setembro 22, 2026

Serpente, a única constelação partida em dois: guia de Serpens Caput e Cauda

Carta estelar da Serpente como aparece do Brasil olhando para o norte: Serpens Caput à esquerda, com Unukalhai e M 5, e Serpens Cauda à direita, com Alya, M 16 e IC 4756, separadas pelo território de Ofiúco no meio

De todas as 88 constelações oficiais, só uma foi cortada ao meio: a Serpente. Ela aparece no céu como duas manchas de estrelas separadas, uma a oeste e outra a leste, com Ofiúco preenchendo o espaço entre elas — como se o homem da constelação vizinha estivesse literalmente segurando o animal pelo meio do corpo, dividindo-o em cabeça (Serpens Caput) e cauda (Serpens Cauda). É uma esquisitice cartográfica que sobrevive desde a Antiguidade, e que faz da Serpente um estudo de caso e tanto sobre como o céu foi organizado. Neste guia você vai aprender a achar as duas metades, visitar M 5, um dos globulares mais bonitos do céu, e conhecer M 16, o aglomerado dentro da Nebulosa da Águia, cenário da famosa foto dos "Pilares da Criação".

Uma serpente cortada ao meio

A Serpente (Serpens, abreviatura Ser) é uma das 48 constelações originais listadas por Ptolomeu, na Antiguidade, e a única entre as 88 atuais que o mapa celeste trata como duas regiões separadas de céu compartilhando um único nome e uma única entrada nos catálogos (nota de pesquisa baseada em Ridpath, p. 180). A parte oeste, Serpens Caput ("cabeça da serpente"), fica perto da Coroa Boreal e de Boieiro; a parte leste, Serpens Cauda ("cauda da serpente"), fica perto da Águia e do Escudo. Entre as duas, ocupando o espaço que "deveria" ser o meio do corpo da serpente, está Ofiúco, o Serpentário — a figura de um homem segurando o animal com as duas mãos (Vieira, p. 90; Ridpath, p. 180).

Essa divisão não é um acidente cartográfico recente: já nas representações antigas do céu, Ofiúco é desenhado segurando a serpente, com o corpo do réptil passando por trás e na frente da figura humana, de forma que parte dele fica visualmente "atrás" do observador e parte "na frente". Quando a União Astronômica Internacional formalizou os limites oficiais das 88 constelações, em 1930, manteve essa separação: os limites de Serpens Caput e Serpens Cauda não se tocam em nenhum ponto, ambos cercados pelo território de Ofiúco.

Na mitologia, serpentes simbolizavam renovação e renascimento, por causa da muda de pele (nota de pesquisa baseada em Ridpath, p. 180), e a ligação com Ofiúco tem um mito de cura por trás: a figura é tradicionalmente identificada com Esculápio (Asclépio, para os gregos), o médico mítico tão hábil que conseguia ressuscitar os mortos — o que teria irritado Hades, senhor do mundo dos mortos, a ponto de pedir a Zeus que o fulminasse com um raio (nota de pesquisa baseada em Ridpath, p. 181). O símbolo da medicina usado até hoje, o bastão com uma serpente enrolada (o "bastão de Asclépio"), vem exatamente dessa associação.

Quando e como achar

Melhor época. As duas partes da Serpente culminam (ficam no ponto mais alto) em épocas ligeiramente diferentes, porque estão separadas por dezenas de graus em ascensão reta: Serpens Caput, centrada perto de 15h40min, culmina por volta das 21h locais em fins de junho, junto com Boieiro e a Coroa Boreal; Serpens Cauda, centrada perto de 18h10min, culmina por volta das 21h em meados de agosto, junto com a região de Ofiúco, Escudo e Sagitário. Na prática, a temporada de observação vai de maio a setembro, com a Caput melhor no início do período e a Cauda no fim.

Para onde olhar. A Serpente fica perto do equador celeste — a Caput um pouco ao norte, a Cauda um pouco ao sul —, e é bem visível de todo o Brasil.

