setembro 22, 2026

Ara, o Altar: guia da constelação sem nenhuma estrela nomeada, cheia de aglomerados na Via Láctea

Carta estelar de Ara como aparece do Brasil, olhando para o sul: o quadrilátero irregular do Altar sem nenhuma estrela nomeada, Antares indicada fora do quadro como referência ao norte, e os aglomerados NGC 6397, NGC 6352, NGC 6193 e a nebulosa NGC 6188 marcados em verde na Via Láctea

O Altar (Ara) é uma das 48 constelações antigas listadas por Ptolomeu, mas é também uma das que menos se destacam a olho nu: nenhuma de suas estrelas passa da 3ª magnitude, e nenhuma delas tem um nome próprio que tenha sobrevivido até os catálogos modernos. E, ainda assim, poucos trechos do céu austral recompensam tanto quem tem binóculo ou telescópio: Ara fica bem em cima da Via Láctea, logo ao sul da cauda do Escorpião, e reúne em poucos graus quadrados um dos aglomerados globulares mais próximos da Terra, um segundo globular mais discreto, e um aglomerado jovem de estrelas azuis envolto numa nebulosa que os astrofotógrafos apelidaram de Dragão de Fogo. Este guia mostra como achar o Altar a partir do Escorpião, apresenta suas estrelas sem nome e leva você aos principais alvos de céu profundo da região.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

Um altar sem brilho próprio, mas cheio de vizinhos ricos

Ara ocupa cerca de 237 graus quadrados do céu (Mourão, verbete Ara, p. 91), entre o Escorpião e Sagitário ao norte, o Esquadro (Norma) a oeste, o Triângulo Austral e o Telescópio ao sul, e a Coroa Austral a leste. Na mitologia grega, era o altar sobre o qual os deuses do Olimpo juraram aliança antes de enfrentar os Titãs — uma das poucas constelações cuja origem remonta diretamente aos mitos de fundação do panteão grego, e não a um herói ou animal específico (Mourão, verbete Ara).

Apesar da origem mitológica antiga, Ara é uma constelação discreta: não há nenhuma estrela de 1ª ou 2ª magnitude, e as duas mais brilhantes, Alfa e Beta Arae, empatam em magnitude 2,84. É um contraste e tanto com a vizinha Escorpião, dona de Antares e de uma cauda inteira de estrelas brilhantes — e talvez por isso Ara costume passar despercebida por quem observa a partir do Brasil. Quem se dá ao trabalho de visitá-la, porém, encontra um dos trechos mais ricos da Via Láctea austral, com aglomerados e nebulosas de sobra.

Quando e como achar

Melhor época. Ara está centrada perto de 17h20min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de agosto. A boa temporada vai de maio a setembro, acompanhando de perto a do Escorpião e a de Sagitário, que estão logo ao norte.

Para onde olhar. Do Rio de Janeiro, Beta Arae passa a cerca de 57° de altura, ao sul do zênite. A carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte para cima e o leste à esquerda.

Cidade Altura máxima de Beta Arae
Boa Vista (RR) 32°
Manaus (AM) 38°
Recife (PE) 43°
Brasília (DF) 50°
Rio de Janeiro (RJ) 57°
São Paulo (SP) 58°
Porto Alegre (RS) 65°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com a declinação de Beta Arae (SIMBAD/HYG, −55,5°) e a latitude de cada cidade; valores arredondados. Ara não é circumpolar em nenhuma cidade brasileira — nasce e se põe todos os dias, mas fica bem alta, principalmente no Sul e no Sudeste.

Carta estelar de Ara como aparece do Brasil, olhando para o sul: o quadrilátero irregular do Altar sem nenhuma estrela nomeada, Antares indicada fora do quadro como referência ao norte, e os aglomerados NGC 6397, NGC 6352, NGC 6193 e a nebulosa NGC 6188 marcados em verde na Via Láctea
Carta estelar de Ara como ela aparece do Brasil ao olhar para o sul: o norte fica em cima e o leste à esquerda. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. A linha laranja tracejada larga é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Ache primeiro o Escorpião e desça até o ferrão, formado por Shaula e Lesath, na ponta da cauda.
  2. Ara fica logo ao sul dali, mergulhada na Via Láctea: é um quadrilátero irregular e discreto de estrelas de 3ª e 4ª magnitude, sem nenhum padrão fácil de memorizar — mais uma "área a explorar" do que uma figura para reconhecer de longe.
  3. Alfa e Beta Arae, as duas estrelas mais brilhantes, ficam lado a lado na parte norte da constelação: comece por elas para orientar o binóculo.
  4. A partir de Beta Arae, o globular NGC 6397 fica cerca de 3° a sul-sudeste; o globular NGC 6352, cerca de 2° a nordeste de Alfa Arae; e o aglomerado NGC 6193, com sua nebulosa, bem mais a oeste, perto da fronteira com o Esquadro.

As estrelas de Ara

Estrela Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Beta Ara 2,84 K-tipo (gigante alaranjada) —
Alfa Ara 2,84 B-tipo (branco-azulada) —
Zeta Ara 3,12 K-tipo (gigante alaranjada) —
Gama Ara 3,31 B-tipo (branco-azulada) —
Delta Ara 3,60 B-tipo (branco-azulada) —
Teta Ara 3,65 B-tipo (branco-azulada) —
Eta Ara 3,77 K-tipo (gigante alaranjada) —

Brilhos e tipos espectrais consultados no HYG/catálogo do site (essencialmente dados de paralaxe Hipparcos/Gaia via SIMBAD). Distâncias não confirmadas nas fontes consultadas para este guia.

