setembro 21, 2026
M 40, a dupla estelar que entrou no catálogo por engano: guia honesto de observação

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Nem todo objeto do catálogo de Messier é uma nebulosa, um aglomerado ou uma galáxia. M 40 é a prova: um par comum de estrelas em Ursa Maior, sem gás, sem idade compartilhada conhecida, sem nada de especial a olho nu além de duas luzes amareladas lado a lado. A razão de estar na lista é uma curiosidade histórica, não astronômica — e é sobre essa história, mais do que sobre o "objeto" em si, que vale a pena falar. Este guia é deliberadamente honesto: M 40 não é um alvo espetacular, e prometer o contrário seria enganar quem for observá-lo.
Texto em revisão. Este artigo segue o novo formato de guia de objeto do site: dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura estão todos aqui. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: como uma dupla de estrelas parou no catálogo Messier
Charles Messier compilou seu catálogo, entre 1758 e 1782, para ajudar caçadores de cometas a não confundir objetos difusos fixos com cometas de verdade. A maior parte das 110 entradas são mesmo nebulosas, aglomerados e galáxias — mas M 40 é uma exceção conhecida: o próprio Bakich chama a entrada de "a mais incomum do catálogo de Messier: uma dupla larga, sem grande interesse" (Bakich, objeto #246). A explicação mais repetida sobre sua origem é que Messier estava conferindo um relato do astrônomo polonês Johannes Hevelius sobre uma suposta nebulosa naquela posição do céu; ao não encontrar nenhuma nebulosidade, registrou as duas estrelas que via ali, para o caso de alguém mais tarde cometer o mesmo engano de Hevelius. Essa é uma explicação de conhecimento geral sobre a história do catálogo, não uma citação direta de um dos livros consultados para este guia — vale confirmar em uma fonte biográfica dedicada a Messier antes de tratá-la como definitiva.
M 40 em números. As duas estrelas têm magnitude 9,0 e 9,6 (Bakich) — ou 8,7 de brilho combinado, segundo o atlas de Don Machholz (The Observing Guide to the Messier Marathon, p. 125). A separação entre elas é de cerca de 53″ (Bakich) a 1′ (Machholz), larga o bastante para ser resolvida com um telescópio pequeno em ampliação baixa, ou até com um binóculo bom em condições favoráveis. O SIMBAD não tem uma paralaxe cadastrada para "M 40" como objeto único — sinal de que ele não é tratado como um sistema físico coerente e catalogado da mesma forma que uma estrela dupla verdadeira, mas sim como duas fontes distintas próximas no céu.
Um sistema físico ou uma coincidência? Não foi possível confirmar, nas fontes consultadas para este guia, se as duas estrelas de M 40 (também chamado Winnecke 4, pelo nome do astrônomo alemão Friedrich August Theodor Winnecke, que o redescobriu de forma independente em 1863) formam de fato um par gravitacionalmente ligado ou apenas duas estrelas sem relação física que, por acaso, aparecem próximas na nossa linha de visão. Catálogos especializados em estrelas duplas, como o Washington Double Star Catalog, teriam essa resposta com mais precisão — é um ponto de verificação futura para este guia.
Estruturas notáveis
Como M 40 não é um objeto difuso, não há "estruturas" no sentido de nebulosidade ou concentração de estrelas — apenas as duas componentes da dupla:
- A estrela primária. Magnitude 9,0 (Bakich), descrita como de cor amarelo-clara.
- A estrela secundária. Magnitude 9,6 (Bakich), de cor amarelo-escura, quase alaranjada — um contraste de cor sutil, mas perceptível, entre as duas.
- A separação. Cerca de 53″ a 1′, larga o bastante para resolver as duas estrelas com facilidade em telescópios pequenos e ampliações modestas — não é um teste de resolução óptica, ao contrário de muitas duplas mais fechadas.
Como localizar
M 40 fica em Ursa Maior, perto de Megrez (Delta Ursae Majoris), a estrela que liga o "cabo" à "concha" do Grande Carro. Bakich indica cerca de 1,4° a nordeste de Megrez (Bakich, objeto #246); Machholz descreve um salto semelhante, de cerca de 1° ao norte e 1° a leste da mesma estrela (Machholz, p. 125). Como Megrez é fácil de reconhecer a olho nu, esse é um dos poucos objetos Messier que dá para localizar quase sem carta, com um binóculo de campo médio.

Quando e como observar
Com declinação de +58°05′ e ascensão reta de cerca de 12h22m, M 40 culmina no início da noite entre março e abril para quem observa do hemisfério norte, onde a proximidade com o Grande Carro o torna fácil de encontrar durante boa parte do ano, já que essa região do céu é circumpolar em muitas latitudes.
