setembro 21, 2026

NGC 1851 (Caldwell 73), o globular da Pomba: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de NGC 1851 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Existem globulares que se escondem no meio de um campo estelar, e existem globulares que parecem ter sido colocados sozinhos em um pedaço de céu vazio. O NGC 1851 é do segundo tipo. Na Pomba (Columba), a cerca de 8° da estrela Phact, ele brilha sem concorrência: o Bakich diz que ele é o objeto de céu profundo mais brilhante em mais de 20° em qualquer direção. Para quem observa do Rio de Janeiro, é um alvo de verão e de dezembro, alto, fácil e recompensador. Este guia reúne os dados, os gráficos de altura e a estratégia de observação e de captura.

Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de guia de objeto, do lote Caldwell. As fontes estão listadas no final.

Imagem de referência (DSS2) de NGC 1851 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado globular

Um aglomerado globular é uma esfera densa de centenas de milhares de estrelas muito antigas, unidas pela gravidade e distribuídas em um halo em volta do centro da Galáxia. No telescópio, aparecem como uma bola de luz que se adensa em direção ao centro; o brilho sobe depressa, e com abertura suficiente as bordas se desfazem em estrelas.

O NGC 1851 em números. A magnitude integrada é de 7,1 a 7,2 (Mobberley; Bakich; Kambič). O SIMBAD dá tamanho de 11′, e a distância, pela paralaxe (0,088 milissegundo de arco), é de cerca de 37.000 anos-luz (Mobberley, Bakich e Monks usam 40.000). Com esses valores, o diâmetro físico é de cerca de 120 anos-luz (calculado), e o Bakich acrescenta que ele está a cerca de 55.000 anos-luz do centro da Galáxia. A idade é de cerca de 10 bilhões de anos em Mobberley e de cerca de 14 bilhões em Monks; a variação é comum quando as fontes usam modelos e épocas diferentes (livros trazem também 12′, e Monks, 18′, provavelmente incluindo o halo).

Comparação com o M79. Mobberley sugere comparar o NGC 1851 com o M79, na Lebre, que está 15° mais ao norte e 10 minutos de ascensão reta a leste: o M79 é menor e mais fraco, e vale ver os dois na mesma noite.

Uma possível origem externa. Kambič, ao falar de galáxias anãs que estão sendo absorvidas pela Via Láctea, escreve que o NGC 1851 e o M79 provavelmente vieram com a galáxia anã do Cão Maior, e que o aglomerado teria "emigrado" para a nossa galáxia. É uma hipótese que ele apresenta com ressalvas, e que depende da pesquisa mais atual.

Uma descrição histórica. John Herschel o chamou de "um soberbo aglomerado globular", cuja luz "sobe de repente, no meio, até um clarão ou núcleo" (Mobberley), uma boa descrição do que se vê no ocular.

Estruturas notáveis

  • O núcleo brilhante. O brilho sobe bruscamente em direção ao centro, o traço que Herschel descreveu.
  • As estrelas resolvidas. Com 100 mm, o Bakich descreve um núcleo concentrado e não resolvido, cercado por estrelas resolvidas; algumas dezenas de estrelas de 13ª a 15ª magnitude podem ser vistas separadas em telescópios grandes (Mobberley).
  • O isolamento. Sem estrelas brilhantes nem outros objetos de céu profundo por perto, o campo em volta é limpo, o que valoriza o contraste.
  • As galáxias NGC 1808 e NGC 1792. Duas galáxias de magnitude 10, no mesmo campo amplo, a cerca de 2,5° a 3° (Mobberley); a NGC 1808 mede 6,3′ × 4,3′ e a NGC 1792, 5,6′ × 2,9′. Em 15 de novembro de 1993, Wischnjewsky descobriu na NGC 1808 uma supernova do tipo Ia de magnitude 17.

Como localizar

O NGC 1851 fica na Pomba, em uma região pobre em estrelas brilhantes. Mobberley oferece dois roteiros. O primeiro é visual: cerca de uma hora e meia a oeste da linha entre Sirius e Canopus, sobre a declinação de −40°. O segundo é por estrela: parta de Phact (alfa Columbae, magnitude 2,6, também chamada Phaet) e ande 6° ao sul e 5° a oeste. O Bakich informa que o globular está a quase 8° a sudoeste de Phact. Kambič dá outro apoio: se você colocar a estrela épsilon da Pomba na borda nordeste do campo de um binóculo, o aglomerado aparece na borda sudoeste.

Carta de localização de NGC 1851: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de −40°, o NGC 1851 culmina a cerca de 73° de altura no Rio de Janeiro, uma altura excelente, em que o ar entre você e o objeto é o mais limpo possível. Ele não é circumpolar: nasce e se põe. A melhor época vai de novembro a fevereiro (Mobberley), com a meia-noite por volta de dezembro (Bakich cita dezembro). Observadores do hemisfério norte não têm essa vantagem: Monks lembra que, no meio-oeste dos Estados Unidos, o aglomerado chega a apenas 9° de altura, e na Inglaterra ele nunca nasce; Kambič, para latitudes médias do norte, dá apenas 4° de altura no meridiano e sugere tentar só depois de ter experiência.

