setembro 21, 2026
Cocheiro, o Auriga: guia da constelação de Capella, das Cabritinhas e do trio M36, M37 e M38

Bem ao norte do Touro e de Órion, uma pentagonal de estrelas guarda a estrela mais brilhante de todo o hemisfério norte celeste fora das mais próximas do equador: Capella, a "cabrinha", sexta estrela mais brilhante do céu. O Cocheiro (Auriga) é uma constelação grande, cruzada pela Via Láctea, e reúne num mesmo campo de binóculo três dos aglomerados abertos mais bonitos do catálogo de Messier. Para quem observa do Brasil, ele é um desafio de horizonte: baixo ao norte, melhor visto do Norte e do Nordeste, mas ainda assim alcançável em boa parte do país. Neste guia você vai aprender a encontrá-lo, conhecer Capella e as duas estrelas eclipsantes das "Cabritinhas", os aglomerados M36, M37 e M38, e a lenda do jovem que carrega uma cabra nos ombros e dois cabritos no braço.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
Uma constelação grande, cruzada pela Via Láctea
O Cocheiro (Auriga, abreviatura Aur) é uma constelação boreal de área generosa: 657 graus quadrados, entre as ascensões retas de 4h35min e 7h27min e as declinações de +27,9° e +56,1° (Mourão, verbete Auriga). Faz fronteira com Gêmeos e Touro ao sul, Perseu a oeste, Camelopardal e Lince ao norte, e Lince e Gêmeos a leste (Mourão). Ridpath a descreve como "constelação proeminente", situada na Via Láctea entre Gêmeos e Perseu, ao norte de Órion (RID, p. 157) — e é justamente essa posição, cortada pelo rio de estrelas da nossa própria Galáxia, que torna o Cocheiro um bom destino de binóculo, com campos estelares densos por toda parte.
O que salta aos olhos de imediato é Capella: a estrela de primeira magnitude mais ao norte do céu (Ridpath, p. 157; Mourão), a quinta ou sexta mais brilhante de todas, dependendo da fonte. Ao redor dela, um pentágono desenhado por Menkalinan, Mahasim, Hassaleh e o pequeno triângulo das "Cabritinhas" (Almaaz, Haedus e Saclateni) forma um desenho fácil de reconhecer, mesmo sem brilho excepcional fora de Capella.
Auriga não é uma constelação zodiacal: a eclíptica, o caminho anual do Sol, passa ao norte dela, cortando Touro e Gêmeos, suas vizinhas, mas não a própria Auriga (conferido com o script de constelações do projeto). Não há, portanto, uma época do ano em que "o Sol esteja" dentro do Cocheiro — ele está sempre visível à noite em algum momento do ano, sem o intervalo de "sumiço" que as constelações zodiacais têm.
Quando e como achar
Melhor época. O centro de Auriga culmina (cruza o meridiano, no ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de fevereiro; Capella, um pouco mais a oeste dentro da constelação, chega ao ponto mais alto já no início de fevereiro. Na prática, a boa temporada de observação vai de dezembro a março: em dezembro o Cocheiro nasce cedo e já aparece bem no horizonte norte ao anoitecer, em janeiro e fevereiro domina o começo da noite, e em março começa a se inclinar para o noroeste.
Para onde olhar. Como fica bem ao norte do equador celeste, Auriga culmina baixo, voltada para o norte, para quem observa do Brasil — o oposto do que acontece com constelações do zodíaco de inverno austral como Escorpião ou Sagitário. Quanto mais ao sul do país, mais baixa ela aparece; quanto mais ao norte, mais alto.
| Cidade | Capella | Menkalinan | Mahasim |
|---|---|---|---|
| Boa Vista (RR) | 47° | 48° | 56° |
| Manaus (AM) | 41° | 42° | 50° |
| Recife (PE) | 36° | 37° | 45° |
| Brasília (DF) | 28° | 29° | 37° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 21° | 22° | 30° |
| São Paulo (SP) | 20° | 22° | 29° |
| Porto Alegre (RS) | 14° | 15° | 23° |
Altura máxima acima do horizonte norte, calculada por nós a partir das declinações do SIMBAD e da latitude de cada cidade (altura = 90° − |latitude − declinação|); valores arredondados. Mesmo em Porto Alegre, a cidade mais ao sul da tabela, Capella ainda sobe — baixa, mas visível; nenhuma das sete cidades fica com o Cocheiro abaixo do horizonte.

