.

Na prática, isso significa: procure M 63 só quando ela estiver perto do meridiano (a passagem mais alta), de um local com o horizonte norte bem livre de obstáculos e de poluição luminosa, e não espere o mesmo contraste que teria em uma galáxia que passa perto do zênite. É um alvo de segunda prioridade para quem observa do Rio, mas não impossível.

Os gráficos abaixo usam a localização configurada no site (o Rio de Janeiro, por padrão, ou a posição aproximada de quem está lendo). O primeiro mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho de M 63 pelo céu nesta noite — vale conferir se, na sua data, ela chega a se levantar o suficiente para valer a tentativa.

Altura de Galáxia do Girassol ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. O objeto não passa de 30° à meia-noite em nenhuma época do ano.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZhoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Neste local o objeto não passa de 30° de altura no meio da noite em nenhuma época do ano.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -33°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
19:20 · -33° NW
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
60 mag 8,6
Enquadramento
100 ocupa 26 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -35° — 67°
20:00 -40° — 67°
20:30 -46° — 67°
21:00 -51° — 67°
21:30 -56° — 68°
22:00 -61° — 68°
22:30 -66° — 68°
23:00 -69° — 68°
23:30 -71° — 68°
00:00 -71° — 68°
00:30 -69° — 68°
01:00 -65° — 69°
01:30 -61° — 69°
02:00 -56° — 69°
02:30 -50° — 69°
03:00 -45° — 69°
03:30 -39° — 69°
04:00 -34° — 70°
Altura de M63 — Galáxia do Girassol ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com -33°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível em qualquer condição.
Binóculo (10×50 ou maior) Só em céu muito escuro e com M 63 próxima do meridiano: uma manchinha fraca e alongada. Do Rio, um alvo de última prioridade em binóculo.
Telescópio de 100 a 150 mm Núcleo estelar e halo oval de cerca de 3′, sem muito detalhe — mais difícil do que seria numa altura maior, por causa da extinção atmosférica (Bakich, adaptado à baixa altura do Rio).
Telescópio de 250 mm ou mais Em céu bem escuro e com o objeto perto do meridiano, o halo fica "grumoso", revelando algumas das regiões de formação estelar mais brilhantes (Bakich).

Expectativa honesta: do Rio de Janeiro, M 63 é um alvo de desafio, não de primeira escolha. Quem tem acesso a um céu escuro no interior, com horizonte norte livre, e escolhe a melhor noite do ano tem uma chance razoável; da cidade, sob Bortle 7 e com o objeto baixo, é provável que reste pouco além do núcleo.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

M 63 mede cerca de 13′ × 8′, e um campo de 30′ a 40′ é suficiente para enquadrá-la com uma boa margem de céu ao redor. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°), a galáxia cabe folgada, mesmo pequena no quadro.

Desafios do alvo

  • Baixa altura no Rio. É o maior obstáculo: a luz de M 63 atravessa muito mais atmosfera do que a de um objeto perto do zênite, o que aumenta a extinção, o borrão atmosférico e o brilho de fundo do céu. Capture só perto da passagem meridiana, quando a altura é máxima.
  • Brilho superficial moderado. Os fragmentos "flocculentos" são fracos; tempo de exposição total generoso ajuda a revelá-los, mas a baixa altura limita quanto dá para empilhar numa mesma noite.
  • Céu urbano. Sob Bortle 7, combinado com a baixa altura, a periferia do halo se perde rápido; um filtro anti-poluição de banda larga ajuda a manter o contraste do núcleo e do disco interno.

Equipamento e filtros

Como em qualquer galáxia, filtros de banda estreita não ajudam (a luz é estelar, não de gás ionizado numa linha específica). Um filtro de corte de poluição de banda larga e uma câmera colorida de um disparo são a combinação mais prática para este alvo baixo; monocromática com RGB tradicional funciona, mas pede ainda mais tempo total por causa da altura reduzida.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 100 120 a 180 s Núcleo, disco e fragmentos de formação estelar; priorize as capturas perto do meridiano
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e, neste caso em especial, à janela de tempo em que o objeto está mais alto.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope como o Seestar S50, com campo de cerca de 1,3° × 0,7°, enquadra M 63 com folga e simplifica a captura — útil justamente porque, do Rio, a janela de boa altura é curta e vale automatizar o apontamento e o empilhamento. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto; lembre que o mapa mostra o campo de visão, não a altura no céu, que depende da sua localização e do horário.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 63 é um lembrete de que nem todo objeto Messier é igualmente generoso com quem observa do hemisfério sul: sua declinação de +42° a mantém baixa e desafiadora no Rio de Janeiro, ao contrário da maioria dos guias deste catálogo. Ainda assim, com paciência, um horizonte norte livre e a escolha certa de noite e horário, ela recompensa com uma estrutura de braços incomum e uma boa história de descoberta. Se você tem interesse em galáxias do mesmo grupo, veja o guia de M 51, a Galáxia do Redemoinho, sua vizinha mais famosa e igualmente baixa no céu brasileiro.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 327 (M 63).
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Espirais de primavera (M 51, M 101, M 63, M 106, M 94), p. 116, 137, 142, 145, 152.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer. Galáxias de Cães de Caça e Ursa Maior, p. 94-100.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo morfológico, magnitude V, velocidade radial e dimensões de M 63 (NGC 5055), em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.