setembro 21, 2026
NGC 6302 (Caldwell 69), a Nebulosa da Borboleta: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Entre as planetárias, poucas têm um retrato tão espetacular e um aspecto ao ocular tão modesto quanto a NGC 6302. Nas fotografias, ela é uma borboleta rosada de asas simétricas e bordas nítidas, pousada num fogo de artifício; ao ocular, mesmo em um bom telescópio de quintal, é uma faixa cinzenta e alongada. Mobberley a define assim: uma nebulosa negligenciada, que só ganhou fama depois que Patrick Moore a incluiu na lista Caldwell e que o Hubble a fotografou. Para nós, no hemisfério sul, é um privilégio: em Escorpião, no inverno, ela passa a cerca de 76° de altura no Rio de Janeiro, enquanto do hemisfério norte só se vê baixa no horizonte. Este guia reúne os dados, o mapa, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.
Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, ainda em rascunho. As fontes estão no final; as divergências aparecem como pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma nebulosa planetária bipolar
Uma nebulosa planetária é o envoltório de gás expelido por uma estrela de massa parecida com a do Sol no fim da vida; o núcleo, uma anã branca muito quente, ilumina o gás. O nome vem de William Herschel, que achou que alguns desses discos lembravam planetas (Mourão; Moore e Rees). Muitas são aproximadamente esféricas ou em anel, como a Nebulosa do Anel (M57). A NGC 6302 é do tipo bipolar: o gás foi lançado em duas direções opostas, e um disco de poeira em torno da estrela, visto de lado, esconde o centro e dá a forma de duas asas ou de um inseto.
A Borboleta em números. A luz total é de magnitude 9,5 a 9,6 (Mobberley; Bakich), com um brilho superficial de 18 magnitudes por segundo de arco quadrado (Mobberley). Bakich a considera uma das planetárias mais brilhantes e massivas que se conhecem. O tamanho depende de quanto se conta: 85″ × 25″ em Mobberley, 50″ em Bakich e cerca de 28″ no SIMBAD (só o núcleo, provavelmente). A estrela central é uma das mais quentes: cerca de 250.000 °C (Mobberley) ou mais de 200.000 K (Monks). Ela está oculta pela poeira, que a escurece em até cinco magnitudes, e Bakich recomenda não procurá-la.
Distância e idade. As fontes dão de 3.400 anos-luz (Monks) a 5.000 (Mobberley), e o SIMBAD não traz paralaxe. Por isso este guia não fixa um número: use "de 3.400 a 5.000 anos-luz". Mobberley e Monks concordam em cerca de 2 anos-luz de comprimento total, e Mobberley dá idade de cerca de 10.000 anos.
Nomes e descoberta. É chamada de Nebulosa da Borboleta ou do Inseto (em inglês, Bug Nebula), e Mobberley registra a descoberta por E. E. Barnard, em 1883. É o objeto 69 da lista Caldwell.
O que o Hubble mostrou. Uma imagem de 2004 do centro, onde as asas se encontram, revelou que a poeira externa contém hidrocarbonetos, carbonatos como a calcita, gelo de água e ferro (Mobberley). O disco de poeira que cerca a estrela fica quase de perfil.
Estruturas notáveis
- As asas. Dois lobos simétricos, um a leste e outro a oeste, de bordas nítidas nas imagens longas (Mobberley). Ao ocular, o lobo oeste tem uma ponta afilada e o leste, um "braço" mais tênue (Bakich).
- O toro de poeira. Quase de perfil, esconde a estrela central e separa as duas asas.
- A cor. Rosa ou vermelha nas fotos, por causa do H-alfa; ao ocular, cinza.
- O "fogo de artifício". Fora do centro, a nebulosa se estende para o oeste como uma haste com restos brilhantes (Mobberley); imagens em céu enevoado mostram menos das asas e mais dessa parte.
Como localizar
A NGC 6302 fica a cerca de 4° a oeste de Shaula, a estrela do ferrão do Escorpião (lambda Scorpii, magnitude 1,6): é só deslizar o telescópio para oeste (Mobberley; Bakich, 3,9°). Como o campo de estrelas é rico (a região é próxima da Via Láctea), confirme a posição com uma carta de campo largo antes de aumentar. Veja também o guia da constelação de Escorpião.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de −37°, a Borboleta culmina a cerca de 76° de altura no Rio de Janeiro (cálculo a partir da declinação; confira no gráfico), ao sul do zênite. A melhor época vai de maio a agosto (Mobberley), quando Escorpião está alto de madrugada, no inverno. Do Kitt Peak, no Arizona (latitude 37,9° N), ela chega a só 15° de altura, o que ajuda a explicar por que foi tão pouco observada (Mobberley).
