setembro 21, 2026
IC 5146 (Caldwell 19), a Nebulosa do Casulo: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Poucos objetos do céu combinam tão bem luz e escuridão quanto a Nebulosa do Casulo. Ela fica na ponta de uma fenda escura e sinuosa de poeira interestelar, batizada de Barnard 168, que os observadores costumam descrever como uma cobra rastejando por mais de 2° de céu no Cisne. Onde essa "cobra" termina, um pequeno grupo de estrelas recém-nascidas ilumina o gás ao redor, criando a nebulosa avermelhada que dá nome ao conjunto. É um dos alvos mais fotogênicos do catálogo Caldwell — e também um dos que mais decepcionam visualmente, porque quase toda a beleza do Casulo só aparece em exposições longas. Este guia reúne o que se sabe sobre o objeto e o contexto necessário para observá-lo, com a ressalva honesta sobre sua baixa altura a partir do Rio de Janeiro.
Texto em revisão. Este artigo faz parte do novo formato de guia de objeto do site. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um berçário de estrelas na ponta de uma cobra escura
IC 5146 é uma nebulosa de emissão e reflexão mista, associada a um pequeno aglomerado aberto muito jovem, o Collinder 470, ainda embutido no gás de onde nasceu (Mobberley). É esse tipo de estrutura — gás que ainda brilha por causa das estrelas recém-formadas dentro dele — que caracteriza um berçário estelar ativo. Mobberley estima a idade do aglomerado em cerca de 1 milhão de anos, uma fração ínfima da idade do Sol.
A cobra escura. O que torna o campo do Casulo especialmente marcante é sua vizinha: a nebulosa escura Barnard 168, uma longa faixa sinuosa de poeira densa que bloqueia a luz das estrelas atrás dela, criando um "vazio" visual de mais de 2° de comprimento (Bakich, via obj-0631-0693). A nebulosa de emissão IC 5146 fica sobreposta à borda leste dessa faixa escura — como se o "casulo" luminoso estivesse na ponta da cauda da cobra. B168 foi fotografada pela primeira vez por Max Wolf em 1900, logo depois da descoberta visual da própria IC 5146.
Descoberta. A nebulosa foi descoberta pelo reverendo T. H. E. C. Espin em 13 de agosto de 1899 (Bakich).
Distância. As fontes divergem: Mobberley cita cerca de 3.300 anos-luz, um valor mais antigo. A paralaxe atual do SIMBAD (1,213 milissegundos de arco) resulta em cerca de 2.690 anos-luz, valor adotado neste guia. A essa distância, o diâmetro real da nebulosa de emissão (cerca de 8′ segundo o SIMBAD) corresponde a pouco mais de 6 anos-luz.
Estruturas notáveis
- A nebulosa de emissão e reflexão (o "casulo"). A parte luminosa, avermelhada nas fotografias por causa da emissão de hidrogênio, com um componente azulado de reflexão perto das estrelas mais quentes do aglomerado.
- O aglomerado Collinder 470. Um punhado de estrelas jovens embutidas no gás; Bakich menciona duas estrelas de magnitude 9,7 visíveis no meio da mancha mesmo em telescópios de 100 mm.
- A nebulosa escura Barnard 168. A "cobra" de poeira que se estende por mais de 2° a partir da borda oeste do Casulo — uma das melhores nebulosas escuras do céu do hemisfério norte, e, segundo Bakich, visível a olho nu em céu muito escuro (embora difícil).
- A borda de contraste. É exatamente onde a nebulosa brilhante encontra a faixa escura que o objeto fica mais interessante, tanto visualmente quanto em fotografia.
Como localizar
IC 5146 fica na constelação do Cisne, próxima à fronteira com o Cefeu e a Lacerta. Como é uma região sem estrelas muito brilhantes nas proximidades imediatas, o caminho mais prático é partir de uma estrela de referência do Cisne (como Deneb) e usar um binóculo ou buscador de campo largo — de mais de 1° — para localizar a "cobra" escura B168 primeiro; a nebulosa de emissão fica na ponta leste dela (Bakich).

Quando e como observar
IC 5146 tem declinação de cerca de +47°15′ a +47°16′ segundo os livros, e +47°15′ segundo o SIMBAD — valores praticamente idênticos.
E do Rio de Janeiro?
A altura máxima de um objeto ao cruzar o meridiano é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto. No Rio de Janeiro (latitude −23°), essa conta dá 90 − |−23 − 47,25| ≈ 19,8° — uma altura baixa. Para um objeto que já é visualmente fraco mesmo em condições ideais (como será discutido a seguir), essa altura reduzida, com mais atmosfera e mais poluição luminosa de horizonte pela frente, praticamente inviabiliza uma observação visual satisfatória a partir do Rio de Janeiro. Para um observador a 40° N, a mesma conta dá cerca de 83° de altura, quase no zênite; a 50° N, cerca de 87,25°, também muito perto do zênite. Este é, portanto, um alvo de verão/outono do hemisfério norte, e este guia foi escrito com esse observador em mente, mantendo a ressalva sobre a baixa altura no Rio.
