setembro 22, 2026
Cabeleira de Berenice: guia da constelação-aglomerado e do mar de galáxias de Coma

Poucas constelações escondem uma história tão bem documentada quanto a Cabeleira de Berenice. Ela não vem da mitologia grega antiga, não tem um caçador, um monstro ou um deus por trás: é o cabelo de uma rainha egípcia de verdade, cortado como oferenda e "encontrado" no céu por um astrônomo da corte. E, apesar de ser pequena e discreta a olho nu, é uma das regiões mais generosas do céu para quem tem binóculo ou telescópio: dentro dos seus limites cabem um aglomerado estelar aberto que dá para ver sem instrumento nenhum e uma fatia enorme do Aglomerado de Virgem, a concentração de galáxias mais próxima e rica que existe. Neste guia você vai aprender a achar a Cabeleira do Brasil, conhecer suas poucas estrelas e a dúzia de galáxias mais visitadas da região.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
Uma constelação que é, ao mesmo tempo, um aglomerado
A Cabeleira de Berenice (Coma Berenices, abreviatura Com) ocupa cerca de 386 graus quadrados do céu, entre Boieiro (Boötes) a leste, Virgem ao sul, Leão a oeste e Cães de Caça (Canes Venatici) ao norte. Ela não é uma das 48 constelações antigas de Ptolomeu: antes de virar figura própria, essas estrelas eram vistas como o tufo de pelos no fim do rabo do Leão (Ridpath). A separação em constelação independente é creditada a Gerardus Mercator, em meados do século XVI, e Tycho Brahe a incluiu oficialmente em seu catálogo em 1590 (Moore, The Observer's Year).
O que torna Coma incomum é que ela nomeia, ao mesmo tempo, duas coisas diferentes que um observador pode confundir: o Aglomerado de Coma (Melotte 111), um aglomerado aberto de estrelas da nossa própria Galáxia, relativamente próximo e visível a olho nu; e o Aglomerado de Coma de galáxias, um aglomerado gigantesco de milhares de galáxias muito mais distante, que se estende por boa parte da constelação e se conecta ao vizinho e mais famoso Aglomerado de Virgem. É a mesma constelação hospedando um "aglomerado de perto" e um "aglomerado de longe" — vale a pena não misturar os dois quando for observar.
A olho nu, a Cabeleira é discreta: não tem nenhuma estrela de primeira ou segunda magnitude, e a figura inteira soma poucas estrelas moderadas. A recompensa vem do binóculo e do telescópio, onde a densidade de galáxias por grau quadrado é uma das maiores do céu.
Quando e como achar
Melhor época. Coma está centrada perto de 12h 40min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em meados de maio. A boa temporada vai de março a julho: em março ela já nasce no fim da noite, em abril e maio domina o começo da noite, e em junho e julho ainda dá para pegá-la mais cedo, antes de se inclinar para o oeste.
Para onde olhar. Coma fica ao norte do equador celeste e, do Brasil, culmina voltada para o norte. A tabela abaixo mostra a altura máxima de Diadem (a estrela mais ao sul da figura, na "raiz" do cabelo) e de Beta Com (a mais ao norte).
| Cidade | Diadem (α Com, Dec +17,5°) | Beta Com (Dec +27,9°) |
|---|---|---|
| Boa Vista (RR) | 75° | 65° |
| Manaus (AM) | 69° | 59° |
| Recife (PE) | 64° | 54° |
| Brasília (DF) | 57° | 46° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 50° | 39° |
| São Paulo (SP) | 49° | 39° |
| Porto Alegre (RS) | 42° | 32° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do SIMBAD e a latitude de cada cidade; valores arredondados. Coma é visível do Brasil inteiro, mais alta ao norte do país.

Passo a passo.
- Localize primeiro o Leão e sua estrela Denébola, na "cauda". Coma fica logo a leste (à esquerda na carta), numa região sem nenhuma estrela óbvia — é normal sentir que "não tem nada ali": essa aparente vacância é o próprio sinal de que você está no lugar certo.
- Ou comece por Arcturus, a estrela alaranjada e brilhante do Boieiro: Coma fica a oeste dela (à direita na carta), na mesma faixa de altura.
- Dentro da área "vazia" entre Leão, Boieiro e Virgem, procure uma mancha nebulosa em forma de "V" ou leque, visível a olho nu em céu escuro: é o aglomerado Melotte 111, o "cabelo" propriamente dito.
- Diadem (Alfa Com) fica ao sul do aglomerado, e é a estrela batizada da constelação, embora não seja a mais brilhante.
As estrelas da Cabeleira de Berenice
| Estrela | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|
| Beta Com | 4,23 | G0 V (parecida com o Sol) | cerca de 30 anos-luz |
| Diadem (alfa Com) | 4,32 (binária) | F5 V + F5 V | cerca de 58 anos-luz |
| Gama Com | 4,35 | K1 III (gigante) | cerca de 170 anos-luz |
Brilhos, tipos espectrais e distâncias consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo); os valores prevalecem sobre livros mais antigos quando há divergência.