Nenhuma estrela de Ara tem nome próprio tradicional que tenha sobrevivido às listas modernas da IAU: todas são conhecidas apenas por sua designação de Bayer (letra grega mais o genitivo latino, Arae). É uma situação diferente da de constelações vizinhas como o Escorpião, cheia de nomes árabes antigos (Antares, Shaula, Dschubba), e reflete o fato de Ara ser uma constelação sem brilho suficiente para que astrônomos árabes ou gregos antigos a tratassem estrela por estrela.

Moore, em The Observer's Year, chama a atenção para R Arae, uma binária eclipsante do tipo Algol com período de apenas 4,4 dias, que varia entre a magnitude 6,0 e 6,9 — um bom alvo para quem gosta de acompanhar estrelas variáveis com binóculo, embora exija comparação cuidadosa com estrelas vizinhas de brilho constante (Moore, p. 138-139).

Objetos de céu profundo: dois globulares e um berçário estelar

Ara é uma das constelações mais ricas do céu em objetos Caldwell — a lista de 109 alvos escolhidos por Patrick Moore como complemento ao catálogo de Messier, voltada a objetos vistosos, mas fora do alcance de Charles Messier (que observava do hemisfério norte).

NGC 6397, um dos globulares mais próximos da Terra

O NGC 6397 (Caldwell 86) é, ao lado de M4, um dos aglomerados globulares brilhantes mais próximos do Sistema Solar: cerca de 7.800 anos-luz pela paralaxe do SIMBAD (livros mais antigos trazem 7.200 a 7.500). Tem magnitude 5,2 e cerca de 26 minutos de arco de diâmetro, quase o tamanho aparente da Lua cheia, e já se resolve em dezenas de estrelas com um telescópio de 100 a 150 mm — um feito raro entre os globulares, que normalmente exigem aberturas bem maiores. Se estivesse visível do hemisfério norte, Bakich escreve, certamente teria ganhado um número de Messier.

NGC 6352, o globular discreto ao lado de Alfa Arae

O NGC 6352 (Caldwell 81) é bem mais modesto: magnitude entre 8,0 e 8,9 (as fontes divergem), cerca de 7′ de diâmetro e, pela paralaxe do SIMBAD, uns 17.200 anos-luz de distância — mais de duas vezes mais longe que o NGC 6397. É um globular pequeno e frouxo, que se perde com facilidade no campo denso de estrelas da Via Láctea; Mobberley registra que nem John Herschel, que catalogou boa parte do céu austral no século XIX, chegou a vê-lo. Ao lado dele, cerca de 1,5° ao sul, fica o aglomerado aberto IC 4651, mais brilhante e, para muitos observadores, mais interessante de se ver.

NGC 6193 e NGC 6188, o aglomerado e o Dragão de Fogo

No noroeste da constelação, perto da fronteira com o Esquadro, o NGC 6193 (Caldwell 82) é o núcleo visível de uma associação muito maior de estrelas jovens e quentes, a Ara OB1, com apenas uns 6 milhões de anos. A estrela mais brilhante do aglomerado, HD 150136, de tipo espectral O e magnitude 5,6, ilumina o gás ao redor: essa é a nebulosa NGC 6188, fraca demais para o olho, mas espetacular em fotografias de longa exposição, com filamentos escuros de poeira que lembram "trombas de elefante" avançando sobre um fundo vermelho — daí o apelido de astrofotografia Dragão de Fogo (Fire Dragon), que não vem de nenhum dos livros consultados, mas é como o objeto circula nos catálogos de imagens.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu O contorno discreto do quadrilátero de Ara, entre a cauda do Escorpião e o Esquadro; nenhum dos objetos de céu profundo é visível sem instrumento em céu urbano.
Binóculo (10×50) NGC 6397 como uma mancha grande e felpuda; NGC 6193 como uma manchinha compacta de estrelas; NGC 6352 é mais difícil, uma manchinha fraca perto de Alfa Arae.
Telescópio pequeno (100 a 150 mm) NGC 6397 começa a se resolver em estrelas, com aspecto granulado; NGC 6193 mostra a estrela HD 150136 e companheiras; a nebulosa NGC 6188 permanece muito fraca, só perceptível com visão desviada em céu escuro.
Astrofotografia NGC 6188 é um dos melhores alvos do hemisfério sul para filtros de banda estreita (H-alfa e OIII), revelando as "trombas" de poeira que dão o apelido Dragão de Fogo.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre maio e setembro, em céu escuro, e comece pela cauda do Escorpião para se orientar.
  • Visite os dois globulares na mesma sessão: NGC 6397, mais fácil e vistoso, e NGC 6352, mais discreto — a comparação entre os dois ensina bastante sobre o que faz um globular parecer "rico" ou "pobre" no ocular.
  • Para fotografar o Dragão de Fogo, reserve várias horas de exposição total e um filtro de banda estreita; o resultado compensa a paciência.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objetos nº 438 (NGC 6188), nº 439 (NGC 6193) e nº 480 (NGC 6352).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 81 (NGC 6352), p. 170-171; Caldwell 82 (NGC 6193), p. 172-173; Caldwell 86 (NGC 6397), p. 180-181.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Ara e R Arae, p. 138-139.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Ara", p. 91.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais, paralaxes e dimensões, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.