setembro 21, 2026
M 52, o aglomerado jovem de Cassiopeia: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
M 52 é um dos aglomerados abertos mais ricos e bem definidos de Cassiopeia: centenas de estrelas jovens e quentes, nascidas juntas há poucas dezenas de milhões de anos, ainda próximas o bastante para formar um campo denso e vistoso ao telescópio. É também um objeto que expõe bem o limite geográfico deste site: com declinação de mais de +61°, ele está tão ao norte que, do Rio de Janeiro, simplesmente não sobe o suficiente para ser um alvo real. Este guia é escrito, portanto, do ponto de vista de quem observa do hemisfério norte — onde M 52 é excelente, alto e generoso — com uma nota honesta sobre o que resta para quem está no Brasil.
Texto em revisão. Este artigo segue o novo formato de guia de objeto do site: dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura estão todos aqui. As fontes estão listadas no final.

Ficha técnica e designações
Visão geral: um aglomerado aberto jovem e rico
Um aglomerado aberto é um grupo de estrelas nascidas da mesma nuvem de gás, ainda unidas pela gravidade, mas destinado a se dispersar ao longo de centenas de milhões de anos conforme a rotação da galáxia as separa. M 52 é um exemplo particularmente rico desse tipo de objeto: Monks descreve mais de 200 estrelas quentes, azul-esbranquiçadas, com idade estimada em cerca de 35 milhões de anos (Monks, Go-To Telescopes Under Suburban Skies, p. 183). Kier, no contexto de um par astrofotográfico com a vizinha Nebulosa da Bolha, cita uma idade de cerca de 20 milhões de anos (Kier, The 100 Best Targets for Astrophotography, p. 255).
M 52 em números. A magnitude integrada é 6,9 (Bakich), pouco acima do limite do olho nu em céu muito escuro. A distância, pela paralaxe do SIMBAD, é de cerca de 5.470 anos-luz — próxima dos valores de Monks (5.000) e Kier (5.100). O tamanho aparente no SIMBAD é de 16′, concordando com Kier; Bakich cita 12′, provavelmente medindo só o núcleo mais concentrado.
Uma estrela intrusa. Monks observa que a estrela amarela brilhante próxima ao centro do aglomerado não é uma de suas integrantes — está apenas na mesma linha de visão, muito mais perto ou mais longe de nós (Monks, p. 183). É um lembrete de que aglomerados abertos, vistos em duas dimensões no céu, sempre têm alguma "contaminação" de estrelas de primeiro ou segundo plano.
Descoberta. M 52 é a 52ª entrada do catálogo de Charles Messier (Bakich, objeto #732).
Estruturas notáveis
- A borda oeste. Bakich observa que o aglomerado é particularmente bem definido nessa direção, destacando-se do fundo estelar da Via Láctea.
- O grupo de seis estrelas a leste. Uma pequena concentração notável na borda oposta, citada por Bakich como ponto de referência visual.
- A estrela intrusa central. A estrela amarela brilhante no meio do campo, que não pertence ao aglomerado (Monks) — um bom exercício de observação para notar a diferença de cor em relação às estrelas azuladas do aglomerado de verdade.
- A vizinhança com a Nebulosa da Bolha. A cerca de meio grau de M 52 fica NGC 7635 (Caldwell 11), moldada pelos ventos estelares de uma estrela Wolf-Rayet — um alvo de astrofotografia clássico emparelhado com M 52, embora seja um objeto próprio, mais difícil visualmente (Kier, p. 255; Monks, p. 183).
Como localizar
M 52 fica no lado oeste de Cassiopeia. Bakich sugere partir de Alfa Cassiopeiae (Schedar, mag. 2,2) e Beta Cassiopeiae (Caph, mag. 2,3), que distam 5° entre si; estendendo essa linha por mais 6° na mesma direção, chega-se ao aglomerado. Para quem observa do hemisfério norte, onde Cassiopeia está bem alta na maior parte do ano, esse salto é direto com um buscador ou binóculo de campo largo.

Quando e como observar
Com declinação de +61°35′, M 52 é, para o observador do hemisfério norte, um objeto quase circumpolar em latitudes médias e altas (a partir de cerca de 30° N ele já não se põe completamente), visível durante boa parte do ano, com a melhor época em torno de setembro a novembro, quando culmina no início da noite.
Os gráficos abaixo usam a localização do observador (o local do site, Rio de Janeiro, por padrão, ou a posição aproximada do navegador de quem lê) — antes de olhar para eles, veja a nota abaixo: do Rio, M 52 fica abaixo ou rente ao horizonte na maior parte do tempo.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 5°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 21:50 · 5° N
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 86 mag 6,9
- Enquadramento
- 88 ocupa 22 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 1° | NNE 16° | 127° |
| 20:00 | 2° | NNE 13° | 127° |
| 20:30 | 4° | N 10° | 127° |
| 21:00 | 5° | N 6° | 127° |
| 21:30 | 5° | N 3° | 127° |
| 22:00 | 5° | N 359° | 127° |
| 22:30 | 5° | N 356° | 127° |
| 23:00 | 4° | N 352° | 127° |
| 23:30 | 3° | NNW 349° | 127° |
| 00:00 | 2° | NNW 346° | 127° |
| 00:30 | 0° | — | 126° |
| 01:00 | -3° | — | 126° |
| 01:30 | -5° | — | 126° |
| 02:00 | -8° | — | 126° |
| 02:30 | -11° | — | 126° |
| 03:00 | -14° | — | 126° |
| 03:30 | -18° | — | 126° |
| 04:00 | -21° | — | 126° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
E do Rio de Janeiro?
