setembro 21, 2026

M 107, o globular achatado que quase ficou de fora do catálogo: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M107 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

M 107 tem uma curiosidade que poucos globulares carregam: por décadas, não constava na lista "oficial" de Charles Messier, e só foi formalmente incorporado ao catálogo moderno a partir de anotações do colaborador Pierre Méchain. Hoje é reconhecido como um dos globulares mais soltos e menos concentrados do catálogo, com um halo levemente achatado que se dissolve aos poucos no céu de fundo. Fica bem posicionado no céu do Brasil, ao lado dos demais globulares de Ofiúco. Este guia mostra como achar M 107, quando observar, o que dá para ver em cada instrumento e como fotografá-lo.

Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, que reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura em um só lugar. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências do cabeçalho.

Imagem de referência (DSS2) de M107 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado globular

Um aglomerado globular é uma esfera densa de centenas de milhares de estrelas muito antigas, presas pela gravidade e em órbita ao redor do núcleo da Via Láctea — estruturas estáveis, com idades comparáveis à da própria Galáxia. A escala de Shapley-Sawyer, de I (núcleo densíssimo) a XII (quase sem concentração central), descreve o grau de concentração das estrelas no centro. M 107 é classe X (Allison; Monks), um dos globulares mais soltos e menos concentrados do catálogo Messier — o oposto do vizinho compacto M 80, de classe II.

Um objeto de inclusão tardia. M 107 (NGC 6171) foi observado por Méchain em 1782, mas não chegou a entrar nas edições originais do catálogo publicadas por Messier. Só décadas depois, ao reunir as anotações de Méchain, historiadores da astronomia acrescentaram M 107 e outros seis objetos (M 104 a M 110) ao que hoje se conhece como "o catálogo Messier completo" (Machholz). É, portanto, um globular com uma história de descoberta mais sinuosa do que a maioria dos 103 objetos originais.

M 107 em números. A paralaxe do SIMBAD situa M 107 a cerca de 16.800 anos-luz, valor bem menor do que os cerca de 21.000 anos-luz citados por Allison, Kambič, Monks e pelo catálogo de maravilhas celestes de Bakich — uma diferença de mais de 4.000 anos-luz, grande o suficiente para valer registro explícito, embora dentro do que se espera de incertezas em medidas de distância tão grandes. O tamanho aparente gira em torno de 10′ (valor do SIMBAD), um pouco menor do que os 13′ citados pelos livros. A magnitude, cerca de 7,9 a 8,9 conforme a fonte, é razoavelmente fraca — M 107 não costuma competir em brilho com os globulares mais famosos da região.

A poeira interestelar também escurece M 107, segundo o catálogo de maravilhas celestes de Bakich, um padrão comum aos globulares que ficam na direção do centro galáctico, onde a Via Láctea concentra nuvens de gás e poeira entre nós e os aglomerados.

Estruturas notáveis

  • O halo achatado. Bakich descreve o halo externo de M 107 como levemente achatado no sentido leste-oeste, com um núcleo mais redondo no centro — uma leve assimetria que fica mais evidente em boa ampliação e céu estável.
  • Uma estrela de primeiro plano. Uma estrela de magnitude 10,3 fica cerca de 4′ a oés-noroeste do centro do aglomerado, útil como referência visual mas sem relação física com M 107 (catálogo Bakich).
  • Resistência à resolução em pequena abertura. Por ser classe X (concentração baixa), M 107 tende a mostrar mais estrelas periféricas do que globulares densos como M 80 já em telescópios modestos, embora o núcleo continue relativamente fraco.

Como localizar

M 107 fica na "perna" sul de Ofiúco, numa região sem estrelas muito brilhantes por perto. O catálogo de Bakich sugere partir de Zeta Ophiuchi (mag. 2,6) e seguir cerca de 2,7° a sul-sudoeste. É um bom complemento a uma sessão de observação dos globulares vizinhos de Ofiúco e Escorpião, como M 9, M 10 e M 80.

Carta de localização de M107: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de −13,1°, M 107 culmina a uns 80° de altura no meridiano do Rio de Janeiro — bem alto, perto do zênite. É um alvo de inverno austral: junto com os demais globulares de Ofiúco, fica bem posicionado de junho a agosto, quando o centro da Via Láctea domina o céu da meia-noite (Allison; Monks). Os livros usados nesta pesquisa foram escritos do hemisfério norte, onde Ofiúco fica baixo no verão setentrional — no Brasil, a situação se inverte, e M 107 está entre os objetos mais bem posicionados do ano.

O gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório, e o seguinte, a noite de hoje.

Altura de M107 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de março a julho. O objeto chega a 80° à meia-noite em maio.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ31 maio · 80°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de março a julho (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 80° em 31 de maio.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite

Este objeto não passa de 30° de altura nesta noite (máximo: 27°). Não é um bom alvo hoje.

Melhor horário
19:20 · 27° W
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
0 / 100
Posição no céu
0
Brilho
56 mag 8,9
Enquadramento
69 ocupa 17 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M107 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 21:10 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 27°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 25° W 266° 17°
20:00 18° W 263° 17°
20:30 11° W 260° 17°
21:00 4° WSW 258° 17°
21:30 -2° — 17°
22:00 -9° — 16°
22:30 -16° — 16°
23:00 -22° — 16°
23:30 -28° — 16°
00:00 -34° — 16°
00:30 -39° — 16°
01:00 -44° — 16°
01:30 -48° — 15°
02:00 -52° — 15°
02:30 -53° — 15°
03:00 -54° — 15°
03:30 -53° — 15°
04:00 -51° — 15°
Altura de M107 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 27°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível.
Binóculo (10×50) Uma manchinha esbranquiçada tênue, sem resolução, exigindo céu escuro para ser notada com confiança.
Telescópio de 100 mm Um núcleo brilhante e um halo fraco ao redor, ainda sem resolução de estrelas individuais; a estrela de primeiro plano de magnitude 10,3 ajuda a confirmar a identificação do campo (catálogo Bakich).
Telescópio de 200 mm ou mais Sob céu estável e boa ampliação (200x ou mais), as estrelas mais externas do halo começam a se resolver, coerente com a classe X, mais solta que a maioria dos globulares vizinhos (catálogo Bakich).

Uma expectativa honesta: M 107 não é um globular espetacular, mas sua concentração mais baixa (comparada a M 9, M 14 ou M 80) o torna um bom exercício de resolução em telescópios de abertura média — um contraste didático dentro do mesmo roteiro pelos globulares de Ofiúco.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 10′ de diâmetro aparente, M 107 é um alvo pequeno a moderado. Um telescópio de 1.000 mm de focal com uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor e da focal) mostra o aglomerado com bastante campo estelar ao redor. Para valorizar mais a estrutura do halo achatado, uma focal de 1.500 mm ou mais ajuda a preencher melhor o quadro.

Desafios do alvo

  • Brilho superficial baixo. Por ser um globular solto (classe X), o brilho não se concentra tanto no centro quanto em objetos mais densos; é preciso tempo de exposição total generoso para revelar bem as bordas do halo.
  • Campo estelar denso. A vizinhança de Ofiúco tem muitas estrelas de fundo da Via Láctea; um processamento cuidadoso ajuda a distinguir os membros do aglomerado do campo estelar ao redor.
  • Sem cor ou nebulosidade própria. Como todo globular, o trabalho fotográfico é de resolução e processamento de estrelas, não de filtragem de gás.

Equipamento e filtros

Um telescópio de 200 a 300 mm de abertura, com focal longa, é o ponto de partida ideal para revelar alguma granulação no halo externo. Câmera colorida de tiro único funciona bem para um retrato geral; câmera monocromática com luminância clara e RGB rende mais nitidez.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 80 30 a 60 s Capturar o núcleo e o halo mais fraco sem saturar
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira do sensor
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

M 107 cabe bem no campo de um smart telescope como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), com bastante campo estelar da Via Láctea ao redor. Não exige filtro especial: é um alvo estelar comum, rápido de capturar. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 107 não é o globular mais famoso de Ofiúco, mas carrega uma boa história — a de um objeto que quase ficou de fora do catálogo que hoje leva seu nome — e uma característica observável interessante, a concentração mais baixa que a maioria dos vizinhos. Vale a pena incluí-lo num roteiro mais amplo pelos globulares da constelação, ao lado de M 9 e M 10, ou visitar o guia de M 80, o extremo oposto na escala de concentração, e o guia da constelação de Ofiúco para o contexto completo da região.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. New York: Springer, 2006. Globulares de Ofiúco, Hércules e Escorpião, M107, p. 163, 165.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 436 (M 107).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Ofiúco, M107, p. 361-362.
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer. M104 a M110 e o catálogo inicial, p. 38.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer. Globulares de Ofiúco e Sagitário, M107, p. 156-157 (conversão do arquivo digital, conferir na edição em mãos).
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 107, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.