setembro 22, 2026
Programa Luna e Lunokhod: as sondas soviéticas que abriram caminho até a Lua
Antes de Neil Armstrong dar seu primeiro passo na Lua, a União Soviética já havia enviado dezenas de sondas para lá — e conquistado quase todos os "primeiros feitos" possíveis antes dos americanos: primeiro objeto a escapar da gravidade da Terra, primeiro impacto em outro mundo, primeira foto do lado oculto da Lua, primeiro pouso suave, primeiro satélite artificial lunar. O programa Luna, e depois os robôs Lunokhod que ele carregou, é a metade menos conhecida da corrida à Lua no Ocidente, mas foi decisivo para o que viria depois.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
Uma corrida de "primeiras vezes"
O programa Luna reuniu 24 sondas soviéticas lançadas entre 1959 e 1976, batizadas com um esquema de numeração que, à primeira vista, parece caótico, porque incluía também tentativas malsucedidas que nunca chegaram a receber nome público. As que tiveram êxito, porém, formam uma sequência notável de conquistas.
Luna 1 (2 de janeiro de 1959). A primeira nave feita pelo homem a escapar da gravidade da Terra. Passou a cerca de 6.000 km da superfície lunar — não era esse o plano original, que previa um impacto, mas o desvio não tirou o mérito científico: a Luna 1 mostrou que a Lua não tem campo magnético global mensurável e detectou o vento solar diretamente pela primeira vez. Depois de passar pela Lua, entrou em órbita ao redor do Sol, tornando-se o primeiro "planeta artificial" da história (MOURÃO, verbete Luna 1).
Luna 2 (12 de setembro de 1959). Corrigiu a pontaria: tornou-se o primeiro objeto feito pelo homem a atingir a superfície de outro corpo celeste, colidindo perto das crateras Aristides, Arquimedes e Autólico, na região do Mare Imbrium, viajando a cerca de 3,3 km/s no momento do impacto (MOURÃO, verbete Luna 2).
Luna 3 (4 de outubro de 1959, imagens feitas em 7 de outubro). Fez a primeira foto do lado oculto da Lua — o hemisfério que nunca vemos da Terra, porque a Lua tem rotação sincronizada com sua translação ao redor do nosso planeta. Cerca de 30 imagens, de qualidade baixa para os padrões atuais, foram transmitidas de volta e revelaram, pela primeira vez, que o lado oculto tem muito menos "mares" escuros de lava do que o lado visível (MOURÃO, verbete Luna 3).
Luna 9 (lançada em 31 de janeiro de 1966, pousou em 3 de fevereiro de 1966). O primeiro pouso suave bem-sucedido em outro mundo, no Oceanus Procellarum, depois de pelo menos três tentativas anteriores fracassadas (as sondas Luna 5, 7 e 8). A conquista tinha um peso científico extra: o astrônomo britânico Thomas Gold defendia a hipótese de que a superfície lunar seria coberta por uma camada profunda de poeira fofa, capaz de engolir qualquer sonda ou astronauta que tentasse pousar. A Luna 9 enviou 45 imagens do solo ao redor dela e mostrou uma superfície firme, refutando o cenário mais pessimista e abrindo caminho, poucos anos depois, para os pousos tripulados da Apollo (MOURÃO, verbete Luna 9; MOORE, The Observer's Year).
Luna 10 (abril de 1966). Tornou-se o primeiro satélite artificial da Lua, entrando em órbita lunar e medindo radiação e o fraco campo gravitacional do satélite natural da Terra (MOURÃO, verbete Luna 10).
Luna 15 (lançada em 13 de julho de 1969). Uma tentativa de trazer automaticamente uma amostra de solo lunar de volta à Terra — o que teria sido uma resposta e tanto à iminente chegada da Apollo 11. A sonda caiu no Mare Crisium (Mar das Crises) em 21 de julho de 1969, um dia depois do pouso da Apollo 11 e poucas horas antes de Armstrong e Aldrin deixarem a superfície lunar (MOURÃO, verbete Luna 15).
Luna 16 (lançada em 12 de setembro de 1970). Conseguiu o que a Luna 15 não conseguiu: pousou no Mare Fecunditatis (Mar da Fecundidade), perfurou o solo a cerca de 35 cm de profundidade, coletou 101 gramas de material e devolveu a amostra à Terra automaticamente, sem tripulação — o primeiro retorno robótico de amostras de outro corpo celeste da história (MOURÃO, verbete Luna 16). Correção em relação à fonte: o dicionário de Mourão consultado para este artigo data a missão de "setembro de 1969", mas essa é a data da Luna 15, não da Luna 16; a Luna 16 pousou e retornou amostras em setembro de 1970, um ano depois — o texto usa a data corrigida.
Lunokhod: os primeiros robôs a rodar em outro mundo
O programa Luna também levou à Lua os primeiros veículos robóticos com rodas a se deslocar pela superfície de outro corpo celeste — mais de três décadas antes dos rovers Sojourner, Spirit, Opportunity e Curiosity, em Marte.
