setembro 21, 2026
IC 2944 (Caldwell 100), a Nebulosa da Galinha Correndo: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Há objetos que valem mais pela história do que pelo que se vê, e o Caldwell 100 é o exemplo maior. Mobberley resume a situação assim: "Loads to image, but less to see", ou seja, é muito melhor para fotografar do que para observar. Sobre ele há uma confusão de designações que dura décadas, com um possível erro de digitação de Patrick Moore no meio, e o resultado é que o nome IC 2944 (ou "Galinha Correndo", o "Running Chicken") aparece no site para uma região que os livros descrevem como o aglomerado Collinder 249 dentro da nebulosa IC 2948, perto da estrela Lambda Centauri. Este guia explica a confusão, diz o que dá para ver do Rio de Janeiro e propõe uma estratégia de captura.
Texto em revisão. Este é um dos guias de teste do novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o mistério do Caldwell 100
Qual é o objeto? Mobberley resume o debate: o Caldwell 100 parece ser uma combinação de um erro de digitação de Moore (trocando as letras gregas gama e lambda) e a confusão entre IC 2944, IC 2948 e Collinder 249. A opinião da maioria é que o C100 é Collinder 249, o aglomerado aberto meio grau a sudeste de Lambda Centauri (magnitude 3,1), somado a boa parte da região em volta e à nebulosidade. Catálogos de estrelas e programas de planetário parecem perdidos quanto ao que cada designação significa (Mobberley). O Bakich segue a mesma linha: descreve o Collinder 249, o "aglomerado de Lambda Centauri", e diz que a região inclui a nebulosa de emissão IC 2944, chamada Frango Corredor.
Os números. O Mobberley dá magnitude 2,9 e tamanho de 65′ × 40′, mas avisa que esse valor inclui uma enorme quantidade de nebulosidade e não se aplica ao aglomerado em si. O catálogo do site traz magnitude 4,5 e 7,2′, e o Bakich cita fontes com magnitude 4,8 e um oval de cerca de 1°. Como cada valor mede uma coisa diferente (aglomerado, nebulosa ou o conjunto), o texto usa "de 3 a 5" para o brilho total. A paralaxe do SIMBAD para Collinder 249 (0,387 milissegundo de arco) dá cerca de 8.400 anos-luz; Mobberley e Bakich trazem 6.000 e 5.900. O aglomerado mede 18′ no SIMBAD, cerca de 45 anos-luz a essa distância (calculado). A idade é de cerca de 7 milhões de anos (Mobberley).
O aglomerado. É uma faixa de meio grau de noroeste a sudeste, centrada na estrela V871 Centauri, de magnitude 6,5. Tem meia dúzia de estrelas de sétima e oitava magnitudes e, ao todo, mais de uma dúzia de estrelas até a magnitude 9; além disso, as estrelas mais fracas se misturam ao fundo (Mobberley).
A nebulosa. Segundo Mobberley, o aglomerado está imerso na nebulosa IC 2948. O Bakich descreve IC 2944 como a região HII principal e diz que IC 2948, maior e mais tênue, fica cerca de 12′ a sudeste dela. O Bakich menciona também os Glóbulos de Thackeray, nuvens densas e opacas descobertas em 1950 pelo sul-africano Andrew David Thackeray, que aparecem como sombras contra a nebulosa e são desgastadas pela radiação ultravioleta das estrelas jovens. Segundo o mesmo autor, eles não são vistos visualmente.
Estruturas notáveis
- Lambda Centauri. A estrela de magnitude 3,1 que serve de referência e de ponto de partida (Mobberley).
- O aglomerado em faixa. Um traço de meio grau, com V871 Centauri no centro, visível como um grupo de estrelas de 7ª a 9ª magnitude.
- A nebulosa em volta. IC 2948 e IC 2944, com brilho difuso que só aparece em fotografias em H-alfa ou com telescópio e filtro em céu escuro.
- Os glóbulos de Thackeray. Pequenas nuvens escuras em silhueta contra a nebulosa, alvo de fotografia com telescópio grande, não de observação visual (Bakich).
- O vizinho NGC 3766. O Caldwell 97, um aglomerado aberto a cerca de 2° ao norte (Mobberley).
Como localizar
O ponto de partida é Lambda Centauri, de magnitude 3,1, em Centauro, a oeste da Cruz do Sul. O aglomerado fica imediatamente a sudeste da estrela (Mobberley), e a rota mais simples é usá-la também para chegar ao NGC 3766, a cerca de 2° ao norte.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de −63°, o objeto culmina a cerca de 50° de altura no Rio de Janeiro. Mobberley o dá como circumpolar abaixo de 27°S; em −23° ele não é: na passagem inferior fica poucos graus abaixo do horizonte por um breve período. A melhor época, segundo Mobberley, é de março a junho, com a culminação à meia-noite por volta de meados de março.
