setembro 21, 2026
NGC 6124 (Caldwell 75), o grande aglomerado do Escorpião: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos
Existem aglomerados que se impõem pelo brilho e outros que se impõem pelo tamanho. O NGC 6124 é do segundo tipo, e a sua magnitude 5,8 esconde o essencial: a luz total está espalhada por uma região de meio grau ou mais, quase o tamanho da Lua cheia, e o resultado é um punhado de estrelas de brilho modesto que parece flutuar sobre o fundo da Via Láctea. Fica no canto sudoeste do Escorpião, junto às divisas com Lobo e Norma, e é o número 75 da lista Caldwell. No Rio de Janeiro ele sobe alto no céu de inverno, e é um alvo natural para quem tem binóculos e quer algo mais tranquilo do que as joias óbvias da vizinhança. Este guia junta os dados, os mapas, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.
Texto em revisão. Este é um guia de teste no novo formato de objeto. As fontes estão listadas no final e as dúvidas, no campo de pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um aglomerado aberto grande e frouxo
Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas juntas na mesma nuvem de gás, ainda ligadas fracamente pela gravidade e que, com o tempo, se dispersam pela Galáxia. O NGC 6124 é um exemplo de aglomerado já bastante espalhado, de idade intermediária: Mobberley estima cerca de 150 milhões de anos. Para comparar, veja o vizinho NGC 6231, muito mais compacto e brilhante.
O NGC 6124 em números. A magnitude integrada é 5,8 (SIMBAD, Bakich e Kambič), e o SIMBAD registra um diâmetro de cerca de 48′; Mobberley usa 40′ e Bakich e Kambič, 29′. Essa dispersão de valores não é erro de ninguém, e sim reflexo de um problema real: o aglomerado não tem borda nítida. Ele fica dentro da faixa da Via Láctea e o fundo estelar do campo é rico, então o olho ou o catálogo decidem onde ele termina. A paralaxe do SIMBAD (1,557 milissegundos de arco) dá uma distância de cerca de 2.100 anos-luz, adotada aqui; Mobberley trabalha com 1.500. Com a distância do SIMBAD, o tamanho aparente corresponde a algo como 25 a 30 anos-luz de extensão.
Estrelas e brilho por ponto. Mobberley chama a atenção para uma ideia importante: o NGC 6124 tem a mesma magnitude integrada do Caldwell 71, mas espalhada por uma área quatro vezes maior. Em vez de cem estrelas de 13ª ou 14ª magnitude, o aglomerado é feito sobretudo de uma dúzia de estrelas de 9ª magnitude, o que atrapalha o olho na hora de perceber as mais fracas. Kambič, que escreve para observadores de binóculo, conta cerca de 60 estrelas até a 11ª magnitude.
Uma janela escura por trás. Bakich observa que o aglomerado está à frente de uma fenda de nebulosas escuras, sobre um fundo estelar relativamente pobre, o que ajuda a destacá-lo, e diz que ele é visível a olho nu em céu muito escuro.
Estruturas notáveis
- O grupo principal. A dúzia de estrelas de 9ª magnitude é o que justifica o número Caldwell, segundo Mobberley, e é o que você procura primeiro. Ele descreve o conjunto como uma dúzia de estrelas que se reuniram por um momento, como numa reunião.
- A forma de cunha. Em baixa ampliação, cerca de 35× ou menos, o aglomerado aparece como uma cunha apontando para sudeste (Bakich).
- O "segundo aglomerado". Fora do limite leste oficial, Mobberley imagina outro grupo com meia dúzia de estrelas de 9ª a 11ª magnitude. Conforme a abertura, você pode ver um aglomerado, uma forma alongada ou mais de um; o olho humano é muito bom em inventar padrões, como braços e pernas.
- NGC 6153. Uma nebulosa planetária de 12ª magnitude, pouco mais de 1° a leste-nordeste, que aparece com 8 polegadas ou mais (Mobberley; Bakich).
- NGC 6139. Um aglomerado globular a cerca de 2° ao norte, um pouco a leste (Mobberley).
Como localizar
O NGC 6124 fica a cerca de 6½° ao sul e 5° a oeste de Épsilon Scorpii, a estrela de 2ª magnitude do "dorso" do Escorpião (Mobberley). Outra rota, que serve bem para quem já tem o Escorpião de cabeça, é procurar o triângulo formado com Mu 1,2 Scorpii (mag. 3,0) e Zeta 1,2 Scorpii (mag. 3,6): o aglomerado marca o vértice oeste desse triângulo (Bakich). Mesmo com o campo em mãos, a dificuldade é que o aglomerado é difuso e se mistura ao fundo: comece com um binóculo de campo amplo e só depois vá para o telescópio, com baixa ampliação. Para se situar na região, veja o guia da constelação do Escorpião e, mais ao norte, os aglomerados M 6 e M 7.