Lunokhod 1, transportado pela sonda Luna 17 (lançada em 10 de novembro de 1970, pousou em 17 de novembro de 1970 no Mare Imbrium), pesava 756 kg e se parecia com uma banheira de oito rodas independentes, com uma tampa que se abria como um painel solar. Funcionou por cerca de 10 a 11 meses lunares (301 a 322 dias, segundo a fonte), percorrendo pouco mais de 10,5 km, até o contato ser perdido em outubro de 1971 — provavelmente porque a fonte de energia radioativa usada para aquecer o veículo durante as noites lunares, de duas semanas de duração, se esgotou. O robô carregava duas câmeras direcionais, quatro câmeras panorâmicas, um espectrômetro de raios X, um penetrômetro para testar a resistência do solo e, principalmente, um refletor de canto (um espelho especial) construído por cientistas franceses, usado até hoje para medir a distância exata entre a Terra e a Lua por meio de pulsos de laser disparados de observatórios como o Pic-du-Midi, na França (MOURÃO, verbete Lunokhod; verbete Luna 17).
Lunokhod 2, levado pela Luna 21 (lançada em 8 de janeiro de 1973, pousou perto da cratera Le Monnier), enviou mais de 80 mil imagens durante sua operação. O livro de 1987 usado como fonte para este artigo cita uma distância percorrida de cerca de 6 milhas (pouco menos de 10 km) — informação mais recente: um reexame de imagens de altíssima resolução feitas pela sonda americana Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), a partir de 2013, permitiu remedir o rastro deixado pelo Lunokhod 2 na poeira lunar e revisou esse total para cerca de 39 km, quase quatro vezes mais do que o número antigo. Esse valor revisado tornou o Lunokhod 2 o veículo que percorreu a maior distância na superfície de outro corpo celeste até então — um recorde que só foi superado em 2014, quando o rover americano Opportunity, em Marte, ultrapassou essa marca ao longo de seus quinze anos de operação (MOORE, The Observer's Year, atualizado).
Números e recordes
| Sonda | Marco | Data | Local |
|---|---|---|---|
| Luna 1 | Primeiro escape da gravidade terrestre | 2 jan. 1959 | (sobrevoo a ~6.000 km) |
| Luna 2 | Primeiro impacto em outro mundo | 12 set. 1959 | Perto de Aristides/Arquimedes |
| Luna 3 | Primeira foto do lado oculto | 4-7 out. 1959 | — |
| Luna 9 | Primeiro pouso suave | 3 fev. 1966 | Oceanus Procellarum |
| Luna 10 | Primeiro satélite artificial lunar | abr. 1966 | Órbita lunar |
| Luna 16 | Primeiro retorno robótico de amostra | set. 1970 | Mare Fecunditatis |
| Lunokhod 1 | Primeiro rover em outro mundo | nov. 1970 | Mare Imbrium |
| Lunokhod 2 | Maior distância percorrida (até 2014) | jan.-jun. 1973 | Perto de Le Monnier |
O que veio depois
Depois da Luna 24, em 1976 — a última sonda soviética a trazer amostras lunares, perfurando cerca de 2 metros de profundidade no Mare Crisium — o programa Luna ficou quase cinco décadas parado. Só foi retomado pela Rússia em agosto de 2023, com a Luna 25, que infelizmente se chocou contra a Lua após uma falha durante a manobra orbital, encerrando a tentativa de retorno russo à exploração lunar por ora. Enquanto isso, outros países avançaram: a Índia pousou a sonda Chandrayaan-3 perto do polo sul lunar poucos dias depois do fracasso da Luna 25, em agosto de 2023, e a China vem operando uma série bem-sucedida de sondas Chang'e, incluindo retornos de amostras do lado oculto da Lua — algo que nem o programa Luna soviético, nem a Apollo americana, chegaram a fazer.
Considerações finais
O programa Luna e os Lunokhod raramente aparecem no primeiro plano das histórias sobre a corrida espacial contadas no Ocidente, dominadas pela Apollo — mas sem eles a exploração lunar teria sido bem diferente: foi a Luna 9 que provou que era seguro pousar na Lua, e o Lunokhod que provou que um veículo robótico podia rodar por lá. As sondas americanas que também prepararam o caminho para a Apollo, como a Ranger, a Surveyor e a Lunar Orbiter, estão no artigo Antes da Apollo deste site; para conhecer as missões tripuladas que vieram depois, veja o guia do programa Apollo.
Referências
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Luna 1", "Luna 2", "Luna 3", "Luna 9", "Luna 10", "Luna 15", "Luna 16", "Luna 17" e "Lunokhod".
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Trechos sobre a Luna 2, o Mare Tranquillitatis, a Luna 9 e a história geológica da Lua, e sobre o Lunokhod 2 e missões lunares de janeiro. [Páginas impressas a confirmar na edição física.]