setembro 21, 2026
M91, a galáxia barrada ‘perdida’ da Cabeleira de Berenice: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Por quase duzentos anos, M91 foi um buraco no mapa: Charles Messier registrou sua posição em 18 de março de 1781, mas ninguém sabia exatamente onde procurar, e várias gerações de observadores chegaram a achar que o objeto simplesmente não existia. Hoje, a identificação mais aceita é a galáxia espiral barrada NGC 4548, na Cabeleira de Berenice, cravada no meio do Aglomerado de Virgem. Não é um objeto espetacular — é a mais fraca do trecho denso de galáxias que vai de M88 a M100 —, mas carrega uma história de detetive astronômico e é um ótimo ponto de partida para quem quer aprender a "pular" entre galáxias nessa região. Este guia explica como achá-la, o que telescópio e binóculo mostram dela, e como ela se relaciona com as vizinhas.
Texto em revisão. Guia do novo formato, escrito a partir de livros de observação e de consultas ao SIMBAD. As fontes estão listadas no final, e as dúvidas, nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma espiral barrada no coração do aglomerado
M91 é uma galáxia espiral barrada (tipo SBa, segundo o SIMBAD), um pouco menor e mais fraca do que suas vizinhas mais famosas na cadeia de Virgem, mas parte do mesmo grande aglomerado de milhares de galáxias que domina o céu de Virgem e da Cabeleira de Berenice no outono austral. A barra central — uma faixa retilínea de estrelas que atravessa o núcleo antes de os braços espirais se curvarem — é o traço mais distintivo do objeto, e um dos motivos pelos quais ela é usada como exemplo didático de galáxia barrada em telescópios de porte médio.
M91 em números. O SIMBAD classifica o objeto como SBa e lista dimensões de 5,25′ × 4,32′, com o eixo maior orientado a 138° (quase norte–sul, ligeiramente inclinado). A magnitude é um dos pontos de maior divergência entre fontes: o SIMBAD traz V = 13,57, um valor isolado e muito mais fraco do que o consenso dos livros e do catálogo do site, que giram entre 9,9 e 11. É provável que a medida do SIMBAD cubra só uma pequena abertura fotométrica central, não o brilho integrado da galáxia inteira — o mesmo padrão que aparece em outras elípticas e espirais do Aglomerado de Virgem. Para efeito de observação, este guia segue o valor de consenso dos livros (cerca de magnitude 10).
Distância. O SIMBAD não lista paralaxe para M91 — natural, já que paralaxes só funcionam para objetos da nossa própria Galáxia. As medições de distância independentes de desvio para o vermelho, também no SIMBAD, variam de cerca de 48 a 63 milhões de anos-luz, uma dispersão típica desse tipo de medição a essa distância. Este guia adota a distância do Aglomerado de Virgem como um todo, cerca de 55 a 60 milhões de anos-luz, a mesma usada nos guias de M49 e M87 no site.
Uma galáxia "perdida". A posição original anotada por Messier não correspondia a nenhuma galáxia visível, e por décadas os observadores debateram se ele havia cometido um erro de sinal, reobservado outro objeto (como M58) ou simplesmente registrado mal as coordenadas. A identificação com NGC 4548, hoje a mais aceita, foi proposta em 1969 pelo observador amador William C. Williams, que usou a posição de M89 como referência para recalcular onde Messier deveria ter apontado. É um bom lembrete de que até o catálogo mais famoso da astronomia amadora carrega imprecisões de sua época.
Estruturas notáveis
- A barra central. Uma faixa reta e alongada de estrelas cruzando o núcleo, visível em telescópios de 200 mm ou mais sob boas condições — o traço que classifica M91 como espiral barrada.
- O braço mais brilhante. Sai da extremidade leste da barra em direção ao sul; é o detalhe espiral mais acessível para quem já detecta a barra.
- O núcleo. Pequeno e relativamente concentrado, mas sem o brilho estelar de M94; em telescópios pequenos, M91 aparece como uma mancha quase retangular, sem estrutura interna aparente.
- A vizinhança imediata. M91 fica a menos de 1° de M88, e as duas costumam ser confundidas por quem ainda não memorizou o campo — um bom exercício de atenção ao mapa.