Os gráficos abaixo usam a localização do observatório do site (por padrão o Rio de Janeiro, ou a localização aproximada de quem lê). Espere alturas baixas na maior parte do ano, coerente com a declinação alta do objeto.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 20°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 20:20 · 20° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 82 mag 7,2
- Enquadramento
- 89 ocupa 22 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 19° | N 9° | 116° |
| 20:00 | 20° | N 4° | 116° |
| 20:30 | 20° | N 358° | 116° |
| 21:00 | 19° | N 353° | 116° |
| 21:30 | 18° | NNW 348° | 116° |
| 22:00 | 16° | NNW 343° | 116° |
| 22:30 | 14° | NNW 338° | 116° |
| 23:00 | 11° | NNW 334° | 116° |
| 23:30 | 8° | NNW 330° | 115° |
| 00:00 | 4° | NNW 326° | 115° |
| 00:30 | 0° | NW 323° | 115° |
| 01:00 | -4° | — | 115° |
| 01:30 | -9° | — | 115° |
| 02:00 | -13° | — | 115° |
| 02:30 | -18° | — | 115° |
| 03:00 | -23° | — | 115° |
| 03:30 | -28° | — | 114° |
| 04:00 | -33° | — | 114° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | A nebulosa em si, invisível; a faixa escura B168, em céu muito escuro e transparente, pode ser percebida como um "vazio" alongado entre as estrelas de fundo (Bakich) — mas isso exige um céu excepcional, algo raro no Rio de Janeiro. |
| Binóculo ou telescópio de campo largo (acima de 1°) | A "cobra" escura B168 aparece com relativa facilidade em céu escuro; a nebulosa de emissão em si é bem mais discreta (Mobberley). |
| Telescópio de 100 mm | Uma mancha circular fraca, de brilho superficial baixo, com duas estrelas de magnitude 9,7 visíveis no meio (Bakich). Coe descreve, com um refrator de 4 polegadas, a nebulosa como "extremamente fraca", mesmo com filtro UHC. |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Melhora perceptível, sobretudo com filtro; Coe relata, com um Schmidt-Cassegrain de 11 polegadas, uma mancha fraca, grande e irregularmente redonda, com cerca de cinco estrelas visíveis, melhor com visão indireta. |
Expectativa honesta: Coe resume bem a experiência visual deste objeto: em telescópios pequenos e médios, o resultado é sempre discreto, e o filtro UHC nem sempre ajuda — Steve Gottlieb relatou melhor ganho de contraste com o filtro H-beta, mais específico para esse tipo de nebulosa, embora essa eficácia não seja unânime entre observadores. É um objeto cuja beleza real só se revela em fotografia de longa exposição.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Para capturar tanto a nebulosa de emissão quanto a "cobra" escura B168, é preciso um campo bem amplo — mais de 2° de lado, segundo a extensão da faixa escura (Mobberley). Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo de cerca de 1,1° × 0,75° mostra bem o núcleo luminoso do Casulo, mas corta a maior parte da cobra escura; uma focal de 300 a 500 mm (campo de cerca de 2° a 3,5°) é mais adequada para capturar o conjunto completo.
Desafios do alvo
- Baixo brilho superficial. Como visto na observação visual, o Casulo é um objeto fraco; exige tempo de exposição total generoso, mesmo para quem observa de latitudes onde ele sobe bem alto.
- Contraste entre luz e escuridão. Fotografar bem a nebulosa escura B168 ao lado da nebulosa brilhante exige um processamento cuidadoso, que preserve os tons escuros da faixa de poeira sem "estourar" o núcleo luminoso.
- Altura muito baixa no Rio de Janeiro. Como discutido acima, a altura reduzida a partir daqui aumenta a extinção atmosférica justamente para um objeto que já precisa de muito sinal.
Equipamento e filtros
Para quem fotografa de latitudes favoráveis, uma câmera colorida de tiro único capta bem o contraste entre a nebulosa avermelhada e a faixa escura ao lado. Um filtro de banda estreita (H-alfa) pode reforçar o núcleo de emissão, mas atenção: a "cobra" escura B168 é definida pela ausência de luz, não por uma linha de emissão específica, então o filtro de banda estreita não ajuda a revelá-la — só o registro de um campo estelar denso e bem exposto no RGB faz isso.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 60 a 90 | 120 a 180 s | Acumular sinal suficiente no gás de baixo brilho superficial |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e, sobretudo, à altura real do objeto no seu horizonte.
Smart telescopes e campo de visão
Para quem observa de latitudes onde IC 5146 sobe bem alto, o campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) cobre o núcleo luminoso do Casulo com folga, mas não a extensão completa da faixa escura B168 — para isso seria preciso um mosaico. Do Rio de Janeiro, a baixa altura do objeto (cerca de 20° no máximo) limita bastante a janela de captura útil e a qualidade da imagem, com mais turbulência atmosférica e extinção do que o ideal. Use o mapa abaixo para conferir o campo do seu modelo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Nebulosa do Casulo é um exemplo perfeito de como luz e escuridão se complementam no céu: o berçário estelar avermelhado e a longa cobra de poeira escura formam, juntos, um dos campos mais fotogênicos do catálogo Caldwell. Infelizmente, sua declinação de cerca de +47° o coloca fora do alcance confortável do Rio de Janeiro, onde a altura máxima de cerca de 20° dificulta tanto a observação visual quanto a fotografia de qualidade. É um alvo mais gratificante para quem observa de latitudes médias do hemisfério norte. Para nebulosas escuras e berçários de estrelas mais favoráveis à nossa latitude, veja os guias de NGC 6992, a Nebulosa do Véu e NGC 7000, a Nebulosa da América do Norte, ambas também no Cisne mas mais próximas do equador celeste.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 689 (IC 5146).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. IC 5146 e Barnard 168, p. 109-110.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 19, p. 50-51.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de IC 5146, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.