setembro 22, 2026

Cão Maior: guia da constelação de Sirius, a estrela mais brilhante do céu

Carta estelar do Cão Maior como aparece do Brasil, olhando para o norte: Sirius no centro, a cauda de estrelas subindo até Furud e Aludra, e os aglomerados M 41, NGC 2360 e NGC 2362 e a nebulosa NGC 2359 marcados em verde

Não existe jeito mais fácil de encontrar uma constelação do que este: basta procurar o ponto mais brilhante do céu noturno. Essa é Sirius, o coração do Cão Maior, e ao redor dela se estende uma das regiões mais ricas do céu de verão no Brasil — cruzada pela Via Láctea, salpicada de aglomerados abertos e com uma nebulosa que parece um capacete de guerreiro nórdico. Neste guia você vai aprender a achar o Cão Maior, conhecer Sirius e sua companheira invisível, e visitar M 41, NGC 2360, NGC 2362 e o Capacete de Thor.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

O cão que anuncia o verão

O Cão Maior (Canis Major, abreviatura CMa) é uma constelação austral que ocupa cerca de 380 graus quadrados do céu, entre as ascensões retas de 6h09min e 7h27min e as declinações de -11° a -33° (Mourão, verbete Canis Major). Faz fronteira com a Popa (Puppis) e a Pomba (Columba) ao sul, a Lebre a oeste, o Unicórnio ao norte e novamente a Popa a leste. Apesar da extensão modesta, tem uma densidade estelar muito alta — e é fácil de localizar por um motivo simples: Sirius, sua estrela principal, é também a mais brilhante de todo o céu noturno (Mourão).

Desde as lendas mais antigas, o Cão Maior é visto como o companheiro de caça de Órion, tanto na Terra quanto no céu (Mourão). Para os egípcios, o nascimento helíaco de Sirius — seu primeiro reaparecimento no céu do amanhecer, depois de semanas escondida pelo brilho do Sol — marcava o início da inundação anual do Nilo, da qual dependia toda a economia egípcia; por isso a estrela chegou a ser cultuada como Sothis, associada a Osíris e a Ísis (Moore, Observer's Year, p. 59, citando o astrônomo William Henry Smyth). Curiosamente, gregos e romanos viam Sirius como um presságio ruim: Virgílio, na Eneida, atribui a ela secas e doenças, embora o escritor romano Gêmino tenha contestado essa crença, dizendo que a estrela apenas marca a época do ano em que o calor do Sol é mais intenso — os "dias de cão" (Moore, p. 59).

Quando e como achar

Melhor época. O Cão Maior culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em meados de fevereiro. A boa temporada vai de dezembro a março: em dezembro a constelação já nasce cedo na noite, em janeiro e fevereiro domina o céu do início da noite, e em março começa a se inclinar para o oeste.

Para onde olhar. O Cão Maior fica bem ao sul do equador celeste, e do Brasil ele sobe muito alto — em Brasília, Sirius passa a menos de 1 grau do zênite. A carta abaixo mostra o céu olhando para o norte, com o sul para cima e o leste para a direita.

Cidade Sirius Adhara Wezen
Boa Vista (RR) 70° 58° 61°
Manaus (AM) 76° 64° 67°
Recife (PE) 81° 69° 72°
Brasília (DF) 89° 77° 79°
Rio de Janeiro (RJ) 84° 84° 87°
São Paulo (SP) 83° 85° 87°
Porto Alegre (RS) 77° 89° 86°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do catálogo do site e a latitude de cada cidade; valores arredondados. Repare que Sirius passa praticamente no zênite em Brasília, e Adhara quase no zênite em Porto Alegre — o Cão Maior é visível bem alto de ponta a ponta do país.

Carta estelar do Cão Maior como aparece do Brasil, olhando para o norte: Sirius no centro, a cauda de estrelas subindo até Furud e Aludra, e os aglomerados M 41, NGC 2360 e NGC 2362 e a nebulosa NGC 2359 marcados em verde
Carta estelar do Cão Maior como ele aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado dourado é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Procure o ponto mais brilhante do céu: é Sirius. Não tem como confundir — mesmo perto do horizonte, ela cintila trocando de cor, um efeito da atmosfera (Moore, Observer's Year, p. 57).
  2. À direita de Sirius (oeste), uma linha de estrelas sobe até Mirzam e depois até Furud, no canto superior da figura.
  3. À esquerda de Sirius (leste), outra linha sobe até Adhara, Wezen e Aludra, formando o corpo e a cauda do cão.
  4. Entre Wezen e Sirius, mais ao sul, fica Muliphein (Gama do Cão Maior) — uma estrela tão fraca para a letra que carrega que Patrick Moore observa que "o esquema usual de letras gregas foi abandonado" nesse caso (Observer's Year, p. 58).

