setembro 21, 2026
M 97, a Nebulosa da Coruja: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Perto de Merak, uma das duas estrelas "ponteiras" do Grande Carro, existe uma nebulosa planetária com um apelido incomum: a Coruja. William Parsons, o terceiro conde de Rosse, viu em 1848, com seu telescópio gigante de Birr Castle, duas manchas escuras redondas no disco da nebulosa — os "olhos" que deram nome ao objeto. É a mais fraca das quatro nebulosas planetárias do catálogo de Messier, mas também uma das mais estudadas, por causa justamente desses dois olhos intrigantes. Do Rio de Janeiro, M 97 fica baixa, mas não impossível: este guia explica como encontrá-la, o que esperar com diferentes instrumentos e o que a distância dela nos diz sobre o tamanho real da nebulosa.
Texto em revisão. Este artigo segue o novo formato de guia de objeto do site: dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura estão todos aqui. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é uma nebulosa planetária
Uma nebulosa planetária é o envoltório de gás que uma estrela de massa parecida com a do Sol expele nos últimos milhares de anos de vida. O núcleo da estrela, agora uma anã branca muito quente, ilumina o gás e o faz brilhar — um fenômeno passageiro que dura, no máximo, algumas dezenas de milhares de anos. O nome "planetária" é um acidente histórico: William Herschel cunhou o termo em 1784 porque o disco esverdeado de algumas dessas nebulosas lembrava o de um planeta ao telescópio, não porque tenham qualquer relação com planetas de verdade.
M 97 em números. A magnitude integrada é 9,9 (Bakich) — a mais fraca das quatro planetárias do catálogo Messier (M 27, M 57, M 76 e M 97), segundo Coe (Nebulae and How to Observe Them, p. 104-105). A distância, pela paralaxe do SIMBAD (relativamente confiável aqui, com erro de menos de 4%), é de cerca de 2.640 anos-luz. O tamanho aparente é de cerca de 3,3′, o que, a essa distância, corresponde a pouco mais de 2,5 anos-luz de diâmetro real. A estrela central, no meio dos dois "olhos", é muito fraca: magnitude 16 (Coe, p. 105).
Descoberta e nome. M 97 foi descoberta por Pierre Méchain em 16 de fevereiro de 1781. O apelido "Coruja" veio quase 70 anos depois, de William Parsons, terceiro conde de Rosse, em março de 1848: ele descreveu duas regiões circulares escuras no disco, cada uma com menos de 1′, a do noroeste um pouco mais escura que a do sudeste — e a impressão, em seu telescópio de 72 polegadas, era mesmo de um rosto com dois olhos. Rosse às vezes via também indícios de uma estrutura espiral, hoje descartada.
Por que os "olhos"? Uma hipótese é que M 97 seja um toro (uma espécie de rosca ou anel tridimensional) de gás, visto de um ângulo em que suas extremidades mais finas, apontando quase na nossa direção, aparecem como regiões mais escuras — os "olhos" — em vez da estrutura de anel que se veria de frente. É uma explicação amplamente repetida em fontes de divulgação; não foi possível confirmá-la com uma fonte técnica dedicada entre os livros consultados.
Estruturas notáveis
- Os dois "olhos". Regiões circulares escuras no disco, cada uma com menos de 1′ de diâmetro, mais nítidas com filtro e aberturas de 250 mm (10 polegadas) ou mais; a diferença de tamanho entre elas já é perceptível nesse porte de instrumento (Bakich).
- O disco principal. Um círculo de baixo brilho superficial que exige paciência e visão escura adaptada; em céu bem escuro, os 10% mais externos do disco aparecem como um anel ainda mais fraco ao redor do núcleo (Bakich).
- A estrela central. De magnitude 16, fica entre os dois olhos e é um alvo só para telescópios grandes e céu excelente (Bakich; Coe).
Como localizar
M 97 fica cerca de 2,3° a sudeste de Merak (Beta Ursae Majoris, magnitude 2,3), uma das duas estrelas "ponteiras" do Grande Carro que apontam para a Estrela Polar (Bakich). É um dos saltos mais diretos do céu, já que Merak é fácil de reconhecer a olho nu em qualquer condição.

Quando e como observar
Com declinação de +55°02′ e ascensão reta de cerca de 11h15m, M 97 culmina no início da noite entre fevereiro e abril. Machholz a lista entre os alvos "do norte alto" da Maratona Messier, junto com M 81, M 82, M 108 e M 109 — todos exigindo latitudes mais ao norte para uma boa observação (Machholz, The Observing Guide to the Messier Marathon, p. 139).
Os gráficos abaixo mostram a altura do objeto ao longo do ano e nesta noite, calculados para o local do observatório do site (Rio de Janeiro).
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -16°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -16° NE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 40 mag 9,9
- Enquadramento
- 32 ocupa 8 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -50° | — | 89° |
| 20:00 | -53° | — | 89° |
| 20:30 | -55° | — | 89° |
| 21:00 | -57° | — | 89° |
| 21:30 | -58° | — | 90° |
| 22:00 | -58° | — | 90° |
| 22:30 | -57° | — | 90° |
| 23:00 | -55° | — | 90° |
| 23:30 | -52° | — | 90° |
| 00:00 | -49° | — | 91° |
| 00:30 | -45° | — | 91° |
| 01:00 | -42° | — | 91° |
| 01:30 | -37° | — | 91° |
| 02:00 | -33° | — | 91° |
| 02:30 | -29° | — | 91° |
| 03:00 | -25° | — | 92° |
| 03:30 | -20° | — | 92° |
| 04:00 | -16° | — | 92° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
E do Rio de Janeiro?
