setembro 21, 2026
M 12, o globular solto de Ofiúco: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Há aglomerados globulares que pedem lugar no céu e há os que precisam ser conquistados. M 12 é do segundo tipo: grande, brilhante em números, mas frouxo, sem um núcleo que salte aos olhos. Fica em Ofiúco, quase sobre a linha do equador celeste, o que faz dele um alvo acessível de todo o Brasil. Do Rio de Janeiro, ele cruza o meridiano ao norte do zênite, a uns 65° de altura. Este guia mostra como achar M 12, por que ele engana quem o observa com um telescópio pequeno sob céu urbano, o que dá para ver em cada instrumento e como fotografá-lo.
Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, que reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura em um só lugar. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências do cabeçalho.

Ficha técnica e designações
Visão geral: o que é um aglomerado globular
Um aglomerado globular é uma esfera de centenas de milhares de estrelas muito antigas, amarradas pela própria gravidade e em órbita ao redor da Galáxia. Suas estrelas são velhas, com poucos elementos pesados; Mollise lembra que foi a análise espectral que mostrou isso em M 12 e afastou a dúvida de que ele pudesse ser um aglomerado aberto, já que estrelas de aglomerados abertos são sempre jovens em comparação (Mollise, p. 138). A dúvida é compreensível: M 12 é tão frouxo quanto M 71, em Sagita, alvo de discussão parecida (Mollise, p. 138).
O grau de concentração das estrelas é medido pela escala de Shapley-Sawyer, de I (núcleo muito denso) a XII (quase sem núcleo). M 12 fica no lado frouxo da escala: Mollise o classifica como IX (Mollise, p. 137), Allison como VII (Allison, p. 157). Na prática, isso significa que suas estrelas ficam bem separadas, mas fracas, espalhadas por um disco grande, e por isso o aglomerado parece "sem centro" em um telescópio pequeno.
M 12 em números
Distância. As medidas dos livros ficam em torno de 16.000 anos-luz (Allison; Mollise; Kier). A paralaxe do SIMBAD, de 0,208 milissegundo de arco, dá cerca de 15.700 anos-luz, valor adotado aqui (com a ressalva, nas pendências, sobre a correção do ponto zero).
Tamanho. O SIMBAD traz 14,5′, quase metade do diâmetro da Lua cheia; Allison e Kier trazem 16′. A essa distância, isso corresponde a cerca de 66 anos-luz (calculado), próximo dos 70 de Kambič (p. 354) e dos 75 de Mollise (p. 138).
Brilho. O SIMBAD lista magnitude visual 6,07; Bakich e Mollise trazem 6,1, e Allison e Kambič, 6,7. Essa magnitude é o brilho somado de toda a bola, espalhado numa área grande: o brilho por unidade de área, que é o que importa ao olho, é baixo.
Velocidade e posição. O SIMBAD registra velocidade radial de −41 km/s (o aglomerado se aproxima do Sol) e coordenadas de AR 16h 47m e declinação de −1°57′, ou seja, rente ao equador celeste.
Um aglomerado talvez desfalcado. Kier levanta a hipótese de que M 12 tenha perdido muitas de suas estrelas de baixa massa em interações com a Via Láctea, o que ajudaria a explicar a baixa concentração (Kier, p. 167). É uma hipótese do autor, e não um consenso que possamos afirmar aqui.
Estruturas notáveis
- Centro pouco definido. Em telescópio médio, o centro é pouco concentrado, sem pico de brilho, e a borda parece irregular (Bakich, objeto 446).
- Quatro estrelas de primeiro plano. Cerca de quatro estrelas de 10ª magnitude aparecem "à frente" do aglomerado, na linha de visada, sem pertencer a ele (Bakich).
- Aparência quadrada. Mollise, ao ver M 12 com 220x e 127x em uma noite de bruma, descreve um objeto ligeiramente irregular, de aparência quase "quadrada" (Mollise, p. 138).
- Estrelas fracas. As estrelas mais brilhantes do aglomerado chegam a cerca da 12ª magnitude, e a maioria fica na 14ª ou abaixo (Mollise, p. 137).