Passo a passo.
- Olhando para o norte, procure primeiro o padrão de Órion, Touro e Gêmeos, bem mais altos e fáceis de reconhecer no verão brasileiro. Capella fica acima e à esquerda de Touro, sozinha, sem nenhuma estrela de brilho parecido por perto — é a estrela branco-amarelada mais brilhante daquele pedaço do céu.
- Uma vez achada Capella, procure o pequeno triângulo apertado de três estrelas mais fracas logo ao lado dela (para quem olha para o norte, ficam à direita de Capella): são Almaaz, Haedus e Saclateni, as "Cabritinhas".
- Do outro lado do pentágono, mais afastadas de Capella, estão Menkalinan e, mais além, Mahasim; a linha que liga essas estrelas fecha o desenho do Cocheiro.
- Os três aglomerados de Messier ficam dentro do pentágono, entre Capella e Mahasim: um binóculo grande-angular mostra os três no mesmo campo ou em campos vizinhos (Ridpath, p. 157).
As estrelas do Cocheiro
| Estrela | Posição | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|---|
| Capella (alfa) | centro do pentágono | 0,08 | G2 + G6 (par de gigantes amarelas) | cerca de 42 anos-luz |
| Menkalinan (beta) | pentágono | 1,90 | A2 | cerca de 82 anos-luz |
| Mahasim (teta) | pentágono | 2,65 | A0 | cerca de 173 anos-luz |
| Hassaleh (iota) | pentágono | 2,69 | K3 | cerca de 512 anos-luz |
| Almaaz (épsilon) | Cabritinhas | 3,03 (eclipsante) | F0 (supergigante) | mais de 2.000 anos-luz |
| Haedus (eta) | Cabritinhas | 3,18 | B3 | cerca de 219 anos-luz |
| Saclateni (zeta) | Cabritinhas | 3,69 (eclipsante) | K4 (gigante) | cerca de 790 anos-luz |
Brilhos, tipos espectrais e distâncias consultados no Philip's Astronomy Encyclopedia (verbete "Auriga", tabela de estrelas mais brilhantes) e no SIMBAD (CDS, Estrasburgo). A distância de Almaaz (Épsilon Aurigae) é incerta: veja a seção sobre as Cabritinhas.
Capella é a estrela que dá nome popular ao Cocheiro: seu nome latino significa "pequena cabra", em homenagem à cabra Amalteia, que, segundo a lenda, amamentou o bebê Júpiter (Mourão, verbete Capella). Apesar de parecer uma única estrela amarelada a olho nu, Capella é um sistema múltiplo: o par principal reúne duas gigantes amarelas (tipos G2 e G6) tão próximas uma da outra que só interferometria consegue separá-las, orbitando a cada 104 dias, com massas de cerca de 2,5 e 2,8 vezes a do Sol (Mourão). Um terceiro componente, de décima magnitude, também integra o sistema (Mourão). Em valor absoluto, Capella brilha cerca de 150 vezes mais que o Sol, com diâmetro cerca de 16 vezes maior (Mourão) — números um pouco diferentes dos 11 e 6 milhões de milhas de diâmetro (para as duas gigantes) citados por Moore, mas na mesma ordem de grandeza. Está a cerca de 42 anos-luz, uma das estrelas de primeira magnitude mais próximas do Sol.
Menkalinan, a segunda estrela mais brilhante da constelação, é também uma binária eclipsante, embora bem menos dramática que as Cabritinhas: as duas componentes são parecidas em tamanho e brilho, e a variação é pequena demais para notar a olho nu.
Mahasim e Hassaleh completam o pentágono; Hassaleh é a mais distante das estrelas nomeadas da constelação, a mais de 500 anos-luz.
As Cabritinhas: duas estrelas eclipsantes lado a lado
Perto de Capella, um pequeno triângulo reúne Almaaz (épsilon), Haedus (eta) e Saclateni (zeta) — os "Cabritos" (Haedi, em latim) que, na mitologia, o Cocheiro carrega no braço junto com a cabra. Vieira usa esse trio, ao lado de Capella, para explicar a relação entre cor e temperatura das estrelas: Haedus é azulada e muito mais quente que o Sol, enquanto as outras duas escondem um segredo que só aparece com observação de longo prazo (Vieira, p. 72).
