setembro 22, 2026

Baleia: guia da constelação de Mira, Menkar e da galáxia ativa M77

Carta estelar da Baleia como aparece do Brasil, olhando para o norte: Diphda, Menkar, Baten Kaitos, Mira e Tau Ceti em destaque, e as galáxias M77, NGC 247, IC 1613 e a nebulosa planetária NGC 246 marcadas em verde

A Baleia é a quarta maior constelação do céu, mas raramente aparece nas listas de "constelações mais bonitas" — não tem uma forma óbvia, não tem uma estrela de primeira magnitude, e boa parte dela é um deserto de estrelas fracas. E, ainda assim, ela guarda um dos objetos mais estudados da história da astronomia observacional: Mira, a primeira estrela reconhecidamente variável, que passa a maior parte do ano invisível a olho nu e depois retorna, mês após mês, século após século, num ciclo quase pontual. Neste guia você vai aprender a achar a Baleia do Brasil, acompanhar Mira, conhecer Tau Ceti (a "gêmea" mais parecida com o Sol entre as estrelas próximas) e visitar M77, uma das galáxias ativas mais estudadas do céu.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

Uma constelação enorme e discreta

A Baleia (Cetus, abreviatura Cet) ocupa cerca de 1.231 graus quadrados do céu — a quarta maior das 88 constelações oficiais —, entre Peixes e Áries ao norte, Touro e Erídano a leste, Escultor ao sul e Aquário a oeste. É uma das 48 constelações antigas listadas por Ptolomeu, cortada quase ao meio pelo equador celeste, o que a torna visível de quase todo o planeta: de cerca de 65°N a 79°S, praticamente do Ártico à Antártida.

Apesar do tamanho, é uma constelação discreta: a estrela mais brilhante mal passa da 2ª magnitude, e a figura inteira se estende por uma área tão grande que fica difícil "ler" de uma vez só. Compensam essa discrição alguns dos objetos mais conhecidos da astronomia de amador e de história da ciência: a estrela variável Mira, a vizinha solar Tau Ceti e a galáxia ativa M77.

Um monstro marinho, não uma baleia de verdade

O nome grego original da constelação, Ketos, não designa uma baleia no sentido biológico moderno, mas um monstro marinho ou dragão do mar — a mesma raiz que deu origem à palavra "cetáceo" muito depois, quando a zoologia passou a usar esse radical para as baleias de verdade. A tradução "Baleia", consagrada pelo uso em português, é, portanto, uma simplificação: a figura mítica original é mais parecida com um dragão marinho do que com uma baleia (fonte de pesquisa baseada em Mourão e Ridpath).

O mito liga a constelação diretamente à saga de Perseu e Andrômeda, que também dá nome às constelações vizinhas Cefeu, Cassiopeia, Perseu e Andrômeda. Cassiopeia, rainha da Etiópia, ofendeu as Nereides (ninfas do mar) ao se gabar de que sua filha Andrômeda era mais bela do que elas. Como punição, Poseidon enviou o monstro marinho Ceto para devastar o litoral do reino. Um oráculo revelou que a única forma de salvar o reino seria sacrificar Andrômeda, acorrentada a uma rocha à beira-mar para ser devorada pelo monstro. Perseu, voltando de sua missão contra a Medusa, avistou a cena, lutou contra o monstro (em algumas versões, usando a própria cabeça decapitada da Medusa para petrificá-lo) e salvou Andrômeda, com quem depois se casou.

Quando e como achar

Melhor época. A Baleia está centrada perto de 1h 40min de ascensão reta, então culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 horas locais em meados de novembro e dezembro. A boa temporada vai de outubro a fevereiro.

Para onde olhar. A constelação fica cortada pelo equador celeste, então é visível de quase todo o Brasil com boa altura.

Cidade Diphda (β Cet, Dec -18,0°) Menkar (α Cet, Dec +4,1°)
Boa Vista (RR) 69° 89°
Manaus (AM) 75° 83°
Recife (PE) 80° 78°
Brasília (DF) 88° 70°
Rio de Janeiro (RJ) 85° 63°
São Paulo (SP) 84° 62°
Porto Alegre (RS) 78° 56°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós com as declinações do SIMBAD e a latitude de cada cidade; valores arredondados. A Baleia é uma das constelações mais bem servidas do céu para observadores brasileiros: passa muito perto do zênite em boa parte do país.