Como localizar
O truque é usar o "quadrado" do corpo de Ofiúco. Encontre Épsilon (Yed Posterior) e Delta Ophiuchi, e ande cerca de 8° para leste; M 12 está pouco menos de 8° a lés-nordeste de Épsilon (Bakich; Kambič). Outra rota, de Mollise, usa Delta, Zeta e Lambda Ophiuchi, que ajudam a "enquadrar" a região, já que não há estrelas brilhantes junto do aglomerado (Mollise, p. 137). Uma dica útil de Kambič: coloque Lambda no extremo noroeste do campo do binóculo, e M 12 aparece na borda sudeste (Kambič, p. 353).
Ao lado dele, a cerca de 3,4° a sudeste, fica M 10, e os dois cabem no mesmo campo de um binóculo (Kambič, p. 353). Veja o guia de M 10. Na mesma região, mais ao sul, estão M 19 e M 62.

Quando e como observar
Com declinação de −1,95°, M 12 alcança cerca de 65° de altura no Rio, ao norte do zênite. Cruza o meridiano à meia-noite por volta de meados de maio e, às 21h, por volta de meados de julho (cálculo a partir da AR). O melhor período vai de maio a setembro; em maio e junho, ele está alto na madrugada, e de julho a agosto, no começo da noite. Como ele fica ao norte, ao olhar para ele o norte fica para cima do campo, a orientação a que os atlas do hemisfério norte estão acostumados.
O gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório, e o seguinte, a noite de hoje. Use o primeiro para escolher a época e o segundo, a hora.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 27°). Não é um bom alvo hoje.
- Melhor horário
- 19:20 · 27° W
- Horas acima de 45°
- 0,0 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 0 / 100
- Posição no céu
- 0
- Brilho
- 99 mag 6,1
- Enquadramento
- 99 ocupa 25 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 25° | W 279° | 35° |
| 20:00 | 18° | W 276° | 35° |
| 20:30 | 11° | W 273° | 35° |
| 21:00 | 4° | W 270° | 34° |
| 21:30 | -3° | — | 34° |
| 22:00 | -10° | — | 34° |
| 22:30 | -16° | — | 34° |
| 23:00 | -23° | — | 34° |
| 23:30 | -30° | — | 34° |
| 00:00 | -37° | — | 33° |
| 00:30 | -43° | — | 33° |
| 01:00 | -49° | — | 33° |
| 01:30 | -54° | — | 33° |
| 02:00 | -59° | — | 33° |
| 02:30 | -63° | — | 33° |
| 03:00 | -65° | — | 32° |
| 03:30 | -65° | — | 32° |
| 04:00 | -63° | — | 32° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu | Não é um alvo de olho nu: em Virgem talvez fosse visível, mas o campo estelar rico de Ofiúco atrapalha (Bakich). |
| Binóculo (10×50) | Uma mancha de luz de cerca de 7′, junto de M 10 no mesmo campo. Em noites excelentes, um núcleo um pouco mais claro (Kambič, p. 353). Sob Bortle 7, é difícil. |
| Telescópio de 100 a 150 mm | Centro compacto com halo tênue (Bakich). A resolução é frustrante: Mollise, com 6 polegadas em céu urbano, viu só um brilho fantasmagórico de 3′ a 4′, sem estrelas resolvidas, mesmo com 250x (Mollise, p. 138). |
| Telescópio de 200 a 250 mm | É o ponto em que M 12 vira o alvo que promete. Com 8 polegadas, ele começa a resolver com 133x e lembra M 13 em brilho, só menor (Allison, p. 157). Com 250 mm, resolve centenas de estrelas (Bakich). |
| Telescópio grande | Mollise, com um Schmidt-Cassegrain de 11 polegadas, viu "muita resolução" com 220x e 127x, mesmo com poluição luminosa amplificada por bruma (Mollise, p. 138). |
Um aviso honesto: quem lê que M 12 é fácil deve saber que "fácil de achar" não é "fácil de resolver". Sob o céu do Rio, com um telescópio de 100 a 150 mm, o mais provável é ver uma mancha redonda e cinzenta. A diferença com M 10 é marcante: mais concentrado, ele se destaca melhor no fundo do céu (Mollise, p. 138-140). Se possível, observe os dois na mesma noite.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
M 12 mede cerca de 14,5′ (SIMBAD). Kier sugere duas opções para globulares: um campo médio, que reforça a concentração das estrelas, ou um campo mais fechado, que resolve mais do núcleo (Kier, p. 159 e 167). Com um telescópio de 1.000 mm e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo é de cerca de 1,1° × 0,75° (calculado a partir do sensor e da focal): o aglomerado ocupa uns 20% da largura, sobrando espaço para as estrelas de campo. Com 2.000 mm de focal (campo de cerca de 0,55° × 0,37°), ele passa a ocupar quase metade da largura do quadro. M 12 e M 10 cabem juntos em um campo de 5°, por exemplo com uma lente de 135 a 200 mm (calculado).
