setembro 21, 2026
NGC 7243 (Caldwell 16), o Aglomerado do Lagarto: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Nem todo aglomerado estelar tem uma borda óbvia. NGC 7243 fica em Lacerta, uma pequena constelação sem estrelas brilhantes espremida entre o Cisne e Andrômeda, numa região tão rica em estrelas de fundo da Via Láctea que alguns observadores chegam a duvidar se o "aglomerado" não é, em parte, um efeito de acaso — um adensamento aparente de estrelas não relacionadas entre si, na mesma linha de visada. É um bom objeto para discutir o que realmente separa um aglomerado aberto de uma simples concentração de estrelas de campo, e também um exemplo claro de como mais abertura de telescópio revela mais estrelas — nem todas membros verdadeiros do grupo. Este guia reúne o que se sabe sobre ele e o contexto para observá-lo, incluindo a ressalva honesta sobre sua baixa altura no céu do Rio de Janeiro.
Texto em revisão. Este artigo faz parte do novo formato de guia de objeto do site. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: aglomerado aberto ou ilusão de campo?
NGC 7243 é um aglomerado aberto: um grupo de estrelas nascidas juntas, da mesma nuvem de gás, ainda gravitacionalmente associadas (embora aglomerados abertos se dispersem ao longo de dezenas a centenas de milhões de anos). Mobberley levanta uma dúvida interessante sobre este objeto em particular: por estar numa região muito densa da Via Láctea, é difícil dizer, a olho, onde termina o aglomerado e onde começa o campo estelar de fundo. Ele chega a sugerir que, se removêssemos meia dúzia de estrelas de magnitude 9 que formam um triângulo central (incluindo uma estrela dupla), a "ilusão" de aglomerado enfraqueceria bastante.
Números. A distância do SIMBAD (paralaxe de 1,116 milissegundos de arco) dá cerca de 2.920 anos-luz; Mobberley cita um valor mais antigo, de cerca de 2.500 anos-luz — próximo, mas não igual. O tamanho aparente, de cerca de 30′ segundo o SIMBAD e Mobberley (Bakich cita um valor menor, 21′, possivelmente referente só ao núcleo mais denso), corresponde a algo em torno de 25 a 26 anos-luz de diâmetro real. Mobberley estima a idade do aglomerado em cerca de 75 milhões de anos — relativamente maduro para um aglomerado aberto, tempo suficiente para que muitas das estrelas mais massivas já tenham evoluído e desaparecido.
A estrela mais brilhante. Segundo Bakich, a estrela mais brilhante no centro do campo, catalogada como GSC 3614:2189, tem magnitude 8,0.
Quanto mais abertura, mais estrelas. Bakich documenta um exemplo didático do efeito da abertura do telescópio sobre a contagem de estrelas visíveis: um telescópio de 100 mm mostra cerca de 36 estrelas na região; um de 200 mm, cerca de 50; e um de 400 mm, em céu muito escuro, mais de 200. Isso não significa que todas essas estrelas sejam membros verdadeiros do aglomerado — parte é apenas campo estelar de fundo revelado pelo aumento de abertura, o que reforça a dúvida de Mobberley sobre os limites reais do objeto.
Estruturas notáveis
- O núcleo mais denso. Uma concentração central de estrelas, incluindo o triângulo de magnitude 9 citado por Mobberley e a estrela dupla nele contida.
- A estrela mais brilhante (GSC 3614:2189). Magnitude 8,0, no centro do campo (Bakich).
- O campo estelar circundante. Denso o bastante para confundir os limites do aglomerado; parte do "charme" do objeto está justamente em tentar discernir onde ele termina.
- Objetos vizinhos. Mobberley cita a nebulosa planetária IC 5217 (mag. 12), cerca de 2° a nordeste, e os aglomerados vizinhos NGC 7209 e (na constelação vizinha do Cisne) o Caldwell 19, a Nebulosa do Casulo — veja o guia da Nebulosa do Casulo (IC 5146).
Como localizar
NGC 7243 fica cerca de 2,6° a oeste de Alfa Lacertae, a estrela mais brilhante da pequena constelação de Lacerta (Bakich). Por não haver estrelas muito brilhantes na vizinhança imediata, vale começar por uma estrela de referência mais conhecida no Cisne ou em Andrômeda e usar um buscador de campo largo ou binóculo para "descer" até a região.

Quando e como observar
NGC 7243 tem declinação de cerca de +49°53′ a +49°54′ segundo os livros, e +49°50′ segundo o SIMBAD — valores muito próximos.
E do Rio de Janeiro?
A altura máxima de um objeto ao cruzar o meridiano é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto. No Rio de Janeiro (latitude −23°), essa conta dá 90 − |−23 − 49,83| ≈ 17,2° — uma altura baixa, no limite prático de observação. Aglomerados abertos, por serem compostos de pontos concentrados de luz (estrelas), tendem a resistir um pouco melhor à baixa altura do que nebulosas difusas, mas ainda assim a extinção atmosférica e a poluição luminosa do horizonte reduzem bastante o número de estrelas visíveis nessa altura, distorcendo justamente a contagem que torna este objeto interessante. Para um observador a 40° N, a mesma conta dá cerca de 81° de altura, quase no zênite; a 50° N, cerca de 89,8°, no zênite. Este é, portanto, essencialmente um objeto de verão do hemisfério norte, e este guia foi escrito com esse observador em mente, com a ressalva sobre o que é possível ver do Rio de Janeiro.
