setembro 21, 2026

M 66, a galáxia mais brilhante do Trio do Leão: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M66 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

Em Leão, logo abaixo da barriga do animal, três galáxias aparecem juntas num campo que cabe numa lua cheia e meia: o Trio do Leão. M 66 é a mais brilhante do grupo, e por isso a que primeiro se mostra ao telescópio pequeno. Do Rio de Janeiro, o Trio passa a mais de 50° de altura no outono, o que o coloca entre os melhores alvos de galáxia acessíveis ao observador brasileiro. Este guia trata de M 66; M 65 e NGC 3628 têm guias próprios.

Texto em revisão. Este guia segue o novo formato de guia de objeto. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de M66 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: uma espiral barrada com os braços puxados

M 66 (NGC 3627) é uma galáxia espiral. O SIMBAD a descreve como espiral com barra (tipo SAB) e com um núcleo ativo, e lista magnitude visual de cerca de 8,9 e dimensões de 11,4′ × 6′, com o eixo maior quase norte-sul (ângulo de posição 170°). Os livros dão tamanhos menores, de 8′ a 9′ de comprimento, porque o olho e as fotos curtas só registram a parte central. Mollise a classifica como Sb, e Monks, como espiral intermediária.

Um trio, e uma interação. Kier explica que os braços de M 66 foram distorcidos, provavelmente pela interação com M 65, e por isso o Trio entrou no Atlas of Peculiar Galaxies, de Halton Arp, como Arp 317. Bakich e Monks vão mais longe: NGC 3628 teria passado perto de M 66 há cerca de 800 milhões de anos, e uma cauda de gás, poeira e estrelas com cerca de 300.000 anos-luz teria sido puxada de NGC 3628 (uma cauda que aparece só em fotografias muito profundas, não ao ocular). Mollise nota, com bom humor, que é curioso M 65 e M 66 parecerem tão calmas depois disso.

Distância e tamanho real. O SIMBAD não traz uma distância para M 66, só o desvio para o vermelho. Os livros dão cerca de 35 milhões de anos-luz para o grupo (Kambič, Kier, Mollise, Monks); Parker, numa legenda, indica 21,5 milhões para M 66 e 24 milhões para M 65. O texto usa "cerca de 35 milhões" como referência. Kambič calcula que as duas galáxias Messier estão a cerca de 200.000 anos-luz uma da outra, e que M 66 mede cerca de 90.000 anos-luz, um pouco menos que M 65 (100.000). Se você estivesse em M 66, diz Kambič, veria a vizinha como um objeto de 28° no céu.

História. As duas galáxias Messier foram descobertas em 1780, por Méchain, segundo o conhecimento geral (não vem dos livros consultados).

Estruturas notáveis

  • A barra central. Com um bom céu, Monks diz que M 66 não tem brilho uniforme: há uma região mais brilhante, em forma de barra, cruzando o centro.
  • O gancho. Com 300 mm e 200×, surge um gancho a nordeste do extremo sul da barra; o gancho do lado norte exige mais de 300× (Bakich).
  • Os braços distorcidos. Nas fotografias, os braços são assimétricos, com regiões de formação de estrelas e uma faixa escura a leste do centro (Bakich; Kier).
  • Bordas bem definidas. Em qualquer telescópio, a galáxia tem contornos nítidos (Bakich).

Como localizar

Leão é a constelação mais fácil de reconhecer no outono. Trace uma linha entre Chertan (θ Leo, mag. 3,3) e Iota Leonis (mag. 4,0): M 65 fica bem no ponto médio dessa linha (Bakich, e confere com as coordenadas do SIMBAD), e M 66 está 0,3° a lés-sudeste dela. Bakich também sugere partir de 73 Leonis (mag. 5,3), a 0,8° de M 65. Em binóculos, Kambič diz que as duas ficam no meio do campo, entre Theta e Iota.

Orientação vista do Rio. O Trio culmina ao norte, a cerca de 36° do zênite. Você olha para o norte: o norte celeste fica para baixo e o leste para a direita. As cartas do hemisfério norte, com o norte em cima, aparecem giradas de 180°. NGC 3628 fica ao norte de M 66, ou seja, abaixo dela no campo.

Carta de localização de M66: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 66 tem declinação de +13°, e do Rio (−23°) passa a cerca de 54° de altura (calculado). É uma boa altura para um objeto de brilho superficial baixo. Kambič nota, com binóculos, que M 66 se deixa ver quando Leão está bem alto e que M 65, mais fraca, só aparece perto da passagem meridiana e some quando a constelação desce para o lado poente. É um bom lembrete de como a espessura da atmosfera atrapalha os objetos fracos.

Melhor época. Com ascensão reta de 11h20, o Trio cruza o meridiano à meia-noite por volta de 10 de março e às 21h no fim de abril, exatamente na data de 26 de abril usada por Kier. A janela vai de fevereiro a junho, com pico entre março e maio: no outono, cedo à noite, o Trio está no ponto mais alto. Noites sem Lua e de boa transparência ajudam, e o gráfico anual abaixo mostra a altura ao longo do ano; o segundo mostra a noite de hoje.