Desafios do alvo
- Brilho superficial baixo. Sem um núcleo forte, M 12 exige integração longa para separar as estrelas do fundo do céu, especialmente sob Bortle 7.
- Estrelas de campo. As quatro estrelas de 10ª magnitude em primeiro plano competem com o aglomerado; o mapa de estrelas ajuda a ignorá-las na avaliação da imagem.
- Núcleo versus periferia. As estrelas mais brilhantes não saturam com exposições curtas; cuide da exposição para não perder a cor delas.
Equipamento e filtros
Kier afirma que globulares grandes podem ser fotografados com LRGB, RGB ou câmera colorida de tiro único (Kier, p. 167). Filtro de banda estreita não ajuda em um objeto sem emissão de gás; um filtro de poluição luminosa de banda larga pode ser útil no Rio, mas altera a cor das estrelas e deve ser testado. Para o processamento, Kier recomenda calibrar, alinhar e combinar os canais, aplicar deconvolução para começar a nitidez, combinar as cores, ajustar histograma com curvas e níveis, usar nitidez de forma agressiva e reforçar a cor (Kier, p. 167).
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 90 | 30 a 60 s | Estrelas do núcleo sem saturar e boa relação sinal-ruído no halo |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite. Em geral, quanto mais tempo total, melhor o halo.
Smart telescopes e campo de visão
Para um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°), M 12 fica pequeno, com cerca de um terço da altura do quadro, mas bem centrado, e é um alvo simples: o aparelho empilha as imagens sozinho, e o aglomerado mostra estrelas do halo com poucos minutos de integração. Abra o mapa abaixo e escolha o seu modelo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
M 12 é uma boa lição de humildade para o observador de globulares: a mesma esfera de estrelas velhas que parece um "monte de brilho" em um telescópio pequeno se transforma em centenas de estrelas separadas em um instrumento de 200 mm ou mais. Como ele fica quase no equador, do Rio ele passa em boa altura e com pouca massa de ar, uma vantagem para a astrofotografia. O par com M 10 é o programa completo de uma noite. Para continuar, siga para os outros globulares de Ofiúco, M 19 e M 62, e leia o guia da constelação de Ofiúco. Se preferir um globular mais concentrado, veja M 4.
Referências
- ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. London: Springer, 2006. (Astronomers' Observing Guides). M 12, p. 157.
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 446 (M 12).
- KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. M 10 e M 12, p. 353-354 e 358.
- KIER, Ruben. The 100 Best Targets for Astrophotography. New York: Springer, 2009. "Globular Cluster M12" (18 de julho), p. 167; considerações gerais sobre globulares, p. 159.
- MOLLISE, Rod. The Urban Astronomer's Guide: A Walking Tour of the Cosmos for City Sky Watchers. London: Springer (Patrick Moore's Practical Astronomy Series). M 12, p. 137-138; M 10, p. 138-140.
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Ofiúco e Serpente, M 10 e M 12, p. 181.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, tipo, paralaxe, dimensões e velocidade radial de M 12, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.