setembro 21, 2026

M100, a Galáxia da Roda Catarina: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M100 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos

M100 é a estrela do pequeno grupo de galáxias Messier de Cabeleira de Berenice: a maior, a mais brilhante e a mais fotogênica das espirais de face que povoam essa esquina do Aglomerado de Virgem. Seus braços, bem definidos em fotografias de longa exposição, lembram os raios de uma roda de fogos de artifício — daí o apelido de "Roda Catarina" nos livros em inglês. Foi também, décadas atrás, um dos alvos usados pelo Telescópio Espacial Hubble para medir a taxa de expansão do Universo por meio de estrelas variáveis Cefeidas em seu disco. Este guia mostra como achá-la a partir de Coma Berenices, o que esperar dela ao telescópio e como fotografar seus braços.

Texto em revisão. Guia do novo formato, escrito a partir de livros de observação e de consultas ao SIMBAD. As fontes estão listadas no final, e as dúvidas, nas pendências.

Imagem de referência (DSS2) de M100 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: a maior espiral de face de Coma

M100 é uma galáxia espiral vista quase de frente, com braços grandes e relativamente abertos — o tipo mais fotogênico de galáxia, porque toda a estrutura em espiral fica visível de uma vez, sem o achatamento das galáxias vistas de perfil. O SIMBAD lista dimensões de 6,31′ × 5,30′, tornando M100 a maior das três galáxias Messier desse trecho de Coma (M98, M99 e M100), e também a mais brilhante.

M100 em números. O SIMBAD dá magnitude V = 9,35, próxima do catálogo do site (9,47) e do Bakich (9,3) — concordância boa entre as fontes. O tamanho aparente de cerca de 6′ × 5′ e o brilho relativamente alto fazem dela a mais acessível das galáxias Messier de Coma para observadores com telescópios de porte médio.

Distância. Como toda galáxia, M100 não tem paralaxe mensurável no SIMBAD. As medições redshift-independentes catalogadas variam de cerca de 46 a 65 milhões de anos-luz; entre elas, várias medições feitas por meio de estrelas Cefeidas — consideradas mais confiáveis para esse tipo de distância — convergem para a faixa de 47 a 52 milhões de anos-luz, valor que este guia adota como referência. A dispersão remanescente reflete a dificuldade inerente de medir distâncias precisas a dezenas de milhões de anos-luz.

Uma galáxia histórica para a cosmologia. M100 foi um dos alvos-chave do Projeto-Chave de Cefeidas do Telescópio Espacial Hubble, nos anos 1990, que usou estrelas variáveis dentro da galáxia para calibrar distâncias no Universo próximo e refinar a medida da constante de Hubble — a taxa de expansão do cosmos. É um bom fato para contar durante a observação: aquela mancha de luz difusa ajudou a datar a idade do Universo.

Descoberta. Segundo Bakich, M100 foi descoberta por Pierre Méchain em 15 de março de 1781, no mesmo período em que várias outras galáxias do Aglomerado de Virgem foram catalogadas por Méchain e Messier.

Estruturas notáveis

  • Os braços espirais. Bem abertos e simétricos em fotografias longas; visualmente, exigem telescópios de 200 mm ou mais e ampliações acima de 200× em noites de ótima estabilidade atmosférica para começar a se revelar.
  • O núcleo. Relativamente pequeno e compacto para o tamanho da galáxia, cercado por uma névoa difusa de cerca de 4′ em telescópios de porte médio, mesmo sem detecção dos braços.
  • NGC 4312. Uma galáxia companheira vista quase de perfil, no mesmo campo de telescópios de médio a grande porte sob céu escuro; um bom "bônus" para quem já localizou M100.
  • NGC 4322 e NGC 4328. Galáxias mais fracas próximas a M100 — a primeira, ao norte, é considerada a companheira física verdadeira; a segunda, a leste, provavelmente está apenas em primeiro plano, sem ligação gravitacional real.

Como localizar

M100 fica cerca de 8,3° a leste de Denébola (Beta Leonis, magnitude 2,1), ou, de forma mais precisa, cerca de 1,9° a lés-nordeste da estrela 6 Comae Berenices (magnitude 5,1). Uma rota alternativa parte de M99: a cerca de 1°42′ a nor-noroeste dela. Como o campo não tem estrelas muito brilhantes, um binóculo ou buscador de campo largo ajuda a confirmar a posição antes de partir para o telescópio principal.

