setembro 22, 2026

Carena, o casco do navio Argo: guia da constelação de Canopus e da Nebulosa de Carina

Carta estelar de Carena como aparece do Brasil, olhando para o sul: Canopus brilhante à direita, Avior e Aspidiske no meio, Miaplacidus à esquerda, com a Nebulosa de Carina, os aglomerados NGC 3293, NGC 3324, NGC 3532 e IC 2602 e a planetária NGC 2867 marcados em verde, sobre o fundo denso da Via Láctea

Se existe uma constelação que resume por que vale a pena morar no hemisfério sul, é Carena. Ela é pequena parte de um antigo gigante — o navio Argo —, mas ficou com o melhor do espólio: a segunda estrela mais brilhante do céu inteiro, uma nebulosa que rivaliza com qualquer coisa que Órion tenha a oferecer, e um punhado de aglomerados abertos que enchem o binóculo de estrelas. Do Rio, de São Paulo e de praticamente qualquer cidade brasileira, ela sobe bem alto no céu e fica visível por boa parte do ano.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

O casco do navio que virou três constelações

Carena (Carina, abreviatura Car) ocupa cerca de 494 graus quadrados do céu e faz fronteira com Vela, Popa, Pyxis, Peixe Voador, Camaleão, Mosca e Cruzeiro do Sul. Ela não existia como constelação independente até o século XVIII: fazia parte de Argo Navis, o imenso "navio" que Ptolomeu já catalogava na Antiguidade, o barco em que Jasão e os argonautas teriam navegado até a Cólquida em busca do velocino de ouro (Mourão, verbete Argo, p. 213). Argo era tão grande e desajeitado como constelação — chegou a ser a maior de todas — que o astrônomo francês Nicolas-Louis de Lacaille o dividiu, em meados do século XVIII, em três pedaços menores: Carina (a quilha do casco), Vela (as velas) e Puppis (a popa) (Philip's, verbete Carina, p. 72; Mourão, verbete Argo, p. 211-213).

A divisão deixou uma marca curiosa no céu: como as três constelações compartilham a numeração de Bayer do Argo original, nenhuma delas começa suas letras gregas em Alfa. Vela salta direto para Gama, Puppis começa em Zeta — e é Carena que fica com o Alfa e o Beta, incluindo a própria Canopus (Mourão, p. 211-212). A "Falsa Cruz", formada por Épsilon e Iota Carinae junto com Delta e Kappa Velorum, é maior, mais simétrica e mais fraca que o verdadeiro Cruzeiro do Sul, e confunde observadores de primeira viagem até hoje (Moore, Observer's Year, p. 356).

Ao contrário de Escorpião ou Touro, Carena não tem uma "forma" fácil de reconhecer — é um pedaço de casco de navio, afinal. O que a torna notável não é o desenho, mas o conteúdo: fica sobre um dos trechos mais ricos da Via Láctea austral, junto com Vela e Cruzeiro do Sul, cheio de aglomerados, nebulosas e a estrela mais espetacular do céu do sul depois de Sirius.

Quando e como achar

Melhor época. O centro de Carena culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em meados de fevereiro, mas como a constelação é grande e alongada — de Canopus, mais a leste, até Miaplacidus e a Nebulosa de Carina, mais a oeste —, ela fica bem posicionada por uma faixa larga do ano: nasce cedo em dezembro, domina o começo da noite de janeiro a abril, e ainda aparece bem no início da noite em maio e junho.

Para onde olhar. Carena é uma constelação bem austral (declinação entre cerca de -52° e -75°) e, do Brasil, ela culmina voltada para o sul, com o norte para cima na carta abaixo.

Cidade Canopus Avior / Aspidiske Miaplacidus
Boa Vista (RR) 35° 28° 17°
Manaus (AM) 40° 34° 23°
Recife (PE) 45° 39° 28°
Brasília (DF) 53° 46° 36°
Rio de Janeiro (RJ) 60° 54° 43°
São Paulo (SP) 61° 54° 44°
Porto Alegre (RS) 67° 61° 50°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir das declinações do catálogo HYG e da latitude de cada cidade; valores arredondados. Carena sobe bem em todo o país — mais alta quanto mais ao sul, mas nunca abaixo do horizonte, nem em Boa Vista.