Altura de M66 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de janeiro a maio. O objeto chega a 54° à meia-noite em março.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ7 mar · 54°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de janeiro a maio (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 54° em 7 de março.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -1°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · -1° ENE
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
55 mag 8,9
Enquadramento
91 ocupa 23 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M66 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 04:10 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 04:00, com -1°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -57° — 74°
20:00 -63° — 74°
20:30 -70° — 74°
21:00 -76° — 74°
21:30 -79° — 75°
22:00 -79° — 75°
22:30 -75° — 75°
23:00 -69° — 75°
23:30 -63° — 76°
00:00 -56° — 76°
00:30 -49° — 76°
01:00 -42° — 76°
01:30 -36° — 77°
02:00 -29° — 77°
02:30 -22° — 77°
03:00 -15° — 77°
03:30 -8° — 78°
04:00 -1° — 78°
Altura de M66 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com -1°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · -1°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Nada.
Binóculo (7×50 a 10×50) Uma pequena mancha alongada, em noite escura, com uma estrela de magnitude 8 a oeste (Kambič). M 65 só aparece perto da passagem meridiana.
Telescópio de 100 mm M 66 e M 65 são vistas até em um refletor de 4,25″ (108 mm) sob luz urbana (Mollise, p. 105-107). Monks nota que abaixo de 100 mm, sob subúrbio, M 66 é difícil.
Telescópio de 150 a 200 mm Um borrão duas vezes mais longo que largo, em direção norte-sul (Bakich). Monks recomenda o intervalo de 150 a 200 mm como tranquilo. Uma SCT de 200 mm com ocular de 32 mm põe M 65 e M 66 no mesmo campo, e NGC 3628, a cerca de 35′, exige céu mais escuro.
Telescópio de 300 mm ou mais A barra e o gancho a nordeste do extremo sul (Bakich).
Filtros Nenhum ajuda; são galáxias sem gás emissor relevante.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Kier informa que um campo de 60′ × 40′ captura as três galáxias, e um campo de 40′ × 30′ enquadra só M 65 e M 66; imagens em alta resolução de um objeto isolado, com campo de 20′ × 15′, são um desafio para experientes. Com um telescópio de 1.000 mm e uma ASI294MC Pro, o campo é de 1,1° × 0,75° (66′ × 45′, calculado): o Trio cabe justo, e um mosaico de dois painéis dá margem. Parker fez um mosaico de dois painéis do Trio com um Hyperstar, com 74 e 71 exposições de 90 s (cerca de 3,5 h no total), e avisa que o grupo é fraco e ocupa muito espaço, não sendo um alvo para iniciantes.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixo. As bordas de NGC 3628 são fracas: Kier recomenda LRGB, que rende mais com muita luminância.
  • Gradientes em céu urbano. Kier aconselha fotografar perto do meridiano, quando o Trio está mais alto, para minimizar gradientes em subúrbios poluídos.
  • Estrelas brilhantes. Duas estrelas de magnitude 10 ao norte e ao sul de NGC 3628 geram halos que precisam ser suavizados (Kier).

Equipamento e filtros

Para o campo largo do Trio, Kier aceita câmera colorida de um tiro, RGB ou LRGB. O método LRGB é mais eficiente para as bordas fracas. Filtros de banda estreita não ajudam em galáxias; um filtro de poluição luminosa de banda larga pode ser útil no Rio.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 120 a 180 120 s Acumular sinal para as bordas de NGC 3628
Dark 30 igual aos Lights Ruído térmico
Flat 30 automática Vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu equipamento e ao céu. Parker relata cerca de 3,5 h para o mosaico do Trio, com um instrumento de focal curta.

Smart telescopes e campo de visão

Um Seestar S50, com campo de cerca de 1,3° × 0,7°, pode enquadrar M 65 e M 66 com folga e o Trio quase todo, com rotação do campo para acomodar NGC 3628 (calculado). Abra o mapa abaixo, escolha o seu modelo e veja o retângulo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 66 é o alvo mais gratificante do Trio: brilhante, com bordas nítidas e sinais de estrutura já em 200 mm. No Rio, o outono a coloca bem alta, e a proximidade de M 65 e NGC 3628 permite uma noite inteira de trabalho num só campo. Se quiser continuar, veja o guia de Leão, e o de Virgem, onde começa o Aglomerado de Virgem.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objetos nº 191 (M 65), 193 (M 66) e 194 (NGC 3628).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Leão, M 65 e M 66, p. 317-319.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "April 26: Galaxy Trio in Leo", p. 99.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer, 2006. Leão, p. 105-107.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. Trio do Leão, p. 76-78.
  • PARKER, Greg. Making Beautiful Deep-Sky Images: Astrophotography with Affordable Equipment and Software. New York: Springer, 2007. Mosaico do Trio do Leão, p. 109.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, dimensões e brilho de M 66, M 65 e NGC 3628, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.