Olhando para o sul, o norte fica para baixo e o leste, à esquerda; a orientação no ocular depende do instrumento.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho do objeto pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 20°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · 21° SSE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 100 mag 4,5
- Enquadramento
- 64 ocupa 16 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 1° | SSW 196° | 55° |
| 20:00 | -1° | — | 55° |
| 20:30 | -2° | — | 55° |
| 21:00 | -3° | — | 55° |
| 21:30 | -4° | — | 55° |
| 22:00 | -4° | — | 55° |
| 22:30 | -4° | — | 55° |
| 23:00 | -3° | — | 56° |
| 23:30 | -2° | — | 56° |
| 00:00 | -1° | — | 56° |
| 00:30 | 1° | SSE 164° | 56° |
| 01:00 | 3° | SSE 161° | 56° |
| 01:30 | 6° | SSE 159° | 56° |
| 02:00 | 8° | SSE 157° | 56° |
| 02:30 | 11° | SSE 155° | 56° |
| 03:00 | 14° | SSE 153° | 56° |
| 03:30 | 17° | SSE 152° | 56° |
| 04:00 | 21° | SSE 151° | 56° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Lambda Centauri (magnitude 3,1) e um brilho fraco ao lado; não conte com a nebulosa em Bortle 7 (estimativa). |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Um grupo de estrelas próximas de Lambda Centauri; Mobberley considera que "binóculos grandes" bastam para o aglomerado. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Bakich: com 100 mm em céu escuro, vê-se IC 2944 ao redor de Lambda Centauri. O aglomerado mostra meia dúzia de estrelas de 7ª e 8ª e mais de uma dúzia até 9ª (Mobberley). |
| Telescópio de 200 mm ou maior | Bakich: com 200 mm, ocular de baixa ampliação e filtro de nebulosa, a nebulosa fica "brilhante". Os glóbulos de Thackeray não aparecem visualmente. |
Expectativa honesta: Mobberley admite que o C100 é bastante decepcionante visualmente, apesar do prestígio do número Caldwell. No Rio, com Bortle 7, aposte no aglomerado de estrelas e na estrela Lambda Centauri, e deixe a nebulosa para a câmera. A vantagem: o alvo é alto e não exige filtro.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Mobberley sugere um campo de cerca de 1° com Lambda Centauri perto do canto noroeste, para registrar a nebulosa, especialmente com exposições longas em H-alfa. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera de 19,1 × 13,0 mm, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado), suficiente para esse enquadramento. Uma focal de 500 mm dá cerca de 2,2° × 1,5° e incluiria também o NGC 3766, a 2° ao norte.
Desafios do alvo
- Estrela brilhante no campo. Lambda Centauri, de magnitude 3,1, produz reflexos e halos; Mobberley a deixa perto do canto noroeste do quadro.
- Nebulosa fraca. A nebulosidade é sutil e pede muito tempo de exposição e um filtro de H-alfa ou dual-band.
- Campo estelar denso. A região está na Via Láctea austral, muito rica de estrelas; a redução de estrelas ajuda em pós-processamento.
Equipamento e filtros
Mobberley recomenda o filtro H-alfa para realçar a nebulosidade. Uma câmera colorida com filtro dual-band ou uma câmera mono com H-alfa (e OIII, se quiser) funcionam bem. A imagem de Daniel Verschatse mostrada no livro usou um refrator de 155 mm a f/7,2, câmera CCD e filtro H-alfa de 4,5 nm.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (H-alfa ou dual-band) | 40 a 60 | 180 a 300 s | Nebulosidade em volta do aglomerado |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros. Como referência, a imagem em H-alfa do Mobberley usou 12 exposições de 15 minutos com um refrator de 155 mm a f/7,2 e filtro de 4,5 nm, sob o céu escuro do Chile.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 tem campo de cerca de 1,3° × 0,7°: o aglomerado e parte da nebulosa cabem, mas o brilho baixo pede muito empilhamento e o filtro dual-band do aparelho. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O Caldwell 100 é um objeto para quem gosta de detalhe e de história: o nome, os catálogos e a nebulosa fazem mais sentido do que o que se vê no ocular. Para ver algo bonito no mesmo trecho de céu, comece pela Caixa de Joias e pela Nebulosa de Carina, e volte à Galinha Correndo com uma câmera e um filtro de H-alfa.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 209 (Collinder 249 e IC 2944).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 100, p. 206-207.
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Tabela de nebulosas (IC 2944), p. 346.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e paralaxe de IC 2944 e Collinder 249, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.