Carta estelar da Baleia como aparece do Brasil, olhando para o norte: Diphda, Menkar, Baten Kaitos, Mira e Tau Ceti em destaque, e as galáxias M77, NGC 247, IC 1613 e a nebulosa planetária NGC 246 marcadas em verde
Carta estelar da Baleia como aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado dourado é o limite oficial da constelação; a Baleia não é zodiacal, então não há linha de eclíptica nesta carta. Em verde-claro, os objetos de céu profundo citados neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Comece pelo vizinho Áries: Menkar (a "narina" da Baleia, na cabeça da figura) fica pouco a sudeste do Carneiro, fácil de achar por proximidade.
  2. Diphda, a estrela mais brilhante, fica bem mais a oeste e ao sul, isolada, marcando a "cauda" da figura — é a estrela de referência para orientação na parte sul da constelação.
  3. Entre as duas, um pentágono maior de estrelas moderadas (incluindo Baten Kaitos) desenha o "corpo" da Baleia; é uma região grande e sem brilho intenso, então vale usar um aplicativo de céu nas primeiras tentativas.
  4. Mira fica no meio do caminho entre Baten Kaitos e Menkar — mas lembre-se de que ela só é fácil de achar a olho nu perto do máximo de brilho; no resto do ciclo, é preciso telescópio ou até um instrumento maior.

As estrelas da Baleia

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Diphda / Deneb Kaitos (beta Cet) cauda 2,04 K0 III (gigante amarela-alaranjada) cerca de 96 anos-luz
Menkar (alfa Cet) cabeça 2,54 M1,5 III (gigante vermelha) cerca de 220 anos-luz
Baten Kaitos (zeta Cet) corpo 3,74 K2 III (gigante alaranjada) cerca de 240 anos-luz
Tau Ceti corpo, isolada 3,49 G8 V (parecida com o Sol) cerca de 12 anos-luz
Mira (omicron Cet) variável 2 a 10 (variável) M5e a M9e (gigante vermelha pulsante) cerca de 300 a 400 anos-luz

Brilhos, tipos espectrais e distâncias consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo); prevalecem sobre livros mais antigos quando há divergência (ver pendências, especialmente para Mira).

Diphda, apesar do nome sugerir "cauda" em árabe, é na verdade a estrela mais brilhante da constelação e fica geometricamente afastada de Menkar, do outro lado da figura. É uma gigante evoluída, isolada no céu, sem vizinhas de brilho parecido por perto — um bom ponto de referência exatamente por essa solidão.

Menkar, na cabeça da figura, é uma gigante vermelha grande e fria, com uma companheira de 6ª magnitude, não relacionada fisicamente, visível já em binóculo comum — as duas estão apenas alinhadas na mesma direção, não ligadas gravitacionalmente.

Baten Kaitos, "a barriga da Baleia" em árabe, marca o corpo da figura, entre Diphda e Menkar.

Tau Ceti é, disparada, a estrela mais importante da constelação do ponto de vista científico, embora seja discreta no céu (magnitude 3,5). É do mesmo tipo espectral aproximado do Sol (G8 V, contra G2 V do Sol), está a apenas cerca de 12 anos-luz — uma das estrelas parecidas com o Sol mais próximas da Terra — e por isso foi uma das primeiras estrelas observadas pelo Projeto Ozma, em 1960, a busca pioneira por sinais de rádio de civilizações extraterrestres, conduzida por Frank Drake. Décadas depois, Tau Ceti também entrou nas listas de estrelas com sistemas planetários candidatos a abrigar mundos potencialmente habitáveis — um assunto que segue em desenvolvimento e não é tratado em detalhe aqui.

Mira, a Maravilhosa: a primeira variável da história

Se há um motivo para visitar a Baleia repetidamente ao longo do ano, esse motivo é Mira (omicron Ceti). Em 3 de agosto de 1596, o pastor e astrônomo amador holandês David Fabricius observou uma estrela de magnitude em torno de 3 nessa posição do céu — e viu seu brilho cair e desaparecer nas semanas seguintes. Foi a primeira vez, na história registrada da astronomia ocidental, que alguém documentou uma estrela mudando de brilho de forma tão dramática e depois a viu reaparecer: a periodicidade completa só seria estabelecida décadas mais tarde, em 1638, pelo astrônomo Johannes Holwarda. O astrônomo polonês Johannes Hevelius, impressionado, sugeriu o apelido "Mira", a "Maravilhosa".

Mira é uma gigante vermelha pulsante perto do fim da vida, o protótipo de toda uma classe de estrelas variáveis de longuíssimo período que hoje levam seu nome ("variáveis Mira"). Ao longo de um ciclo de aproximadamente 330 dias (as fontes variam entre 320 e 370 dias, e Moore fala em "menos de 11 meses"), seu brilho oscila de forma dramática: no mínimo, cai a magnitude 9 ou 10, invisível a olho nu mesmo em céu muito escuro; no máximo, já chegou a magnitude 1,7 em ocasiões excepcionalmente favoráveis, embora a maioria dos máximos fique entre magnitude 3 e 5. É esse contraste entre "sumida" e "visível a olho nu" que rendeu à estrela sua fama e seu apelido.

