setembro 22, 2026
Coroa Boreal: guia da constelação da coroa de Ariadne e da estrela que apaga

Entre Boieiro e Hércules, um arco pequeno e discreto de sete estrelas forma uma das figuras mais fáceis de reconhecer do céu de inverno: a Coroa Boreal, um semicírculo quase perfeito que os antigos viam como a coroa de uma noiva abandonada e depois consolada por um deus. Não é uma constelação de destaque — não tem planeta, nebulosa ou aglomerado que valha a pena visitar —, mas guarda duas das estrelas variáveis mais curiosas do céu: R Coronae Borealis, que de vez em quando "apaga" de forma imprevisível, como se uma nuvem de fuligem a cobrisse, e T Coronae Borealis, a "Blaze Star", uma nova recorrente que os astrônomos amadores vigiam há décadas esperando a próxima explosão.
Uma ferradura de sete estrelas
A Coroa Boreal (Corona Borealis, abreviatura CrB) é uma das constelações menores do céu, formada por sete estrelas moderadas dispostas em semicírculo — Ridpath a descreve como uma "ferradura" entre Boieiro, a oeste, e Hércules, a leste (nota de pesquisa baseada em Ridpath, p. 179). Não há estrela de primeira grandeza aqui: a mais brilhante, Alphecca (também chamada Gemma), tem magnitude 2,2 (Moore, Observer's Year, p. 182), o suficiente para chamar atenção pelo contraste com o resto do arco, mas nada comparável às estrelas vizinhas de Boieiro (Arcturus) ou da Lira (Vega).
O que faz da Coroa Boreal uma constelação memorável não é o brilho, mas o desenho: poucas figuras do céu são tão reconhecíveis de relance quanto esse arco fechado e regular. Uma vez identificado, ele nunca mais se confunde com outra coisa.
Quando e como achar
Melhor época. A Coroa Boreal está centrada perto de 15h50min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais em fins de junho — praticamente junto com Hércules e um pouco depois de Boieiro. A boa temporada de observação vai de maio a agosto.
Para onde olhar. A constelação fica ao norte do equador celeste, e do Brasil culmina voltada para o norte, entre Boieiro (mais alto e mais a oeste) e Hércules (mais baixo e mais a leste).
| Cidade | Alphecca |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 60° |
| Manaus (AM) | 60° |
| Recife (PE) | 55° |
| Brasília (DF) | 48° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 40° |
| São Paulo (SP) | 40° |
| Porto Alegre (RS) | 33° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com a declinação do catálogo do projeto e a latitude de cada cidade; valores arredondados. A Coroa Boreal é visível — e razoavelmente alta — em todo o Brasil.

Passo a passo.
- Ache primeiro Arcturus, em Boieiro (veja o guia de Boieiro), e depois o Trapézio de Hércules.
- A Coroa Boreal fica exatamente entre as duas, um pouco mais perto de Boieiro.
- Procure o pequeno arco de estrelas: Alphecca é a mais brilhante, no meio do semicírculo, e as demais estrelas (Nusakan e outras cinco mais fracas) completam a curva dos dois lados.
As estrelas da Coroa Boreal
| Estrela | Posição | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral / cor | Distância aproximada |
|---|---|---|---|---|
| Alphecca / Gemma (alfa) | centro do arco | 2,22 | branco-azulada | não conferida nesta sessão |
| Nusakan (beta) | ponta oeste do arco | 3,66 | branco-amarelada | não conferida nesta sessão |
| Gama CrB | arco | 3,81 | branca | não conferida nesta sessão |
| Teta CrB | arco | 4,14 | branco-azulada | não conferida nesta sessão |
| Épsilon CrB | arco | 4,14 | alaranjada | não conferida nesta sessão |
| Delta CrB | arco | 4,59 | amarelada | não conferida nesta sessão |
Brilhos e cores (índice B-V) do catálogo do projeto. As distâncias precisas por paralaxe não foram conferidas no SIMBAD nesta sessão — ver pendências.
Alphecca, também chamada Gemma ("joia", em latim), é a estrela mais brilhante da constelação e dá nome ao conjunto: na tradição, ela representa a joia central da coroa (nota de pesquisa baseada em fontes gerais do projeto; não conferida em livro específico nesta sessão).
Zeta CrB, fora da lista principal por ser um pouco mais fraca, forma uma dupla azul-branca de magnitudes 5 e 6, e Nu CrB é outra dupla, de duas gigantes vermelhas de 5ª magnitude (nota de pesquisa baseada em Ridpath, p. 179).
R Coronae Borealis: a estrela que apaga
A grande atração da Coroa Boreal para quem gosta de estrelas variáveis é R Coronae Borealis, protótipo de uma classe rara de variáveis que leva seu nome. Normalmente ela brilha em torno da magnitude 6 (Kambič, p. 275-276) ou 5,8 (Moore, Observer's Year, p. 183) — valores próximos, mas não idênticos entre as fontes —, no limite da visão a olho nu em céu escuro. De tempos em tempos, sem aviso, ela desaba de brilho: Kambič descreve quedas de 7 a 8 magnitudes, e Moore chega a citar quedas para menos de magnitude 15, ou seja, uma redução de milhares de vezes no brilho.