Quando e como observar
Com declinação de cerca de −40,7°, o NGC 6124 culmina a cerca de 72° de altura no Rio de Janeiro, uma altura excelente. Ele não é circumpolar e fica cerca de 15 horas por dia acima do horizonte (calculado). Mobberley indica a melhor época como maio a agosto, e o objeto culmina à meia-noite por volta do fim de maio; no inverno, o Escorpião está alto logo depois do crepúsculo. Como de costume no hemisfério sul, o observador olha para o sul, com o leste à esquerda; a orientação dentro do ocular depende de o instrumento inverter ou não a imagem.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho do NGC 6124 pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-13 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 19:20 · 31° SW
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 12 %
- Nota da noite
- 54 / 100
- Posição no céu
- 23
- Brilho
- 100 mag 5,8
- Enquadramento
- 100 ocupa 30 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 30° | SW 235° | 19° |
| 20:00 | 24° | SW 234° | 18° |
| 20:30 | 18° | SW 233° | 18° |
| 21:00 | 13° | SW 231° | 18° |
| 21:30 | 8° | SW 229° | 18° |
| 22:00 | 2° | SW 226° | 18° |
| 22:30 | -2° | — | 18° |
| 23:00 | -7° | — | 17° |
| 23:30 | -11° | — | 17° |
| 00:00 | -15° | — | 17° |
| 00:30 | -19° | — | 17° |
| 01:00 | -22° | — | 17° |
| 01:30 | -24° | — | 17° |
| 02:00 | -25° | — | 17° |
| 02:30 | -26° | — | 16° |
| 03:00 | -26° | — | 16° |
| 03:30 | -26° | — | 16° |
| 04:00 | -24° | — | 16° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Em céu muito escuro, uma mancha tênue, sem estrelas separadas (Bakich). Em Bortle 7, o brilho do céu e do horizonte urbano esconde isso; não conte com ela. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | O melhor instrumento. Resolve as estrelas mais externas e mostra o grupo principal de estrelas de 9ª magnitude; o tamanho do campo permite ver o aglomerado inteiro (Bakich; Mobberley; Kambič: cerca de 60 estrelas até a 11ª). |
| Telescópio de 100 mm | Com cerca de 75×, uns 50 estrelas (Bakich). Em baixa ampliação (35× ou menos), a forma de cunha para sudeste. Dá para caçar a NGC 6153, mas ela é fraca demais para Bortle 7. |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Mais estrelas, mas o aglomerado enche o campo e perde o efeito; o maior valor é ir ao vizinho NGC 6153 com 8 polegadas ou mais, ampliação acima de 200× e, se possível, filtro OIII (Bakich). |
Expectativa honesta: este é um aglomerado de "olhar devagar". Não tem um núcleo denso e não cresce com a abertura; o melhor resultado vem de um binóculo apoiado, em uma noite com transparência boa e o alvo alto, como acontece no inverno.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Como o aglomerado tem de 30′ a 48′, o campo ideal é de cerca de 1,5° a 2°, o que corresponde a uma lente de 200 a 300 mm de focal com sensor APS-C ou de 1 polegada, ou um refrator curto de 400 a 500 mm. Assim ele cabe com folga, e ainda entra o campo estelar com as fendas escuras da Via Láctea, que dão contexto à imagem. Se você quiser incluir o NGC 6153 ou o globular NGC 6139, será preciso um campo ainda maior.
Desafios do alvo
- Sem borda nítida. O aglomerado se mistura ao fundo; a imagem só faz sentido com o campo largo e com um bom contraste das estrelas de fundo, para que o grupo principal se destaque.
- Cor das estrelas. Com as estrelas de 9ª magnitude pouco saturadas, a exposição deve ser curta para preservar o núcleo das estrelas e a cor.
- Poluição luminosa. Como o brilho por ponto é alto e o interesse está nas estrelas, um filtro anti-poluição luminosa amplo ajuda em Bortle 7, sem cortar as cores estelares.
Equipamento e filtros
Uma câmera colorida de um disparo resolve bem: o objeto não tem nebulosidade e as cores das estrelas são o atrativo. Um filtro dual-band não é indicado, pois cortaria as estrelas; um filtro de banda larga anti-poluição é uma alternativa. Se o objetivo for a planetária NGC 6153, aí sim vale uma luminância em OIII em um telescópio maior.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB) | 40 a 60 | 60 a 90 s | Cor das estrelas sem saturar o núcleo |
| Dark | 20 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida e não vêm dos livros; nenhum deles traz uma imagem deste objeto. Mobberley classifica o aglomerado apenas como um alvo fácil para CCD e DSLR.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 tem campo de cerca de 1,3° × 0,7°: o aglomerado cabe na largura, mas na altura de 0,7° ele fica justo se você usar o valor de 48′ do SIMBAD, e o campo deve ser orientado com cuidado para não cortar as bordas. Como é brilhante, aparece com poucos minutos de empilhamento. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
O NGC 6124 é um bom lembrete de que nem todo objeto Caldwell é um espetáculo, e de que alguns só se mostram a quem olha com calma e com o instrumento certo: um binóculo grande, um céu de inverno e a paciência de deixar o olho perceber a dúzia de estrelas que mantêm o grupo unido. Vale combiná-lo, na mesma noite, com o brilhante NGC 6231 (Caldwell 76), a uns 5° a leste, e com o M 4, para uma volta pelo sul do Escorpião.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 425 (NGC 6124).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Escorpião, p. 434.
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 75, p. 158.
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Escorpião (página impressa a conferir).
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, magnitude, paralaxe e dimensões de NGC 6124, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.