Zeta Aurigae (Saclateni) é uma gigante laranja orbitada por uma companheira azul: a cada 2,7 anos, a estrela azul menor passa na frente da gigante e reduz o brilho do sistema de magnitude 3,7 para 4,0 por cerca de seis semanas (Ridpath, p. 157). Moore detalha um pouco mais: período de 972 dias, com um mínimo que dura 38 dias, a cerca de 500 anos-luz (Observer's Year, p. 328-329) — números que, arredondados, batem com o "2,7 anos" do Ridpath.
Épsilon Aurigae (Almaaz) é a mais intrigante das duas: uma supergigante orbitada por uma companheira escura que a eclipsa a cada 27 anos, o intervalo mais longo conhecido entre binárias eclipsantes — durante o eclipse, que dura mais de um ano, o brilho do sistema cai visivelmente (Ridpath, p. 157). A primeira variação foi registrada em 1821 por J. M. Fritsch, e o período de cerca de 9.892 dias (27,1 anos) é o mais longo entre as eclipsantes conhecidas (Philip's, verbete "eclipsing binary star"). O que causa o eclipse continua sendo debatido: as hipóteses incluem uma estrela gigante fria escondida, um disco de poeira visto de perfil, ou até um par de anãs brancas envolto em poeira — astrônomas e astrônomos como Margherita Hack e Otto Struve dedicaram parte da carreira ao mistério (Philip's). Justamente por causa desse disco hipotético, as distâncias publicadas para Almaaz variam muito, de pouco mais de 2.000 a quase 4.000 anos-luz, dependendo do modelo adotado — um dos casos em que os livros de referência mais antigos e o SIMBAD atual não convergem facilmente.
M36, M37 e M38: o trio de aglomerados do Cocheiro
Dentro do pentágono de Auriga, na faixa mais densa da Via Láctea que atravessa a constelação, três aglomerados abertos do catálogo de Messier formam um dos roteiros de binóculo mais gratificantes do céu de inverno do hemisfério norte — e, do Brasil, do verão. Ridpath resume bem: "três grandes e brilhantes aglomerados engastados na Via Láctea […] os três caberão no mesmo campo de visão em binóculo de grande-angular" (RID, p. 157).
M 36, o Aglomerado do Catavento
O M 36 é o menor e mais denso dos três, com magnitude 6,0 e cerca de 200 estrelas conhecidas (Kambič), a maioria quente e azulada — um dos aglomerados abertos mais jovens da Galáxia, com cerca de 25 milhões de anos (Monks). Fica a cerca de 3.900 anos-luz pelo SIMBAD, embora os livros de observação tragam valores um pouco maiores, entre 4.100 e 4.300 anos-luz (Allison; Kambič). O apelido "Catavento" (Pinwheel) é atribuído ao amador britânico Jeff Bondono.
M 37, o mais rico do trio
O M 37 é o mais rico e, para muita gente, o mais bonito: uma mancha de "pó de ouro" ao telescópio, como descreveu o almirante Smyth, com cerca de 500 estrelas visíveis entre as magnitudes 10 e 14 e uma dúzia de gigantes vermelhas espalhadas pelo campo (Bakich, via guia do M37; Kier). Está a cerca de 4.900 anos-luz pelo SIMBAD — mais distante que os 3.600 a 4.500 anos-luz citados pelos livros mais antigos (Moore; Kambič; Allison).
M 38, a Estrela-do-Mar e sua vizinha
O M 38 é o mais ocidental do trio — o mais próximo de Capella — e tem uma vizinha discreta a meio grau de distância, NGC 1907, um aglomerado mais compacto e mais velho (Kier). Alguns observadores veem no desenho de M38 a letra grega pi; outros, a "estrela-do-mar" que dá nome ao apelido em inglês (Kier; Bakich). Fica a cerca de 3.700 anos-luz (SIMBAD), com cerca de 100 estrelas, a maioria jovem e azul-esbranquiçada, e idade estimada em 200 milhões de anos (Kier).
