setembro 21, 2026

IC 405 (Caldwell 31), a Nebulosa da Estrela Chamejante: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de IC 405 — Nebulosa da Estrela Chamejante — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Em Cocheiro, na faixa mais rica da Via Láctea de inverno do hemisfério norte, há uma nebulosa de emissão discreta que esconde uma das perseguições mais dramáticas do céu: uma estrela fugitiva, ejetada de perto do Trapézio de Órion há milhões de anos, atravessando o espaço a centenas de quilômetros por segundo e acendendo o gás por onde passa. É a Nebulosa da Estrela Chamejante, IC 405, iluminada pela variável AE Aurigae. Visualmente, ela decepciona — é um fiapo de luz fraco, quase invisível sem filtro —, mas fotograficamente e, principalmente, na história por trás dela, é um dos objetos mais interessantes de toda a região. Este guia explica a ciência, como encontrá-la e por que, do Rio de Janeiro, ela é um alvo de horizonte baixo.

Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de artigo de objeto, parte do lote dos catálogos Messier e Caldwell completos. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de IC 405 — Nebulosa da Estrela Chamejante — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma nebulosa acesa por uma estrela em fuga

IC 405 é uma combinação de nebulosa de emissão (gás excitado que brilha em vermelho, na linha H-alfa) e de reflexão (poeira que espalha a luz azulada da estrela) na constelação de Cocheiro, bem no meio da faixa mais densa da Via Láctea de inverno (do hemisfério norte). O nome, "Estrela Chamejante", é um pouco exagerado para o que se vê no ocular: Mobberley observa que, apesar do nome dramático, o objeto raramente aparece mencionado em revistas e livros de astronomia amadora justamente porque é pouco espetacular visualmente. O que o salva é a história por trás dele.

A estrela que não devia estar ali. O gás de IC 405 é iluminado pela estrela AE Aurigae, uma variável que oscila entre magnitude 5,8 e 6,1 — visível em binóculo (Mobberley). O detalhe notável é que AE Aurigae não nasceu na nebulosa: ela está apenas de passagem, atravessando a nuvem a uma velocidade de mais de 100 km/s (Mobberley cita também "cerca de meio milhão de quilômetros por hora"), rápido o bastante para cobrir a distância Terra-Lua em menos de uma hora e chegar a Saturno em poucos meses, se estivesse viajando nessa direção.

Uma "separação interestelar". A explicação mais aceita é que AE Aurigae foi ejetada do sistema do Trapézio, no coração da Nebulosa de Órion, há cerca de 2,5 milhões de anos, junto com outra estrela também em fuga, Mu Columbae, hoje visível na constelação austral da Pomba (Mobberley). A causa provável foi um encontro próximo entre dois sistemas binários de estrelas: numa dança gravitacional violenta, os pares trocaram de parceiras, e as sobras foram lançadas para longe em direções opostas — uma espécie de "divórcio interestelar" em escala cósmica (Mobberley). É uma reconstrução baseada no movimento próprio das estrelas, não uma medição direta do evento, mas é a explicação padrão da literatura.

Distância e tamanho. Mobberley estima a distância de IC 405 em cerca de 1.500 anos-luz, com a nebulosa medindo cerca de 20 anos-luz de diâmetro físico. Em imagens fotográficas profundas, a nebulosa ocupa 50′ × 30′ do céu; visualmente, porém, costuma parecer bem menor, cerca de metade desse tamanho (Mobberley). Kier, com foco em astrofotografia, descreve a parte mais brilhante como cerca de 30′ × 19′.

Vizinhança rica. IC 405 fica cercada por outros alvos de céu profundo: os aglomerados abertos M 36 e M 38 ficam a menos de 5° de distância, e a nebulosa "Girino" (IC 410, com o aglomerado NGC 1893 embutido) fica ainda mais perto, no mesmo campo de binóculos largo (Mobberley; Kier).

Estruturas notáveis

  • AE Aurigae. A estrela variável que ilumina a nebulosa, visível em binóculo, oscilando entre magnitude 5,8 e 6,1.
  • A trama vermelha e azul. Perto da estrela, a mistura de emissão (vermelha) e reflexão (azulada) dá à nebulosa um visual bicolor em fotografias de longa exposição (Kier).
  • A "cauda" em H-alfa. Uma extensão mais tênue do gás, que só aparece bem em imagens de banda estreita e amplia consideravelmente o campo útil da nebulosa (Kier).
  • O triângulo com AE Aurigae num vértice. Em telescópios de 150 mm, a nebulosa aparece como uma forma triangular fraca, com a estrela brilhante num dos vértices (maravilhas-celestes/Bakich).

