setembro 21, 2026

M 23, o aglomerado do tamanho da Lua que quase ninguém observa: guia completo

Imagem de referência (DSS2) de M23 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Poucos objetos do catálogo de Messier são tão desprezados quanto M 23. Ele não tem o nome vistoso de uma nebulosa, não brilha tanto quanto os aglomerados globulares vizinhos, e fica um pouco afastado da rota mais óbvia dos observadores em Sagitário — por isso, segundo Bakich, é um dos Messier menos observados, apesar de bonito. É injusto: M 23 tem praticamente o tamanho aparente da Lua cheia, reúne cerca de uma centena de estrelas e, em um telescópio de campo largo, mostra fileiras de astros que lembram cadeias curvas no céu. Para quem observa do Rio de Janeiro, ele ainda tem uma vantagem extra: passa quase no zênite, bem mais alto do que no hemisfério norte, onde a maior parte dos livros de observação foi escrita. Este guia reúne o que há sobre M 23: os dados, como achar, quando observar, o que dá para ver e como fotografar.

Imagem de referência (DSS2) de M23 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: um aglomerado rico e grande, perto da fronteira com Ofiúco

M 23 é um aglomerado aberto: um grupo de estrelas nascidas da mesma nuvem de gás, ainda ligado pela gravidade, mas que com o tempo vai se dispersar conforme orbita o centro da Galáxia. Fica na parte noroeste de Sagitário, perto da fronteira com Ofiúco — Ridpath descreve a região como "um grande aberto perto do limite com Ofiúco", vizinho da grande Nuvem Estelar de Sagitário (M 24).

Tamanho generoso. A paralaxe do SIMBAD resulta em um diâmetro aparente de cerca de 35′, maior que a Lua cheia (30′); Bakich e Kambič, de forma independente, chegam a um valor bem próximo, 27′ — ainda assim comparável ao disco lunar. Já o catálogo do site registra 16,8′, provavelmente contando só a parte mais densa e brilhante; este guia adota o valor do SIMBAD.

Distância. A paralaxe do SIMBAD (1,354 mas) dá cerca de 2.410 anos-luz, valor adotado neste guia. Kambič cita uma distância um pouco menor, 2.150 anos-luz, o que resultaria em um diâmetro real próximo a 15 anos-luz — os dois valores são consistentes dentro da margem normal de incerteza.

Um aglomerado rico. Kambič estima cerca de 100 estrelas-membro, das quais até 40 ficam visíveis em uma noite excelente, a maioria por volta de magnitude 9. Bakich, observando com um telescópio de 100 mm a 100 aumentos, conta cerca de 50 estrelas organizadas em cinco fileiras curvas — um padrão que vale a pena procurar quando você olhar para o aglomerado.

Descoberta. M 23 foi catalogado por Charles Messier em 1764, na mesma leva de objetos que incluiu boa parte dos aglomerados e nebulosas do "bule" de Sagitário.

Estruturas notáveis

  • As fileiras curvas de estrelas. O padrão mais característico de M 23 em telescópios pequenos e médios: em vez de um amontoado uniforme, as estrelas parecem se organizar em cadeias curvas — Bakich chega a contar cinco delas a 100 aumentos.
  • Estrelas de fundo não pertencentes ao grupo. Kambič nota que a estrela mais brilhante na borda noroeste do campo, além de algumas de magnitude 8, provavelmente não são membros reais do aglomerado, mas estrelas de primeiro plano ou de fundo que caem, por coincidência, na mesma direção.
  • Vizinhança rica. A cerca de 4° a 4,5° a leste fica a grande Nuvem Estelar de Sagitário (M 24); mais perto ainda, a sudeste, está o aglomerado M 25. M 23 é parte de uma sequência de campos ricos que vale a pena visitar na mesma sessão.

Como localizar

M 23 fica no lado noroeste de Sagitário, mais afastado do "bule" que a maioria dos objetos famosos da constelação. A estrela-guia é Mu Sagittarii (magnitude 3,8 a 4): partindo dela, mova cerca de 4,4° a oés-noroeste, rumo à parte mais densa da Via Láctea (Bakich). Kambič sugere um caminho alternativo, partindo da Nuvem Estelar M 24 e se deslocando cerca de 4,5° a oeste. Em céu bem escuro, o próprio brilho difuso do aglomerado pode aparecer no buscador, e até a olho nu em condições excelentes.

Carta de localização de M23: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

M 23 passa muito alto no céu do Rio de Janeiro — a poucos graus do zênite na época em que a constelação de Sagitário culmina ao anoitecer —, uma vantagem grande sobre observadores de latitudes médias do hemisfério norte, para quem a região nunca sobe muito acima do horizonte sul. Quanto mais alto o objeto, menos atmosfera a luz atravessa, e menos turbulência e extinção atrapalham tanto a observação visual quanto a astrofotografia.

O gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório, e o seguinte, a noite de hoje. Use o primeiro para escolher a época e o segundo para escolher a hora.