Os gráficos abaixo mostram a altura do objeto ao longo do ano e nesta noite, calculados para o local do observatório do site (Rio de Janeiro) — onde, como a seção abaixo explica, o objeto fica baixíssimo.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -26°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -26° NE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 69 mag 8,0
- Enquadramento
- 50 (sem tamanho cadastrado)
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -40° | — | 85° |
| 20:00 | -44° | — | 85° |
| 20:30 | -47° | — | 85° |
| 21:00 | -50° | — | 86° |
| 21:30 | -52° | — | 86° |
| 22:00 | -54° | — | 86° |
| 22:30 | -55° | — | 86° |
| 23:00 | -55° | — | 86° |
| 23:30 | -54° | — | 86° |
| 00:00 | -53° | — | 86° |
| 00:30 | -51° | — | 87° |
| 01:00 | -48° | — | 87° |
| 01:30 | -45° | — | 87° |
| 02:00 | -41° | — | 87° |
| 02:30 | -38° | — | 87° |
| 03:00 | -34° | — | 87° |
| 03:30 | -30° | — | 88° |
| 04:00 | -26° | — | 88° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
E do Rio de Janeiro?
A altura máxima ao cruzar o meridiano é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto. No Rio (latitude −23°): 90° − |−23° − 58,08°| = 90° − 81,08° ≈ 9° acima do horizonte norte no ponto mais alto. Essa altura está à beira do impossível em qualquer céu urbano real: mesmo num horizonte norte perfeitamente livre, a 9° de altura a extinção atmosférica e a poluição luminosa concentrada perto do solo tornam a separação de duas estrelas de magnitude 9 uma tarefa muito difícil em Bortle 7. Dado que M 40 já não é, por si, um objeto visualmente notável, não há muito motivo prático para insistir nele a partir do Rio — mas, para quem gosta de "fechar a lista Messier" e tiver acesso a um observatório mais ao norte do Brasil (ainda assim, com pouco ganho de altura) ou de viagem, ele é fácil de confirmar com um telescópio pequeno.
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Impossível — mesmo em céu perfeito, magnitude 9 está bem abaixo do limite visual. |
| Binóculo (10×50 ou mais) | Em céu escuro e com boa estabilidade de mão (ou apoio), talvez seja possível notar as duas estrelas separadas, dada a separação larga de cerca de 1′; não é garantido. |
| Telescópio pequeno (60 a 100 mm) | Resolve as duas estrelas com facilidade, mesmo em ampliação baixa — a separação de quase 1′ não exige alta resolução. A cor amarelada de ambas, uma um pouco mais alaranjada, é o único "detalhe" a notar. |
| Telescópio maior | Não agrega nada de especial: M 40 não ganha estrutura ou cor adicional com mais abertura, já que é apenas um par de pontos de luz. |
Expectativa honesta: M 40 não é bonito, não é raro e não tem nada de opticamente desafiador. O interesse dele é puramente histórico — é uma curiosidade sobre como o catálogo de Messier foi montado, não um destino observacional. Vale visitá-lo uma vez, para dizer que já viu todos os 110 objetos Messier, e seguir em frente.
Astrofotografia: estratégia de captura
Sendo honesto: M 40 não é um alvo fotográfico interessante por si só. Não há gás, nebulosidade ou estrutura para revelar — apenas duas estrelas pontuais. A única razão para fotografá-lo é o completismo de quem está documentando o catálogo Messier inteiro.
Enquadramento
Um campo estreito, de 10′ a 20′, é suficiente para enquadrar as duas estrelas com alguma margem de contexto. Não há necessidade de campo largo, já que não existe nebulosidade ao redor para capturar.
Desafios do alvo
- Baixa altura no Rio. A 9° de altura no ponto mais alto, a imagem sofre de refração atmosférica forte, o que pode até distorcer levemente a forma das estrelas e suas cores.
- Ausência de sinal difuso. Não há filtro ou tempo de exposição que "revele" algo além do que já se vê: são só duas estrelas.
Equipamento e filtros
Uma câmera colorida de um disparo (OSC), sem filtros especiais, é suficiente — o objetivo é apenas registrar as duas estrelas com suas cores reais. Não há motivo para banda estreita ou filtro dual-band.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou OSC) | 10 a 20 | 30 a 60 s | Registro das duas estrelas com cor |
| Dark | 10 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 10 | automática | Correção de vinheta |
| Bias | 20 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida modesto, adequado ao pouco que M 40 tem a oferecer fotograficamente; não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
M 40 é fácil de enquadrar em qualquer smart telescope, dado seu tamanho angular pequeno; o campo de um Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), por exemplo, sobra bastante ao redor das duas estrelas. O ganho de usar um smart telescope aqui é mais de conveniência (confirmar a captura para a lista Messier) do que de qualidade de imagem, já que não há detalhe adicional a extrair. Veja o campo sobre o objeto no mapa abaixo.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 40 é o lembrete de que nem todo objeto famoso é espetacular — às vezes, o valor está na história, não na vista ao telescópio. Ele também ilustra bem os limites geográficos deste site: com declinação de +58°, mal sobe 9° no Rio de Janeiro, e mesmo quem tiver paciência para observá-lo vai encontrar duas estrelas comuns, nada mais. Para quem está na mesma região do céu (Ursa Maior) em busca de algo mais recompensador, veja o guia de M 97, a Nebulosa da Coruja, também baixa no Rio mas com bem mais a oferecer, ou as galáxias M 81 (Galáxia de Bode) e M 82 (Galáxia do Charuto), vizinhas de Ursa Maior.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer. Objeto nº 246 (M40, "Winnecke 4").
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. Springer (Astronomers' Observing Guides). M40 (Winnecke 4), p. 125.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas de M 40, em 21 set. 2026 (sem classificação física nem paralaxe cadastradas para o par como objeto único).
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.