setembro 22, 2026

Pavão: guia da constelação de Peacock, do globular NGC 6752 e da galáxia NGC 6744

Carta estelar do Pavão como aparece do Brasil, olhando para o sul: Peacock sozinha no topo, bem na fronteira com o Índio, e o restante da figura descendo até o aglomerado globular NGC 6752 e a galáxia NGC 6744, marcados em verde no meio da constelação

O Pavão é uma das constelações mais generosas do céu profundo do hemisfério sul: em poucos graus quadrados, reúne uma das estrelas mais brilhantes do sul, uma cefeida que dá para acompanhar a olho nu e binóculo, um aglomerado globular que quase chega à visão desarmada e uma galáxia espiral gigantesca que poucos observadores do hemisfério norte já viram. E, de bônus, tem uma curiosidade geométrica: sua estrela mais brilhante, Peacock, fica tão perto da fronteira oficial com o Índio que os cálculos deste site a colocam tecnicamente do outro lado da linha. Este guia mostra como achar o Pavão a partir de Alfa Centauri, suas estrelas principais e os dois grandes alvos de telescópio que ele guarda.

Uma ave moderna, na borda da Via Láctea

O Pavão (Pavo, abreviatura Pav) fica na borda da Via Láctea, ao lado do Tucano (Ridpath, p. 226 do arquivo consultado), entre o Índio a leste, o Telescópio ao norte, a Ara e o Triângulo Austral a oeste, e a Ave-do-Paraíso e o Octante ao sul. Foi mapeado a partir das observações dos navegadores holandeses Pieter Dirkszoon Keyser e Frederick de Houtman no fim do século XVI, como as demais constelações "de aves" do céu austral. É visível de latitudes de até 15° norte, o que o deixa fora do alcance da maior parte da Europa e dos Estados Unidos, mas bem posicionado para o Brasil (Ridpath, p. 226).

Na mitologia grega, o pavão é a ave sagrada de Hera (Juno na tradição romana), cuja cauda carrega os "cem olhos" do gigante Argos — uma associação, porém, aplicada de forma retroativa a uma constelação que só existe desde o fim do século XVI: não há registro de que os gregos antigos tenham desenhado essa figura no céu, já que a região é baixa demais para ter sido observada pelas civilizações do Mediterrâneo.

Quando e como achar

Melhor época. O Pavão culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais no fim de agosto/começo de setembro, então a boa temporada vai de julho a novembro: em julho ele nasce mais cedo, em agosto e setembro domina o início da noite, e em outubro e novembro já se inclina para o oeste.

Para onde olhar. O Pavão fica bem ao sul do equador celeste, então do Brasil ele culmina olhando para o sul, com o norte para cima. A tabela abaixo mostra a altura máxima de Peacock e de Kappa Pavonis (a cefeida, mais ao sul da constelação).

Cidade Peacock (α) Kappa Pav
Boa Vista (RR) 30° 20°
Manaus (AM) 36° 26°
Recife (PE) 41° 31°
Brasília (DF) 49° 39°
Rio de Janeiro (RJ) 56° 46°
São Paulo (SP) 57° 46°
Porto Alegre (RS) 63° 53°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir das declinações do catálogo do site e da latitude de cada cidade; valores arredondados.

