setembro 21, 2026

M 9, o globular escondido atrás da poeira de Ofiúco: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2) de M9 — objeto ainda não capturado no observatório

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.

Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Créditos

Ofiúco é a constelação com mais aglomerados globulares acessíveis do céu, e M 9 é um dos mais discretos dela: compacto, relativamente fraco e parcialmente escondido atrás de uma nuvem de poeira interestelar. Não é o globular mais espetacular da região — os vizinhos M 10, M 12 e M 19 costumam ganhar essa fama —, mas está bem posicionado no céu do Brasil, cruza bem alto no inverno austral e serve de ponto de partida para conhecer a Nebulosa Escura do Cachimbo, que fica logo ao lado. Este guia mostra como achar M 9, quando observar, o que dá para ver em cada instrumento e como fotografá-lo.

Texto em revisão. Este é um guia no novo formato de objeto, que reúne dados, mapas, gráficos de altura e estratégia de captura em um só lugar. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências do cabeçalho.

Imagem de referência (DSS2) de M9 — objeto ainda não capturado no observatório
Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. UK Schmidt Telescope (UKST) / AAO–ROE. Imagem de referência: este objeto ainda não foi fotografado no Observatório. Créditos

Ficha técnica e designações

Visão geral: o que é um aglomerado globular

Um aglomerado globular é uma esfera densa de centenas de milhares de estrelas muito antigas, presas pela gravidade e em órbita ao redor do núcleo da Via Láctea. Ao contrário dos aglomerados abertos, que se dispersam em algumas centenas de milhões de anos, os globulares são estruturas estáveis, com idades próximas da própria Galáxia. A escala de Shapley-Sawyer, de I (núcleo extremamente denso) a XII (quase sem concentração central), descreve o quão "apertadas" as estrelas ficam no meio do aglomerado. M 9 é classe VIII, um globular de concentração moderada a baixa (Allison; Monks): o núcleo não chega a ser tão denso quanto o de M 80 ou M 62, mas também não é tão solto quanto M 4.

M 9 fica perto do centro da Galáxia, numa região do céu cortada por nuvens de gás e poeira que absorvem parte da luz das estrelas de fundo. É justamente essa poeira, na forma da nebulosa escura Barnard 64, que reduz o brilho do aglomerado em cerca de uma magnitude, segundo o catálogo de maravilhas celestes de Bakich — um lembrete de que o que vemos de M 9 é mais fraco do que ele "realmente" é.

M 9 em números. A paralaxe atual do SIMBAD situa M 9 a cerca de 24.200 anos-luz, um pouco mais perto do que os 25.800 a 26.000 anos-luz citados por Allison e Kambič — a diferença é pequena para um objeto tão distante, e este guia adota o valor do SIMBAD. O tamanho aparente gira em torno de 9′ (SIMBAD dá 8,7′; o catálogo do site, 6,9′; os livros, até 12′), o equivalente a um disco real de pouco mais de 60 anos-luz de diâmetro. A magnitude listada pelo SIMBAD e pelo catálogo do site é 8,4, mais fraca do que os 7,3 a 7,8 que aparecem em Allison, Kambič e Machholz — uma diferença de quase uma magnitude inteira, possivelmente relacionada à extinção causada pela poeira vizinha. Como manda a regra deste site, a ficha técnica usa o valor do SIMBAD, mas vale saber que, na prática, muitos observadores relatam M 9 mais fraco do que o número "oficial" sugere.

Descoberta. M 9 foi o nono objeto do catálogo de Charles Messier, registrado em 1764, num período em que ele varria sistematicamente o céu em busca de "falsos cometas" — nebulosas fixas que pudessem ser confundidas com cometas reais (Machholz).

Estruturas notáveis

  • O núcleo irregular. Allison descreve o centro de M 9 como brilhante, mas de forma irregular, com um leve alongamento norte-sul perceptível mesmo em telescópios pequenos.
  • A nebulosa escura Barnard 64. Uma faixa de poeira interestelar bem próxima, a oeste do aglomerado, que corta a Via Láctea nessa região e reduz o brilho de fundo (Bakich). Em céu escuro, dá para notar o contraste entre a região empoeirada e o campo estelar ao redor.
  • NGC 6356, o vizinho pouco conhecido. Cerca de 1° a nordeste de M 9 fica outro globular, mais fraco e mais distante (classe II, bem mais concentrado), que cabe no mesmo campo de um binóculo ou de uma ocular de baixa ampliação (Allison).
  • NGC 6342. Um globular ainda menor e mais difícil, cerca de 4,5° a sudeste da estrela-guia Eta Ophiuchi, na mesma região do céu (Allison).

