setembro 21, 2026
M 69, o globular rico em metais do fundo do Bule: guia completo de observação

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
No canto sul de Sagitário, perto da base do "bule", há uma dupla de globulares que quase ninguém nota: M 69 e M 70. Discretos, compactos e um pouco baixos até para quem observa do hemisfério sul, eles são ofuscados pelos vizinhos mais famosos — M 22, M 28, M 54. Mas M 69 guarda um dado curioso: é um dos aglomerados globulares mais ricos em metais pesados de todo o catálogo de Messier, sinal de que suas estrelas nasceram de um gás já um pouco mais "temperado" por gerações estelares anteriores. Este guia reúne o que há sobre M 69: os dados, como achar, quando observar, o que dá para ver e como fotografar.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um globular compacto, distante e relativamente rico em metais
M 69 é um aglomerado globular: uma bola densa e muito antiga de estrelas, presa pela própria gravidade, orbitando o centro da Via Láctea em uma trajetória que o leva bem para fora do disco da Galáxia. Fica na parte sul de Sagitário, perto de Epsilon Sagittarii (Kaus Australis), uma das estrelas mais brilhantes da constelação.
Distância. A paralaxe do SIMBAD (0,116 mas) resulta em cerca de 28.100 anos-luz, valor adotado neste guia. Kambič e Bakich, de forma independente, chegam a um número um pouco maior, entre 29.300 e 30.000 anos-luz — valores consistentes entre si e próximos do adotado aqui. A essa distância, o diâmetro aparente de 7,1′ corresponde a um diâmetro real de cerca de 58 a 60 anos-luz.
Um dos globulares mais ricos em metais. Segundo Bakich, M 69 está entre os aglomerados globulares mais ricos em metais pesados do catálogo de Messier — ainda que, mesmo assim, contenha muito menos ferro e outros elementos pesados do que o Sol. Isso é um indício de idade relativa: como os metais pesados só existem porque foram forjados em gerações anteriores de estrelas, aglomerados mais "ricos" nesses elementos tendem a ser um pouco mais jovens (ou formados de um gás já mais enriquecido) do que os globulares mais "pobres" em metais, geralmente entre os mais antigos da Galáxia.
Um par com M 70. M 69 tem um "gêmeo" muito próximo no céu: M 70, um globular ainda mais fraco, que fica entre M 69 e M 54 na mesma região de Sagitário. Kambič nota que os dois estão separados por menos de 2.000 anos-luz no espaço real, embora pareçam distantes um do outro só por estarem perto do limite de visibilidade em binóculos.
Descoberta. M 69 foi catalogado por Charles Messier em 1780, na mesma leva de descobertas que incluiu M 70, poucos dias depois.
Estruturas notáveis
- Núcleo largo e concentrado. Kambič descreve M 69 como muito parecido em aparência com M 54: um núcleo largo e denso, sem muita estrutura visível em instrumentos pequenos.
- Halo fino. Só aparece em telescópios de abertura razoável (200 mm ou mais) e aumentos altos; em instrumentos menores, o objeto se resume a uma manchinha uniforme.
- A vizinhança com M 70. Embora M 70 não tenha guia próprio neste site, vale saber que ele fica bem perto, na mesma região do céu — um alvo extra para quem já está observando M 69 com um telescópio maior.
Como localizar
M 69 fica perto do canto sudoeste do "bule" de Sagitário. A estrela-guia é Kaus Australis (Epsilon Sagittarii, magnitude 1,8), uma das mais brilhantes da constelação: a partir dela, mova cerca de 2,5° a nordeste (Bakich) ou, segundo Kambič, cerca de 3° a nordeste. Os dois valores são próximos o bastante para servir de referência prática. Em céu razoavelmente escuro, o globular aparece com facilidade em um buscador de bom alcance.

Quando e como observar
M 69 tem declinação de cerca de −32,3°, um pouco mais ao sul do que a maioria dos objetos famosos de Sagitário, mas ainda assim muito bem posicionado para o céu do Rio de Janeiro: sua altura máxima no meridiano fica em torno de 81°, próxima do zênite. Kambič lembra que, para observadores de latitudes médias do hemisfério norte, M 69 (como M 54 e M 70) culmina a apenas cerca de 12° acima do horizonte sul, o que exige céu perfeitamente limpo até a linha do horizonte. Do Rio, essa dificuldade praticamente desaparece.
O gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório, e o seguinte, a noite de hoje. Use o primeiro para escolher a época e o segundo para escolher a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 58° WSW
- Horas acima de 45°
- 1,2 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 54 / 100
- Posição no céu
- 51
- Brilho
- 64 mag 8,3
- Enquadramento
- 51 ocupa 13 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 56° | WSW 246° | 50° |
| 20:00 | 49° | WSW 247° | 50° |
| 20:30 | 43° | WSW 246° | 50° |
| 21:00 | 37° | WSW 246° | 50° |
| 21:30 | 30° | WSW 245° | 49° |
| 22:00 | 24° | WSW 243° | 49° |
| 22:30 | 18° | WSW 242° | 49° |
| 23:00 | 12° | WSW 240° | 49° |
| 23:30 | 6° | WSW 237° | 48° |
| 00:00 | 0° | SW 235° | 48° |
| 00:30 | -5° | — | 48° |
| 01:00 | -11° | — | 48° |
| 01:30 | -16° | — | 47° |
| 02:00 | -20° | — | 47° |
| 02:30 | -24° | — | 47° |
| 03:00 | -28° | — | 47° |
| 03:30 | -31° | — | 46° |
| 04:00 | -33° | — | 46° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível; magnitude 7,6, bem abaixo do limite de visão a olho nu mesmo em céu muito escuro. |
| Binóculo (10×50) | Uma manchinha pequena e uniforme de luz, sem estrutura resolvida — Kambič descreve como "muito semelhante a M 54" em aparência através de binóculos. |
| Telescópio de 200 mm | Difícil de resolver estrelas individuais; núcleo largo e concentrado, halo fino que aguenta aumento alto (Bakich). |
| Telescópio maior (350 mm ou mais) | Kambič relata cerca de uma dúzia de estrelas resolvidas, organizadas em três grupos que lembram um triângulo — um bom desafio para quem já domina objetos mais fáceis. |
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 7′ de diâmetro aparente, M 69 é um alvo compacto que rende melhor com uma focal relativamente longa. Um telescópio de 1.000 a 2.000 mm de focal enquadra bem o aglomerado com alguma margem ao redor, mostrando o contraste entre o núcleo denso e o halo fino.
Desafios do alvo
- Baixa altura relativa e maior massa de ar. Embora ainda bem posicionado no Rio, M 69 fica um pouco mais baixo que outros globulares de Sagitário (como M 22 ou M 28), o que significa atravessar um pouco mais de atmosfera; prefira capturá-lo perto do momento de maior altura, indicado no gráfico da noite.
- Núcleo concentrado, halo fraco. Como em qualquer globular denso, o centro satura antes que o halo fino apareça bem; um conjunto de exposições curtas e longas combinadas ajuda a preservar os dois extremos.
- Sem cor ou nebulosidade. O interesse fotográfico está na resolução de estrelas individuais e no contraste tonal, não em cor de emissão — céu estável (bom seeing) conta mais que filtros aqui.
Equipamento e filtros
Sem nebulosidade de emissão, filtros de banda estreita não ajudam. Uma câmera monocromática com boa amostragem tende a resolver melhor as estrelas mais externas do halo do que uma câmera colorida de tiro único, mas esta última ainda serve bem para registrar o objeto e seu contraste de brilho.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light curto (núcleo) | 20 a 30 | 5 a 15 s | Preservar o núcleo denso sem saturar |
| Light longo (halo) | 40 a 60 | 60 a 120 s | Capturar o halo fraco |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
M 69 é um alvo pequeno, mas alcançável em smart telescopes: o campo de um aparelho como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) cobre o aglomerado com folga de sobra. Como o objeto não depende de filtro de banda estreita, o modo padrão de captura em luz visível costuma funcionar bem. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 69 não é o globular mais espetacular de Sagitário — está longe, é compacto e fica um pouco mais baixo que os vizinhos mais famosos —, mas tem seu próprio interesse: a composição química relativamente rica em metais das suas estrelas conta uma parte da história de como a Via Láctea foi se enriquecendo ao longo do tempo. Ele fica perto de M 54, o vizinho extragaláctico descrito em outro guia deste site, e de M 70, ainda sem guia próprio. Para conhecer melhor a constelação onde eles moram, veja o guia de Sagitário, e para os globulares vizinhos mais brilhantes, veja M 22 e M 28.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 542 (M 69 / NGC 6637).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Sagitário, M 54, M 69, M 70 e M 55, p. 422-423 (impressa).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tamanho e paralaxe de M 69, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.