A constelação inteira não tem uma única estrela de nome próprio historicamente consagrado além de Diadem, e mesmo essa denominação ("diadema") é relativamente moderna e faz referência à coroa, não ao cabelo em si. Diadem é uma binária de duas estrelas quase gêmeas, do mesmo tipo espectral do Sol mas um pouco mais quentes, difícil de separar mesmo em telescópio por causa da proximidade angular.
Beta Com, apesar de não ter nome próprio popular, é curiosamente a estrela mais parecida com o Sol entre as principais da constelação — G0 V, quase o mesmo tipo espectral solar — e serve de exemplo didático clássico: como ela está a pouco mais de 30 anos-luz, sua magnitude absoluta (o brilho que teria a 32,6 anos-luz de distância) fica perto de +4,7, muito próxima da magnitude absoluta do próprio Sol, +4,8 (Moore, The Observer's Year). Outra estrela da constelação, 41 Com, embora fraca no céu, teria magnitude absoluta de cerca de -0,3 se colocada à mesma distância de referência — um bom par para explicar, na prática, a diferença entre brilho aparente e brilho real.
Gama Com é uma gigante alaranjada mais distante, no canto sul do aglomerado Melotte 111 — mas não é uma estrela membro do aglomerado, apenas está projetada na mesma direção, bem mais perto da Terra do que a maioria das estrelas do aglomerado (Mobberley).
Melotte 111, o aglomerado que é a própria constelação
O aglomerado aberto Melotte 111 — também chamado só de Aglomerado de Coma — é o que dá nome e forma à figura. Está a uma distância pequena para os padrões de um aglomerado aberto, com estrelas de magnitude 4 a 6, e um tamanho aparente que os livros descrevem de formas diferentes: cerca de 5° de diâmetro para Moore, mais de 7° para Pugh — de qualquer forma, grande demais para caber no campo da maioria dos telescópios, mas perfeito para binóculo ou mesmo olho nu em céu escuro (Pugh, The Science and Art of Using Telescopes; Moore, The Observer's Year).
Pugh compara Melotte 111 às Plêiades e às Híades, só que mais próximo, mais brilhante e maior no céu — uma comparação que ajuda a entender a escala. Vale reservar um binóculo de campo largo (10×50 ou menor aumento) para apreciá-lo por inteiro; em telescópios maiores, alguns dos pontos difusos que aparecem misturados às estrelas do aglomerado não são estrelas, mas galáxias de fundo, muito mais distantes — um convite a olhar duas vezes antes de descartar qualquer "estrelinha borrada" da região (Pugh).
O Aglomerado de Virgem-Coma: uma dúzia de galáxias em poucos graus
A parte sul e sudoeste da constelação está cravada de galáxias, quase todas parte do Aglomerado de Virgem, a concentração de galáxias mais próxima e mais rica que existe, a dezenas de milhões de anos-luz. Boa parte do núcleo desse aglomerado se projeta dentro dos limites de Coma — por isso os astrônomos às vezes falam em "Aglomerado de Virgem-Coma" como uma coisa só. Vários desses objetos já têm guia próprio no site; veja abaixo os principais.
M64 — a Galáxia do Olho Negro. É a galáxia mais fácil e mais fotografada da constelação: uma espiral com uma faixa escura de poeira bem perto do núcleo, que em telescópios de 150 mm ou mais aparece como uma "olheira" característica — daí o apelido. Foi descoberta por Johann Elert Bode em 1779 (Moore, The Observer's Year). As distâncias citadas variam bastante entre fontes, de cerca de 19 a 44 milhões de anos-luz; o texto regista essa divergência em pendências.
M53 — aglomerado globular. Fica a menos de 1° de Diadem, na direção nordeste — um dos globulares mais fáceis de achar do céu, porque basta apontar perto de uma estrela batizada. Está a cerca de 60 a 70 mil anos-luz, com magnitude por volta de 7,6 a 7,8 (Mollise, The Urban Astronomer's Guide; Moore). É um dos globulares mais distantes do centro da Via Láctea entre os catalogados por Messier.
NGC 4565, a Galáxia da Agulha (ainda sem guia próprio publicado no site). É considerada por muitos observadores a melhor galáxia "de perfil" (edge-on) do céu do hemisfério norte — Patrick Moore a descreveu como "dois ovos fritos colados pelas costas", em referência ao bojo central visto de lado com a fina faixa de poeira cortando o disco ao meio (Mobberley, The Caldwell Objects). Foi descoberta por William Herschel em 1785. Fica pouco a leste do limite de Melotte 111, e é o objeto Caldwell 38.
