setembro 21, 2026

NGC 4889 (Caldwell 35), a galáxia gigante do Aglomerado de Coma: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4889 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Poucos objetos do catálogo Caldwell testam tanto a noção de distância quanto a NGC 4889. É uma galáxia elíptica gigante, a mais brilhante do Aglomerado de Coma, um enxame de quase mil galáxias que fica tão longe que sua luz partiu de lá quando os primeiros dinossauros ainda nem existiam. Ao telescópio, ela não passa de um borrão oval discreto — mas o campo ao redor, em uma imagem de longa exposição, revela dezenas de outras galáxias do mesmo aglomerado, cada mancha um universo inteiro. Este guia mostra como achar a NGC 4889, o que esperar dela e de suas vizinhas, e como aproveitar a noite para fotografar um pedaço do Aglomerado de Coma inteiro.

Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto do site, cobrindo os catálogos Messier e Caldwell completos. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4889 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: a galáxia mais brilhante de um aglomerado colossal

NGC 4889 é uma galáxia elíptica gigante, do tipo E3 (SIMBAD), a mais brilhante entre as quase mil galáxias do Aglomerado de Coma (Abell 1656), um dos aglomerados de galáxias mais estudados do céu. Diferente de uma galáxia espiral, uma elíptica não tem braços nem disco: é uma nuvem esferoidal de estrelas antigas, sem gás nem formação estelar recente, e por isso não mostra estrutura fina ao telescópio — apenas um brilho concentrado que diminui suavemente para as bordas.

NGC 4889 em números. A magnitude é 11,3 no SIMBAD, próxima dos 11,5 citados por Bakich e Mobberley, e o tamanho aparente é de cerca de 2,9′ × 1,8′ (SIMBAD), quase idêntico aos 3′ × 2′ do livro. A distância não tem medida direta no SIMBAD, mas a velocidade de afastamento da galáxia (6.376 km/s) permite estimar, pela lei de Hubble, cerca de 91 milhões de parsecs — cerca de 300 milhões de anos-luz, o mesmo valor citado por Mobberley. A essa distância, o tamanho aparente corresponde a um diâmetro físico de cerca de 253 mil anos-luz, mais que o dobro do diâmetro da Via Láctea (cerca de 100 mil anos-luz).

Uma galáxia com passado excepcional. Estudos publicados depois do livro de Mobberley (2009) identificaram, no núcleo de NGC 4889, um dos buracos negros supermassivos mais pesados já medidos — algo entre 17 e 21 bilhões de massas solares, cerca de quatro mil vezes mais massivo que o buraco negro no centro da Via Láctea. Essa informação vem de conhecimento geral, não dos livros consultados para este guia, mas ajuda a dimensionar a escala do objeto.

O aglomerado de Coma. NGC 4889 e sua vizinha quase gêmea, NGC 4874 (mag. 11,9), dividem o posto de galáxia mais brilhante do aglomerado, que reúne cerca de mil membros a mais de 300 milhões de anos-luz, com a região central mais densa ocupando cerca de meio grau — do tamanho da Lua cheia. Um campo de CCD de meio grau ao redor de NGC 4889 revela facilmente uma dúzia de galáxias companheiras mais fracas (Mobberley).

Estruturas notáveis

  • O brilho central concentrado. Em telescópios pequenos, um oval cerca de 50% mais longo que largo, orientado nor-noroeste a su-sudeste, com o centro visivelmente mais brilhante (Bakich).
  • A estrela de cuidado. SAO 82595, de magnitude 7,2, fica a cerca de 9′ a noroeste da galáxia — fácil de confundir com um objeto de primeiro plano ao caçar a galáxia no ocular (Bakich).
  • O campo repleto de galáxias. A verdadeira atração de NGC 4889 não é ela sozinha, mas o que a rodeia: dezenas de manchas fracas, cada uma outra galáxia do Aglomerado de Coma (Mobberley).
  • NGC 4874, a vizinha quase gêmea. A outra galáxia dominante do aglomerado, de magnitude semelhante, a pouco menos de meio grau de distância — um bom segundo alvo na mesma sessão.

Como localizar

O Aglomerado de Coma fica em uma região de Cabeleira de Berenice sem estrelas brilhantes, o que torna o apontamento por go-to mais confiável do que a navegação visual. Comece por Beta Comae (mag. 4,3) e ande cerca de 2,6° para oeste (Bakich). Se o seu telescópio go-to não tiver "Abell 1656" no banco de dados, aponte diretamente para "NGC 4889" ou "NGC 4874" — qualquer uma das duas leva ao coração do aglomerado (Bakich).

Carta de localização de NGC 4889: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

NGC 4889 fica em declinação +27°59′, a mesma região do Aglomerado de Coma e das galáxias vizinhas deste lote de guias. Do Rio de Janeiro (latitude −23°), ela sobe no máximo a cerca de 39° de altura no meridiano — uma altura moderada, viável em noites de bom horizonte ao norte, mas exigindo céu escuro e transparente por causa do brilho baixo do alvo. A galáxia culmina no início da noite em torno de abril, o período mais favorável para observá-la.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da galáxia pelo céu nesta noite.