Como localizar

IC 405 fica em Cocheiro, perto da fronteira com Touro. Comece pela estrela El Nath (Beta Tauri), compartilhada de forma curiosa entre as duas constelações — ela está tecnicamente em Touro, mas marca também um dos "pés" do Cocheiro. A partir dela, ande cerca de 5¾° para o norte e 2° para oeste (Mobberley). Outra referência é Iota Aurigae (magnitude 2,7): AE Aurigae, a estrela iluminadora, fica cerca de 4,2° a lés-nordeste dela (maravilhas-celestes/Bakich). Como a nebulosa é fraca e difusa, primeiro localize a estrela AE Aurigae — fácil em binóculo — e depois procure o gás ao redor dela com aumento baixo.

Carta de localização de IC 405: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

IC 405 tem declinação de +34,4°. Para a latitude do Rio de Janeiro (−23°), a altura máxima no meridiano é 90 − |−23° − 34,4°| = 90 − 57,4° = cerca de 32,6° de altura. É uma altura baixa a moderada, sempre ao norte — melhor do que a de outros objetos de Cocheiro e Perseu que passam por essa faixa da Via Láctea, mas ainda distante do zênite, com boa extinção atmosférica e vulnerável ao brilho do horizonte num céu urbano. Os observadores do hemisfério norte, onde Cocheiro passa perto do zênite em latitudes como 40-50° N, têm vantagem clara sobre nós.

O gráfico abaixo mostra a altura da nebulosa ao longo do ano para o local configurado no site (o Rio de Janeiro por padrão, ou a posição aproximada de quem lê); o segundo, o caminho dela nesta noite específica.

Altura de Nebulosa da Estrela Chamejante ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de novembro a dezembro. O objeto chega a 33° à meia-noite em dezembro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ12 dez · 33°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de novembro a dezembro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 33° em 12 de dezembro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
03:40 · 33° N
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
44 / 100
Posição no céu
32
Brilho
38 mag 10,0
Enquadramento
85 ocupa 111 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de IC 405 — Nebulosa da Estrela Chamejante pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 23:00 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 03:40, com 33°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO23:0000:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -40° — 145°
20:00 -34° — 145°
20:30 -28° — 145°
21:00 -22° — 146°
21:30 -16° — 146°
22:00 -10° — 146°
22:30 -4° — 146°
23:00 2° NE 51° 147°
23:30 7° NE 48° 147°
00:00 12° NE 44° 147°
00:30 17° NE 40° 147°
01:00 21° NE 35° 148°
01:30 25° NNE 30° 148°
02:00 28° NNE 24° 148°
02:30 30° NNE 18° 148°
03:00 32° N 11° 149°
03:30 33° N 3° 149°
04:00 33° N 356° 149°
Altura de IC 405 — Nebulosa da Estrela Chamejante ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 03:40, com 33°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte03:40 · 33°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

E do Rio de Janeiro?

Dá para tentar, com paciência. Os cerca de 33° de altura máxima não são tão ruins quanto os de outros alvos de declinação ainda mais alta, mas ainda ficam longe do ideal: a extinção atmosférica reduz o já baixo brilho superficial da nebulosa, e em céu Bortle 7 como o do Rio, o horizonte norte tende a ter mais luz espalhada. Visualmente, mesmo em céu escuro e com filtro, é um alvo difícil (Coe relata que, sem filtro UHC, "nada se vê" com um telescópio de 25 cm). Fotograficamente, com filtro de banda estreita e tempo de exposição generoso, o resultado melhora bastante — desde que a sessão seja concentrada perto da passagem meridiana da nebulosa, quando ela está mais alta.

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível; só a estrela AE Aurigae (mag. 5,8-6,1) é visível, sem nenhum traço do gás ao redor.
Binóculo AE Aurigae aparece fácil como uma estrela um pouco variável; a nebulosa, não.
Telescópio de 150 a 200 mm Sem filtro, quase nada aparece; com filtro UHC ou deep-sky, surge uma forma triangular fraca com a estrela num vértice, melhor em baixo aumento, como 40× (Mobberley).
Telescópio de 250 mm com filtro OIII/UHC Ainda assim um alvo discreto: melhora o contraste, mas a nebulosa permanece um "fiapo" tênue mesmo em céu bom (Coe; Mobberley).