Fisicamente, Mira é uma gigante vermelha de tipo espectral M, cujo raio muda ao longo do ciclo de pulsação — grande o bastante, segundo estimativas citadas nos livros de apoio, para que sua órbita, colocada no lugar do Sol, chegasse perto da órbita de Marte. Em 1923, o astrônomo R. G. Aitken descobriu, com o refrator de 36 polegadas do Observatório Lick, uma companheira próxima, hoje catalogada como VZ Ceti (Mira B): uma anã de brilho variável do tipo "flare", ligada a Mira por uma órbita de período muito longo.

Como acompanhar. Para quem gosta de observação de variáveis, Mira é um projeto de longo prazo ideal: basta anotar, uma vez por semana ou a cada poucos dias, o brilho estimado por comparação com estrelas vizinhas de brilho conhecido (o chamado método de Argelander) e registrar a curva de luz ao longo dos meses. Organizações como a AAVSO (American Association of Variable Star Observers) mantêm bancos de dados históricos da estrela que remontam a mais de um século, e aceitam contribuições de observadores amadores do mundo todo.

M77 e as galáxias da Baleia

M77 — galáxia Seyfert. É uma das galáxias com núcleo ativo mais famosas do céu, o protótipo de destaque das galáxias Seyfert: um tipo de galáxia espiral cujo núcleo abriga um buraco negro supermassivo em atividade intensa, devorando matéria e emitindo grandes quantidades de energia — um parente "menos extremo" dos quasares mais distantes. A olho nu e mesmo em telescópio pequeno, M77 aparece como uma manchinha quase estelar, sem revelar a estrutura espiral que fotografias de longa exposição mostram claramente. As fontes divergem sobre a distância exata, entre cerca de 47 e 70 milhões de anos-luz.

NGC 247 — galáxia. Uma espiral vista de ângulo bem inclinado, relativamente próxima, parte do chamado Grupo do Escultor — um agrupamento de galáxias próximo à nossa própria Via Láctea e ao Grupo Local, na direção da vizinha constelação de Escultor.

IC 1613 — galáxia anã irregular. É uma galáxia anã, membro efetivo do Grupo Local — o pequeno conjunto de galáxias do qual a Via Láctea e Andrômeda são as maiores integrantes. Por ser pequena e de baixo brilho superficial, é um alvo mais discreto que M77, mas cientificamente importante como um dos "vizinhos" próximos da nossa própria galáxia.

NGC 246, a Nebulosa Caveira (ainda sem guia próprio publicado no site). É uma nebulosa planetária — os restos gasosos expelidos por uma estrela morrendo, no fim de sua vida como gigante vermelha — que recebe o apelido por causa de dois "olhos" escuros formados por estrelas de fundo projetadas dentro do disco da nebulosa nas fotografias, criando uma aparência de caveira. É um objeto de baixo brilho superficial, mais indicado para céu bem escuro e telescópios de abertura maior.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu Diphda e Menkar marcando os dois extremos da figura, e Mira quando estiver perto do máximo de brilho (verifique uma previsão de data de máximo antes de sair para observar).
Binóculo (10×50) Mira em qualquer fase intermediária do ciclo, a companheira fraca de Menkar, e M77 como uma manchinha em céu escuro.
Telescópio pequeno (100 a 150 mm) O núcleo quase estelar de M77, Mira já resolvida como um ponto avermelhado mesmo perto do mínimo, e um primeiro vislumbre de NGC 247.
Telescópio grande (250 mm ou mais) / astrofotografia A estrutura espiral de fundo de M77 em fotos de longa exposição, IC 1613 como um borrão difuso, e os "olhos escuros" característicos da Nebulosa Caveira (NGC 246).

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre outubro e fevereiro, com o horizonte norte e leste bem desimpedidos.
  • Antes de sair para acompanhar Mira, confira uma previsão atualizada de data de máximo de brilho — o ciclo de cerca de 330 dias significa que o "melhor momento" muda de ano para ano.
  • Use Tau Ceti como um exercício de reflexão: é uma estrela banal a olho nu, mas fisicamente uma das mais parecidas com o Sol entre todas as estrelas próximas — um lembrete de que brilho aparente não é a mesma coisa que importância científica.
  • Reserve uma sessão de telescópio maior para as galáxias (M77, NGC 247, IC 1613) e outra, mais rápida, só para checar o brilho de Mira ao longo dos meses.

Referências

  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário Enciclopédico de Astronomia e Astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Mira Ceti" (p. 577), "David Fabricius" (p. 335) e "Tau Ceti" (p. 814).
  • MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Mira, Cetus, M77 e Gama Ceti, p. 285-287 e 290 (noites de 5, 6 e 11 de outubro).
  • RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Baleia, Menkar, Mira, Tau Ceti e M77, p. 189.
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do Céu. Baleia, Menkar, Diphda e Mira, p. 77.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais e distâncias, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.