Cidade Unukalhai (Caput) Região de M 16 (Cauda)
Boa Vista (RR) 81° 79°
Manaus (AM) 80° 79°
Recife (PE) 76° 84°
Brasília (DF) 68° 88°
Rio de Janeiro (RJ) 61° 81°
São Paulo (SP) 60° 80°
Porto Alegre (RS) 54° 74°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do catálogo do projeto e a latitude de cada cidade; valores arredondados. As duas partes da Serpente ficam altas em todo o Brasil — a Cauda, mais próxima do equador celeste e até um pouco ao sul dele, chega perto do zênite em boa parte do país.

Carta estelar da Serpente como aparece do Brasil olhando para o norte: Serpens Caput à esquerda, com Unukalhai e M 5, e Serpens Cauda à direita, com Alya, M 16 e IC 4756, separadas pelo território de Ofiúco no meio
Carta estelar da Serpente como aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As duas metades da constelação, Serpens Caput (esquerda) e Serpens Cauda (direita), aparecem separadas pelo território de Ofiúco, ao centro. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial, e o contorno tracejado é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo — Serpens Caput.

  1. Ache a Coroa Boreal (veja o guia da Coroa Boreal) e desça em direção ao sul: Unukalhai, a estrela mais brilhante da Serpente, fica logo abaixo.
  2. A partir de Unukalhai, um pequeno grupo de estrelas se estende ao sul, incluindo Gudja (Kapa Serpentis).
  3. M 5 fica um pouco a oeste dessa cadeia, perto da fronteira com Libra.

Passo a passo — Serpens Cauda.

  1. Localize a região entre Ofiúco e o Escudo, um pouco ao norte da Via Láctea densa de Sagitário.
  2. Alya (Theta Serpentis) marca a ponta leste da constelação, perto da fronteira com a Águia.
  3. M 16 fica um pouco a noroeste de Alya, já dentro do território do Escudo em termos de vizinhança visual, embora oficialmente pertença à Serpente.

As estrelas da Serpente

Estrela Parte Brilho visual (mag.) Tipo espectral / cor Distância aproximada
Unukalhai (alfa) Caput 2,63 gigante laranja não conferida nesta sessão
Alya (theta¹) Cauda 4,62 branca (dupla) cerca de 130 anos-luz (Kambič)
Gudja (kapa) Caput 4,09 gigante laranja não conferida nesta sessão
Beta Ser Caput 3,65 branco-azulada não conferida nesta sessão
Eta Ser Cauda 3,23 gigante laranja não conferida nesta sessão

Brilhos e cores (índice B-V) do catálogo do projeto, exceto onde indicado. As distâncias precisas por paralaxe não foram conferidas no SIMBAD nesta sessão para a maioria das estrelas — ver pendências.

Unukalhai (Alfa Serpentis), a estrela mais brilhante da constelação, fica na Caput. O nome vem do árabe e significa algo como "pescoço da serpente".

Alya (Theta Serpentis) é a estrela mais notável da Cauda, e um alvo fácil de binóculo: é uma dupla de duas estrelas brancas, ambas de magnitude 4,6 a 4,9, separadas por mais de 22 segundos de arco — larga o bastante para se resolver mesmo com binóculos comuns (Moore, Observer's Year, p. 208; Kambič, p. 451). A separação física estimada entre as duas é de cerca de 900 unidades astronômicas, a uma distância aproximada de 130 anos-luz do Sol (Kambič, p. 451).

R Serpentis, na Caput, é uma estrela variável do tipo Mira, que varia de magnitude 5,1 a menos de 14 ao longo de um período de cerca de 356 dias — um alvo de longo prazo para quem gosta de acompanhar variáveis (Moore, Observer's Year, p. 207-208).

M 5, um globular de primeira linha

O M 5 fica na Caput, cerca de 2° ao norte do equador celeste, o que o torna igualmente acessível dos dois hemisférios (Moore, Observer's Year, p. 208). É um dos aglomerados globulares mais bonitos do céu — Kambič o descreve com mais de 10 bilhões de anos de idade, pelo menos meio milhão de estrelas e algumas gigantes com mais de 2.000 vezes a luminosidade do Sol; para efeito de comparação, o próprio Sol, visto da distância de M5, teria magnitude 19, completamente imperceptível (Kambič, p. 451). A distância fica entre 24.500 e 27.000 anos-luz, dependendo da fonte (Kambič, p. 451; Moore, p. 208).

