setembro 21, 2026
NGC 3115 (Caldwell 53), a Galáxia do Fuso: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Numa constelação apagada e quase sem estrelas, uma faixa de luz surpreendentemente brilhante se destaca: NGC 3115, a Galáxia do Fuso, Caldwell 53. Ela é uma galáxia lenticular, ou seja, tem o grande bojo central de uma elíptica e o disco de uma espiral, mas sem braços, e é vista de perfil, com a forma de uma lentilha, ou de um fuso de tecelagem. Bakich a chama de uma das galáxias mais brilhantes do céu e destaque de Sextante (nº 132); Monks avisa que costuma ser esquecida por causa da localização (p. 75). Do Brasil, ela passa alta no céu de verão e outono, ao contrário dos observadores do norte, que a veem raspando o horizonte. Este guia reúne os dados, os mapas e uma estratégia de observação e de captura.
Texto em revisão. Este é um guia de teste no novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma galáxia lenticular
Edwin Hubble usou as galáxias lenticulares, de tipo S0, para ligar as elípticas mais achatadas às espirais: elas têm um grande bojo central e um disco, mas sem braços (Bakich, nº 132). O nome vem de lentilha, pela forma vista de lado (Monks, p. 250). NGC 3115 é um exemplo brilhante desse tipo, e Bakich diz que ela é considerada protótipo da classe S0.
Distância. O SIMBAD não traz paralaxe para galáxias e a velocidade radial é de cerca de 665 km/s. Os livros divergem: cerca de 20 milhões de anos-luz (Mobberley, p. 116), 25 (Moore, p. 119), 30 (Kambič, p. 454) e 32 (Monks, p. 75). Kambič nota que a distância não foi bem determinada e que, se o valor de 30 milhões estiver certo, a galáxia tem cerca de 35.000 anos-luz de diâmetro, ou seja, é de tamanho médio (p. 454); Mobberley dá cerca de 40.000 anos-luz (p. 116).
Tamanho e brilho. O SIMBAD lista 13,3′ × 5,3′; os livros trazem menos (de 4′ × 1′ a 8′ × 3′), porque o olho e os catálogos ópticos captam só a parte mais brilhante. A magnitude fica perto de 9 (de 8,9 a 9,2). Moore observa que o brilho superficial é mais alto que o de muitas galáxias, e por isso ela suporta bem aumentos maiores (p. 119).
Um objeto peculiar. Monks diz que NGC 3115 parece ter um buraco negro dormente no centro e quase nenhum sinal de formação de estrelas recente (p. 75). Em 1940, o astrônomo holandês Jan Oort a estudou junto com NGC 4494 e concluiu que essas galáxias elípticas também deviam conter grandes quantidades de matéria desconhecida, a chamada matéria escura (Kambič, p. 144).
A supernova de 1935. Mobberley registra a supernova 1935B, descoberta por Samaha em abril de 1935, a cerca de 1′ a noroeste do núcleo (p. 116).
Um nome dividido. Cuidado: o nome "Galáxia do Fuso" também é usado para NGC 5866, uma lenticular no Dragão (Monks, p. 75 e 103).
Estruturas notáveis
- O núcleo intenso. O centro é brilhante e condensado, e é ele que torna a galáxia visível em telescópios pequenos e até em binóculos (Kambič, p. 454; Mobberley, p. 116).
- O bojo em forma de olho. Em telescópios grandes, o bojo aparece com forma de olho (Mobberley, p. 116).
- As extensões finas. O corpo se afina rapidamente nos dois lados, e essa forma é o que dá o nome de "fuso"; não é evidente em céu poluído ou em telescópios pequenos (Monks, p. 75).
- A comparação com NGC 891. Mobberley diz que NGC 3115 parece uma NGC 891 (Caldwell 23) fora de foco (p. 116).
- O halo apagado. Em 300 mm a 300x, aparece um brilho oval fraco em volta do bojo (Bakich, nº 132).
Como localizar
NGC 3115 está em Sextante, entre o Leão e a Hidra. Os livros trazem várias rotas. Mobberley parte de Alphard (Alfa Hydrae): cerca de 9,5° a leste e 1° ao norte, passando por Gama Sextantis (magnitude 5,1) (p. 116). Tonkin descreve a rota a 6° a leste de Alphard até Gama Sextantis, e a galáxia fica cerca de um campo e meio de binóculo mais a leste (p. 234). Bakich diz 3,2° a leste de Gama Sextantis (nº 132). Kambič usa Lambda Hydrae e as estrelas 17 e 18 Sextantis, de magnitude 6, e diz que a galáxia fica pouco mais de 1° a noroeste, com um par de estrelas de magnitude 7 entre elas (p. 453). Para o contexto, veja o guia do Leão.