A altura máxima ao cruzar o meridiano é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto. No Rio (latitude −23°): 90° − |−23° − 55,02°| = 90° − 78,02° ≈ 12° acima do horizonte norte no ponto mais alto. É baixo, mas tecnicamente observável: com um telescópio de 200 mm ou mais, filtro OIII, horizonte norte bem livre e o objeto o mais próximo possível do meridiano (fevereiro a abril, no início da noite), é possível notar o disco da nebulosa, embora os famosos "olhos" — que já exigem aberturas de 250 mm mesmo em condições ideais — sejam um desafio adicional a essa altura. Em Bortle 7, a 12° de altura, conte com contraste reduzido pela extinção atmosférica e pela poluição luminosa concentrada perto do horizonte.
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Impossível: a magnitude 9,9 está bem abaixo do limite visual mesmo em céu perfeito. |
| Binóculo (10×50 a 15×70) | Muito difícil mesmo em céu excelente; a 12° de altura em Bortle 7, não é um alvo realista de binóculo. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Coe descreve a nebulosa como fraca e lisa, sem detalhe interno visível nessa abertura (p. 104-105); um filtro OIII ou UHC ajuda a destacá-la do fundo do céu. |
| Telescópio de 250 mm (10 pol.) ou mais | Bakich recomenda filtro OIII e cerca de 100x; com essa abertura já se nota a diferença de tamanho entre os dois "olhos". Coe, com um telescópio de 18 polegadas a 165x e filtro UHC, descreve os olhos "aparecendo e sumindo" conforme a visão se adapta — e cita ganho de cerca de 50% em visibilidade com UHC ou OIII (p. 105). |
Expectativa honesta: mesmo para quem observa de latitudes onde M 97 está bem alta, ela é reconhecidamente a mais fraca das planetárias Messier e exige paciência. Do Rio, a essa soma-se a altura baixa — é um alvo de "com o equipamento certo e a noite certa", não de observação casual.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Kier fotografa M 97 emparelhada com a galáxia vizinha M 108, que fica cerca de 0,7° a noroeste, num campo de 75′ × 50′ (Kier, The 100 Best Targets for Astrophotography, "April 24: Owl Nebula M97 with Galaxy M108", p. 96-97). Essa combinação aproveita bem um campo largo; para uma imagem só da nebulosa, um campo de 20′ a 30′ já é suficiente, dado o tamanho pequeno dela (cerca de 3′).
Desafios do alvo
- Brilho superficial baixo e difuso. Kier observa que as imagens amadoras de maior resolução não mostram muito mais detalhe do que uma exposição mais simples, já que as camadas de gás são difusas e mal definidas — tempo total de exposição importa mais do que resolução aqui.
- Baixa altura no Rio. A 12° de altura, a imagem sofre com seeing pior e mais extinção atmosférica.
- Os "olhos" são sutis. Revelar a diferença de brilho entre as duas regiões escuras do disco exige processamento cuidadoso de contraste local, sem estourar o núcleo.
Equipamento e filtros
Kier considera M 97 um bom alvo para câmera colorida de um disparo, RGB ou LRGB, já que o campo largo junto com M 108 concentra a luz de ambos os objetos, de magnitude 10, sobre poucos pixels — o que dispensa exposições excessivamente longas (Kier, p. 96). Um filtro OIII ou dual-band pode ajudar a isolar o sinal da nebulosa do céu de fundo, especialmente relevante na baixa altura do Rio.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB, OSC ou dual-band) | 50 a 80 | 180 a 300 s | Disco da nebulosa e, se enquadrada, a galáxia M 108 |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste ao seu equipamento e à altura real do objeto na sua sessão.
Smart telescopes e campo de visão
M 97 cabe com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), que também pode incluir a galáxia M 108 no mesmo quadro. O brilho baixo pede muitas horas de empilhamento e, se disponível, o filtro dual-band do próprio aparelho. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 97 recompensa quem tem paciência e o equipamento certo: é fraca, mas guarda um dos apelidos mais charmosos do catálogo de Messier e uma história de descoberta visual (os "olhos" de Lord Rosse) que atravessou quase dois séculos. Do Rio, ela está no limite do razoável — baixa, mas não descartável para uma noite excepcional. Para completar a visita a essa região do céu, veja também o guia de M 40, a dupla estelar vizinha em Ursa Maior, ou as galáxias M 81 (Galáxia de Bode) e M 82 (Galáxia do Charuto).
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer. Objeto nº 186 (M97, NGC 3587, Nebulosa da Coruja).
- COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. Springer (Astronomers' Observing Guides), 2007. M 97, p. 104-105.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. Springer (Practical Astronomy Series). "April 24: Owl Nebula M97 with Galaxy M108", p. 96-97.
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. Springer (Astronomers' Observing Guides). M97 (NGC 3587), p. 139.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 97, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.