Altura de M23 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de abril a agosto. O objeto chega a 86° à meia-noite em junho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ20 jun · 86°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de abril a agosto (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 86° em 20 de junho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-12 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 49° W
Horas acima de 45°
0,3 h
Lua
Lua crescente · 6 %
Nota da noite
64 / 100
Posição no céu
39
Brilho
100 mag 5,5
Enquadramento
100 ocupa 37 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M23 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 22:50 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 49°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 47° W 266° 44°
20:00 40° W 264° 44°
20:30 33° W 262° 44°
21:00 26° W 259° 44°
21:30 20° WSW 257° 43°
22:00 13° WSW 255° 43°
22:30 6° WSW 252° 43°
23:00 0° — 42°
23:30 -7° — 42°
00:00 -13° — 42°
00:30 -19° — 42°
01:00 -25° — 41°
01:30 -30° — 41°
02:00 -35° — 41°
02:30 -40° — 41°
03:00 -43° — 40°
03:30 -46° — 40°
04:00 -48° — 40°
Altura de M23 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 49°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Em céu muito escuro e transparente, pode aparecer como uma leve condensação na Via Láctea; na maioria das condições, é invisível como objeto isolado.
Binóculo (8×25 a 10×50) Uma mancha uniforme de luz, de tamanho comparável à Lua cheia; em condições muito boas, a mancha começa a "esfarelar" em estrelas individuais, efeito que melhora com a visão desviada (Kambič).
Telescópio de 100 mm Cerca de 50 estrelas organizadas em fileiras curvas ficam visíveis a 100 aumentos; as mais brilhantes chegam a magnitude 9 (Bakich).
Telescópio maior (200 mm ou mais) Em noite excelente, cerca de 40 estrelas-membro ficam bem definidas, contra um fundo denso de estrelas da Via Láctea (Kambič). O campo largo favorece aumentos baixos a moderados, já que o aglomerado é espalhado.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 35′ de diâmetro (adotando o SIMBAD) — ou pelo menos 27′ pelos livros —, M 23 pede um campo relativamente largo para não cortar as bordas. Um telescópio de 300 a 500 mm de focal, com um sensor APS-C ou full-frame, enquadra o aglomerado inteiro com boa margem ao redor, deixando espaço para mostrar o contraste com o fundo estelar denso da Via Láctea. Focais mais longas (800 mm ou mais) isolam demais o núcleo e perdem o efeito das fileiras de estrelas espalhadas.

Desafios do alvo

  • Sem nebulosidade para realçar. Como a maioria dos abertos, M 23 não tem gás brilhante; o interesse fotográfico está inteiramente nas estrelas, no padrão de fileiras e no contraste com o fundo.
  • Campo muito povoado. Por estar perto do centro galáctico, é difícil decidir onde termina o aglomerado e começa o fundo — o próprio Kambič nota que algumas estrelas brilhantes na borda provavelmente não pertencem ao grupo. Um leve ajuste de contraste e saturação ajuda a destacar o padrão de fileiras no processamento.
  • Risco de estrelas saturadas. As estrelas mais brilhantes do campo (magnitude 8-9) podem saturar rápido em exposições longas destinadas a capturar as mais fracas; vale a pena um conjunto de exposições curtas complementares.

Equipamento e filtros

Sem nebulosidade de emissão, um filtro de banda estreita não ajuda aqui — o objetivo é reproduzir bem a cor e o brilho relativo das estrelas. Uma câmera colorida de tiro único funciona bem; um filtro anti-poluição luminosa de banda larga pode ajudar a escurecer o céu de fundo sob Bortle 7, sem distorcer muito as cores estelares.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 40 a 60 60 a 120 s Capturar as estrelas do aglomerado e o contraste com o fundo denso da Via Láctea
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

M 23 é um bom alvo para smart telescopes, já que seu tamanho relativamente grande (27′ a 35′) combina bem com o campo típico desses aparelhos. Um Seestar S50, por exemplo, tem campo de cerca de 1,3° × 0,7°, suficiente para enquadrar o aglomerado inteiro com boa margem ao redor. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 23 não tem o glamour de uma nebulosa colorida nem o brilho concentrado de um globular, mas é generoso com quem lhe dá atenção: grande, rico e organizado em fileiras que recompensam uma olhada mais demorada pela ocular. Ele fica em boa companhia — a poucos graus da Nuvem Estelar de Sagitário (M 24) e do aglomerado M 25 — e é um bom ponto de partida ou de chegada em uma noite dedicada aos campos ricos do "bule". Outros aglomerados abertos da região, como M 18 e M 21, completam bem o roteiro. Para conhecer melhor a constelação onde ele mora, veja o guia de Sagitário.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 506 (M 23 / NGC 6494).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Sagitário, M 23 e M 24, p. 419-420 (impressa).
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Nebulosas de Sagitário, p. 200-201.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tamanho e paralaxe de M 23, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.