setembro 21, 2026

M 18 (NGC 6613), o aglomerado discreto de Sagitário: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M18 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Nem todo objeto de Messier é um espetáculo. M 18 é a prova: um aglomerado aberto pequeno, com poucas dezenas de estrelas fracas, espremido entre dois vizinhos muito mais chamativos, a Nebulosa Ômega (M 17) ao norte e a Nuvem Estelar de Sagitário (M 24) ao sul. Os próprios observadores que o descrevem usam palavras como "pobre", "esparso" e "discreto". E, ainda assim, ele fica na mesma região do céu que passa quase no zênite do Brasil no inverno austral, ao lado de alguns dos objetos mais bonitos do catálogo. Este guia é honesto sobre o que M 18 é e o que não é: um bom motivo para parar um minuto entre duas nebulosas, não um destino por si só. Reúne os dados, como achar, quando observar, o que dá para ver em cada instrumento e como enquadrá-lo numa foto de campo largo de Sagitário.

Texto em revisão. Artigo do novo formato de guia de objeto, com dados, mapas e gráficos de altura reunidos aqui. Os livros trazem pouco sobre este aglomerado; o texto marca o que vem de conhecimento geral.

Imagem de referência (DSS2) de M18 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um aglomerado aberto pequeno e pouco povoado

Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas, da mesma nuvem de gás, ainda ligadas frouxamente pela gravidade. Allison lembra que esses aglomerados variam muito em riqueza: alguns, como M 11 e M 67, têm mais de 500 estrelas, enquanto M 18, no outro extremo, "tem apenas uma dúzia de estrelas-membro" (Allison, p. 16). É esse contraste que define o objeto: perto de vizinhos populosos e brilhantes, M 18 é o exemplo de aglomerado modesto.

Quantas estrelas, afinal. As fontes não concordam num número exato, normal para um aglomerado pobre num campo denso, onde é difícil separar membros reais de estrelas de fundo. Allison e Bakich falam em cerca de uma dúzia; Tonkin conta "umas quinze estrelas" (p. 218); Monks eleva a conta para até 20, espalhadas por 9′ (p. 153-154). Este guia usa a faixa "uma a duas dezenas".

Distância e tamanho. A paralaxe do SIMBAD dá uma distância aproximada de 5.100 anos-luz, próxima da estimativa de Monks, de cerca de 4.900 (p. 153-154) — coerente, já que M 18 fica perto de M 17, cujas medidas antigas também giram em torno de 5.000 anos-luz. Vale a cautela: a paralaxe de um aglomerado aberto costuma vir de um ajuste conjunto de vários membros, ou de uma única estrela de referência, e o SIMBAD não informou a margem de erro aqui. Quanto ao tamanho aparente, o SIMBAD e o catálogo deste site convergem em torno de 5′ a 6′; Monks fala em 9′ e Machholz em cerca de 8′ × 6′, provavelmente por incluírem estrelas de fundo ao redor do núcleo mais compacto.

Idade e descoberta. Segundo Monks, M 18 tem cerca de 32 milhões de anos (p. 153-154): jovem, mas não tanto quanto NGC 6530, o aglomerado dentro da Nebulosa da Lagoa, com poucos milhões de anos. Pelo conhecimento geral sobre o catálogo de Messier (não conferido nos livros deste lote), M 18 foi descoberto pelo próprio Charles Messier em 3 de junho de 1764, na mesma noite que outros objetos de Sagitário. É catalogado como NGC 6613. Allison chega a descrevê-lo como pertencente ao Escudo (Scutum), mas os limites oficiais da IAU colocam M 18 dentro de Sagitário, perto dessa fronteira.