A causa é rara e curiosa: R CrB é uma supergigante com atmosfera pobre em hidrogênio e muito rica em carbono — mais de 67% de carbono, segundo Kambič (p. 275-276) —, e de vez em quando expele nuvens de grafite (fuligem de carbono) que bloqueiam a luz da estrela na direção da Terra, como se uma nuvem de fumaça passasse na frente de uma lanterna. Depois de meses, a nuvem se dissipa e a estrela volta ao brilho normal. Moore cita uma concha de poeira em torno da estrela com cerca de 33 anos-luz de diâmetro (Observer's Year, p. 183).
Acompanhar R CrB é um projeto de observação simples e real: qualquer pessoa com binóculo pode comparar seu brilho, noite após noite, com o de estrelas vizinhas de magnitude conhecida, e reportar estimativas para organizações como a AAVSO (American Association of Variable Star Observers) — um dos poucos casos em que observação amadora de olho nu ainda contribui com dados científicos úteis.
T Coronae Borealis: a nova recorrente aguardada
A segunda estrela famosa da constelação é T Coronae Borealis, apelidada de "Blaze Star" ("estrela clarão"). Na maior parte do tempo, ela é uma estrela fraca, de magnitude 10 a 11, invisível a olho nu. Mas duas vezes já foi flagrada em explosão: em 1866 e em 1946, ela saltou até a magnitude 2, brilho comparável ao das estrelas mais destacadas do céu, antes de apagar de novo ao longo de semanas (Moore, Observer's Year, p. 183-184).
O intervalo entre as duas erupções registradas foi de 80 anos, e Moore, escrevendo por volta de 2005, já chamava atenção para o fato de que a próxima explosão poderia ocorrer "por volta de 2026" (Observer's Year, p. 183-184) — coincidentemente perto da data em que este guia é escrito. T CrB é o que se chama de nova recorrente: um sistema binário formado por uma anã branca e uma gigante vermelha companheira, em que a anã branca acumula gás da companheira até o ponto de disparar uma explosão termonuclear na superfície, sem se destruir — o que permite o ciclo se repetir ao longo dos séculos. Um sistema parecido, RS Ophiuchi, também é uma nova recorrente conhecida, com explosões registradas em 1901, 1933, 1958 e 1967 (Moore, p. 184).
Como não foi possível confirmar nesta sessão se a erupção esperada de T CrB já ocorreu (a estrela está no radar de astrônomos profissionais e amadores desde meados da década de 2020), vale a pena checar o estado atual da estrela antes de publicar — e, se ainda não tiver explodido, ela continua sendo um dos alvos de observação mais aguardados do céu.
Mitologia: a coroa de Ariadne
A Coroa Boreal é tradicionalmente associada à coroa usada por Ariadne, filha do rei Minos de Creta, no seu casamento com o deus Baco (Dioniso), depois de ter sido abandonada na ilha de Naxos pelo herói Teseu, a quem havia ajudado a escapar do labirinto do Minotauro (nota de pesquisa baseada em Ridpath, p. 179). Na versão mais difundida do mito, Baco teria jogado a coroa ao céu como sinal do casamento, ou a própria coroa teria se transformado nas estrelas depois da cerimônia. É uma origem bem mais simples e contida do que a de constelações vizinhas como Hércules, mas condiz com o desenho modesto e elegante da própria figura: uma coroa pequena, sem pretensão de grandeza.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | O semicírculo completo de sete estrelas, com Alphecca se destacando no meio; o brilho de R CrB, comparado a estrelas vizinhas, para quem quiser acompanhar suas quedas. |
| Binóculo (10×50) | O campo completo da constelação; R CrB e T CrB (quando visível, em erupção) fáceis de localizar por suas coordenadas. |
| Telescópio pequeno (70 a 100 mm) | Zeta CrB como dupla azul-branca; Nu CrB como par de gigantes vermelhas; T CrB, quando fraca, exige céu escuro e carta detalhada. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre maio e agosto, olhando para o norte.
- Use Arcturus (Boieiro) e o Trapézio de Hércules como referências: a Coroa Boreal fica exatamente entre as duas.
- Se quiser acompanhar R CrB, monte uma sequência de comparação com estrelas vizinhas de magnitude conhecida e repita a observação a cada poucas semanas.
- Antes de sair para observar T CrB, confira o estado atual da estrela em fontes recentes (ela pode estar em erupção ou não).
Referências
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. R Coronae Borealis, p. 275-276 (impressa 269-270).
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 14 a 16 de junho (Coroa Boreal, Alphecca, R CrB, T CrB, RS Ophiuchi), p. 182-184.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Coroa Boreal, Zeta e Nu CrB, R CrB, p. 179 (via nota de pesquisa interna do projeto; página impressa a confirmar na edição em mãos).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos e cores (índice B-V) via catálogo HYG v4.1 do projeto; distâncias por paralaxe não conferidas diretamente nesta sessão (ver pendências).
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.