setembro 21, 2026
NGC 1316, a Fornax A: guia completo de observação e astrofotografia

Em Fornax, uma constelação de brilho discreto, o objeto mais brilhante não é uma nebulosa nem uma estrela: é uma galáxia, e não uma qualquer. NGC 1316, também chamada de Fornax A, é o membro mais brilhante visualmente do aglomerado de galáxias de Fornax e, entre os astrônomos profissionais, é famosa por ser uma fonte de rádio extremamente forte (Monks). No ocular, a aparência é modesta: uma mancha elíptica com núcleo brilhante e um halo tênue. Nas fotografias longas, porém, aparece um conjunto de faixas de poeira, filamentos e bordas que denunciam uma história de fusões com outras galáxias. Este guia reúne os dados, a maneira de achar, o que esperar do ocular no Rio de Janeiro e uma estratégia de captura.
Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências do artigo.

Ficha técnica e designações
| Designação principal | NGC 1316 |
|---|---|
| Outras designações | NGC NGC 1316 PGC / UGC PGC 12651 |
| Tipo de objeto | Galáxia |
| Constelação | Fornax |
| Coordenadas (J2000) | RA 03h 22m 42s | Dec −37° 12′ 30″ |
| Distância da Terra | ~70 milhões anos-luz (estimativas de 57 milhões a 75 milhões) |
| Magnitude aparente | +8,5 |
| Tamanho aparente | 13′ |
| Melhor época (BR) | Novembro, Dezembro, Janeiro |
Visão geral: o que é uma radiogaláxia
A maior parte das galáxias emite pouca energia em rádio. Uma radiogaláxia é a exceção: o buraco negro supermassivo do núcleo lança jatos de partículas que inflam enormes lóbulos de gás emissor de rádio, muito maiores que a parte visível. Fornax A é uma das mais brilhantes do céu em rádio e por isso ganhou a letra A, seguindo a convenção de nomear as radiofontes de cada constelação em ordem de intensidade (conhecimento geral, a conferir). No visível, os lóbulos não aparecem: o que se vê é a galáxia, que é o que nos interessa aqui.
A classificação que muda. A NGC 1316 é chamada de lenticular por Monks e Cooke, de espiral por Kambič e de elíptica pelo SIMBAD, e Bakich explica a confusão: seus braços são tão enrolados que ela parece uma elíptica na maioria dos telescópios. Faz sentido, porque ela é um caso raro de galáxia que se formou por fusões.
Uma história turbulenta. Monks resume: a galáxia contém aglomerados abertos de estrelas de pelo menos duas gerações, alguns cheios de estrelas quentes e jovens, outros com estrelas muito mais velhas e fracas. A explicação provável é que a Fornax A engoliu galáxias menores no passado: um desses episódios ocorreu há cerca de 100 milhões de anos e formou os aglomerados jovens, e os velhos são restos de um evento muito mais antigo. O que as fotografias mostram como faixas e conchas é a poeira e o material dessas fusões.
Em números. O SIMBAD traz magnitude visual 8,5 e tamanho de 9,7′ × 6,5′, com o eixo maior na direção nordeste-sudoeste (Bakich: cerca de 1,5 vez mais comprida que larga). A galáxia está a cerca de 60 a 70 milhões de anos-luz, o que dá um diâmetro visível na casa de 150.000 anos-luz (Monks, com uma distância menor, chega a 120.000). Kambič põe a Fornax A, junto com a M87 e a M49, no limite prático dos binóculos 10×50: galáxias a cerca de 60 milhões de anos-luz.
Estruturas notáveis
- O núcleo. Brilhante, quase circular e fácil de achar (Monks). Em telescópios pequenos, pode parecer quase estelar.
- O halo elíptico. Espesso, com a região central larga, mas fraco e facilmente engolido pela poluição luminosa (Monks; Bakich).
- A companheira NGC 1317. Uma pequena espiral de braços apertados, a cerca de 6′ ao norte, com magnitude de cerca de 12 (Bakich); Cooke a dá como 12,2 e 0,7′ de tamanho. Monks a menciona como uma galáxia com a qual a Fornax A interage.
- As faixas de poeira e as conchas. Só as fotografias longas as revelam; são o rastro das fusões.
- Os aglomerados globulares. Muito fracos, só no alcance de imagens profundas.
Como localizar
Bakich indica achar a galáxia a cerca de 1,4° a su-sudoeste da estrela Chi-1 de Fornax (mag. 6,4). Kambič a apresenta como um alvo de binóculo para observadores próximos do equador, no mesmo campo de estrelas como Delta e o trio Xi, e sugere seguir a fileira de estrelas de Eridano de Tau-3 a Tau-6 para chegar a Fornax. No Rio, com a região alta no céu, o caminho é simples: Chi-1 é a base, e a galáxia está a menos de 2° dali.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de −37°, a NGC 1316 passa pelo meridiano a cerca de 14° ao sul do zênite do Rio, com uma altura de cerca de 76°. A melhor época vai de novembro a janeiro (meridiano à meia-noite em meados de novembro e por volta das 21 h no fim de dezembro). Monks lembra que, no sul da Inglaterra, ela mal se levanta um grau acima do horizonte; do Rio, sobe muito alto no céu.
