setembro 22, 2026
Mosca: a constelação ao lado do Cruzeiro do Sul, com dois globulares brilhantes

Poucas constelações têm uma vizinha tão famosa colada ao corpo: a Mosca fica logo ao sul do Cruzeiro do Sul, tão perto que, uma vez encontrado o Cruzeiro, é quase impossível não esbarrar nela. É pequena, sem estrelas de destaque — a mais brilhante mal passa da 2ª magnitude — mas guarda dois aglomerados globulares que estão entre os alvos mais fáceis e recompensadores do céu profundo austral, ambos catalogados por William Herschel e revisitados séculos depois na lista Caldwell de Patrick Moore.
A Mosca (Musca, abreviatura Mus) ocupa cerca de 138 graus quadrados do céu, entre o Cruzeiro do Sul, o Centauro, o Compasso, a Ave-do-Paraíso e o Camaleão. É uma das doze constelações batizadas por Pieter Dirkszoon Keyser e Frederick de Houtman no fim do século XVI — mas com uma reviravolta curiosa no nome: Johann Bayer a publicou em 1603 como Apis, a Abelha; foi só depois, com o astrônomo Jakob Bartsch (Bartschius), que ela recebeu o nome atual de Mosca. Sobrou até hoje uma pequena confusão histórica: o nome "Mosca" também foi usado, por um tempo, para uma constelação hoje extinta perto de Áries, a Mosca Boreal — por isso os catálogos às vezes precisam especificar "Musca Australis" para esta.
Não espere um desenho chamativo a olho nu: é um pequeno losango de estrelas moderadas, na faixa da Via Láctea, ao lado do escuro Saco de Carvão que também acompanha o Cruzeiro. O que compensa a discrição das estrelas são os dois globulares.
Quando e como achar
Melhor época. A Mosca está centrada perto de 12h 37min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21h locais em meados de maio — mas, como está muito próxima do polo sul celeste, fica no céu (em alguma altura) em praticamente qualquer noite do ano vista do Brasil, com a melhor janela entre março e agosto, quando o Cruzeiro do Sul também está bem posicionado à noite.
Para onde olhar. A carta abaixo mostra o céu olhando para o sul, com o norte para cima e o leste à esquerda.
| Cidade | Altura de alfa Mus (mag. 2,69) |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 18° |
| Manaus (AM) | 24° |
| Recife (PE) | 29° |
| Brasília (DF) | 37° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 44° |
| São Paulo (SP) | 44° |
| Porto Alegre (RS) | 51° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com a declinação de alfa Mus (SIMBAD) e a latitude de cada cidade; valores arredondados. A Mosca é visível de todo o Brasil, e fica mais alta quanto mais ao sul o observador está — o padrão comum às constelações bem próximas do polo sul celeste.

Passo a passo.
- Encontre o Cruzeiro do Sul, a constelação mais reconhecível do céu austral.
- Olhe para o lado do polo sul celeste (para baixo, na carta, ou mais perto do horizonte sul na prática): o pequeno losango de estrelas da Mosca fica logo abaixo do Cruzeiro, ainda dentro da faixa mais densa da Via Láctea.
- Alfa Mus, a mais brilhante, é a estrela do "corpo" da mosca, na ponta norte do losango, mais próxima do Cruzeiro.
- NGC 4833 fica perto de alfa Mus; NGC 4372, mais para o sul, perto de gama Mus.
As estrelas da Mosca
| Estrela | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|
| Alfa Muscae | 2,69 | B2 IV (subgigante azulada) | cerca de 315 anos-luz |
| Beta Muscae | 3,04 | B2 V + B3 V (par de azuladas) | cerca de 341 anos-luz |
| Delta Muscae | 3,61 | K2 III (gigante alaranjada) | cerca de 87 anos-luz |
| Lambda Muscae | 3,65 | A7 V (branca) | cerca de 137 anos-luz |
| Gama Muscae | 3,84 | B5 V + A (par azulado) | cerca de 379 anos-luz |
| Épsilon Muscae | 4,06 | M4 III (gigante vermelha) | cerca de 326 anos-luz |
Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo) nesta sessão; distâncias calculadas a partir da paralaxe. Nenhuma das estrelas principais da Mosca tem nome próprio reconhecido pela IAU — por isso a carta acima não traz rótulos de estrela, só a designação de Bayer usada aqui no texto.