Carta estelar de Carena como aparece do Brasil, olhando para o sul: Canopus brilhante à direita, Avior e Aspidiske no meio, Miaplacidus à esquerda, com a Nebulosa de Carina, os aglomerados NGC 3293, NGC 3324, NGC 3532 e IC 2602 e a planetária NGC 2867 marcados em verde, sobre o fundo denso da Via Láctea
Carta estelar de Carena como ela aparece do Brasil ao olhar para o sul: o norte fica em cima e o leste à esquerda. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado é o limite oficial da constelação; Carena não é zodiacal, então não há linha de eclíptica cruzando a carta. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Comece pelo Cruzeiro do Sul, fácil de reconhecer. Canopus fica bem mais a leste (à esquerda, olhando para o sul), sozinha em uma região com poucas estrelas brilhantes por perto — depois de Sirius, é a estrela mais brilhante do céu inteiro, então não tem como confundir.
  2. Entre o Cruzeiro e Canopus, mais perto do Cruzeiro, fica o grupo de Avior e Aspidiske, as duas estrelas médias que, junto com Delta e Kappa Velorum, formam a Falsa Cruz.
  3. Mais a oeste ainda (à direita de Avior, na carta), perto do limite com Vela e Mosca, fica Miaplacidus, e é ali perto que se concentra o trecho mais rico da Via Láctea em Carena: a Nebulosa de Carina e os aglomerados NGC 3293, NGC 3324, NGC 3532 e IC 2602.

As estrelas de Carena

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Canopus (alfa) isolada, a leste -0,62 F0 Ib (supergigante) cerca de 310 anos-luz
Miaplacidus (beta) extremo oeste 1,67 A0 (gigante/subgigante) cerca de 105 a 115 anos-luz
Avior (épsilon) Falsa Cruz 1,86 K3 III + B2 V (dupla) cerca de 630 anos-luz
Aspidiske (iota) Falsa Cruz 2,21 A9 Ib (supergigante) cerca de 690 anos-luz
Eta Carinae dentro da nebulosa variável, cerca de 4,3 a 5 atualmente estrela peculiar, par de hipergigantes luminosas azuis cerca de 7.500 a 8.600 anos-luz

Brilhos e tipos espectrais consultados no catálogo HYG v4.1 (usado na carta) e cruzados com os livros de apoio listados nas referências. As distâncias vêm de paralaxes e de valores citados nos livros; divergem bastante entre fontes antigas e recentes, como registrado nas pendências.

Canopus, a segunda estrela mais brilhante do céu depois de Sirius, é uma supergigante amarelo-esbranquiçada de tipo F, com um diâmetro estimado em mais de 70 vezes o do Sol e uma luminosidade de milhares de sóis (Philip's, verbete Canopus, p. 70; Mourão, verbete Canopus, p. 184). O nome está ligado a Menelau, rei de Esparta na Ilíada: Canopus teria sido o piloto (timoneiro) de sua frota, e é por isso que a estrela também é conhecida como Suhel ou Suhail em fontes árabes mais antigas (Mourão, p. 184; Vieira, p. 86). Além de ser um marco do céu austral, Canopus é usada de verdade como referência de orientação por sondas espaciais, graças ao seu brilho e à posição relativamente isolada no céu (Mourão, p. 184).

Miaplacidus, a segunda estrela mais brilhante de Carena, tem um nome de origem mista árabe-latina que aponta para "águas calmas", um comentário sobre o mar tranquilo da mitologia associada ao navio Argo (Mourão, verbete Miaplacidus, p. 571; Vieira, p. 86). É circumpolar para quem observa de latitudes bem mais ao sul que o Rio de Janeiro, mas mesmo do Brasil aparece confortavelmente alta a noite toda em boa parte do ano.