Estruturas notáveis

  • Poucas dezenas de estrelas espalhadas. Sem núcleo denso nem concentração central marcante: o aglomerado se dissolve gradualmente no campo estelar de fundo (Allison; Tonkin).
  • Mistura de cores. Monks descreve uma combinação de estrelas azuis, alaranjadas e amarelas, melhor apreciada em baixo aumento, contra o campo estelar rico da Via Láctea (p. 153-154).
  • A posição entre dois vizinhos famosos. M 18 fica a cerca de 1° ao sul de M 17 e a cerca de 2° ao norte de M 24 (Kambič, p. 420; Monks, p. 153-154) — é esse "meio do caminho" que faz dele um objeto de passagem, não de destino.
  • Ausência de nebulosidade. Ao contrário de M 16 e M 17, M 18 não tem gás associado: é só um aglomerado de estrelas, sem realce por filtro de nebulosa.

Como localizar

O caminho mais direto é a partir da Nebulosa Ômega, M 17, o vizinho mais brilhante e fácil de identificar da região: M 18 fica cerca de 1° ao sul dela, quase na mesma ascensão reta (Kambič, p. 420; Monks, p. 153-154). Se preferir partir de uma estrela, Bakich indica μ Sagittarii (também chamada Polis): M 18 fica cerca de 4,2° a nor-nordeste dela. Outra opção é usar a Nuvem Estelar de Sagitário, M 24, e subir cerca de 2° para o norte. Vale ter M 17 no mesmo campo de buscador ou binóculo, já que os dois aglomerados servem de referência um ao outro. Veja também os guias da Nebulosa Ômega (M 17), da Nuvem Estelar de Sagitário (M 24) e da constelação de Sagitário.

Carta de localização de M18: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 18 está em ascensão reta próxima de 18h20m e declinação de cerca de −17,1°, quase idêntica à de M 17. No Rio de Janeiro (latitude −23°), isso significa uma altura máxima de cerca de 84° no meridiano — praticamente no zênite, com o mínimo de atmosfera possível no caminho da luz. A melhor época para observar vai de junho a setembro, com o objeto alto logo no início da noite em julho e agosto; em maio e no começo de junho, ele ainda aparece de madrugada.

O primeiro gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho de M 18 pelo céu nesta noite específica, com a hora em que ele nasce, culmina e se põe.

Altura de M18 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de abril a agosto. O objeto chega a 84° à meia-noite em junho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ25 jun · 84°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de abril a agosto (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 84° em 25 de junho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 54° W
Horas acima de 45°
0,7 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
55 / 100
Posição no céu
45
Brilho
86 mag 6,9
Enquadramento
53 ocupa 13 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M18 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 23:10 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 54°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:0023:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 52° W 271° 50°
20:00 45° W 268° 50°
20:30 38° W 266° 49°
21:00 31° W 263° 49°
21:30 24° W 261° 49°
22:00 17° WSW 258° 49°
22:30 11° WSW 256° 48°
23:00 4° WSW 253° 48°
23:30 -3° — 48°
00:00 -9° — 48°
00:30 -16° — 47°
01:00 -22° — 47°
01:30 -27° — 47°
02:00 -33° — 47°
02:30 -38° — 46°
03:00 -42° — 46°
03:30 -46° — 46°
04:00 -48° — 46°
Altura de M18 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 54°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível como objeto isolado: sem binóculo, M 18 se perde no fundo estelar de Sagitário, mesmo em céu escuro.
Binóculo (8×25 a 10×50) Uma pequena concentração de estrelas fracas, difícil de separar do campo denso da Via Láctea ao redor; use M 17, mais brilhante, como referência de posição.
Telescópio de 100 mm Cerca de uma dúzia de estrelas, segundo Bakich; aumentos maiores não ajudam muito e tendem a diluir o aglomerado no fundo, porque ele não tem núcleo denso.
Telescópio de 150 a 200 mm Entre 15 e 20 estrelas, em baixo aumento, com a mistura de cores azuis, alaranjadas e amarelas que Monks descreve (p. 153-154).
Filtros Sem utilidade: M 18 não tem nebulosidade associada, então filtros de linha (UHC, OIII) não fazem diferença nele.

