setembro 21, 2026

M 10, o globular compacto de Ofiúco: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M10 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Entre os globulares de Ofiúco, M 10 é o que menos decepciona. Ele é um pouco mais fraco que o vizinho M 12 no papel, mas tem o núcleo mais denso, e isso muda tudo no ocular, sobretudo sob um céu urbano. Fica próximo ao equador celeste, e do Rio de Janeiro cruza o meridiano ao norte do zênite, a uns 63° de altura. Este guia mostra como achar M 10, quando observar, o que dá para ver em cada instrumento e como fotografá-lo.

Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, que reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura em um só lugar. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências do cabeçalho.

Imagem de referência (DSS2) de M10 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado globular

Um aglomerado globular é uma esfera de centenas de milhares de estrelas muito antigas, ligadas pela gravidade e em órbita ao redor da Galáxia. As estrelas mais brilhantes já estão nos estágios de gigante vermelha, e as menores, de baixa massa, continuam a brilhar fraco por eras (Mollise, p. 138). Para descrever quão apertadas as estrelas estão no centro, os astrônomos usam a escala de Shapley-Sawyer, de I (núcleo muito denso) a XII (quase sem núcleo). M 10 é classe VII, moderadamente concentrado (Allison, p. 157; Mollise, p. 139; Monks, p. 121). Não há dúvida sobre sua natureza: as estrelas velhas que mostra em seu diagrama HR e o aspecto em qualquer telescópio mostram um globular (Mollise, p. 140).

Todos os sete objetos de Messier em Ofiúco são globulares (Bakich; Mollise), e M 10 é dos mais acessíveis: Ridpath o coloca, com M 12, entre os melhores da constelação para binóculo (Ridpath, p. 181).

M 10 em números

Distância. Os livros trazem 14.000 a 14.400 anos-luz (Allison; Kambič; Monks; Mollise). A paralaxe do SIMBAD, de 0,196 milissegundo de arco, dá cerca de 16.600 anos-luz, valor adotado aqui; a divergência está nas pendências.

Tamanho. O SIMBAD traz 15,1′, cerca de metade do diâmetro da Lua cheia (Bakich diz o mesmo). Allison e Monks trazem cerca de 20′, e Kambič, cerca de 7′ em binóculo, o que mostra o efeito da abertura: quanto mais fraco o halo, menor o aglomerado parece. Monks lembra que M 13, em Hércules, mede 36′ (Monks, p. 121). A essa distância, 15,1′ correspondem a cerca de 73 anos-luz (calculado).

Brilho. O SIMBAD lista magnitude V de cerca de 5,0 (4,98); os livros trazem 6,6 (Bakich; Allison; Kambič; Mollise). Como o brilho se espalha por um disco de 15′, a impressão visual costuma ser mais fraca que o número integrado.

Um bom vizinho. M 12 fica a cerca de 3,3° dali, e Kambič imagina que, de um planeta em um dos dois aglomerados, o outro apareceria como um objeto de uns 2° de diâmetro e magnitude 2 (Kambič, p. 358).

Poeira. Bakich observa que a poeira interestelar escurece suas estrelas em quase uma magnitude.

Estruturas notáveis

  • Núcleo brilhante e halo. Com 100 mm, o que salta é um núcleo brilhante cercado por um halo (Bakich, objeto 454).
  • Cadeias de estrelas. Com 8 polegadas, o cluster começa a resolver com 96x e mostra cadeias de estrelas; aumentar demais não ajuda, por causa da turbulência (Allison, p. 157-158).
  • Transparência e espirais. Mollise, com 12,5 polegadas, viu um núcleo quase "transparente", como se olhasse através das estrelas até o vazio atrás, e correntes de estrelas partindo do centro, quase em espiral (Mollise, p. 139-140).
  • Estrela próxima. A estrela 30 Ophiuchi (magnitude 4,8) está cerca de 1° de distância e ajuda a achar o aglomerado (Mollise; Allison). Bakich registra a estrela HIP 82905 (magnitude 9,9), a 10′ a oés-sudoeste do centro.

Como localizar

M 10 forma um retângulo quase perfeito com as estrelas Delta, Épsilon, Zeta e Lambda Ophiuchi (Mollise, p. 138-139). Outra rota é partir de Zeta Ophiuchi e andar uns 8° para nordeste (Bakich); Allison dá 9° (p. 157). Em campos pequenos, use 30 Ophiuchi como referência: o aglomerado está a cerca de 1° dela (Mollise, p. 139). Para um observador experiente, o caminho mais curto é pular 3° a leste de M 12 (Mollise). Com binóculo, os dois cabem no mesmo campo (Kambič, p. 353).

M 12 tem seu próprio guia: M 12. Mais ao sul, na mesma região, estão M 19 e M 62.

Carta de localização de M10: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −4,1°, M 10 alcança cerca de 63° de altura no Rio, ao norte do zênite. Cruza o meridiano à meia-noite por volta de meados de maio e, às 21h, por volta do fim de julho (cálculo a partir da AR). O melhor período vai de maio a setembro, em madrugadas ou começos de noite conforme o mês. Ao olhar para ele, o norte fica para cima, como nos atlas do hemisfério norte.

O gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório, e o seguinte, a noite de hoje. Use o primeiro para escolher a época e o segundo, a hora.

Altura de M10 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de abril a julho. O objeto chega a 71° à meia-noite em junho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ5 jun · 71°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de abril a julho (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 71° em 5 de junho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 30° W
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
50 / 100
Posição no céu
22
Brilho
100 mag 5,0
Enquadramento
83 ocupa 21 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M10 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 21:30 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 30°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 28° W 278° 36°
20:00 21° W 275° 36°
20:30 14° W 272° 35°
21:00 7° W 269° 35°
21:30 1° W 266° 35°
22:00 -6° — 35°
22:30 -13° — 35°
23:00 -20° — 34°
23:30 -27° — 34°
00:00 -33° — 34°
00:30 -40° — 34°
01:00 -46° — 34°
01:30 -51° — 34°
02:00 -56° — 33°
02:30 -60° — 33°
03:00 -62° — 33°
03:30 -63° — 33°
04:00 -62° — 33°
Altura de M10 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 30°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Bakich diz que olhos muito treinados, em local escuro, podem vê-lo sem ajuda; sob Bortle 7, não conte com isso.
Binóculo (10×50) Um ponto de luz de cerca de 7′, junto de M 12 no mesmo campo; em noites excelentes, o núcleo é claro (Kambič, p. 353). Bakich e Ridpath (p. 181) indicam que binóculo ou buscadora o mostram.
Telescópio de 100 a 150 mm Núcleo brilhante e halo (Bakich). Monks diz que se precisa de 150 mm ou mais para resolver boa parte das estrelas (Monks, p. 121).
Telescópio de 150 a 200 mm Com 6 polegadas a 150x, em céu urbano e com o aglomerado mais baixo, Mollise resolveu numerosas estrelas na periferia, que piscam com a visão desviada (Mollise, p. 139). Com 8 polegadas a 167x, muitas estrelas cobriam quase todo o campo do ocular de 60° (Mollise, p. 140). Com 200 mm, a resolução chega quase ao núcleo com visão desviada (Monks, p. 121).
Telescópio grande Mais estrelas até o núcleo, com cadeias e o aspecto "transparente" (Mollise).

Uma boa surpresa urbana. Mollise afirma que M 10 é "muito melhor" que M 12 na cidade, e até no campo, opinião pessoal dele, mas coerente com a diferença de concentração (Mollise, p. 138-139). Se você só tem uma noite e um telescópio pequeno sob Bortle 7, escolha M 10.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

M 10 mede cerca de 15,1′ (SIMBAD). Kier sugere duas opções para globulares: um campo médio (30 a 50′), que reforça a concentração das estrelas, ou um campo fechado, que resolve mais do núcleo (Kier, p. 159). Ele não fotografa M 10, mas o comentário serve para o par. Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): o aglomerado ocupa uns 23% da largura. Com 2.000 mm de focal (campo de cerca de 0,55° × 0,37°), ele passa a ocupar mais de 40% da largura. M 10 e M 12 cabem juntos em um campo de 5°, com uma lente de 135 a 200 mm (calculado).

Desafios do alvo

  • Núcleo denso. O núcleo satura com exposições longas; faça séries curtas e combine em HDR ou use as curtas apenas para o miolo.
  • Campo de estrelas. Ofiúco fica perto da Via Láctea, e o fundo é rico em estrelas; a redução de estrelas ajuda a destacar o aglomerado.
  • Céu urbano. Sob Bortle 7, o halo externo é o primeiro a se perder no fundo do céu.

Equipamento e filtros

Kier afirma que globulares podem ser fotografados com LRGB, RGB ou câmera colorida de tiro único (Kier, p. 167, sobre M 12). Filtros de banda estreita não ajudam em um objeto sem gás. No processamento, ele recomenda deconvolução, nitidez agressiva e reforço de cor (Kier, p. 167).

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light curto (núcleo) 30 10 a 20 s Preservar o núcleo denso
Light longo (halo) 60 60 s Estrelas fracas do halo
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

M 10 é um alvo simples para smart telescopes: o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) o enquadra com folga, e o núcleo brilhante aparece logo nos primeiros minutos de empilhamento. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 10 é a resposta de Ofiúco a quem quer um globular que funcione mesmo sob um céu difícil: núcleo denso, boa altura e fácil de achar. Ele forma, com M 12, um par que mostra as duas faces desse tipo de objeto, o concentrado e o solto. Para continuar, siga para M 19 e M 62, ou leia o guia da constelação de Ofiúco. Se preferir um globular ainda mais brilhante, veja M 4 ou M 22.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. (Astronomers' Observing Guides). M 10, p. 157-158.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 454 (M 10).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. M 10 e M 12, p. 353-354 e 358.
  • KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. Considerações gerais sobre globulares, p. 159; "Globular Cluster M12", p. 167.
  • MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series). M 10, p. 138-140.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. New York: Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series), 2010. NGC 6254 (M 10), p. 121.
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Ofiúco e Serpente, M 10 e M 12, p. 181.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, paralaxe, dimensões e magnitude V de M 10, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.