setembro 21, 2026

NGC 4038 e NGC 4039 (Caldwell 60 e 61), as Galáxias Antena: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4038 — Galáxias Antena — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Duas galáxias em plena colisão, a milhões de anos-luz, e você as vê de um quintal? A resposta honesta é: mais ou menos. As Galáxias Antena (NGC 4038 e NGC 4039, Caldwell 60 e 61) são o exemplo mais famoso de galáxias em interação, mas, ao telescópio, são duas manchas fracas, sem as longas caudas de maré que dão nome ao par. Em fotografia de longa exposição, porém, o mesmo par revela arcos de gás e estrelas lançados ao espaço intergaláctico, além de mais de mil aglomerados jovens em formação (Ridpath; Allison, p. 50). O Corvo, no céu de outono e início de inverno do sul, fica quase no zênite do Rio, o que dá a melhor vista possível deste par. Este guia reúne o que os livros dizem sobre elas, os mapas e uma estratégia de captura realista.

Texto em revisão. Este é um guia de teste no novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 4038 — Galáxias Antena — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Ficha técnica e designações
Designação principalNGC 4038
Outras designaçõesNGC NGC 4038 Caldwell C60 PGC / UGC PGC 37967
Tipo de objetoGaláxia
ConstelaçãoCorvus
Coordenadas (J2000)RA 12h 01m 53s | Dec −18° 52′ 03″
Distância da Terra~72 milhões anos-luz
Magnitude aparente+10,2
Tamanho aparente5,4′
Melhor época (BR)Março, Abril, Maio

Visão geral: o que é uma colisão de galáxias

Em uma colisão de galáxias, quase nenhuma estrela colide com outra: a distância média entre elas é enorme em comparação com o tamanho de cada uma (Mobberley, p. 130-131). O que acontece é o efeito de maré, ou seja, a gravidade das duas galáxias distorce a forma de ambas e as estrelas são arrastadas em longos arcos. As nuvens de gás e poeira, em contrapartida, se comprimem, e o resultado é uma onda de formação de estrelas (Monks, p. 90; Kambič, p. 118).

Nas Antena, duas galáxias espirais, que giravam em sentidos opostos, começaram a interagir; as estrelas deslocadas formaram "caudas", e é dessas caudas que vem o nome (Moore, p. 149; Monks, p. 90). Antes se pensava que era uma só galáxia, chamada de Ringtail (Moore, p. 149). Nas regiões de gás do par, os astrônomos contam mais de mil aglomerados estelares em formação, muitos deles superaglomerados, com idades típicas entre 1 e 30 milhões de anos (Allison, p. 50).

Distância. Os livros divergem: 100 milhões de anos-luz (Moore), 65 (Ridpath; Monks para a estimativa antiga) e 45 (Monks e Mobberley, na estimativa revista). Nesta versão, o SIMBAD não traz paralaxe para galáxias, então o texto usa uma faixa de cerca de 45 a 65 milhões e segue Monks, que relata a revisão para baixo (p. 90). A essa distância, cada galáxia tem cerca de 140.000 anos-luz (Mobberley, p. 130). O SIMBAD lista velocidades radiais de cerca de 1.670 km/s para NGC 4038 e 1.640 km/s para NGC 4039, o que mostra que as duas se movem juntas.

As duas galáxias. NGC 4038 é a maior, a noroeste, e NGC 4039 é a menor e mais fraca, a sudeste. Pertencem ao Grupo de NGC 4038, cujo membro mais brilhante é NGC 4027, também no Corvo (Monks, p. 91). Mobberley cita supernovas em NGC 4038 em 1921, 1974, 2004 (a de 2004, descoberta pelo amador belga Berto Monard) e 2007 (p. 130).

Estruturas notáveis

  • Os dois núcleos. Em telescópios médios, as partes centrais das duas galáxias aparecem como manchas ovais (Bakich, nº 224).
  • A forma em V. Monks descreve um objeto em forma de V com brilho aproximadamente uniforme, em telescópios médios a grandes e céu razoável (p. 90).
  • A "vírgula invertida". Em 30 cm, NGC 4039 aparece como uma mancha de menos de 5′, que Mobberley compara a uma vírgula invertida (p. 130).
  • As caudas de maré. Longos arcos de estrelas, gás e poeira que só aparecem em fotografias de longa exposição, ou de forma marginal em telescópios muito grandes (Bakich, nº 224 recomenda cerca de 510 mm).
  • Os aglomerados jovens e as supernovas. As regiões cor-de-rosa (H-alfa) das fotos vêm dos aglomerados recém-nascidos; as supernovas descobertas por amadores mostram que o par é um bom alvo de patrulha.

Como localizar

O Corvo é um quadrilátero de quatro estrelas de magnitude 2,6 a 3 (Moore, p. 148-149), fácil de achar a leste-sudeste de Spica, na Virgem. As Antena ficam a cerca de 3,6° a oés-sudoeste de Gienah (Gama Corvi, magnitude 2,6): Mobberley dá 1,5° ao sul e 3,5° a oeste (p. 130), e Bakich 3,6° (nº 224); Moore diz menos de 4° (p. 149). O aglomerado de galáxias fica cerca de 5° a oeste de NGC 4361, uma planetária (Mobberley, p. 130). Para o contexto do céu ao redor, veja os guias da Virgem e da Galáxia do Sombreiro (M104), vizinha a leste.