Como localizar

M 9 fica na "perna" sul de Ofiúco, numa área sem estrelas muito brilhantes. O ponto de partida mais confiável é Eta Ophiuchi (Sabik), de magnitude 2,4: M 9 fica cerca de 3,5° ao sul dela, ligeiramente para leste (Allison; catálogo Bakich). Kambič sugere usar M 9 como âncora para os globulares vizinhos de Ofiúco, todos dentro de um campo relativamente compacto do céu.

Carta de localização de M9: as estrelas-guia nomeadas, setas tracejadas com a distância em graus até o alvo, escala em graus e indicação de norte e leste.
Carta de localização (star-hopping), no mesmo estilo das cartas de constelação: norte e leste indicados no canto. Anéis laranja: estrelas-guia; setas tracejadas: o caminho até o alvo, com a distância em graus; anel verde: o alvo (e, com a designação, outros objetos do campo); a barra mostra a escala. As linhas são as oficiais das constelações (d3-celestial), os limites são os da IAU e as estrelas vêm do catálogo HYG.

Quando e como observar

Com declinação de cerca de −18,5°, M 9 passa a uns 85° de altura no meridiano do Rio de Janeiro — muito perto do zênite, quase o ângulo ideal para minimizar a espessura de atmosfera atravessada pela luz. É um objeto de inverno austral: Ofiúco, junto com Sagitário e Escorpião, domina o céu de meia-noite de junho a agosto, na direção do centro da Via Láctea (Allison; Monks). Os livros usados nesta pesquisa foram escritos para observadores do hemisfério norte, para quem esses objetos ficam baixos no horizonte sul — no Brasil a situação se inverte, e M 9 está entre os alvos mais bem posicionados do ano.

O gráfico abaixo mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório, e o seguinte, a noite de hoje.

Altura de M9 ao longo do anoAltura à meia-noite astronômica e altura máxima da noite, a cada 5 dias. Melhor época: de abril a agosto. O objeto chega a 85° à meia-noite em junho.0°30°60°90°JANFEVMARABRMAIJUNJULAGOSETOUTNOVDEZ10 jun · 85°hoje
Altura ao longo do ano, a cada 5 dias: linha contínua = altura no meio da noite astronômica (Sol abaixo de −18°); tracejada = maior altura durante a noite escura; faixa verde = melhor época; linhas pontilhadas em 30° e 45°. A linha vertical marca hoje. Melhor época para este local: de abril a agosto (objeto acima de 30° no meio da noite). Ponto mais alto: 85° em 10 de junho.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

2026-10-13 · 19:20 – 04:10

Esta noite no céu

Melhores alvos da noite
Melhor horário
19:20 · 40° W
Horas acima de 45°
0,0 h
Lua
Lua crescente · 12 %
Nota da noite
42 / 100
Posição no céu
29
Brilho
63 mag 8,4
Enquadramento
61 ocupa 15 % do campo

Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).

Trajetória de M9 pelo céu nesta noiteCéu visto de baixo, zênite no centro e horizonte na borda. O objeto fica acima do horizonte entre 18:20 e 22:10 durante a noite; o ponto mais alto é às 19:20, com 40°. A tabela ao lado traz os mesmos valores.15°30°45°60°75°NNELSESSOONO19:0020:0021:0022:00
Caminho do objeto pelo céu nesta noite, do fim do crepúsculo civil ao amanhecer. Centro = zênite, borda = horizonte; visto olhando para cima (leste à esquerda, oeste à direita). Marcadores a cada 30 minutos.
  • Crepúsculo civil (Sol até −12°)
  • Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
  • Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
  • Altura abaixo de 20°
  • Altura abaixo de 30°
  • Altura abaixo de 45°
  • Hora cheia e meia hora
  • Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
Altura e direção do objeto a cada 30 minutos
Hora Altura Direção Da Lua
19:30 37° W 264° 24°
20:00 30° W 261° 24°
20:30 24° W 259° 23°
21:00 17° WSW 257° 23°
21:30 10° WSW 254° 23°
22:00 3° WSW 251° 23°
22:30 -3° — 23°
23:00 -9° — 22°
23:30 -16° — 22°
00:00 -22° — 22°
00:30 -27° — 22°
01:00 -33° — 21°
01:30 -37° — 21°
02:00 -42° — 21°
02:30 -45° — 21°
03:00 -47° — 20°
03:30 -48° — 20°
04:00 -48° — 20°
Altura de M9 ao longo da noiteAltura em graus a cada 30 minutos. O ponto mais alto é às 19:20, com 40°. A tabela abaixo traz os mesmos valores.0°30°60°90°202122230001020304abaixo do horizonte
Altura em graus ao longo da noite escura (linhas em 30° e 45°). A Lua aparece tracejada.

Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.

Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).

