setembro 21, 2026
NGC 3626 (Caldwell 40), a galáxia discreta de Leão: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Nem toda galáxia do catálogo Caldwell é um espetáculo. A NGC 3626, a Caldwell 40, é o contraponto discreto às vizinhas famosas de Leão — o Trio do Leão, M 95, M 96, M 105 — e por isso mesmo é um bom teste de honestidade: um oval fraco, sem estrutura visível na maioria dos telescópios, que existe mais para ensinar sobre expectativa realista do que para impressionar. A boa notícia é que ela fica em uma das regiões do céu mais bem servidas para quem observa do Brasil, a poucos graus de Zosma, e culmina bem alto sobre o horizonte norte. Este guia mostra como achá-la, o que ela realmente entrega ao ocular e por que vale a pena visitá-la mesmo sem grandes surpresas.
Texto em revisão. Este é um dos guias do novo formato de objeto do site, cobrindo os catálogos Messier e Caldwell completos. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma espiral vista quase de perfil
NGC 3626 é uma galáxia espiral do tipo SAa (uma espiral não barrada, do tipo mais "precoce", com braços pouco desenrolados e bojo relativamente grande), vista em ângulo inclinado, o que lhe dá o contorno oval alongado que se vê ao telescópio (SIMBAD). Fica em Leão, perto do "quadril" da constelação, a cerca de 2,6° a sudeste de Zosma (Delta Leonis, mag. 2,6), a mesma estrela que serve de referência para o Trio do Leão (Bakich; Mobberley). Diferente do Trio, porém, NGC 3626 não é uma galáxia particularmente brilhante nem particularmente próxima: ela pertence a um agrupamento à parte, mais distante, catalogado no SIMBAD como "galáxia em grupo" (GiG), sem ligação direta com M 65, M 66 e NGC 3628.
NGC 3626 em números. A galáxia tem magnitude 10,98 no catálogo do site (o SIMBAD só lista a magnitude B, 11,2; não há magnitude V catalogada), próxima aos 11,0 citados por Mobberley. O tamanho aparente é de cerca de 3,0′ × 1,9′ (SIMBAD), quase idêntico aos 3′ × 2′ do livro. A distância é onde os valores mais divergem: o SIMBAD reúne sete medidas independentes de distância, entre 19,5 e 25 milhões de parsecs, com mediana de cerca de 20 milhões de parsecs — cerca de 65 milhões de anos-luz, valor que também bate com a distância calculada a partir da velocidade de afastamento da galáxia (1.466 km/s), pela lei de Hubble. Mobberley, com dados mais antigos, cita 85 milhões de anos-luz. Este guia adota o valor do SIMBAD.
Vizinhas próximas. A cerca de 1° a oés-sudoeste de NGC 3626 ficam NGC 3607 (mag. 10,9) e NGC 3608, um par de galáxias um pouco mais brilhante (Mobberley). Elas não entram neste guia, mas valem uma espiada no mesmo campo de binóculo ou buscador, se você já estiver na região.
Estruturas notáveis
- O oval alongado. A forma dominante ao telescópio: um brilho oval, orientado de nor-noroeste a su-sudeste, sem braços espirais visíveis em instrumentos de amador (Bakich).
- O núcleo quase estelar. Em telescópios de 200 mm ou mais, com ampliação alta, o centro concentra-se num ponto quase estelar dentro de uma região central mais brilhante (Bakich).
- O halo tênue. A parte externa da galáxia é bem mais fraca que o centro e só aparece com céu escuro e olho treinado (Bakich).
- O vizinho par NGC 3607/3608. A cerca de 1° de distância, um bônus para quem já está apontando para essa região de Leão (Mobberley).
Como localizar
O ponto de partida é Zosma (Delta Leonis, mag. 2,6), a estrela que marca o "quadril" do Leão, no vértice do triângulo formado com Denébola e Chertan (veja o guia da constelação de Leão). Bakich descreve o caminho como 2,6° a sudeste de Zosma; Mobberley detalha em dois passos, cerca de 2° ao sul e 1,5° a leste da mesma estrela. Como a galáxia é fraca, comece com uma ampliação baixa e um campo largo, confirme a posição pelas estrelas de fundo e só depois aumente a ampliação para tentar o núcleo.