As estrelas do Cão Maior

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Sirius (alfa) coração -1,44 A1 V (anã branca-azulada) + anã branca 8,6 anos-luz
Adhara (épsilon) corpo 1,50 B2 II (supergigante azul) cerca de 490 anos-luz
Wezen (delta) cauda 1,83 F8 Ia (supergigante amarela) cerca de 3.060 anos-luz
Mirzam (beta) pata dianteira 1,98 B1 II-III cerca de 720 anos-luz
Aludra (eta) ponta da cauda 2,45 B5 Ia (supergigante azul) cerca de 2.500 anos-luz
Furud (zeta) pata traseira 3,02 B2,5 IV cerca de 290 anos-luz

Magnitudes do catálogo HYG usado no gerador de cartas do site; distâncias e tipos espectrais da tabela de Patrick Moore (Observer's Year/Data Book, p. 58) — uma fonte mais antiga, com valores que podem divergir de medições atuais de paralaxe; ver pendências.

Sirius, a estrela Cão, tem magnitude visual de -1,44 a -1,5 conforme a fonte, e é a mais brilhante do céu noturno depois do Sol, da Lua e dos planetas. Fica a apenas 8,6 anos-luz — uma das estrelas mais próximas do Sistema Solar, atrás apenas de Alfa Centauri entre as estrelas de primeira grandeza (Moore, p. 59). O nome vem do grego seirios, "cintilante" ou "escaldante"; o escritor romano Richard Hinckley Allen atribuiu o nome ao poeta grego Hesíodo (Bakich, objeto nº 6). É maior e mais quente que o Sol — cerca de 1,7 milhão de milhas de diâmetro e 10.000°C na superfície — e emite a luminosidade de 26 sóis, mas mesmo assim os astrônomos a classificam como uma anã, porque existem estrelas muito maiores (Moore, p. 59).

Sirius B, o Filhote. Em 1838 o alemão Friedrich Bessel notou que Sirius não se movia em linha reta pelo céu, mas "serpenteava" — sinal de que tinha uma companheira invisível puxando-a gravitacionalmente. Bessel calculou um período orbital de 50 anos, mas não conseguiu ver a estrela. Foi o óptico americano Alvan Clark quem a avistou, por acaso, em 1862, testando uma lente nova (Bakich, objeto nº 6; Moore, p. 60). A "Pup" (Filhote), como é chamada, é cerca de dez mil vezes mais fraca que Sirius e está sempre muito perto dela no céu — no máximo 12 segundos de arco de separação — o que a torna um dos desafios clássicos de observação visual. Seu espectro, estudado em 1915, revelou uma surpresa: apesar de ser pequena, é extremamente quente. É uma anã branca, com massa parecida à do Sol espremida num volume menor que o de Urano — tão densa que um centímetro cúbico do seu material pesaria toneladas na Terra (Moore, p. 60).

Adhara, a segunda mais brilhante do Cão Maior, tem um problema de nomenclatura clássico: pela convenção de Bayer, que ordena as estrelas de uma constelação por brilho com letras gregas, ela deveria ser Beta, não Épsilon — a quinta letra do alfabeto (Bakich, objeto nº 12). O nome vem do árabe al-adhara, "as virgens", referência a uma constelação hoje extinta que incluía essa e outras estrelas vizinhas (Bakich). Adhara tem uma companheira de magnitude 7,4 a 7,5 segundos de arco, cerca de 230 vezes mais fraca — um bom teste de separação em telescópios acima de 150x (Bakich).

Muliphein (Gama do Cão Maior), entre Sirius e Wezen, é fraca demais para o lugar que ocupa na sequência de letras gregas — um lembrete de que Bayer nem sempre acertou a ordem de brilho (Moore, p. 58).

Aglomerados e a nebulosa da cauda

M 41, o aglomerado a um salto de Sirius

O aglomerado aberto M 41 fica cerca de 4 graus ao sul de Sirius — dá para saltar direto da estrela mais brilhante do céu até ele. É visível a olho nu em céu escuro, com magnitude 4,5 e mais de 100 estrelas espalhadas numa área um pouco maior que a Lua cheia (Bakich, objeto nº 8). A distância fica entre 2.300 e 2.400 anos-luz, com diâmetro real de cerca de 20 anos-luz (Moore, p. 61). A descoberta é disputada: Bakich cita um possível registro do próprio Aristóteles, por volta de 325 a.C., com a descoberta "moderna" creditada ao italiano Giovanni Battista Hodierna antes de 1654 (objeto nº 8); já Moore atribui a primeira observação registrada ao astrônomo real inglês John Flamsteed, na noite de 16 e 17 de fevereiro de 1702 (Observer's Year, p. 61). Um telescópio pequeno mostra cadeias curvas de estrelas partindo do centro, onde brilha uma estrela avermelhada.

