setembro 21, 2026

NGC 4565 (Caldwell 38), a Galáxia da Agulha: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4565 — Galáxia da Agulha — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Se existe uma galáxia que resume a beleza discreta de ver o Universo de perfil, é a NGC 4565. Ela é frequentemente chamada de a melhor galáxia edge-on do céu — não a mais brilhante, nem a maior, mas a que combina bojo, faixa de poeira e comprimento na proporção mais elegante. Patrick Moore a descreveu como "dois ovos fritos costas com costas", uma imagem que, uma vez vista, é difícil de esquecer. Ela também é um bom espelho: se pudéssemos ver a Via Láctea de fora, de perfil, ela se pareceria bastante com isso. Este guia mostra como achar a Agulha, o que esperar dela em cada abertura e como fotografar a faixa de poeira que lhe dá o nome.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto do site, cobrindo os catálogos Messier e Caldwell completos. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4565 — Galáxia da Agulha — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: a "melhor" edge-on do céu, e por quê

NGC 4565 é uma galáxia espiral do tipo Sab (SIMBAD), vista quase exatamente de perfil — inclinada apenas cerca de 3,5° do plano ideal de perfil total, o suficiente para que a faixa de poeira apareça deslocada para o lado norte do disco, em vez de perfeitamente centralizada (Bakich). Se a víssemos de frente, ela se pareceria com M 100, uma espiral bem desenrolada (Bakich).

Mobberley a compara diretamente com as outras grandes edge-on do hemisfério norte — NGC 891 (Caldwell 23), NGC 4244 (Caldwell 26, a Agulha de Prata), NGC 4631 (Caldwell 32) e a NGC 5907 ("Splinter", fora do catálogo Caldwell) — e conclui que NGC 4565 vence a comparação por reunir, ao mesmo tempo, um bojo central bem definido, uma faixa de poeira nítida e um brilho e comprimento maiores que os rivais. É essa combinação que lhe rendeu o apelido, entre observadores urbanos, de "disco voador" (Mollise), pela silhueta que o bojo central forma contra o disco fino.

NGC 4565 em números. A magnitude integrada é 9,6, segundo Mobberley, Kier e Mollise — as três fontes concordam entre si (o SIMBAD só lista uma fotometria nuclear de um catálogo de núcleos ativos, não o brilho total da galáxia; ver pendências). O tamanho aparente é de cerca de 13,8′ × 2,2′ no SIMBAD, um pouco menor que os 15′ a 16′ × 2,5′ a 3′ citados pelos livros. A distância diverge mais: o SIMBAD reúne 13 medidas independentes, entre 11,5 e 18 milhões de parsecs, com mediana de cerca de 13,4 milhões de parsecs — cerca de 44 milhões de anos-luz, valor adotado aqui. Mobberley e Kier, com estimativas mais antigas, citam cerca de 30 a 31 milhões de anos-luz.

Descoberta. William Herschel descobriu NGC 4565 em 1785 (Mollise). Ela faz parte da Nuvem Coma-Sculptor, um filamento de galáxias próximas que também inclui o Grupo Local, embora a distância mais recente do SIMBAD a coloque mais longe do que os livros sugerem.

Um vizinho fraco. A cerca de 13′ a sudoeste de NGC 4565 fica a NGC 4562, uma galáxia de magnitude 13,5, fraca demais para a maioria dos telescópios amadores, mas visível com 300 mm ou mais sob boa transparência (Mobberley).

Estruturas notáveis

  • A faixa de poeira. Corre por toda a extensão do disco, deslocada para o lado norte por causa da leve inclinação da galáxia; é o traço que dá o apelido de "Agulha" e o que a distingue de rivais mais simétricas (Bakich).
  • O bojo central. Uma protuberância clara no meio do disco fino, atravessada pela poeira — a combinação que Moore comparou a "dois ovos fritos costas com costas".
  • O disco fino e longo. Um risco de luz que se estende por 10′ a 15′, dependendo da abertura, orientado noroeste a sudeste.
  • A estrela de referência. Uma estrela de magnitude 13 fica perto do bojo, a nordeste, útil como referência de campo em imagens longas (Mobberley, citando um telescópio de 49 cm).

Como localizar

NGC 4565 fica perto da borda leste do aglomerado aberto Melotte 111, ligeiramente fora dele (Mobberley). Dois caminhos práticos: partir de NGC 4559 (Caldwell 36) e andar cerca de 2° para o sul, ou partir de Denébola (Beta Leonis, a cauda do Leão) e andar cerca de 11½° para o norte e 11° para leste (Mobberley).

Carta de localização de NGC 4565: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

NGC 4565 fica em declinação +25°59′, a mais favorável das três galáxias de Cabeleira de Berenice deste lote. Do Rio de Janeiro (latitude −23°), ela sobe no máximo a cerca de 41° de altura no meridiano — uma altura razoável, bem acessível em noites de céu limpo ao norte. A galáxia culmina no início da noite em torno de março, o período mais favorável para observá-la e fotografá-la.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da galáxia pelo céu nesta noite.