Avior e Aspidiske, junto com Delta e Kappa Velorum, formam a Falsa Cruz — um asterismo maior, mais simétrico e um pouco mais fraco do que o Cruzeiro do Sul verdadeiro, e a causa mais comum de confusão para quem está aprendendo a se localizar no céu do hemisfério sul. Moore descreve a Falsa Cruz como composta por três estrelas brancas e uma quarta, Avior, com um tom alaranjado nítido (Observer's Year, p. 356). Aspidiske é uma supergigante; seu nome vem do grego e significa "pequeno escudo", uma referência aos escudos pendurados na popa dos navios antigos.

Eta Carinae é a estrela mais extraordinária da região, embora hoje mal se destaque a olho nu: em abril de 1843 ela passou brevemente pela segunda posição mais brilhante do céu noturno, atrás só de Sirius, num surto conhecido como a Grande Erupção, e depois voltou a esmaecer até a sétima magnitude (Mourão, verbete Eta Carinae, p. 328; Mobberley, p. 192). Hoje sabe-se que não é uma única estrela, mas um sistema binário de hipergigantes luminosas azuis, com massa total estimada em mais de 100 vezes a do Sol, um dos objetos mais luminosos conhecidos da Via Láctea e uma candidata séria a explodir como supernova nos próximos milhões de anos (Mourão, p. 328-329; Mobberley, p. 192). A erupção de 1843 ejetou o material que hoje forma a Nebulosa do Homúnculo, visível em telescópios maiores dentro da nuvem de gás muito mais extensa da Nebulosa de Carina.

A Nebulosa de Carina e os aglomerados vizinhos

O trecho de Via Láctea entre Miaplacidus e a fronteira com Vela concentra o melhor de Carena — e talvez o melhor do céu profundo austral inteiro. O próprio catálogo do site já tem guias completos para cada um destes objetos; aqui vai só o resumo de como eles se encaixam no mapa da constelação.

NGC 3372, a Nebulosa de Carina

A Nebulosa de Carina, Caldwell 92, é uma nuvem de gás e poeira que ocupa cerca de 2° do céu — quatro vezes o diâmetro da Lua cheia —, visível a olho nu como o trecho mais brilhante da Via Láctea austral. No meio dela fica Eta Carinae, e ao lado a nuvem escura conhecida como Buraco da Fechadura (Keyhole), uma silhueta de poeira em contraste com o gás brilhante ao redor (Mobberley, p. 192). Steven Coe, que viajou à Austrália especialmente para observá-la, a chama de um dos melhores objetos de céu profundo que existem, com cerca do dobro do tamanho aparente da Nebulosa de Órion em binóculo (Coe, p. 86-89). A distância mais citada na literatura recente fica entre 7.500 e 8.600 anos-luz.

NGC 3293 e NGC 3324, os vizinhos da nebulosa

A poucos graus da Nebulosa de Carina ficam dois aglomerados menores. NGC 3293 é um aglomerado aberto jovem, chamado de "Pequena Caixa de Joias" por ter muitas estrelas azuis quentes misturadas a algumas gigantes vermelhas. Ao lado, NGC 3324 é uma nebulosa de emissão com um aglomerado de estrelas jovens embutido, batizada informalmente de Nebulosa Gabriela Mistral em homenagem à poeta chilena; um filtro UHC a torna bem mais evidente mesmo sob céu não tão escuro.

NGC 3532, o Poço dos Desejos

Um pouco mais a leste, NGC 3532, Caldwell 91, é um dos melhores aglomerados abertos do céu inteiro segundo os livros de astrofotografia: centenas de estrelas dispostas num retângulo alongado, batizado de "Almofada de Alfinetes" e "Festa dos Vaga-lumes" (Mobberley; Bakich). Em binóculo, do Rio, ele passa a cerca de 54° de altura.