Quando e como observar
Com declinação de −7,7°, NGC 3115 passa pelo meridiano a quase 75° de altura no Rio, um ângulo muito bom. A culminação à meia-noite ocorre em meados de fevereiro, e a melhor janela vai de janeiro a abril (Bakich sugere fevereiro). Kambič lembra que NGC 3115 é mais difícil de ver em binóculo que M65, no Leão, apesar de ser mais brilhante, porque fica cerca de 20° mais baixa para os observadores do norte e atravessa mais atmosfera; aqui, com a galáxia bem alta, esse argumento joga a nosso favor (p. 453).
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 23°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · 23° E
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 52 mag 9,1
- Enquadramento
- 63 ocupa 16 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -56° | — | 69° |
| 20:00 | -58° | — | 70° |
| 20:30 | -59° | — | 70° |
| 21:00 | -59° | — | 70° |
| 21:30 | -56° | — | 70° |
| 22:00 | -53° | — | 70° |
| 22:30 | -48° | — | 71° |
| 23:00 | -43° | — | 71° |
| 23:30 | -37° | — | 71° |
| 00:00 | -31° | — | 71° |
| 00:30 | -24° | — | 72° |
| 01:00 | -18° | — | 72° |
| 01:30 | -11° | — | 72° |
| 02:00 | -4° | — | 72° |
| 02:30 | 3° | E 97° | 73° |
| 03:00 | 9° | E 95° | 73° |
| 03:30 | 16° | E 92° | 73° |
| 04:00 | 23° | E 89° | 73° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Não é visível. |
| Binóculo (7×50 a 15×70; 100 mm) | Em condições excelentes, com o campo na culminação, uma linha de luz de alguns minutos de arco, com visão desviada (Kambič, p. 453). Um binóculo de 100 mm a 37x mostra uma galáxia cerca de 5 vezes mais longa que larga, no eixo nordeste–sudoeste (Tonkin, p. 234). |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Mobberley indica 15 cm como abertura mínima (p. 116). Com 100 mm, a galáxia parece quatro vezes mais longa que larga, com o centro brilhante (Bakich, nº 132). |
| Telescópio de 200 a 250 mm | Bojo mais nítido, e o núcleo forte; Mobberley recomenda 20 cm ou mais e céu limpo (p. 116). |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Em 300x, o bojo em forma de olho e um brilho oval fraco ao redor (Bakich, nº 132; Mobberley, p. 116). |
Expectativa honesta. É uma das galáxias mais fáceis do Caldwell sul, com aspecto de linha luminosa; não espere braços ou poeira, porque a lenticular quase não tem. Sob Bortle 7, o núcleo é visível, mas as extremidades do fuso se perdem no fundo do céu.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 8′ a 13′ de comprimento, NGC 3115 preenche bem um quadro pequeno. Com um refletor de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75°; a galáxia cabe folgada e deixa espaço para as estrelas de campo, mas em focais de 1.500 a 2.000 mm ela ocupa melhor o quadro. Um bom enquadramento inclina a galáxia na diagonal, na orientação nordeste–sudoeste.
Desafios do alvo
- Alto contraste entre o núcleo e as extremidades. O núcleo é muito brilhante em relação ao disco; é fácil estourar o centro. Trate o brilho em duas etapas.
- Brilho baixo nas pontas. As extensões finas exigem tempo total longo e céu escuro; em Bortle 7, subtraia bem o gradiente do céu.
- Poucas estrelas brilhantes. Sextante é uma constelação pobre, então o campo tem menos âncoras para alinhamento.
Equipamento e filtros
Câmera colorida com filtro anti-poluição luminosa ajuda a segurar o brilho do céu; uma câmera monocromática com luminância e RGB é o caminho mais eficiente. Como a galáxia é quase toda de população estelar velha (avermelhada), a cor é discreta; a luminância é onde estão os dados. Fotografe perto do meridiano, com a galáxia mais alta.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (luminância ou RGB) | 60 a 120 | 120 a 180 s | Galáxia e extensões; o tempo total é o que conta |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
NGC 3115 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), mas fica pequena no quadro. O empilhamento de muitas horas ajuda a revelar as extensões. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Galáxia do Fuso é um bom lembrete de que um objeto pode ser brilhante e mesmo assim negligenciado: os observadores do norte a veem raspando o horizonte, e nós a temos quase sobre a cabeça. Ela é um alvo fácil para quem começa a observar galáxias e um bom exemplo de galáxia lenticular para quem fotografa. Para continuar em galáxias do céu de verão e outono, veja os guias de M65 e M66 (Trio do Leão) e da Galáxia do Sombreiro (M104).
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 132 (NGC 3115).
- COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer. Lista de galáxias e imagens com intensificador, NGC 3115 (página a conferir).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Sextante, NGC 3115, p. 453-454; Oort e a matéria escura, p. 144 (a conferir).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 53, p. 116-117.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 3115, p. 75, 103 e 250.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Sextante e a Galáxia do Fuso, p. 119.
- TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. Sextante, NGC 3115, p. 234.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões e velocidade radial de NGC 3115, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.