setembro 22, 2026
Antes da Apollo: Ranger, Surveyor e Lunar Orbiter
Antes de qualquer ser humano pisar na Lua, os Estados Unidos precisaram responder a perguntas básicas: como é o solo lunar de perto? Ele aguenta o peso de uma espaçonave, ou vai engolir tudo, como alguns cientistas temiam? E onde, exatamente, seria seguro pousar? Três famílias de sondas não tripuladas — Ranger, Surveyor e Lunar Orbiter — responderam a essas perguntas entre 1961 e 1968, numa sequência de tentativas que começou cheia de fracassos e terminou pavimentando, literalmente, o caminho da Apollo.
Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.
Uma corrida construída sobre fracassos
A exploração lunar não começou bem para os Estados Unidos. As primeiras tentativas americanas de chegar à Lua, as sondas das séries Pioneer e Able, lançadas entre 1958 e 1960, falharam quase todas — problemas de foguete, de navegação ou de comunicação derrubaram uma missão atrás da outra (MOORE; REES, Data Book of Astronomy). Foi só com o programa Ranger, já na primeira metade dos anos 1960, que os americanos começaram a acertar.
Ranger: câmeras a caminho do impacto
O programa Ranger não foi projetado para pousar suavemente: as sondas seguiam direto rumo à superfície lunar, fotografando continuamente até o instante do impacto, quando eram destruídas. As seis primeiras tentativas (Ranger 1 a 6) fracassaram por completo ou sofreram falhas nas câmeras. A virada veio com:
- Ranger 7 (28 de julho de 1964), que enviou 4.306 imagens de resolução crescente antes de se espatifar numa região que passou a ser chamada Mare Cognitum ("o mar que se tornou conhecido"), no Oceanus Procellarum.
- Ranger 8 (fevereiro de 1965), que devolveu 7.137 imagens antes de atingir o solo perto do Mare Tranquillitatis — a mesma região onde, quatro anos depois, pousaria a Apollo 11.
- Ranger 9 (março de 1965), que mirou a cratera Alphonsus, de interesse científico especial por sinais então debatidos de atividade vulcânica recente, e teve suas imagens finais transmitidas ao vivo pela televisão americana, um marco de divulgação científica da época (MOORE; REES, Data Book of Astronomy).
Surveyor: o ensaio geral do pouso suave
Enquanto a Ranger respondia "como é a superfície de perto", o programa Surveyor respondeu a uma pergunta ainda mais urgente para a Apollo: é seguro pousar ali? As sete sondas Surveyor, lançadas entre 1966 e 1968, testaram a técnica de descida motorizada e analisaram diretamente as propriedades físicas e químicas do solo lunar.
Surveyor 1 (lançada em 30 de maio de 1966, pousou em 2 de junho de 1966) foi o primeiro pouso suave americano na Lua, no Oceanus Procellarum, e enviou mais de 11 mil imagens ao longo de sua operação — 10.338 no primeiro dia lunar e outras 812 no segundo, mantendo contato com a Terra até outubro daquele ano (MOURÃO, verbete Surveyor).
Surveyor 2 (setembro de 1966) falhou: um dos motores de descida não acendeu corretamente, e a sonda se chocou perto da cratera Copérnico, sem pousar suavemente (MOURÃO, verbete Surveyor).
Surveyor 3 (abril de 1967) pousou também no Oceanus Procellarum e enviou 6.319 imagens; carregava um braço mecânico com uma pá, usado para escavar e testar a resistência do solo lunar em vários pontos — um teste direto do medo de que a superfície fosse traiçoeiramente macia. Por coincidência de calendário, também fotografou um eclipse lunar em 24 de abril de 1967 que, visto da Lua, era na verdade um eclipse do Sol pela Terra (MOURÃO, verbete Surveyor). Essa sonda ficou famosa dois anos e meio depois: em novembro de 1969, os astronautas da Apollo 12 pousaram propositalmente perto dela, caminharam até a Surveyor 3 e trouxeram de volta à Terra pedaços do equipamento, incluindo sua câmera, para que os cientistas estudassem o efeito de mais de dois anos de exposição ao ambiente lunar sobre materiais feitos pelo homem.