NGC 2867, a planetária pequena e brilhante

NGC 2867, Caldwell 90, é uma nebulosa planetária bem menor e mais discreta, a cerca de um grau de Iota Carinae (Aspidiske). Em telescópios pequenos, ela parece uma estrela comum — só grandes aumentos revelam o disco.

IC 2602, as Plêiades do Sul

Perto de Miaplacidus, IC 2602, Caldwell 102, é a réplica austral das Plêiades: um aglomerado aberto brilhante e espalhado, centrado na estrela azulada Theta Carinae, de 3ª magnitude, com um punhado de estrelas visíveis a olho nu ao redor (Vieira, p. 86). Como as Plêiades do norte, rende mais em binóculo do que em telescópio, por causa do tamanho grande.

Mitologia e história: um casco sem herói próprio

Diferente de constelações como Escorpião ou Órion, Carena não carrega uma história independente — sua mitologia é a do navio Argo inteiro, antes de ser desmembrado. Segundo Mourão, o Argo era uma galé de cinquenta remos em que Jasão e os argonautas navegaram até a Cólquida para buscar o velocino de ouro, o mesmo carneiro mitológico que dá nome à constelação de Áries (Mourão, verbete Argo, p. 213). Ptolomeu já catalogava Argo Navis como uma das 48 constelações clássicas, mas o desenho era tão grande e estranho — um navio sem proa, cortado para caber no céu — que astrônomos posteriores foram propondo dividi-lo.

Foi Lacaille, em meados do século XVIII, trabalhando no Cabo da Boa Esperança, quem consolidou a divisão em Carina, Vela e Puppis (mais tarde complementada por Pyxis, a Bússola, separada da região do mastro) (Philip's, verbete Carina, p. 72; Mourão, p. 211-213). Assim, Carena é uma constelação "moderna" no sentido de ter ganhado identidade própria só nos últimos séculos — mesmo trazendo, no fundo, uma das histórias mais antigas do céu grego.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Canopus isolada e muito brilhante; a Falsa Cruz (Avior, Aspidiske, Delta e Kappa Velorum) e o cuidado para não confundi-la com o Cruzeiro do Sul; a Nebulosa de Carina como uma mancha brilhante na Via Láctea; IC 2602 como um punhado de estrelas ao redor de Theta Carinae.
Binóculo (10×50) A Nebulosa de Carina com detalhe, incluindo o contraste do Buraco da Fechadura; os aglomerados NGC 3293, NGC 3324, NGC 3532 e IC 2602 resolvidos em dezenas de estrelas cada.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) A estrela Eta Carinae dentro da nebulosa, com boa ampliação; NGC 2867 ainda parecendo uma estrela; NGC 3293 e NGC 3324 com mais detalhe de cor.
Telescópio maior (200 mm ou mais) A Nebulosa do Homúnculo ao redor de Eta Carinae, com seus dois lóbulos; NGC 2867 já mostrando um disco pequeno.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre janeiro e maio, com o horizonte sul limpo — Carena nunca sobe muito alto no norte do país, então um horizonte desobstruído faz diferença.
  • Comece pelo Cruzeiro do Sul, siga até a Falsa Cruz e depois até Canopus, para não se perder entre as duas cruzes.
  • Reserve um tempo generoso para a Nebulosa de Carina: é grande demais para "ver rápido", e recompensa quem varre o campo devagar com o binóculo.

Referências

  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 92 (NGC 3372) e Eta Carinae, p. 192.
  • COE, Steven R. Nebulae and How to Observe Them. London: Springer, 2007. NGC 3372 e NGC 3324, p. 86-89.
  • MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbetes "Canopus" (p. 70), "Avior" (p. 53) e "Carina" (p. 72).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noite de 26 de dezembro, a Falsa Cruz e o navio Argo, p. 356.
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Argo" (p. 211-213), "Canopus" (p. 184), "Eta Carinae" (p. 328-329) e "Miaplacidus" (p. 571).
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. O navio Argo: Carina, Popa e Vela, p. 86-87.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.