Carta de localização de NGC 4038: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −18,9°, as Antena passam pelo meridiano a cerca de 86° de altura no Rio, quase sobre a nossa cabeça: um ganho enorme para um alvo tão fraco. A culminação à meia-noite ocorre no fim de março, e a melhor janela vai de fevereiro a junho. Diferentemente dos observadores do hemisfério norte, que veem o Corvo baixo no horizonte sul, temos as melhores condições possíveis.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano; o segundo, o caminho pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.

Altura de Galáxias Antena ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de janeiro a maio. O objeto chega a 86° à meia-noite em março.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ22 mar · 86°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de janeiro a maio (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 86° em 22 de março.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 1°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · 1° ESE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
35 mag 10,2
Enquadramento
48 ocupa 12 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 4038 — Galáxias Antena pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 04:00 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com 1°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO04:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -29° — 39°
20:00 -34° — 39°
20:30 -39° — 39°
21:00 -43° — 40°
21:30 -46° — 40°
22:00 -48° — 40°
22:30 -48° — 40°
23:00 -47° — 41°
23:30 -46° — 41°
00:00 -43° — 41°
00:30 -39° — 41°
01:00 -34° — 42°
01:30 -29° — 42°
02:00 -24° — 42°
02:30 -18° — 42°
03:00 -12° — 43°
03:30 -5° — 43°
04:00 1° ESE 110° 43°
Altura de NGC 4038 — Galáxias Antena ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com 1°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · 1°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não é visível.
Binóculo Fora do alcance de binóculos comuns (Monks e Kambič mostram o par apenas em fotografia).
Telescópio de 100 a 150 mm Duas manchas cotonosas muito fracas; NGC 4038, a noroeste, é a maior (Bakich, nº 224). Mobberley indica 20 cm como abertura mínima (p. 130). Moore lembra que são fracas demais para telescópios pequenos (p. 149).
Telescópio de 200 a 250 mm Em céu escuro, uma forma em V de brilho quase uniforme (Monks, p. 90).
Telescópio de 300 mm ou mais Em 200x, núcleos ovais; dobrando a ampliação, aparência irregular com nós claros e escuros e vestígios de cauda (Bakich, nº 224). Para ver as caudas com clareza, é preciso cerca de 510 mm ou mais.

Expectativa honesta. Em Bortle 7, o par é apenas um V muito fraco, mesmo em 200 mm (Monks, p. 90); é preciso 30 cm, céu bom e ocular bem escolhida para distinguir os dois núcleos.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

O conjunto tem cerca de 5′ a 11′ de extensão, conforme a fonte, mas as caudas de maré se estendem por bem mais que isso, e um campo de cerca de 15′ a 25′ mostra o conjunto sem cortá-las. Com um refletor de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75°: as galáxias ficam pequenas no quadro, mas as caudas cabem. Com focais de 1.500 a 2.000 mm o par ocupa mais do quadro; nesse caso, um recorte simples ajuda.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixo das caudas. As caudas são muito mais fracas que os núcleos; só aparecem com exposição total longa e céu escuro. Em Bortle 7, o tempo total faz a diferença.
  • Tratamento do contraste. Núcleos brilhantes e caudas fracas pedem um tratamento em duas etapas (uma para o centro, outra para as caudas) para não estourar os núcleos.
  • Campo relativamente vazio. O Corvo tem poucas estrelas brilhantes por perto, o que ajuda na composição, mas dificulta o alinhamento se a calibração de campo estiver fraca.

Equipamento e filtros

Mobberley aponta imagens de Gendler e do Hubble como referências do que se pode alcançar (p. 131). Uma câmera colorida com filtro anti-poluição luminosa (por exemplo, um multi-banda) ajuda a segurar o brilho do céu urbano; uma câmera monocromática com luminância mais RGB, e H-alfa opcional para realçar os aglomerados de formação estelar, é o caminho mais eficiente. Fotografe perto do meridiano, quando o Corvo está mais alto.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (luminância ou RGB) 100 a 180 120 a 180 s Núcleos e caudas; o tempo total é o que conta
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

As Antena cabem com folga no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), mas o par fica pequeno no quadro; o brilho baixo das caudas pede muitas horas de empilhamento e um céu escuro. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

As Galáxias Antena são um objeto que educa: mostram, de uma vez, o que é a interação gravitacional entre galáxias, e servem de aviso sobre o que a nossa própria Galáxia e Andrômeda podem vir a fazer, daqui a alguns bilhões de anos (Monks, p. 90). Para o observador de Bortle 7, são um teste de telescópio de 25 a 30 cm e de céu bom; para o fotógrafo, são uma boa razão para juntar muitas horas de dados. Se quiser continuar, o guia da Virgem leva a mais galáxias na vizinhança.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. Aglomerados nas galáxias Antena, p. 50.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 224 (NGC 4038-9).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Colisão de galáxias e imagem de NGC 4038/4039, p. 118.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 60 e 61, p. 130-131.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 4038 e NGC 4039, p. 90-91.
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Corvo e as Antena, p. 148-149.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Corvo e Taça (página a conferir).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões e velocidades radiais de NGC 4038 e NGC 4039, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.