M85, M88, M91, M98, M99 e M100 formam, junto com M64, a fileira de galáxias Messier que se estende pela metade norte da constelação, em direção a Virgem. São todas parte do mesmo aglomerado: M100 é uma espiral vista de frente, um exemplo clássico de "grande design" com braços bem definidos; M99 também é vista de frente, com um braço espiral notavelmente assimétrico; M85 é uma galáxia lenticular, sem os braços claros de uma espiral; M88 e M91 completam o conjunto mais próximo do limite com Virgem. Confira os guias publicados: M85, M88, M91, M98, M99 e M100.
Objetos mais avançados. Para quem tem telescópio maior, a constelação ainda guarda o globular NGC 5053 (mais fraco e mais difícil que M53), um terceiro globular menos conhecido (NGC 4147), e duas galáxias do catálogo Caldwell que ilustram bem a escala do universo: NGC 4559 (Caldwell 36), uma espiral relativamente próxima e bonita, oval evidente em 150 mm; e NGC 4889 (Caldwell 35), uma das galáxias mais distantes do catálogo Caldwell inteiro — segundo Mobberley, a cerca de 300 milhões de anos-luz, tão longe que aparece só como uma mancha mesmo em telescópios grandes, embora imagens de longa exposição revelem uma dúzia de galáxias companheiras ao redor dela.
A lenda de Berenice: uma rainha de verdade no céu
Diferente da maioria das constelações, a Cabeleira de Berenice não vem de um mito antigo, mas de um episódio histórico real, ocorrido no Egito ptolomaico por volta de 245 a.C. Berenice II, esposa do faraó Ptolomeu III Evergeta, prometeu cortar os cabelos e oferecê-los ao templo se o marido voltasse com vida da Terceira Guerra Síria. Ptolomeu voltou vitorioso, e Berenice cumpriu a promessa — mas, pouco depois, os cabelos desapareceram do templo. Para evitar o escândalo diante do rei, o astrônomo da corte, Conon de Samos, anunciou que os deuses haviam levado a oferenda para o céu, e apontou o tufo de estrelas fracas perto da cauda do Leão como prova.
Por muito tempo essas estrelas continuaram sendo vistas apenas como parte do desenho do Leão. A separação definitiva em constelação própria é atribuída ao cartógrafo Gerardus Mercator, em meados do século XVI, e Tycho Brahe a consagrou oficialmente em seu catálogo estelar de 1590 (Moore, The Observer's Year; Ridpath). É uma das únicas constelações do céu batizada com o nome de uma pessoa histórica documentada, e não de uma figura mitológica ou de um instrumento.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | O aglomerado Melotte 111 como uma mancha nebulosa em céu escuro, e Diadem marcando a base da figura. |
| Binóculo (10×50) | Melotte 111 resolvido em dezenas de estrelas, M53 como uma bolinha desfocada perto de Diadem, e M64 e M100 como manchinhas fracas em céu bem escuro. |
| Telescópio pequeno (100 a 150 mm) | A faixa escura de M64 (o "olho negro"), o disco alongado de NGC 4565, os discos e núcleos de M85, M88, M91, M98, M99 e M100, e o globular M53 já parcialmente resolvido. |
| Telescópio grande (250 mm ou mais) / astrofotografia | NGC 4559 com estrutura de braços visível, NGC 4889 como um desafio de distância, e o campo de fundo do próprio Melotte 111 revelando galáxias distantes entre as estrelas. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre março e julho, em céu razoavelmente escuro — a região não tem estrelas guia óbvias, então um bom app de céu ou uma carta impressa ajuda bastante nas primeiras tentativas.
- Comece por Melotte 111 a olho nu ou com binóculo de campo largo; é o ponto de partida mais fácil.
- Para as galáxias, use aumentos baixos primeiro (elas são fracas e extensas) e vá aumentando o aumento aos poucos para revelar detalhes como a faixa de M64 ou o disco de NGC 4565.
- Compare a "vizinhança" densa de galáxias de Coma com a relativa escassez de galáxias perto do plano da Via Láctea — é um bom exercício para entender por que enxergamos mais galáxias "para cima e para baixo" do disco da nossa própria Galáxia.
Referências
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Cabeleira de Berenice, lenda, Melotte 111, M53 e M64, p. 158-161 (noites de 18 a 21 de maio).
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Cabeleira de Berenice, mito, aglomerado de galáxias e distinção histórica por Mercator, p. 176.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. New York: Springer, Patrick Moore's Practical Astronomy Series. Cabeleira de Berenice, M64, NGC 4565, M53 e globulares vizinhos, p. 113-123.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, Astronomers' Observing Guides, 2009. Caldwell 38 (NGC 4565), p. 88-89; Caldwell 35 e 36 (NGC 4889 e NGC 4559), p. 82-85.
- PUGH, Philip. The Science and Art of Using Telescopes. New York: Springer, Patrick Moore's Practical Astronomy Series. Melotte 111, p. 349.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e distâncias, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.