Como localizar
O caminho mais confiável até M91 passa por M88. Comece pelas estrelas 11 e 24 Comae, dois pontos de magnitude 4,7 e 5,0 no aglomerado aberto da Cabeleira de Berenice (Melotte 111): M88 forma um triângulo quase equilátero com essas duas estrelas, a leste delas. Uma vez com M88 no campo, mova o telescópio cerca de 0,8° para leste — pouco mais de um campo de ocular de baixa potência — e M91 deve aparecer. Tenha um mapa detalhado por perto: é fácil confundir as duas galáxias, já que M91 fica visivelmente mais a leste no mapa, mas parece semelhante no ocular sob céu urbano.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de +14,5°, M91 culmina a cerca de 52° de altura no Rio de Janeiro — uma posição favorável, mais alta do que a maioria das galáxias de Virgem propriamente ditas, que ficam mais próximas do equador celeste. A melhor época vai de março a junho: no início de março ela cruza o meridiano perto da meia-noite, e por volta de maio já está bem posicionada ao anoitecer. Como o campo é denso em galáxias parecidas, prefira uma noite sem Lua, com o objeto perto da culminação, para reduzir a extinção atmosférica e facilitar a identificação.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -20°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -20° E
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 24 mag 11,0
- Enquadramento
- 49 ocupa 12 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -39° | — | 48° |
| 20:00 | -46° | — | 49° |
| 20:30 | -53° | — | 49° |
| 21:00 | -60° | — | 49° |
| 21:30 | -66° | — | 49° |
| 22:00 | -73° | — | 50° |
| 22:30 | -78° | — | 50° |
| 23:00 | -81° | — | 50° |
| 23:30 | -79° | — | 50° |
| 00:00 | -74° | — | 51° |
| 00:30 | -68° | — | 51° |
| 01:00 | -61° | — | 51° |
| 01:30 | -54° | — | 51° |
| 02:00 | -47° | — | 51° |
| 02:30 | -40° | — | 52° |
| 03:00 | -33° | — | 52° |
| 03:30 | -27° | — | 52° |
| 04:00 | -20° | — | 52° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível. |
| Binóculo (10×50 a 15×70) | Em céu bem escuro, uma manchinha muito tênue e difícil de separar do fundo; a maioria dos observadores urbanos não a alcança em binóculo. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Uma mancha oval, quase retangular, sem núcleo destacado; exige céu razoavelmente escuro e o objeto perto da culminação. |
| Telescópio de 250 a 300 mm | A cerca de 200×, a barra central começa a aparecer como uma faixa mais definida atravessando o núcleo; com atenção, o braço que sai do lado leste da barra em direção ao sul também se insinua. |
Expectativa honesta: M91 não é um objeto de "uau" — é a mais fraca do trecho de galáxias entre M88 e M100, e sua principal graça é justamente localizá-la com precisão em meio a vizinhas parecidas, além de sua história peculiar no catálogo de Messier.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
M91 é pequena (pouco mais de 5′), então um campo moderado, de 20′ a 40′, a mostra bem enquadrada com espaço de sobra. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor), M91 cabe pequena no quadro; para um enquadramento mais próximo, vale um telescópio de focal maior ou um recorte digital da imagem. Como está a menos de 1° de M88, uma focal mais curta (500 a 700 mm) permite capturar as duas galáxias no mesmo campo, um bom projeto para quem já fotografou os alvos individuais.
Desafios do alvo
- Tamanho pequeno e brilho superficial moderado. A barra e o braço espiral só aparecem com boa resolução (seeing) e tempo de exposição total generoso.
- Campo cheio de galáxias parecidas. Vale conferir o enquadramento contra um mapa antes de começar a sessão, para não confundir M91 com M88 ou com galáxias de fundo mais fracas.
- Baixo contraste da barra. Como a estrutura interna é sutil, processamento cuidadoso do centro (sem saturar o núcleo) ajuda a revelar a barra nas imagens finais.
Equipamento e filtros
Uma câmera colorida de um disparo é suficiente para um primeiro registro da forma geral. Filtros de banda estreita não ajudam em galáxias; um filtro de banda larga contra poluição luminosa pode ajudar pouco sob céu muito iluminado, mas vale testar. Para revelar a barra com mais definição, exposições mais longas e um processamento que preserve o contraste do núcleo sem estourá-lo fazem mais diferença do que o tipo de filtro.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou luminância) | 60 a 90 | 180 s | Núcleo, barra e braço espiral; o tempo total decide |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra M91 com folga e ainda deixa espaço para incluir M88 no mesmo quadro, dependendo do enquadramento escolhido. Como o objeto é pequeno e de brilho moderado, o empilhamento de várias dezenas de minutos ajuda a revelar a barra central. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M91 não compete em beleza com as grandes espirais de face do Aglomerado de Virgem, mas oferece duas coisas raras: uma barra galáctica visível em telescópios amadores de porte médio e uma boa história para contar enquanto se espera a próxima galáxia aparecer no ocular. Combine a visita com a vizinha M88, a menos de 1° de distância, e amplie o roteiro pela Cabeleira de Berenice com o aglomerado de Melotte 111 e a Galáxia do Olho Negro, M64. Para o panorama do aglomerado inteiro, veja o guia da constelação de Virgem.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. M91 (NGC 4548), objeto nº 277 (conferir número exato).
- MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer (Astronomers' Observing Guides). Sobre M91 e M102, "os Messier perdidos", e a cadeia de Virgem/Leão, p. 32-38, 44 (nota), 136-153 (impressa 16-22, 120-137; edição e ano a conferir).
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. Berlin: Springer, 2005. M88 e as galáxias de Coma, p. 118-121 (impressa 116-119).
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. M91, M24, M40, M73 e M102 entre os "Messier que não são o que parecem", p. 214-215.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo morfológico, magnitude e dimensões de M91, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.