Altura de Galáxia da Agulha ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de fevereiro a maio. O objeto chega a 41° à meia-noite em abril.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ1 abr · 41°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de fevereiro a maio (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 41° em 1 de abril.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -22°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · -22° ENE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
25 mag 10,9
Enquadramento
100 ocupa 37 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -42° — 67°
20:00 -49° — 68°
20:30 -56° — 68°
21:00 -63° — 68°
21:30 -69° — 68°
22:00 -76° — 68°
22:30 -83° — 69°
23:00 -87° — 69°
23:30 -83° — 69°
00:00 -76° — 69°
00:30 -69° — 69°
01:00 -63° — 70°
01:30 -56° — 70°
02:00 -49° — 70°
02:30 -42° — 70°
03:00 -36° — 71°
03:30 -29° — 71°
04:00 -22° — 71°
Altura de NGC 4565 — Galáxia da Agulha ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com -22°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · -22°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível: mesmo com magnitude 9,6, o brilho concentra-se numa faixa fina demais para o olho nu perceber.
Binóculo (10×50 a 37×100) Um desafio: Tonkin cita NGC 4565 entre as galáxias visíveis em binóculos gigantes de 100 mm, como um risco de luz alongado, sem detalhe. Com binóculos comuns, é um objeto de céu muito escuro.
Telescópio de 80 a 150 mm Já visível como uma faixa fina; a partir de 200 mm, com noite boa, a faixa de poeira começa a aparecer (Mollise: telescópios de 8″/20 cm ou mais, com paciência e visão desviada).
Telescópio de 300 mm ou mais O bojo, a faixa de poeira e uma estrela de referência de magnitude 13 ficam bem definidos; em instrumentos ainda maiores, o efeito de "disco voador" fica nítido (Mobberley; Mollise).

Expectativa honesta: Mollise lembra que, mesmo em céu urbano, a NGC 4565 "lembra as imagens de livro" quando vista com paciência e visão desviada — uma raridade entre as galáxias, cuja maioria decepciona quem espera ver o que aparece nas fotos.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Kier trata NGC 4565 como uma das galáxias de perfil de referência: com cerca de 16′ de extensão e a NGC 4562 a 13′ a sudoeste, um campo de cerca de 30′ × 20′ inclui as duas galáxias no mesmo quadro. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (66′ × 45′, calculado a partir do sensor e da focal): folgado o bastante para enquadrar NGC 4565 e NGC 4562 juntas, com espaço de sobra para o campo estelar.

Desafios do alvo

  • Faixa fina, campo largo. O disco é comprido, mas muito estreito; enquadre com o eixo maior levemente inclinado em relação ao quadro para um resultado mais dinâmico, em vez de deixá-lo perfeitamente horizontal ou vertical.
  • Baixo contraste entre a poeira e o disco. A faixa de poeira exige boa relação sinal-ruído e processamento cuidadoso para não desaparecer; evite saturar o bojo central ao realçar as bordas do disco.
  • Céu urbano. Sob Bortle 7, como no Rio de Janeiro, o disco externo, mais fraco, é o primeiro a se perder no fundo do céu; um filtro de poluição luminosa de banda larga ajuda a preservar contraste.

Equipamento e filtros

Como galáxia sem linhas de emissão fortes, NGC 4565 se beneficia mais de luminância clara com boa relação sinal-ruído do que de filtros de banda estreita. Em câmera monocromática, um conjunto LRGB tradicional, com boa quantidade de quadros de luminância, é a abordagem mais eficiente para revelar a faixa de poeira com nitidez.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 100 180 a 300 s Capturar o disco fino e a faixa de poeira com boa relação sinal-ruído
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra NGC 4565 com folga, incluindo a fraca NGC 4562 ao lado. É um dos melhores alvos de galáxia edge-on para smart telescopes por causa do contraste natural entre o disco fino e o céu de fundo, que ajuda mesmo com tempo de empilhamento moderado. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 4565 é o tipo de objeto que justifica a expressão "a melhor da categoria": entre todas as galáxias de perfil visíveis a partir do Brasil, é a que melhor equilibra brilho, definição de bojo e nitidez da faixa de poeira. Vale a pena visitá-la na mesma noite que suas vizinhas de Cabeleira de Berenice, a espiral NGC 4559, a gigante distante NGC 4889, e o aglomerado aberto Melotte 111, ou compará-la com outra galáxia de anel na mesma constelação, a NGC 4725.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 280 (NGC 4565 / Caldwell 38).
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Needle Galaxy", p. 138-140.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 38, p. 101-102.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. Cabeleira de Berenice, NGC 4565, p. 115-125 (NGC 4565, p. 116-117).
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. Galáxias para binóculos grandes, p. 175-203.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo morfológico, dimensões, classificação espectral e medidas de distância de NGC 4565, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.