O primeiro gráfico mostra a altura da galáxia ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho dela pelo céu nesta noite, seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 01:50 · 76° S
- Horas acima de 45°
- 5,5 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 85 / 100
- Posição no céu
- 87
- Brilho
- 62 mag 8,5
- Enquadramento
- 100 ocupa 30 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 10° | SE 126° | 121° |
| 20:00 | 15° | SE 124° | 121° |
| 20:30 | 21° | ESE 123° | 121° |
| 21:00 | 27° | ESE 121° | 121° |
| 21:30 | 33° | ESE 120° | 121° |
| 22:00 | 39° | ESE 120° | 121° |
| 22:30 | 45° | ESE 120° | 121° |
| 23:00 | 51° | ESE 121° | 120° |
| 23:30 | 57° | ESE 123° | 120° |
| 00:00 | 63° | SE 127° | 120° |
| 00:30 | 68° | SE 134° | 120° |
| 01:00 | 72° | SE 146° | 120° |
| 01:30 | 75° | SSE 165° | 120° |
| 02:00 | 76° | S 189° | 120° |
| 02:30 | 73° | SSW 209° | 120° |
| 03:00 | 69° | SW 223° | 120° |
| 03:30 | 64° | SW 231° | 120° |
| 04:00 | 59° | SW 236° | 120° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível. |
| Binóculo (10×50) | Alvo-limite: uma mancha muito tênue, só em céu muito escuro e com a galáxia alta (Kambič); em Bortle 7, a expectativa é nula. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Uma mancha elíptica fraca, com núcleo brilhante e quase circular; o halo é difícil de perceber com a poluição luminosa (Monks). |
| Telescópio de 200 mm | O núcleo se destaca, e o halo elíptico aparece mais alongado no sentido nordeste-sudoeste (Bakich). A NGC 1317 é um alvo de contraste. |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Aumenta o halo, mas Monks lembra que, mesmo em aberturas médias e grandes, pouco se vê além da forma elíptica. |
Expectativa honesta. É um alvo modesto no ocular: um bom núcleo e um halo que desaparece em Bortle 7. O interesse está em saber o que ele é. A fotografia é o que revela a riqueza da galáxia.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 10′ de tamanho (e um halo maior em imagens profundas), a NGC 1316 cabe bem em um campo de cerca de 1° × 0,75°, como o de um telescópio de 1.000 mm com uma câmera ASI294MC Pro. A NGC 1317, a cerca de 6′ ao norte, entra no mesmo quadro, o que dá uma bela composição de duas galáxias. Uma focal mais longa (1.500 a 2.000 mm) mostra melhor as faixas de poeira do núcleo.
Desafios do alvo
- Faixa dinâmica. O núcleo é muito brilhante e o halo, tênue: cuide para não estourar o centro.
- Faixas e conchas fracas. As marcas de fusão precisam de muito tempo de exposição total e de um fundo de céu bem controlado; em Bortle 7, o tempo total é o que decide.
- Cor. Uma galáxia de população mais velha, amarelada, com aglomerados jovens azulados. Evite saturar demais.
Equipamento e filtros
Câmera colorida com filtro de poluição luminosa, ou monocromática em luminância mais RGB. Não use banda estreita: a galáxia emite pouco em H-alfa. Um ponto de vista útil é registrar bastante luminância e combinar com cor mais curta. Fotografe perto do meridiano, quando a altura é máxima.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (luminância ou RGB) | 90 a 150 | 120 a 180 s | Núcleo, halo e faixas; o importante é o tempo total |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.
Smart telescopes e campo de visão
A galáxia e sua companheira cabem no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), e o quadro ainda deixa espaço para as estrelas do campo. Em poucos minutos de empilhamento aparece o núcleo; o halo e as faixas pedem uma a duas horas em céu escuro. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
A Fornax A é uma galáxia que decepciona no ocular e compensa na câmera e na história: uma radiogaláxia, resultado de fusões, no meio de um aglomerado de galáxias, a poucos passos de outras. Combine-a numa noite de fim de ano com a NGC 1365, a NGC 1399 e a NGC 1097 para uma pequena viagem pelo aglomerado de Fornax.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 860 (NGC 1316).
- COOKE, Antony. Visual Astronomy in the Suburbs: A Guide to Spectacular Viewing. London: Springer, 2003. Catálogo secundário, p. 210 (NGC 1316 e NGC 1317).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Fornax, p. 296; alcance dos binóculos, p. 150.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 1316 (Fornax A), p. 190-191.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Aglomerado de Fornax e NGC 1316, p. 207.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo morfológico, dimensões, magnitude e distâncias de NGC 1316 e NGC 1317, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.