Quando e como observar
NGC 3626 fica em declinação +18°21′, uma das mais favoráveis para o Brasil entre as galáxias de Leão: do Rio de Janeiro (latitude −23°), ela sobe até cerca de 48,6° de altura no meridiano — mais alto do que a maior parte do catálogo Caldwell, e alto o bastante para observar sem grande interferência da atmosfera baixa. A galáxia culmina no início da noite em torno de março, no mesmo período do Trio do Leão e das demais galáxias da constelação.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho da galáxia pelo céu nesta noite.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: -4°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 04:00 · -4° ENE
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 23 mag 11,0
- Enquadramento
- 26 ocupa 7 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | -57° | — | 65° |
| 20:00 | -64° | — | 65° |
| 20:30 | -71° | — | 65° |
| 21:00 | -78° | — | 65° |
| 21:30 | -84° | — | 66° |
| 22:00 | -85° | — | 66° |
| 22:30 | -79° | — | 66° |
| 23:00 | -72° | — | 66° |
| 23:30 | -66° | — | 67° |
| 00:00 | -59° | — | 67° |
| 00:30 | -52° | — | 67° |
| 01:00 | -45° | — | 67° |
| 01:30 | -38° | — | 68° |
| 02:00 | -31° | — | 68° |
| 02:30 | -24° | — | 68° |
| 03:00 | -17° | — | 68° |
| 03:30 | -11° | — | 69° |
| 04:00 | -4° | — | 69° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Invisível: a magnitude 11 está muito abaixo do limite do olho, mesmo em céu excelente. |
| Binóculo | Fora de alcance na prática, mesmo em céu escuro: o brilho por ponto é baixo demais para binóculos comuns. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Uma mancha oval fraca e sem detalhe, visível em céu escuro com ampliação moderada; exige tempo de adaptação ao escuro e visão desviada. |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Com 200 mm a cerca de 300×, aparecem um halo tênue e uma região central mais brilhante, terminando num núcleo quase estelar, no eixo nor-noroeste a su-sudeste (Bakich). Mobberley recomenda 25 cm ou mais para um resultado satisfatório. |
Expectativa honesta: Mobberley já resume bem o objeto ao lembrar que nem tudo no catálogo Caldwell é bonito. NGC 3626 é um alvo de "lista completa", não de primeira escolha — mas, se você já está em Leão para o Trio ou para M 95/M 96/M 105, é uma parada rápida e sem grande esforço adicional, e uma boa desculpa para visitar também NGC 3607 e NGC 3608 ali perto.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com apenas 3′ de extensão, NGC 3626 é um alvo pequeno para qualquer configuração de campo largo, e não há uma fonte específica de astrofotografia para este objeto nos livros consultados (marcado nas pendências). Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): a galáxia fica pequena no quadro, mas o par NGC 3607/3608, a cerca de 1° de distância, pode entrar na borda do campo dependendo do enquadramento exato — vale a pena testar o apontamento antes de começar a sessão para incluir os três objetos.
Desafios do alvo
- Alvo pequeno e de baixo brilho superficial. Peça mais tempo total de exposição do que pediria para um objeto de tamanho semelhante e brilho maior; sob Bortle 7, como no Rio de Janeiro, o halo externo é o primeiro a se perder no fundo do céu.
- Campo relativamente pobre em estrelas de referência brilhantes. A autoguiagem e o plate solving podem precisar de um tempo de exposição maior nos quadros de guiagem.
- Vale mais como parte de um mosaico de Leão do que como alvo isolado: combinar com NGC 3607/3608 rende um quadro mais interessante do que a galáxia sozinha.
Equipamento e filtros
Como galáxia de brilho relativamente baixo e cor neutra (sem linhas de emissão fortes), NGC 3626 se beneficia mais de luminância clara com boa relação sinal-ruído do que de filtros de banda estreita — o oposto do que vale para nebulosas de emissão. Um filtro de poluição luminosa de banda larga pode ajudar sob céu urbano, mas sem o ganho que teria numa nebulosa.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 60 a 100 | 120 a 300 s | Reunir sinal suficiente no núcleo e no halo fraco |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, sem fonte bibliográfica específica para este objeto — ajuste-os ao seu equipamento e ao céu da noite.
Smart telescopes e campo de visão
O campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°) é generoso o bastante para enquadrar NGC 3626 junto com NGC 3607 e NGC 3608, formando um pequeno trio de galáxias num único quadro, mesmo que cada uma delas apareça pequena. Como o brilho superficial é baixo, empilhe o máximo de tempo que a sessão permitir. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
NGC 3626 não vai roubar a cena de ninguém, mas é um bom lembrete de que o catálogo Caldwell inclui objetos de todos os níveis de espetacularidade — e de que, às vezes, o valor está em completar a lista e em visitar uma região do céu com atenção redobrada. Ela fica bem posicionada para o Brasil, ao lado da constelação de Leão e perto de vizinhas mais vistosas, como o Trio do Leão (M 65) e a NGC 2903. Uma boa sessão de "galáxias de Leão" pode incluir todas elas na mesma noite.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 192 (NGC 3626).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 40, p. 105-106.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, magnitude, tipo morfológico, dimensões, velocidade radial e medidas de distância de NGC 3626, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.