Altura de NGC 4889 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de março a maio. O objeto chega a 39° à meia-noite em abril.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ6 abr · 39°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de março a maio (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 39° em 6 de abril.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -28°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · -28° ENE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
16 mag 11,5
Enquadramento
23 ocupa 6 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -37° — 65°
20:00 -44° — 65°
20:30 -51° — 66°
21:00 -57° — 66°
21:30 -64° — 66°
22:00 -71° — 66°
22:30 -77° — 66°
23:00 -83° — 67°
23:30 -85° — 67°
00:00 -80° — 67°
00:30 -74° — 67°
01:00 -68° — 67°
01:30 -61° — 68°
02:00 -54° — 68°
02:30 -48° — 68°
03:00 -41° — 68°
03:30 -35° — 68°
04:00 -28° — 69°
Altura de NGC 4889 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com -28°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · -28°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível: magnitude 11 está muito abaixo do limite do olho.
Binóculo Fora de alcance na prática: a galáxia é pequena e fraca demais para binóculos comuns.
Telescópio de 150 a 250 mm Um brilho oval discreto, cerca de 50% mais longo que largo, com o centro mais brilhante; cuidado para não confundir com a estrela SAO 82595, a 9′ a noroeste (Bakich).
Telescópio de 300 mm ou mais Mais abertura não revela muito mais detalhe na própria NGC 4889 — ela continua um borrão oval —, mas mostra outras manchas de galáxias companheiras na área, um lembrete de que você está olhando para o coração de um aglomerado inteiro (Bakich; Mobberley).

Expectativa honesta: NGC 4889 não é um objeto de "uau" visual — é um objeto de contexto. O valor está em saber que aquele brilho oval modesto é uma galáxia várias vezes maior que a nossa, a 300 milhões de anos-luz, cercada por centenas de outras, quase todas fracas demais para o olho, mas ao alcance de uma boa fotografia.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Não há uma fonte específica de astrofotografia (Kier) para este alvo nos livros consultados (marcado nas pendências). Mobberley descreve um campo de CCD de meio grau (30′) ao redor de NGC 4889 revelando uma dúzia de galáxias companheiras — esse é um bom ponto de partida para o enquadramento. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (66′ × 45′, calculado a partir do sensor e da focal): folgado o bastante para cobrir a região central mais densa do Aglomerado de Coma, incluindo NGC 4889, NGC 4874 e boa parte do cortejo de galáxias menores.

Desafios do alvo

  • Objeto pequeno em campo denso. A própria NGC 4889 é pequena (3′); o interesse fotográfico está em capturar o máximo de galáxias de fundo possível, o que pede um céu bem escuro e tempo de exposição total generoso.
  • Galáxias de fundo muito fracas. A maioria dos membros do aglomerado tem magnitude 13 ou mais fraca; sob Bortle 7, como no Rio de Janeiro, elas se perdem facilmente no fundo do céu.
  • Sem cor forte. Como a maioria são elípticas ou lenticulares sem gás, a imagem é dominada por tons neutros de branco e amarelo — o interesse está na quantidade de galáxias reveladas, não na cor.

Equipamento e filtros

Prefira luminância clara com boa relação sinal-ruído: como não há linhas de emissão fortes neste campo, filtros de banda estreita não ajudam. Um filtro de poluição luminosa de banda larga pode ajudar sob céu urbano a reduzir o brilho de fundo e revelar mais galáxias fracas.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 80 a 120 180 a 300 s Revelar o máximo de galáxias fracas do aglomerado
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, sem fonte bibliográfica específica para este objeto — ajuste-os ao seu equipamento e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) cobre boa parte da região central do Aglomerado de Coma, incluindo NGC 4889 e NGC 4874. É um dos alvos mais interessantes para quem gosta de "caça a galáxias": mesmo um smart telescope, com tempo de empilhamento suficiente, revela dezenas de manchas no mesmo campo. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

NGC 4889 não é bonita no sentido tradicional, mas é profunda no sentido literal: cada fóton que chega até o seu telescópio viajou 300 milhões de anos para chegar aqui, atravessando um aglomerado de quase mil galáxias. É um objeto para observar com esse contexto em mente, de preferência na mesma sessão que suas vizinhas mais generosas, como a espiral NGC 4559 e a Galáxia da Agulha, NGC 4565, ou o aglomerado aberto Melotte 111, todos na mesma constelação.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objetos nº 320-321 (Abell 1656, Aglomerado de Coma; NGC 4889 / Caldwell 35).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 35, p. 95-98.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, magnitude, tipo morfológico, dimensões e velocidade radial de NGC 4889, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.