Alfa Muscae, a mais brilhante, é uma subgigante azulada bem mais quente e luminosa que o Sol, marcando o extremo norte do losango da constelação, mais perto do Cruzeiro. Beta e gama Muscae são, cada uma, sistemas duplos de estrelas azuladas — um lembrete de que boa parte das estrelas "simples" a olho nu na verdade são pares ou sistemas múltiplos quando resolvidos por espectroscopia. Delta Muscae foge do padrão: é uma gigante alaranjada, bem mais próxima da Terra que as vizinhas azuis (cerca de 87 anos-luz), e é o ponto de partida citado pelo Mobberley para localizar o globular NGC 4833. Épsilon Muscae, uma gigante vermelha do tipo M, é a mais fria e uma das mais distantes do grupo.
Objetos de céu profundo: dois globulares e um aglomerado aberto
O catálogo do site lista três objetos de céu profundo dentro dos limites da Mosca, dois deles com guia completo publicado:
NGC 4833 (Caldwell 105) é um aglomerado globular de magnitude 7,79 e cerca de 8,4 minutos de arco, a menos de 2° de alfa Mus. É um alvo fácil em binóculo e generoso em telescópio pequeno; o apelido "Borboleta do Sul", atribuído a Stephen O'Meara, descreve a forma que o aglomerado sugere em aberturas maiores. Fica a cerca de 20.000 anos-luz e tem cerca de 11 bilhões de anos — um dos globulares mais antigos da Via Láctea.
NGC 4372 (Caldwell 108) é o segundo globular, de magnitude 9,85 e cerca de 12 minutos de arco, perto de gama Mus. É mais fraco e mais "aberto" — menos concentrado no centro — que NGC 4833, com brilho superficial cerca de uma magnitude menor, mas ainda um bom alvo de binóculo grande ou telescópio pequeno em céu escuro. Os dois globulares ficam a cerca de 3° um do outro, o que os torna um par cômodo para observar na mesma sessão.
NGC 4463 é um aglomerado aberto de magnitude 7,2 e cerca de 4,8 minutos de arco, perto do limite norte da constelação, mais próximo do Cruzeiro do Sul. Está no catálogo do site, mas ainda não tem um guia individual publicado; fica marcado na carta acima para referência.
Mitologia e história: da abelha à mosca
Como quase todas as constelações dessa região do céu, a Mosca não carrega mitologia clássica. Foi desenhada por Keyser e de Houtman a partir de observações em viagens ao Índico e ao Pacífico no fim do século XVI, e publicada por Johann Bayer em 1603 — mas, curiosamente, com outro nome: Apis, a Abelha. Foi o astrônomo alemão Jakob Bartsch quem, décadas depois, rebatizou a figura como Mosca. O nome pegou, e a "Abelha" original ficou como nota de rodapé na história da cartografia celeste.
Não há herói, monstro nem deus por trás da Mosca — como as outras criações de Keyser e Houtman, ela nasceu para preencher, com um animal reconhecível (ou dois, no caso), uma região do céu que os catálogos anteriores, feitos no hemisfério norte, simplesmente não cobriam.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | O losango discreto da Mosca ao lado do Cruzeiro do Sul, sobre o fundo denso da Via Láctea; alfa Mus como o ponto mais brilhante. |
| Binóculo (10×50) | NGC 4833 como uma mancha redonda e definida perto de alfa Mus; NGC 4372, mais fraco, perto de gama Mus; NGC 4463 como um pequeno aglomerado disperso. |
| Telescópio pequeno (70 a 150 mm) | NGC 4833 começando a resolver estrelas nas bordas; NGC 4372 mostrando sua estrutura mais aberta e menos concentrada. |
| Telescópio médio (200 mm ou mais) | Os dois globulares bem resolvidos em estrelas individuais, e a comparação direta de concentração entre eles. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua; a Mosca se beneficia de um céu bem escuro, por estar na faixa mais pobre em brilho da Via Láctea próxima ao Cruzeiro.
- Comece pelo Cruzeiro do Sul e desça (na direção do polo) até o losango da Mosca.
- Observe os dois globulares na mesma sessão para comparar a concentração central: NGC 4833 é mais denso, NGC 4372 mais espalhado.
Referências
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 105 (NGC 4833), p. 229-230 (impressa 216-217); Caldwell 108 (NGC 4372), p. 235-236 (impressa 222-223).
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Musca", p. 595.
- MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbete "Musca", p. 283.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e paralaxes das estrelas alfa, beta, gama, delta e épsilon Muscae, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.