Em céu escuro, M 5 quase se vê a olho nu; um binóculo já mostra uma "estrela" enevoada com cerca de metade do diâmetro da Lua cheia, e um telescópio de 100 mm começa a revelar cadeias curvas de estrelas se espalhando a partir do núcleo denso (Ridpath, via nota de pesquisa; Moore, p. 208).

M 16 e a Nebulosa da Águia

O M 16 fica na Cauda, perto da fronteira com o Escudo, e é ao mesmo tempo um aglomerado aberto jovem e uma grande nebulosa de emissão — a famosa Nebulosa da Águia. O aglomerado propriamente dito tem mais de mil estrelas, mas em binóculo só cerca de 40 delas (as mais brilhantes, de magnitude 8) ficam visíveis (Kambič, p. 453-454). A nebulosa em si, com 30 por 35 minutos de arco, só aparece bem em noites de céu muito escuro e transparente — é um dos casos em que a diferença entre o que se vê ao vivo e o que aparece em fotografias de longa exposição é enorme (Kambič, p. 453-454).

A distância fica entre cerca de 5.700 e 7.000 anos-luz, dependendo da fonte consultada (ver pendências), e o objeto foi descoberto pelo astrônomo suíço Jean-Philippe Loys de Chéseaux em 1746 (Moore, Observer's Year, p. 209). A fama mundial de M 16 vem de uma imagem específica: em 1995, o Telescópio Espacial Hubble fotografou três colunas de gás e poeira dentro da nebulosa, batizadas de "Pilares da Criação", uma das fotos mais reproduzidas da história da astronomia. Moore descreve essas colunas de gás como parte da estrutura observável mesmo por astrônomos amadores em condições favoráveis (Observer's Year, p. 209).

IC 4756, o aglomerado esquecido

Perto de Alya, também na Cauda, fica o IC 4756, um aglomerado aberto grande e disperso — na verdade, mais de duas vezes maior em área aparente do que M 16 —, com cerca de 80 estrelas visíveis (até 130 em condições perfeitas de céu) e magnitude integrada de 4,6 (Kambič, p. 452-453; Ridpath, via nota de pesquisa). Por ser tão espalhado, costuma ficar melhor em binóculos de campo largo do que em telescópios de maior aumento, que "cortam" demais o campo e perdem o efeito do aglomerado inteiro.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Unukalhai e o pequeno grupo de estrelas da Caput; a Via Láctea passando perto da Cauda, com Alya como referência.
Binóculo (10×50) M 5 como uma "estrela" enevoada; Alya resolvida em suas duas componentes; IC 4756, melhor em binóculo do que em telescópio; M 16 como um agrupamento fraco de estrelas.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) M 5 começando a resolver cadeias de estrelas; M 16 com mais estrelas visíveis no aglomerado.
Telescópio médio a grande, céu muito escuro A nebulosidade da Águia ao redor de M 16, incluindo indícios das colunas de gás dos "Pilares da Criação" em condições excepcionais.

Dicas de campo:

  • Trate a Serpente como duas observações separadas: uma sessão para a Caput (perto da Coroa Boreal e Boieiro) e outra para a Cauda (perto de Ofiúco, Escudo e Sagitário).
  • Para M 5, comece por Unukalhai e ande um pouco para o lado de Libra.
  • Para M 16 e IC 4756, use a Via Láctea de Sagitário e Escudo como referência: a região fica bem na faixa mais rica de estrelas do céu de inverno.
  • Reserve uma noite bem escura e sem Lua para tentar ver a nebulosidade de M 16 — é um dos alvos mais gratificantes, mas também mais exigentes, do céu de inverno.

Referências

  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. M 5, Theta Serpentis, IC 4756 e M 16, p. 451-456 (impressa 447-452).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 12 a 15 de julho (Serpente, R Ser, M 5, Alya, M 16), p. 207-209.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Serpente e Ofiúco, Esculápio, M 5, M 16, IC 4756, p. 180-181 (via nota de pesquisa interna do projeto; página impressa a confirmar na edição em mãos).
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Ofiúco e Serpente, p. 90.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos e cores (índice B-V) via catálogo HYG v4.1 do projeto; distâncias por paralaxe não conferidas diretamente nesta sessão para a maioria das estrelas (ver pendências).
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.