Expectativa honesta: IC 405 é, de fato, um objeto pouco espetacular ao telescópio, mesmo em boas condições — é por isso que os próprios livros de observação a tratam como nota de rodapé perto de vizinhos mais generosos, como M 36, M 37 e M 38. O valor real do objeto está na fotografia de longa exposição e na história da estrela fugitiva, não na experiência visual.

Astrofotografia: enquadramento, desafios, equipamento e filtros

Enquadramento

Kier sugere um campo de 40′ para enquadrar só a parte mais brilhante da nebulosa, de 100′ (cerca de 1,7°) para incluir a cauda mais tênue em H-alfa, ou de 150′ (2,5°) para capturar IC 405 junto com a vizinha Nebulosa Girino (IC 410) no mesmo quadro. Com um telescópio de 400 a 600 mm de focal, o campo típico de uma câmera como a ASI294MC Pro (cerca de 1,8° a 2,7°, calculado a partir do sensor e da focal) cobre bem a nebulosa inteira com a cauda; para as duas nebulosas juntas, uma focal ainda mais curta, em torno de 300 mm, funciona melhor.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial muito baixo. É uma nebulosa fraca mesmo para os padrões de nebulosas de emissão; pede tempo de exposição total generoso e, de preferência, céu escuro.
  • Altura moderada no Rio. Com o teto de 33°, a imagem ainda sofre de extinção e de mais turbulência atmosférica do que um alvo perto do zênite; concentre as sessões perto da passagem meridiana.
  • Mistura de emissão e reflexão. A combinação de vermelho (H-alfa) e azul (reflexão) perto da estrela central pede um processamento cuidadoso para não perder um dos dois tons ao realçar o outro (Kier).

Equipamento e filtros

Kier recomenda o uso de filtros de banda estreita, sobretudo H-alfa, para revelar a cauda mais tênue da nebulosa; Mobberley sugere o mesmo caminho para CCD/DSLR ("wide H-alpha shots show the most detail"). Em câmera colorida de disparo único, um filtro dual-band (H-alfa e OIII) ajuda bastante sob céu urbano como o do Rio. Em câmera monocromática, uma sessão em SHO (banda estreita completa) rende cores mais ricas, ao custo de muito mais tempo de captura.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (H-alfa ou dual-band) 40 a 60 180 a 300 s Revelar o gás fraco e a cauda tênue
Light (RGB, para a cor de reflexão) 20 a 30 120 s Capturar o tom azulado perto da estrela
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e ao seu céu, e concentre a sessão perto da passagem meridiana da nebulosa.

Smart telescopes e campo de visão

A parte mais brilhante de IC 405 cabe razoavelmente no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), embora a cauda mais fraca em H-alfa fique parcialmente de fora; o filtro dual-band embutido no próprio aparelho ajuda bastante a realçar o contraste do gás sob o céu urbano do Rio. Para um enquadramento mais completo, incluindo a vizinha IC 410, é preciso um mosaico. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

IC 405 não é um objeto que vai deslumbrar no ocular — nem mesmo em céu excelente —, mas é um daqueles casos em que conhecer a história por trás do gás muda completamente o interesse pela observação: uma estrela ejetada de perto do berçário estelar de Órion, cruzando o espaço a mais de 100 km/s e incendiando, de passagem, uma nuvem que não é sua casa. Do Rio de Janeiro, com cerca de 33° de altura máxima, é um alvo de baixo horizonte, melhor reservado para astrofotografia com filtro de banda estreita do que para observação visual. Para completar a visita a essa região rica da Via Láctea, veja os guias dos aglomerados vizinhos M 36, M 37 e M 38, todos no Cocheiro, e o da Nebulosa da Califórnia (NGC 1499), outra nebulosa de baixo horizonte na mesma região do céu.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 940 (IC 405).
  • COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. IC 405, p. 59.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Flaming Star Nebula", p. 16-18.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 31, p. 74-75.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas de IC 405, em 21 set. 2026 (sem magnitude, dimensões ou paralaxe utilizáveis para a nebulosa; ver pendências).
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.