setembro 22, 2026
Forno: o laboratório químico de Lacaille com o aglomerado de galáxias de Fornax

O Forno é uma das constelações mais fracas do céu a olho nu — só uma estrela passa da quarta magnitude — mas esconde um dos trechos mais movimentados do céu extragaláctico: o aglomerado de galáxias de Fornax, o segundo mais rico e próximo depois do aglomerado de Virgem. Num campo relativamente pequeno, cabem uma espiral barrada com núcleo ativo, uma rádio-galáxia formada pela fusão de duas outras, uma das barradas mais fotografadas do hemisfério sul e a elíptica gigante que ancora o aglomerado inteiro. Neste guia você vai aprender a achar o Forno a partir de Achernar, conhecer Dalim, sua única estrela de destaque, e saber que instrumento leva a cada uma dessas galáxias.
Um forno de química no meio do nada
O Forno (Fornax, abreviatura For) é uma constelação austral pequena e discreta, com cerca de 398 graus quadrados, encaixada entre Erídano, ao norte e ao sul, Baleia e Escultor a oeste, e Caelum a leste (Mourão, verbete sobre Fornax, p. 349). Foi criada pelo abade francês Nicolas-Louis de Lacaille em 1752, durante sua expedição ao Cabo da Boa Esperança, com o nome original de Fornax Chimiae, o "forno de química" — uma homenagem aos laboratórios da época, na mesma linha de outras constelações "instrumentais" de Lacaille (Mourão, p. 349). O nome foi simplificado pelo astrônomo Benjamin Gould em 1877, e a versão atual foi adotada pela União Astronômica Internacional em 1927 (Mourão, p. 349).
A olho nu, o Forno decepciona: apenas Dalim, a estrela alfa, passa da quarta magnitude, e o resto da constelação é praticamente invisível em céu com alguma poluição luminosa (Observer's Year, p. 291). Mas é justamente essa pobreza de estrelas brilhantes em primeiro plano — e a proximidade com o polo sul galáctico, na vizinha Escultor — que deixa a vista quase livre para o fundo do céu, onde vive um dos aglomerados de galáxias mais estudados do hemisfério sul.
Quando e como achar
Melhor época. O Forno culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em fins de dezembro. A boa temporada vai de novembro a fevereiro: em novembro ele já nasce cedo, em dezembro e janeiro domina o começo da noite, e em fevereiro se inclina para o oeste.
Para onde olhar. O Forno fica ao sul do equador celeste e, do Brasil inteiro, passa muito alto — a carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte para baixo e o leste para a direita.
| Cidade | Dalim | NGC 1097 | NGC 1316 |
|---|---|---|---|
| Boa Vista (RR) | 58° | 57° | 50° |
| Manaus (AM) | 64° | 63° | 56° |
| Recife (PE) | 69° | 68° | 61° |
| Brasília (DF) | 77° | 76° | 69° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 84° | 83° | 76° |
| São Paulo (SP) | 85° | 83° | 76° |
| Porto Alegre (RS) | 89° | 90° | 83° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do catálogo do projeto e a latitude de cada cidade; valores arredondados. O Forno passa quase no zênite em todo o Brasil, ficando ainda mais alto quanto mais ao sul o observador está.

Passo a passo.
- Ache Achernar, a estrela mais brilhante de Erídano — o Forno fica localizável a partir dela, um pouco a leste (Mourão, p. 349).
- Dalim, a única estrela de brilho razoável do Forno, é o ponto de partida dentro da constelação: fica perto da fronteira com Erídano.
- A partir de Dalim, as galáxias do aglomerado de Fornax ficam a alguns graus ao sul; use as coordenadas ou uma carta de localização (star-hopping) para apontar o telescópio, já que não há estrelas guia brilhantes na própria região das galáxias.
A estrela do Forno
| Estrela | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|
| Dalim (alfa) | 3,80 a 3,9 | F6/8 III (subgigante) | cerca de 46 anos-luz |
| Beta For | 4,45 | — | não conferida aqui |
| Ni For | 4,68 | — | não conferida aqui |
| Ômega For | 4,96 | — | não conferida aqui |
| Delta For | 4,99 | — | não conferida aqui |
Brilho de Dalim do Observer's Year e do catálogo HYG (pequena divergência entre fontes); as demais estrelas vêm só do catálogo HYG usado na carta do site, sem nome próprio.