Como ela passa ao sul do zênite, você observa de frente para o sul: o norte fica para cima e o leste, à esquerda, como nas cartas comuns.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da Borboleta pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 41° WSW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 29 / 100
- Posição no céu
- 31
- Brilho
- 45 mag 9,6
- Enquadramento
- 7 ocupa 2 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 39° | WSW 240° | 24° |
| 20:00 | 33° | WSW 240° | 23° |
| 20:30 | 27° | WSW 239° | 23° |
| 21:00 | 21° | WSW 237° | 23° |
| 21:30 | 15° | SW 236° | 23° |
| 22:00 | 10° | SW 234° | 22° |
| 22:30 | 4° | SW 231° | 22° |
| 23:00 | -1° | — | 22° |
| 23:30 | -6° | — | 22° |
| 00:00 | -11° | — | 21° |
| 00:30 | -16° | — | 21° |
| 01:00 | -19° | — | 21° |
| 01:30 | -23° | — | 21° |
| 02:00 | -26° | — | 21° |
| 02:30 | -28° | — | 20° |
| 03:00 | -29° | — | 20° |
| 03:30 | -30° | — | 20° |
| 04:00 | -30° | — | 20° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Fora do alcance. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Praticamente nada em Bortle 7: uma estrela fora do foco no campo rico de Escorpião. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Bakich, com 150 mm em baixo aumento, vê algo como uma galáxia brilhante, quatro vezes mais longa que larga, no sentido leste-oeste. Mobberley indica 15 cm ou mais em aumento alto. |
| Telescópio de 200 mm | Acima de 150 aumentos, Bakich nota o lobo oeste com a ponta afilada e o "braço" tênue no leste. Os filtros UHC e OIII ajudam (Mobberley). |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Mais contraste entre os lobos, mas mesmo num bom telescópio de quintal, segundo Mobberley, é uma longa faixa cinzenta; a borboleta rosada das fotos não aparece. |
Expectativa honesta: a Borboleta é um alvo para quem entende o que está olhando. Uma faixa cinzenta, com uma ponta mais nítida a oeste, é o resultado normal. O céu do Rio, em Bortle 7, permite vê-la com telescópio de 150 mm, mas as asas exigem céu escuro e abertura maior. Em contrapartida, ela está alta e, no inverno, longe da luz do horizonte.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com o comprimento em torno de 1′ e um brilho superficial razoável, ela pede uma focal longa. Com um telescópio de 1.000 mm e um sensor de 19 × 13 mm, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° e a nebulosa ocupa cerca de 2% do quadro (cálculo a partir do sensor e da focal); com 2.000 mm, o recorte melhora. Mobberley recomenda escala de menos de 1″ por pixel e diz que as melhores imagens amadoras mostram a borboleta com asas simétricas e bordas nítidas.
Desafios do alvo
- Alvo pequeno. O seeing limita o detalhe das asas; muitos quadros curtos e rejeição dos ruins.
- Céu enevoado. Mobberley observa que, com névoa ou atmosfera turva, as imagens mostram menos das asas e mais do "fogo de artifício"; vale esperar noite limpa.
- Fundo de estrelas. A região é rica, o que exige cuidado no processamento para não competir com a nebulosa.
- Cores. Vermelho intenso (H-alfa) e azul-esverdeado (OIII) em regiões diferentes.
Equipamento e filtros
Câmera colorida com filtro dual-band ou monocromática com H-alfa e OIII. Como o objeto é alto e brilhante, uma luminância em H-alfa é uma boa base, com cor a partir de OIII e RGB. Fotografe perto do meridiano, quando a altura é máxima.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (dual-band ou RGB) | 100 a 200 | 60 a 120 s | Asas e "fogo de artifício"; muitos quadros para rejeitar os borrados |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
Num smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°, escala de cerca de 2,4″ por pixel), a Borboleta ocupa algumas dezenas de pixels: aparece a forma alongada e a cor rosada, mas não as asas finas. Vale a pena, pela cor e pela facilidade de achar. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Borboleta mostra uma lição do céu do sul: nem sempre o que é espetacular na foto é espetacular no ocular, e o valor do objeto está em entender o que se olha. Para o Rio de Janeiro, ela é alta e bem posicionada no inverno, e uma boa companheira para uma noite de Escorpião. Depois dela, combine com outras planetárias mais generosas, como a Nebulosa do Anel (M57) e a Hélice (NGC 7293), e com o guia da constelação de Escorpião.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 464 (NGC 6302).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 69, p. 146-147.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. Planetárias do verão e NGC 6302, p. 151-152 (conferir).
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Nebulosas planetárias.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "planetária, nebulosa" (p. 561).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e dimensões de NGC 6302, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.