Expectativa honesta: não espere um "uau". M 18 é um objeto de transição, observado a caminho de M 17 ou de M 24 — mas é um bom teste de céu, já que quanto mais estrelas fracas você resolve, melhor a transparência da noite.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com apenas 5′ a 9′ de diâmetro, dependendo da fonte, M 18 é pequeno demais para uma foto isolada interessante. A abordagem que os livros sugerem para essa região (Kambič; Monks) é tratá-lo como parte de um campo mais amplo: com uma focal de 1.000 mm (campo de cerca de 1,1° × 0,75° numa câmera como a ASI294MC Pro), M 18 aparece perto de uma das bordas, com parte de M 17 no mesmo quadro. Um campo de 2° a 3° (focal de 300 a 500 mm) reúne M 17, M 18 e o início de M 24 numa só composição — o retrato mais natural deste trecho de Sagitário. Um campo ainda mais largo, de 4° a 5°, chega a incluir M 23 e M 25, como já indicado no guia de M 25.

Desafios do alvo

  • Baixo contraste com o fundo. Sem núcleo denso nem gás, M 18 compete com o campo estelar riquíssimo de Sagitário; em processamento, é fácil ele "desaparecer" perto de alvos mais chamativos no mesmo quadro.
  • Sem estrutura própria. Não há detalhe fino a revelar com mais exposição; rende mais como coadjuvante de M 17 do que como protagonista.
  • Céu urbano. Sob Bortle 7, as estrelas mais fracas do aglomerado são as primeiras a se perder no ruído do céu; filtro anti-poluição ajuda pouco, porque o alvo é estelar, não gasoso.

Equipamento e filtros

Uma câmera colorida de tiro único é suficiente, e nenhum filtro de banda estreita (H-alfa, OIII, dual-band) faz diferença em M 18 isoladamente — só ajudam se o quadro incluir M 17 ao lado. O ponto de atenção é o foco: use máscara de Bahtinov e refaça o foco se a temperatura cair ao longo da sessão.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 100 30 a 60 s Estrelas do aglomerado sem saturar, com bastante tempo total para reduzir o ruído do céu
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite. Se o quadro incluir M 17, vale fazer uma série adicional de exposições mais longas (120 a 180 s) para captar a nebulosidade dela.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope como o Seestar S50, com campo de cerca de 1,3° × 0,7°, enquadra M 18 com folga e ainda cabe um pedaço de M 17 no mesmo campo, dependendo de como você posicionar o apontamento — uma boa forma de aproveitar os dois objetos numa única sessão curta. Sozinho, M 18 rende uma imagem simples, de campo estelar; combinado com M 17, a sessão fica mais interessante. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 18 não é um objeto para se admirar sozinho: é um aglomerado pobre, sem gás, sem núcleo denso, encaixado entre dois vizinhos muito mais espetaculares. O valor dele está aí mesmo — como ponto de passagem numa noite de Sagitário e como peça de um enquadramento maior ao lado da Nebulosa Ômega (M 17) e da Nuvem Estelar de Sagitário (M 24). Se já está com o telescópio em M 17, vale o minuto extra para achar M 18 ao lado. Para o roteiro completo da região, veja o guia da constelação de Sagitário.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. Contraste de riqueza entre aglomerados abertos, M 18 citado como exemplo pobre, p. 16.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 537 (M 18 / NGC 6613).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Sagitário, M 18, p. 420.
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. Springer (Astronomers' Observing Guides). Sequência de busca M 16–M 17–M 18–M 24, p. 149 e 151 (edição e ano a confirmar).
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 6613 (M 18), p. 153-154.
  • TONKIN, Stephen. Binocular Astronomy. London: Springer, 2007. Sagitário, Escudo e Serpente em binóculo de 100 mm, M 18, p. 218.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo de objeto, paralaxe e dimensões de M 18 / NGC 6613, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.