Surveyor 4 (julho de 1967) perdeu o sinal de rádio momentos antes do pouso e é considerada uma falha. Surveyor 5 (setembro de 1967) pousou com sucesso no Mare Tranquillitatis e foi a primeira a realizar uma análise química do solo lunar por meio de um instrumento de espalhamento de partículas alfa. Surveyor 6 (novembro de 1967) repetiu o sucesso e, pela primeira vez, reacendeu seus motores já pousada para dar um pequeno "salto" de poucos metros, um teste importante de manobra em solo lunar. Surveyor 7, a última da série (janeiro de 1968), pousou deliberadamente numa região de terras altas, perto da cratera Tycho, em vez de um mar de lava — um alvo cientificamente mais interessante, já que as primeiras seis missões Apollo tripuladas ainda mirariam terrenos mais planos e seguros. Ao todo, cinco das sete sondas Surveyor cumpriram sua missão (dados complementados com conhecimento geral, a partir da base fornecida por MOURÃO, verbete Surveyor).
Lunar Orbiter: escolhendo onde pousar
A terceira peça do quebra-cabeça foi o programa Lunar Orbiter, cinco sondas lançadas entre agosto de 1966 e agosto de 1967 com a missão de fotografar a Lua em alta resolução a partir da órbita — não para estudar a geologia em geral, mas para escolher e confirmar locais seguros para os pousos tripulados da Apollo.
- Lunar Orbiter 1 (10 de agosto de 1966) devia detectar meteoroides, medir o campo magnético lunar e fotografar nove sítios candidatos ao pouso perto do equador; enviou 211 imagens.
- Lunar Orbiter 2 (7 de novembro de 1966) fotografou 13 sítios adicionais no hemisfério norte lunar, com 184 imagens.
- Lunar Orbiter 3 (5 de fevereiro de 1967) mapeou mais 12 sítios ao longo do equador (MOURÃO, verbete Lunar Orbiter).
Depois de cumprida a tarefa principal de escolher pontos de pouso, as duas últimas sondas da série mudaram de foco: Lunar Orbiter 4 (maio de 1967) fez um mapeamento fotográfico quase completo da Lua a partir de uma órbita polar mais alta, e Lunar Orbiter 5 (agosto de 1967) fotografou os sítios remanescentes e parte do lado oculto, fechando um levantamento que, somado, produziu cerca de 3.000 imagens cobrindo praticamente toda a superfície lunar — um mapa que serviu de base não só para a Apollo, mas para décadas de estudos lunares posteriores.
Números e recordes
| Programa | Sondas lançadas | Sucessos | O que fez |
|---|---|---|---|
| Ranger | 9 | 3 (Ranger 7, 8 e 9) | Fotografou a superfície até o momento do impacto |
| Surveyor | 7 | 5 | Testou pousos suaves e analisou o solo lunar |
| Lunar Orbiter | 5 | 5 | Fotografou e escolheu locais de pouso da Apollo |
O que veio depois
Essas três famílias de sondas encerraram sua missão antes mesmo da Apollo 11, mas seu papel de "batedor" para pousos automáticos continua atual. Décadas depois, sondas de outros países repetiram, em essência, o mesmo desafio: pousar com segurança e escolher o local certo. A China pousou as sondas Chang'e no lado visível (2013) e, pela primeira vez na história, no lado oculto da Lua (2019); a Índia conseguiu pousar perto do polo sul lunar com a Chandrayaan-3, em agosto de 2023, depois de uma tentativa fracassada em 2019; e a NASA, através do programa CLPS (Commercial Lunar Payload Services), passou a contratar empresas privadas para levar instrumentos científicos à Lua em sondas robóticas menores, várias delas já pousando ou tentando pousar a partir de 2023 — um cenário de exploração lunar muito mais movimentado, e com muito mais países e empresas envolvidos, do que nos tempos da Ranger, da Surveyor e da Lunar Orbiter.
Considerações finais
Ranger, Surveyor e Lunar Orbiter raramente têm o mesmo destaque da Apollo ou até do programa soviético Luna, mas sem elas nenhuma missão tripulada teria arriscado um pouso. Para ver como o lado soviético resolveu os mesmos problemas — e chegou a alguns resultados antes dos americanos —, veja o artigo sobre o programa Luna e o Lunokhod. Para conhecer as seis missões tripuladas que se seguiram, veja o guia do programa Apollo.
Referências
- MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. [Edição e ano a confirmar.] Seção sobre as primeiras missões à Lua, da era Pioneer/Able ao Ranger.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Surveyor" e "Lunar Orbiter".
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Trecho sobre a Luna 9, a Surveyor e o pouso da Apollo 16 nas terras altas (noites de 19 e 21 de abril).