O que ver

Instrumento O que esperar
A olho nu Invisível; a magnitude e o brilho superficial são baixos demais.
Binóculo (10×50) Uma manchinha redonda e fraca, sem resolução de estrelas individuais; em céu escuro, o contraste com a poeira vizinha (B64) pode ser notado com atenção (Kambič).
Telescópio de 100 a 150 mm Uma bola de luz compacta, não resolvida, com centro mais brilhante; a forma irregular do núcleo já começa a aparecer sob boa ampliação (Allison).
Telescópio de 250 mm ou mais Resolução parcial nas bordas externas, com granulação visível; o núcleo continua compacto, condizente com a classe VIII (Allison; Monks).

Uma comparação honesta: entre os globulares de Ofiúco, M 9 costuma ficar atrás de M 10, M 12 e M 19 em espetacularidade — é menor, mais fraco e mais distante. Vale a pena visitá-lo dentro de um roteiro pela constelação, não como alvo isolado de uma noite.

Astrofotografia: estratégia de captura

Enquadramento

Com cerca de 9′ de diâmetro aparente, M 9 é um alvo pequeno. Um telescópio de 1.000 mm de focal com uma câmera como a ASI294MC Pro (campo de cerca de 1,1° × 0,75°, calculado a partir do sensor e da focal) deixa o aglomerado como um ponto relativamente pequeno no quadro, com bastante campo estelar ao redor — uma boa oportunidade para incluir também um pedaço da nebulosa escura B64, se a orientação do enquadramento permitir. Para um close mais dramático do aglomerado, focais de 1.500 mm ou mais, ou o uso de barlow, ajudam a preencher melhor o campo.

Desafios do alvo

  • Tamanho pequeno e brilho moderado. M 9 não é um alvo de "grande espetáculo" fotográfico; a foto tende a valorizar mais o campo estelar denso ao redor do que o aglomerado isoladamente.
  • Poeira de fundo. A presença da nebulosa escura B64 exige tempo de exposição maior para revelar o contraste entre a região empoeirada (mais escura) e o campo estelar normal — um sinal sutil, fácil de perder em processamento agressivo.
  • Núcleo compacto. Resolver as estrelas do centro exige boa amostragem (focal longa, seeing estável) e processamento cuidadoso para não estourar o brilho central.

Equipamento e filtros

Um telescópio de 200 a 300 mm de abertura, com focal longa (1.000 mm ou mais), é o ponto de partida ideal para revelar a estrutura do aglomerado. Como M 9 é um alvo estelar (não emite em linhas específicas de gás), filtros de banda estreita não ajudam aqui — o trabalho principal é de resolução e processamento de estrelas, não de contraste contra o céu. Câmera colorida de tiro único funciona bem; monocromática com filtros RGB e luminância clara rende mais definição no núcleo.

Exemplo de sessão (ponto de partida)

Tipo de quadro Quantidade Exposição Finalidade
Light 60 a 80 30 a 60 s Preservar o núcleo sem saturar, acumular sinal do campo estelar e da poeira
Dark 30 igual aos Lights Calibração do ruído térmico
Flat 30 automática Correção de vinheta e poeira do sensor
Bias ou dark-flat 50 mais curta possível Calibração do ruído de leitura

Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e ao céu da noite.

Smart telescopes e campo de visão

M 9 é pequeno para o campo típico de um smart telescope: num aparelho como o Seestar S50 (cerca de 1,3° × 0,7°), o aglomerado ocupa só uma fração central do quadro, cercado de campo estelar denso da Via Láctea. Ainda assim, é um alvo rápido de capturar, sem exigir filtros especiais. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.

0°

Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.

Considerações finais

M 9 não é o globular mais vistoso de Ofiúco, mas é um bom lembrete de como a poeira interestelar molda o que vemos: um aglomerado que, sem a nebulosa escura ao lado, provavelmente pareceria mais brilhante. Vale a pena incluí-lo num roteiro mais amplo pelos globulares da constelação, junto de M 10 e de M 4, ou explorar o guia da constelação de Ofiúco para o contexto completo da região.

Referências

  • ALLISON, Mark. Star Clusters and How to Observe Them. New York: Springer, 2006. Globulares de Ofiúco, M9, p. 167-168.
  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 473 (M 9).
  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars: 250+ Wonderful Sky Objects to See and Explore. New York: Springer, 2010. Ofiúco, M9, p. 357.
  • MACHHOLZ, Don. The Observing Guide to the Messier Marathon: A Handbook and Atlas. New York: Springer. Origem do catálogo Messier, p. 27-30; Ofiúco e Escorpião, p. 161.
  • MONKS, Neale. Go-To Telescopes Under Suburban Skies. London: Springer. Globulares de Ofiúco e Sagitário, M9, p. 121 (conversão do arquivo digital, conferir na edição em mãos).
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, paralaxe e dimensões de M 9, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.