Carta estelar do Pavão como aparece do Brasil, olhando para o sul: Peacock sozinha no topo, bem na fronteira com o Índio, e o restante da figura descendo até o aglomerado globular NGC 6752 e a galáxia NGC 6744, marcados em verde no meio da constelação
Carta estelar do Pavão como ele aparece do Brasil ao olhar para o sul: o norte fica em cima e o leste à esquerda. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial; a linha laranja tracejada é o limite oficial IAU — repare como ela passa bem ao lado de Peacock, quase tocando a estrela. Em branco, o nome próprio de Peacock; em verde-claro, o aglomerado NGC 6752 e a galáxia NGC 6744. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Comece por Alfa Centauri, uma das estrelas mais brilhantes do céu.
  2. A partir dela, siga até Alfa do Triângulo Austral, formando uma linha (Moore, Observer's Year, p. 332).
  3. Prolongando essa linha um pouco mais, você chega a Peacock, a estrela mais brilhante do Pavão, isolada em uma região com poucas estrelas de destaque ao redor.
  4. Para os alvos de telescópio: a partir de Peacock, ande cerca de 3¼° para o sul e 9½° para oeste até o globular NGC 6752; e mais um pouco além, cerca de 4° ao sul do globular, até a galáxia NGC 6744 — as duas cabem numa mesma sessão de observação.

As estrelas do Pavão

Estrela Brilho visual (mag.) Tipo/cor Distância aproximada
Peacock (alfa) 1,94 dupla espectroscópica, branco-azulada 183 a 310 anos-luz (fontes divergem)
Beta Pav 3,42 branco-amarelada —
Delta Pav 3,55 parecida com o Sol (tipo G) menos de 19 anos-luz
Épsilon Pav 3,97 branco-azulada —
Gama Pav 4,21 branco-amarelada —
Kappa Pav 3,9 a 4,8 (variável) cefeida tipo II (W Virginis), período ~9,1 dias —
Lambda Pav 4,22 eruptiva tipo gama Cas (variável) —
Xi Pav 4,35 dupla, mag. 4 e 8 —

Brilhos do catálogo interno do site (HYG v4.1); distâncias e classificações dos livros de apoio, com divergências registradas nas pendências.

Peacock, apesar de "sem nome próprio" em fontes mais antigas (Moore, Observer's Year, p. 332, escrito antes de a IAU oficializar o nome), é hoje reconhecida oficialmente com esse nome, uma dupla espectroscópica cuja distância varia bastante entre as fontes consultadas: 183 anos-luz no Moore & Rees e 310 anos-luz no Vieira, que também cita um período orbital de 11,7 dias e uma luminosidade de 1.200 vezes a do Sol. É a estrela mais brilhante da constelação e a única com nome próprio consagrado.

Delta Pavonis é uma das estrelas mais parecidas com o Sol na vizinhança solar, a menos de 19 anos-luz — um alvo clássico de buscas por exoplanetas terrestres, embora nenhum dos livros de apoio detalhe isso.

Kappa Pavonis é uma cefeida do tipo II (também chamada estrela W Virginis), variando de magnitude 3,9 a 4,7-4,8 em cerca de nove dias — rápida o bastante para ser acompanhada a olho nu ou binóculo em poucas semanas, um projeto de observação clássico sugerido pelo Ridpath (p. 226).

Lambda Pavonis é citada pelo Moore & Rees como uma estrela eruptiva do tipo gama Cassiopeiae — uma B rápida que às vezes ejeta matéria e varia de brilho de forma irregular (p. 475 do arquivo consultado).

Xi Pavonis é uma dupla fácil em telescópio pequeno, com uma componente de magnitude 4 e outra de magnitude 8 (Ridpath, p. 226).

NGC 6752 e NGC 6744: os dois grandes alvos do Pavão

O Pavão guarda dois dos melhores objetos de céu profundo do hemisfério sul, e cada um já tem um guia completo no site — aqui vai só um resumo de cada.

NGC 6752 é um aglomerado globular grande e brilhante, de magnitude próxima de 5,5, um dos poucos globulares do céu que chegam perto da visão a olho nu — atrás só de Ômega Centauri, 47 Tucanae e M 22. Fica ao sul demais para ter entrado no catálogo de Messier, mas é um dos destaques do catálogo Caldwell (C93). Um telescópio de 10 cm já resolve suas estrelas mais brilhantes, e o apelido informal "Estrela-do-Mar" vem de padrões que alguns observadores percebem no aglomerado. O guia completo traz os dados de distância, tamanho e a estratégia de observação e fotografia.