A altura máxima de um objeto ao cruzar o meridiano é 90° menos a diferença entre a latitude do observador e a declinação do objeto. No Rio (latitude −23°): 90° − |−23° − 61,59°| = 90° − 84,59° ≈ 5° acima do horizonte norte no ponto mais alto. Isso é baixo demais para ser um alvo prático em qualquer céu urbano: mesmo com horizonte perfeitamente livre, a essa altura a atmosfera, a poluição luminosa concentrada perto do solo e a extinção atmosférica tornam a observação praticamente inviável em Bortle 7. Este guia descreve a observação de latitudes mais ao norte, onde M 52 é um dos melhores aglomerados de Cassiopeia; do Rio de Janeiro, ele simplesmente não é um alvo recomendável. Quem quiser um aglomerado rico e acessível em Cassiopeia a partir do Brasil pode considerar o vizinho NGC 663, o Aglomerado da Ferradura, que também fica baixo, mas foi tratado com mais detalhe nesse guia específico sobre sua visibilidade limitada — ou trocar de constelação e buscar um aglomerado do céu do sul profundo.
O que ver
(Descrição para quem observa de latitudes onde M 52 está bem posicionado, tipicamente acima de 35-40° N.)
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Não visível — é preciso ao menos um binóculo para notar a concentração de estrelas. |
| Binóculo (7×50 a 15×70) | Uma mancha nebulosa granulada, com as estrelas mais brilhantes já começando a se resolver individualmente em binóculos maiores. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Já mostra dezenas de estrelas resolvidas contra um fundo ainda granulado; use ampliação baixa a moderada para manter o campo largo do aglomerado. |
| Telescópio de 200 mm ou mais | Bakich cita pelo menos 75 estrelas de magnitude 9 a 12 resolvidas; Monks recomenda uma ocular de campo largo, como uma Nagler de 13 mm num SCT de 200 mm, para equilibrar ampliação e campo (Monks, p. 183). |
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Kier enquadra M 52 junto com a Nebulosa da Bolha (NGC 7635) num único quadro amplo, já que os dois objetos distam cerca de meio grau um do outro e estão a distâncias parecidas (Kier, p. 255). Um campo de 1° a 1,5° acomoda ambos; para uma imagem de alta resolução só da Bolha, um campo mais estreito é melhor, mas M 52 sozinho também rende bem com um campo de 30′ a 45′.
Desafios do alvo
- Campo estelar denso. Com centenas de estrelas, é fácil estourar (bloom) as mais brilhantes; vale calibrar bem e cuidar do processamento de estrelas.
- A Nebulosa da Bolha é fraca. Se o objetivo for enquadrar os dois juntos, a Bolha exige exposições mais longas e, idealmente, filtro de banda estreita, enquanto M 52 já aparece bem em exposições curtas.
- Não observável do Rio. Para quem fotografa do Brasil, este simplesmente não é um alvo viável — a altura de 5° no ponto mais alto está abaixo do que qualquer imageamento razoável exige.
Equipamento e filtros
Câmera colorida de um disparo (OSC) é suficiente para M 52 isoladamente. Para incluir a Nebulosa da Bolha no mesmo quadro, um filtro dual-band (H-alfa e OIII) ou uma sessão separada em banda estreita realça bastante o contraste da nebulosa contra o céu de fundo.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light (RGB ou OSC) | 40 a 60 | 60 a 120 s | Estrelas do aglomerado |
| Light (dual-band, opcional) | 30 a 50 | 180 a 300 s | Nebulosa da Bolha, se incluída no quadro |
| Dark | 20 a 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 20 a 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 30 a 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste ao seu equipamento.
Smart telescopes e campo de visão
M 52 cabe folgado no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), que também consegue incluir a Nebulosa da Bolha no mesmo enquadramento em muitos casos. O gráfico abaixo mostra o campo sobre o objeto — mas lembre-se de que, para o observatório do Rio de Janeiro, essa observação só é realista para quem estiver fisicamente em latitudes mais ao norte.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 52 é um exemplo claro de como a geografia molda o que dá para ver: um aglomerado excelente e generoso para quem observa das latitudes médias do hemisfério norte, e um objeto praticamente inacessível para quem está no Rio de Janeiro. Isso não é motivo para constrangimento — é só astronomia esférica. Para quem busca aglomerados jovens e ricos visíveis do Brasil, vale explorar os guias de aglomerados do catálogo do site voltados ao céu do sul, ou, na própria Cassiopeia, o NGC 663 e o M 103, ambos também baixos mas com guias dedicados à sua visibilidade limitada no Rio.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer. Objeto nº 732 (M52 / NGC 7654).
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. Springer (Practical Astronomy Series). "October 26: Bubble Nebula and M52 Cluster", p. 255-256.
- MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. Springer (Practical Astronomy Series). NGC 7654 (M52), p. 183.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 52, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.