NGC 2360, o aglomerado escondido na Via Láctea

O NGC 2360 (Caldwell 58) fica cerca de 3,3 graus a leste de Muliphein, num campo estelar tão denso que é difícil dizer onde termina o aglomerado e começa o fundo de estrelas da Via Láctea (Bakich, objeto nº 31). Tem magnitude 7,2 e 12 minutos de arco, e um telescópio pequeno mostra o que parece uma barra de estrelas cruzando o centro de leste a oeste.

NGC 2362, o aglomerado de Tau do Cão Maior

O NGC 2362 (Caldwell 64), também chamado de "Estrela Saltitante Mexicana" por observadores do hemisfério norte — porque, perto do horizonte, ela cintila tanto que parece se mexer —, é o 9º aglomerado aberto mais brilhante do céu (Bakich, objeto nº 32). Domina-o Tau do Cão Maior, magnitude 4,4, uma supergigante entre as mais luminosas conhecidas — magnitude absoluta -7, cerca de 50.000 vezes mais luminosa que o Sol — e nenhuma outra estrela do aglomerado chega perto do seu brilho. Fica cerca de 2,7 graus a leste-nordeste de Wezen.

NGC 2359, o Capacete de Thor

A NGC 2359, também chamada de Nebulosa do Pato, é uma bolha cósmica esculpida pelo vento estelar de uma estrela Wolf-Rayet — um tipo raro e de vida curta de supergigante que expele sua camada externa a até 10 milhões de quilômetros por hora, criando um choque de gás ionizado (Bakich, objeto nº 30). Fica cerca de 8,8 graus a leste-nordeste de Sirius, ou 4,3 graus a nordeste de Muliphein, e responde bem a filtros de banda estreita. O apelido "Capacete de Thor" provavelmente não é tão antigo quanto parece: o deus nórdico do trovão não usava capacete — muito menos um com "asas" — em nenhuma representação até agosto de 1962, quando a Marvel Comics o desenhou assim pela primeira vez na revista Journey into Mystery nº 83 (Bakich).

Mitologia e o dia mais quente do ano

O nascimento do Cão Maior, na Antiguidade, coincidia com o início do verão no Egito e, portanto, com a enchente anual do Nilo; os egípcios viam no cão um animal vigilante, sempre alerta, e por isso o colocaram no céu como um anunciador da cheia (Mourão, verbete Canis Major, p. 144). A ligação da estrela com o calor do verão deu origem à expressão "dias de cão" (dog days), ainda usada em inglês para os dias mais quentes do ano (Moore, p. 59).

Mourão também registra uma chuva de meteoros associada à constelação, os Canis Majorídeos, ativa de 11 de dezembro a 15 de janeiro, com pico por volta de 2 de janeiro, radiante perto de Sirius (ascensão reta 105°, declinação -25°) e taxa média de 5 meteoros por hora (verbete Canis Majorideos, p. 144) — um registro histórico que vale a pena observar com ceticismo, porque não é uma das chuvas mais citadas nas listas modernas.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Sirius cintilando perto do horizonte, a forma do cão inteiro, M 41 como uma mancha ao sul de Sirius, e NGC 2362 como um ponto extra perto de Wezen em céu escuro.
Binóculo (10×50) M 41 resolvido em dezenas de estrelas, NGC 2360 como uma mancha alongada, NGC 2362 dominado por Tau do Cão Maior e o campo riquíssimo da Via Láctea entre Wezen e Aludra.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) A companheira de Adhara (desafio, magnitude 7,4), M 41 totalmente resolvido, a "barra" de estrelas de NGC 2360 e mais de 100 estrelas em NGC 2362 ao redor de Tau.
Telescópio de 200 mm ou mais, com filtro de banda estreita NGC 2359, o Capacete de Thor, com suas duas "asas" de gás ionizado.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre dezembro e março, em céu escuro.
  • Comece por Sirius e desça cerca de 4° para M 41; depois suba pela cauda do cão até Wezen e NGC 2362.
  • Um filtro de banda estreita (UHC ou OIII) faz toda a diferença para ver o Capacete de Thor — sem ele, a nebulosa é um desafio mesmo em telescópios grandes.
  • Sirius B é um teste clássico: espere a estrela passar perto do meridiano, use a maior ampliação que a noite permitir, e tente em noites de seeing excelente.

Referências

  • BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die. New York: Springer, 2010. Objeto nº 6 (Sirius), nº 8 (M 41), nº 12 (Adhara), nº 30 (NGC 2359), nº 31 (NGC 2360) e nº 32 (NGC 2362).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Noites de 18 a 23 de fevereiro (Sirius, Cão Maior, Sirius B e M 41, p. 56-61) e 26 de fevereiro (Cão Menor, p. 63).
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Canis Major" e "Canis Majorideos" (p. 144).
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Sirius, Procyon e o triângulo dos cães, p. 192-193.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos e magnitudes, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.