NGC 6744 é uma galáxia espiral barrada gigantesca, vista quase de frente, cerca de 4° ao sul de NGC 6752. É uma das galáxias mais bonitas do céu em fotografia de longa exposição — e uma das menos conhecidas, porque fica invisível para a maior parte do hemisfério norte. Ao vivo, no ocular, é um alvo bem mais difícil: mesmo em telescópios grandes, os braços espirais raramente aparecem com nitidez. Hospedou uma supernova em 2005. O guia completo detalha as divergências entre fontes sobre seu tamanho, distância e classificação.

Vale observar os dois na mesma sessão: partindo de Peacock, o salto até NGC 6752 é curto, e o salto até NGC 6744 é uma simples continuação para o sul.

Outras galáxias do Pavão. O catálogo do site lista ainda cinco galáxias mais fracas dentro da constelação — NGC 6684 (mag. 10,5), IC 5052 (mag. 11,3), NGC 6872, NGC 7020 e IC 4721 —, todas alvo de telescópio grande ou astrofotografia, sem guia próprio publicado no site e sem menção nos livros de apoio consultados para este artigo.

Uma ave sem mito antigo, com um mito emprestado

O Pavão é, como o Grou, o Tucano, a Fênix e o Índio, uma criação de Keyser e de Houtman, sem nenhuma tradição mitológica original. O que existe é uma associação posterior, quase decorativa: como o pavão já era a ave sagrada de Hera na mitologia grega — carregando nas penas da cauda os "cem olhos" do gigante Argos, morto por Hermes a mando de Zeus —, o nome da constelação moderna herdou essa história emprestada. Vale tratar essa ligação como um empréstimo cultural, não como uma origem astronômica real: os gregos antigos nunca viram essa parte do céu.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Peacock e o desenho geral da constelação; NGC 6752 no limite da visão em céu bem escuro; o acompanhamento de Kappa Pavonis ao longo de semanas.
Binóculo (10×50) NGC 6752 como uma mancha definida; Xi Pavonis separada; Kappa Pavonis fácil de acompanhar.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) NGC 6752 começando a se resolver em estrelas; NGC 6744 como uma névoa elíptica tênue.
Telescópio grande / astrofotografia NGC 6752 totalmente resolvido no núcleo; os braços espirais de NGC 6744 em exposições longas.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre julho e novembro, em céu escuro — sobretudo para NGC 6744.
  • Use a linha Alfa Centauri – Alfa do Triângulo Austral para chegar a Peacock.
  • Reserve uma sessão só para NGC 6752 e NGC 6744: elas ficam a poucos graus uma da outra e valem uma noite dedicada, como sugerem os guias de cada uma.
  • Ao localizar Peacock, lembre que ela está quase em cima da linha oficial que separa o Pavão do Índio — um bom lembrete de que os limites das constelações são convenções cartográficas, não fronteiras "naturais" do céu.

Referências

  • MOORE, Patrick; REES, Robin. Patrick Moore's Data Book of Astronomy. Cambridge: Cambridge University Press, 2011. Pavo, p. 474-475 do arquivo consultado (página impressa a confirmar).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. Londres: Springer, 2005. Pavo, p. 332 do arquivo consultado (página impressa a confirmar).
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). Rio de Janeiro: Zahar, 4. ed. Pavão, NGC 6744 e NGC 6752, p. 226 do arquivo consultado (página impressa a confirmar).
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do Céu. Pavão, p. 102 do arquivo consultado (página impressa a confirmar).
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. Springer (Astronomers' Observing Guides), 2009. C93/NGC 6752, p. 207-208; C101/NGC 6744, p. 221-222 (páginas impressas 194-195 e 208-209).
  • Ver também os guias completos: NGC 6752, o globular do Pavão e NGC 6744, a galáxia espiral do Pavão, com referências detalhadas de cada objeto.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar e nos dados de brilho das estrelas; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.