IC 405, a Nebulosa da Estrela Chamejante
Perto do trio, entre Capella e M36, fica a IC 405 (também Caldwell 31), uma nebulosa de emissão e reflexão iluminada pela estrela AE Aurigae — uma "estrela fugitiva", provavelmente ejetada da região da Nebulosa de Órion há milhões de anos por uma colisão entre sistemas binários (Kier, The 100 Best Targets for Astrophotography, p. 33). É um alvo mais discreto que os três Messier, melhor para fotografia de campo largo ou observação visual com filtro do que para binóculo comum.
Mitologia: o jovem, a cabra e os dois cabritos
Ao contrário de figuras míticas mais "completas", como o Escorpião ou o Touro, o desenho do Cocheiro combina duas histórias que nem sempre concordam entre si. Segundo a tradição grega mais difundida, registrada por Mourão, a cabra e os dois cabritos receberam um lugar no céu em homenagem a Amalteia, filha de Melisso, rei de Creta, que — junto com sua irmã Melissa — amamentou o bebê Júpiter (Mourão, verbete Auriga). Nessa versão, a estrela Capella representa a própria cabra, e as estrelas Eta e Zeta Aurigae (duas das "Cabritinhas") representam os dois filhotes.
Já a figura do "cocheiro" em si tem duas origens possíveis, e Mourão apresenta as duas sem escolher uma: para a tradição mais comum, é Erictônio, rei lendário de Atenas, a quem se atribui a invenção da quadriga, o carro puxado por quatro cavalos (Mourão; Ridpath, p. 157, cita a mesma identificação). Para "outros autores", segundo o dicionário de Mourão, o Cocheiro seria Troquilos, filho de Io, também ligado à invenção do carro. Em qualquer uma das duas versões, é comum representar a figura como um jovem carregando uma cabra sobre os ombros e dois cabritos no braço esquerdo (Mourão) — um desenho estranho para uma constelação batizada de "cocheiro", já que não há carro nem cavalos visíveis no céu, apenas o jovem e os animais.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | Capella, brilhante e isolada; o pentágono completo em céu razoavelmente escuro; o pequeno triângulo das Cabritinhas perto de Capella. |
| Binóculo (10×50) | M36, M37 e M38 no mesmo campo ou em campos vizinhos, cada um como uma mancha nebulosa com estrelas mais brilhantes se destacando; o campo estelar denso da Via Láctea entre Capella e Mahasim. |
| Telescópio pequeno (70 a 100 mm) | M36 e M38 começando a se resolver em dezenas de estrelas; M37 já mostrando a estrela laranja central e o aspecto de "pó de ouro"; NGC 1907 ao lado de M38. |
| Telescópio maior / filtro de nebulosa | IC 405 (Estrela Chamejante), um alvo mais difícil, melhor com filtro UHC ou H-alfa em céu escuro. |
| Câmera DSLR ou celular no tripé | Todo o pentágono com grande angular, mostrando a Via Láctea ao fundo; M36, M37 e M38 com uma teleobjetiva de 100 a 200 mm, eventualmente com IC 405 no mesmo enquadramento. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre dezembro e março, com horizonte norte bem desobstruído — Auriga fica baixa para a maior parte do Brasil, e qualquer prédio, morro ou árvore ao norte atrapalha.
- Comece por Capella e desça o binóculo suavemente na direção de Mahasim: o trio de aglomerados aparece ao longo do caminho.
- Quanto mais ao norte do Brasil, melhor: em Boa Vista e Manaus, o Cocheiro sobe visivelmente mais alto do que no Sul e Sudeste.
Referências
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series), 2009. Estrela Chamejante (IC 405) e Tadpole (IC 410), p. 33-36; M38 e NGC 1907, p. 39; M37, p. 55-57.
- ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. New York: Springer (Astronomers' Observing Guides), 2006. M36, M37, M38 e NGC 1893, p. 135-141 (impressa 127-133).
- MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbete "Auriga" (com tabela de estrelas mais brilhantes) e "eclipsing binary star", nas páginas do verbete de Auriga.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Auriga, Capella, Épsilon e Zeta Aurigae, M36-M38, p. 326-329.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Auriga" (p. 73), "Capella" (p. 145) e "Cocheiro" (p. 179, remissão a "Auriga").
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). Rio de Janeiro: Zahar, 4. ed. Cocheiro, p. 157.
- VIEIRA, Fernando. Identificação do Céu. Cocheiro, Capella e as Cabritinhas, p. 72.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais, paralaxes e dimensões, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.