Carta de localização de M100: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de +15,8°, M100 culmina a cerca de 51° de altura no Rio de Janeiro, uma posição favorável para uma galáxia relativamente brilhante. A melhor época vai de março a junho: no início de março ela cruza o meridiano perto da meia-noite, e em maio já está bem posicionada ao anoitecer. Como é a mais brilhante do trio de Coma, M100 tolera um pouco mais de luminosidade no céu do que M98 e M99, mas ainda se beneficia de uma noite sem Lua para revelar os braços.

Altura de M100 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de fevereiro a maio. O objeto chega a 51° à meia-noite em março.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ27 mar · 51°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de fevereiro a maio (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 51° em 27 de março.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -17°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
04:00 · -17° E
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
47 mag 9,5
Enquadramento
54 ocupa 14 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -42° — 51°
20:00 -49° — 52°
20:30 -56° — 52°
21:00 -63° — 52°
21:30 -70° — 52°
22:00 -76° — 53°
22:30 -81° — 53°
23:00 -82° — 53°
23:30 -78° — 53°
00:00 -72° — 54°
00:30 -65° — 54°
01:00 -59° — 54°
01:30 -52° — 54°
02:00 -45° — 55°
02:30 -38° — 55°
03:00 -31° — 55°
03:30 -24° — 55°
04:00 -17° — 55°
Altura de M100 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 04:00, com -17°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte04:00 · -17°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo (10×50 a 15×70) Em céu escuro, uma manchinha redonda e tênue, a mais fácil das três galáxias Messier dessa parte de Coma, ainda que discreta.
Telescópio de 150 a 200 mm Um disco difuso de cerca de 4′, com brilho mais concentrado no centro; sem detalhes de braços em condições urbanas.
Telescópio de 250 a 300 mm Em baixa e média ampliação, uma névoa redonda bem definida; os braços começam a aparecer só acima de 200× nas melhores noites. Com 300 mm, é possível acompanhar os braços por uma distância maior do centro.
Telescópio de 350 mm ou mais Sob céu escuro, além dos braços mais definidos, é possível notar NGC 4312 no mesmo campo, como uma faixa fina de galáxia vista quase de perfil.

Expectativa honesta: M100 é a mais generosa das três galáxias Messier de Coma tratadas neste lote, mas ainda assim é uma espiral de face, sensível à poluição luminosa: o disco central é relativamente fácil, os braços exigem céu escuro e paciência.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 6′ × 5′, M100 pede um campo moderado, de 25′ a 40′, para incluir os braços mais externos com folga. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor), a galáxia cabe confortavelmente, com espaço de sobra para incluir NGC 4312 no mesmo quadro, dependendo do enquadramento. Kier recomenda, para esse tipo de espiral aberta em Virgem, evitar centralizar demais e deixar espaço assimétrico para os braços mais longos.

Desafios do alvo

  • Braços amplos e de baixo contraste. Precisam de tempo de exposição total generoso para se destacar do fundo, especialmente nas partes mais externas.
  • Companheiras fracas no campo. NGC 4312, 4322 e 4328 são bem mais fracas que M100 e exigem processamento cuidadoso para não desaparecerem no ruído.
  • Foco crítico. Com o núcleo relativamente pequeno, é importante garantir um bom ponto de referência para o autofoco ou foco manual antes de começar a sessão principal.

Equipamento e filtros

Uma câmera colorida de um disparo já revela bem o disco e os braços principais em céu razoável. Filtros de banda estreita não ajudam em galáxias; um filtro de banda larga contra poluição luminosa pode ajudar um pouco sob Bortle 7, mas o ganho maior vem do tempo total de exposição. Câmeras monocromáticas com canais RGB separados ajudam a diferenciar as regiões de formação estelar, mais azuladas, do restante do disco.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou luminância) 60 a 100 180 s Disco, núcleo e braços espirais; o tempo total decide
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

Um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra M100 com folga, deixando espaço para NGC 4312 no mesmo quadro. O empilhamento de algumas dezenas de minutos já costuma revelar o disco e um indício dos braços principais. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M100 fecha com chave de ouro o pequeno roteiro de galáxias Messier de Cabeleira de Berenice: a maior, a mais brilhante e a mais fotogênica das três, com uma participação de peso na história da medição do Universo. Combine-a com as vizinhas M98 e M99, e amplie o roteiro com o aglomerado de Melotte 111 e a Galáxia do Olho Negro, M64. Para o panorama do aglomerado inteiro, veja o guia da constelação de Virgem.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. M100 (NGC 4321), objeto nº 245.
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Aglomerado de Virgem e M100, p. 265-266.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Aglomerado de Virgem, Cadeia de Markarian e M100, p. 119-122, 128, 140 (edição a conferir).
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. Berlin: Springer, 2005. M100, "Galáxia Roda Catarina", p. 120-121 (impressa 118-119).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo morfológico, magnitude e dimensões de M100, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.