Dalim é a única estrela do Forno que vale a pena memorizar. O nome vem do árabe e significa algo como "as avestruzes" ou está ligado a uma associação de estrelas vizinhas com aves do deserto — a origem exata não está nos livros de apoio consultados aqui. Com magnitude 3,8 a 3,9 e a cerca de 46 anos-luz (Observer's Year, p. 291), é uma subgigante relativamente próxima do Sol. Todas as outras estrelas do Forno — beta, ni, ômega e delta — ficam abaixo da quinta magnitude e não têm nome próprio.
O aglomerado de Fornax: quatro galáxias, um guia cada
A poucos graus ao sul de Dalim fica o coração do aglomerado de Fornax, o segundo aglomerado de galáxias mais rico e próximo depois do de Virgem — um alvo e tanto para quem tem telescópio de 100 mm para cima e céu razoavelmente escuro (Visual Astronomy in the Suburbs, p. 215-216).
NGC 1097, a espiral barrada com núcleo ativo
A NGC 1097 é uma espiral barrada com um núcleo ativo do tipo Seyfert e um histórico de três supernovas observadas em pouco mais de uma década. É a mais isolada das quatro, um pouco ao norte do resto do aglomerado.
NGC 1316, a Fornax A
A NGC 1316 é a galáxia mais brilhante do aglomerado e uma das fontes de rádio mais fortes do céu, resultado, segundo os estudos mais recentes, da fusão entre duas ou mais galáxias no passado — as fotografias de longa exposição mostram os rastros dessa fusão em forma de filamentos de poeira e conchas estelares.
NGC 1365, a grande espiral barrada
A NGC 1365 é considerada uma das espirais barradas mais espetaculares do céu, com uma barra alongada e bem definida ligando dois braços em espiral. É o alvo mais fotogênico do grupo.
NGC 1399, a elíptica central
A NGC 1399 é uma galáxia elíptica gigante e a mais brilhante do centro do aglomerado — o ponto em torno do qual as demais galáxias do grupo orbitam gravitacionalmente. No ocular, aparece como um brilho redondo e denso, sem os detalhes de estrutura das espirais vizinhas.
NGC 1360, a nebulosa planetária
Mais ao norte, já longe do aglomerado de galáxias, o Forno também guarda a NGC 1360, uma nebulosa planetária grande e de brilho baixo, que se beneficia de um filtro OIII para destacar do fundo do céu.
Mitologia e história: um instrumento, não um mito
Como quase todas as constelações de Lacaille, o Forno não tem mitologia — o nome celebra um instrumento de laboratório, não uma figura ou um herói. Lacaille dedicou boa parte das 14 constelações que criou no Cabo da Boa Esperança a instrumentos científicos e artísticos do Iluminismo: um forno de química ao lado de um escultor (Escultor), uma bússola (Pyxis), um telescópio (Telescopium), um microscópio (Microscopium). É um contraste direto com as constelações antigas, gregas e romanas, sempre povoadas de deuses e animais míticos — o Forno é, ao contrário, um monumento silencioso à ciência do século 18 (Mourão, p. 349; verbete sobre Lacaille, p. 489-490).
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | Praticamente nada — Dalim é a única estrela visível com facilidade em céu com alguma luz. |
| Binóculo (10×50) | Um teste difícil: em céu bem escuro, um binóculo grande pode flagrar o brilho combinado de NGC 1316 e vizinhas como uma manchinha, mas não é um alvo fácil de binóculo comum. |
| Telescópio pequeno (100 a 150 mm) | NGC 1097, NGC 1316, NGC 1365 e NGC 1399 já aparecem como manchas distintas em céu escuro; NGC 1360 pede filtro OIII. |
| Telescópio médio (200 mm ou mais) | Mais estrutura na barra de NGC 1365, os filamentos de fusão de NGC 1316 em fotografia de longa exposição, e outras galáxias mais fracas do aglomerado de Fornax. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre novembro e fevereiro, com o céu ao sul bem escuro — o Forno não perdoa poluição luminosa.
- Comece por Dalim e desça alguns graus ao sul até o aglomerado de Fornax; use uma carta de localização (star-hopping) ou coordenadas, já que a região não tem estrelas-guia brilhantes.
- Reserve uma noite inteira só para o aglomerado: as quatro galáxias cabem numa sequência de poucos graus, ideal para uma "maratona" de observação.
Referências
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Tau Ceti, UV Ceti e o Forno, p. 287-291.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Fornax" (p. 349) e verbete sobre Lacaille e as 14 constelações austrais (p. 489-490).
- COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series). Galáxias do catálogo secundário (Sculptor, Fornax, Eridanus), p. 215-216 (impressa 209-210).
- Guias individuais do site: NGC 1097, NGC 1316, NGC 1365, NGC 1399 e NGC 1360, com fontes, magnitudes e distâncias detalhadas por objeto.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas e brilhos, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.