Olhando para o sul-sudoeste, com o objeto alto, o norte fica para baixo e o leste, à esquerda.

O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho do NGC 1851 pelo céu nesta noite (zênite no centro, cores pela altura e linha pontilhada, tracejada ou contínua conforme o crepúsculo), seguido da altura hora a hora.

Altura de NGC 1851 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de outubro a fevereiro. O objeto chega a 73° à meia-noite em dezembro.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ12 dez · 73°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de outubro a fevereiro (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 73° em 12 de dezembro.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
03:40 · 73° S
Horas acima de 45°
3,8 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
79 / 100
Posição no céu
78
Brilho
81 mag 7,2
Enquadramento
80 ocupa 20 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de NGC 1851 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 20:20 e 04:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 03:40, com 73°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO21:0022:0023:0000:0001:0002:0003:0004:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 -7° — 112°
20:00 -2° — 112°
20:30 3° SE 133° 112°
21:00 8° SE 130° 112°
21:30 13° SE 128° 112°
22:00 19° SE 127° 112°
22:30 24° SE 125° 112°
23:00 30° SE 124° 112°
23:30 36° SE 124° 112°
00:00 42° SE 124° 112°
00:30 47° SE 125° 112°
01:00 53° SE 127° 112°
01:30 58° SE 130° 112°
02:00 63° SE 136° 112°
02:30 68° SE 144° 112°
03:00 71° SSE 158° 112°
03:30 73° S 176° 112°
04:00 72° SSW 195° 112°
Altura de NGC 1851 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 03:40, com 73°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte03:40 · 73°
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Não visível em Bortle 7.
Binóculo (7×50 a 15×70) Em céu escuro, uma pequena mancha nebulosa de cerca de 11′ (Bakich; Kambič). Em Bortle 7, precisa de binóculo firme e a estrela guia para não confundir com um borrão do céu.
Telescópio de 100 a 150 mm Núcleo concentrado e sem resolução, cercado de estrelas resolvidas (Bakich). Mobberley recomenda 10 cm ou mais.
Telescópio de 200 a 350 mm Um globular bonito, com brilho que sobe até um núcleo compacto; Monks indica 200 mm para ver algum detalhe e destaca que ele é um alvo atraente em telescópios grandes, com céu razoavelmente escuro.

Expectativa honesta: o NGC 1851 é um alvo excelente para o Rio de Janeiro, e uma boa introdução a globulares menos famosos. Com o alvo alto e o céu de verão, mesmo em Bortle 7 o núcleo aparece. Mas as estrelas do aglomerado, na maioria de magnitude 16 ou 17 (Mobberley), só se separam com câmera. Não há vantagem em usar filtro.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Mobberley classifica o NGC 1851 como um alvo fácil, e indica que uma câmera com poder de integração revela bem as estrelas mais fracas do aglomerado (as de 16ª e 17ª magnitude). Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): o aglomerado, de cerca de 11′, cabe com folga. Um campo mais largo, de cerca de 4° a 5°, permitiria incluir o aglomerado e as galáxias NGC 1808 e NGC 1792 no mesmo quadro, mas o globular ficaria pequeno.

Desafios do alvo

  • Núcleo estourado. O centro é muito mais brilhante que o halo. Exposições curtas empilhadas ajudam a preservar o núcleo.
  • Estrelas por toda parte. O campo é muito rico, e o foco e o guiamento precisam ser bons.
  • Pouco contraste de cor. Como todo globular, ele é amarelado; um bom balanço de branco e uma saturação moderada ajudam.

Equipamento e filtros

Não há filtro que ajude (Mobberley). Uma câmera colorida de um disparo ou uma monocromática com LRGB funciona bem. Para incluir as duas galáxias vizinhas, prefira uma lente ou um refrator curto.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light (RGB ou colorida) 60 a 100 30 a 60 s Aglomerado e campo; exposições curtas protegem o núcleo
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros.

Smart telescopes e campo de visão

O NGC 1851 cabe com sobra no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°). Por ser brilhante, ele rende resultado em poucos minutos de empilhamento, mesmo em céu urbano. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

O NGC 1851 tem um ponto raro: é um alvo alto, brilhante e isolado, quase sem concorrência, e ainda assim pouco falado. É uma boa opção para uma noite de dezembro, com a comparação com o M79 e, se o céu permitir, uma volta pelas galáxias NGC 1808 e NGC 1792. Para outros globulares do sul, veja o NGC 6752, muito mais brilhante, o NGC 362 e o NGC 4833.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 936 (NGC 1851).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Sobre a origem dos globulares, p. 137; Columba, p. 260.
  • MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 73, p. 154-155.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer, 2010. NGC 1851, p. 44.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de NGC 1851, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.