Os gráficos abaixo usam a localização do observatório do site (por padrão o Rio de Janeiro, ou a localização aproximada de quem lê). Espere alturas baixas na maior parte do ano — coerente com a declinação alta do objeto.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 17°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 20:40 · 17° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 94 mag 6,4
- Enquadramento
- 100 ocupa 33 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 15° | NNE 12° | 120° |
| 20:00 | 17° | N 7° | 120° |
| 20:30 | 17° | N 2° | 120° |
| 21:00 | 17° | N 357° | 120° |
| 21:30 | 16° | N 352° | 120° |
| 22:00 | 15° | NNW 347° | 120° |
| 22:30 | 13° | NNW 343° | 119° |
| 23:00 | 11° | NNW 338° | 119° |
| 23:30 | 8° | NNW 334° | 119° |
| 00:00 | 5° | NNW 331° | 119° |
| 00:30 | 1° | NNW 327° | 119° |
| 01:00 | -3° | — | 119° |
| 01:30 | -7° | — | 119° |
| 02:00 | -11° | — | 119° |
| 02:30 | -16° | — | 118° |
| 03:00 | -20° | — | 118° |
| 03:30 | -25° | — | 118° |
| 04:00 | -30° | — | 118° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | No limite: em céu muito escuro e com o objeto alto (hemisfério norte), pode aparecer como uma mancha tênue perto do limiar de percepção. |
| Binóculo | Uma concentração leve de estrelas, sem grande destaque em relação ao campo ao redor — a dúvida de Mobberley sobre os limites do aglomerado já aparece aqui. |
| Telescópio de 100 mm | Cerca de 36 estrelas visíveis, com o triângulo central de magnitude 9 e a estrela dupla se destacando (Bakich). |
| Telescópio de 200 a 400 mm | Cerca de 50 estrelas em 200 mm, chegando a mais de 200 em 400 mm sob céu muito escuro — mas boa parte dessas estrelas adicionais é campo de fundo, não membros do aglomerado (Bakich). |
Expectativa honesta: este não é um objeto de "uau" visual, mas um bom exercício de observação crítica: comparar o que se vê em diferentes aberturas e tentar decidir, você mesmo, onde termina o aglomerado e começa o céu de fundo da Via Láctea.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 30′ de diâmetro aparente, NGC 7243 pede um campo de visão moderado a amplo. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo de cerca de 1,1° × 0,75° acomoda o aglomerado com folga e ainda mostra o campo estelar denso ao redor, que é parte importante do contexto visual do objeto. Focais mais curtas (400 a 600 mm) também funcionam bem e ajudam a mostrar o aglomerado em relação às constelações vizinhas.
Desafios do alvo
- Distinguir o aglomerado do campo. O mesmo problema da observação visual se aplica à fotografia: sem um catálogo de pertencimento (associação de movimento próprio), é difícil isolar visualmente quais estrelas são "do aglomerado".
- Baixa altura no Rio de Janeiro. Como discutido acima, a altura reduzida aumenta a turbulência atmosférica e a extinção, prejudicando a nitidez fina necessária para resolver estrelas fracas.
- Falta de cor ou estrutura dramática. Diferente de nebulosas, um aglomerado aberto disperso como este depende mais da composição e do enquadramento do que de processamento de cor.
Equipamento e filtros
Não há necessidade de filtros de banda estreita para um aglomerado estelar: o objetivo é registrar as estrelas com fidelidade de cor e brilho. Uma câmera colorida de tiro único funciona bem, e um filtro de poluição luminosa (se disponível) pode ajudar a escurecer o fundo do céu sem afetar as estrelas, especialmente relevante dada a baixa altura do objeto a partir do Brasil.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 40 a 60 | 30 a 60 s | Registrar as estrelas do aglomerado sem saturar as mais brilhantes |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e à altura real do objeto no seu horizonte.
Smart telescopes e campo de visão
NGC 7243 cabe bem no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), que mostra tanto o aglomerado quanto boa parte do campo estelar denso ao redor. Para quem observa de latitudes onde o objeto sobe bem, é um alvo relativamente simples e rápido para esse tipo de equipamento; do Rio de Janeiro, a baixa altura limita a janela de captura e a qualidade da imagem. Use o mapa abaixo para conferir o campo do seu modelo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 7243 não é um objeto de tirar o fôlego, mas é um bom estudo de caso sobre o que realmente define um aglomerado aberto em meio a um campo estelar denso da Via Láctea — e sobre como a abertura do telescópio muda radicalmente o que se vê. Do Rio de Janeiro, ele fica baixo demais para ser um alvo confortável; é mais gratificante para quem observa de latitudes mais ao norte. Se você gostou da ideia de comparar aglomerados dispersos e como a abertura revela mais estrelas, vale visitar também os guias de M 39 e M 29, aglomerados vizinhos do Cisne.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 701 (NGC 7243).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 16, p. 44-45.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 7243, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.