setembro 21, 2026
IC 1613 (Caldwell 51), a galáxia anã da Baleia: guia completo de observação e astrofotografia

Imagem de referência (DSS2). Este objeto ainda não foi capturado no Observatório.
Crédito: Digitized Sky Survey 2 (DSS2) — STScI/NASA. Palomar Observatory / Caltech (POSS-II). Créditos
Existem galáxias que impressionam à primeira vista, e existem galáxias que exigem justificativa. IC 1613 é do segundo tipo: uma nuvem irregular e desbotada, sem braços espirais, sem núcleo brilhante e sem nada que grite "eu sou uma galáxia" à primeira olhada. E, no entanto, é uma vizinha genuína da Via Láctea, membro do Grupo Local, o pequeno aglomerado de galáxias do qual fazemos parte. Fica em Cetus, perto da fronteira com Peixes, e é o último objeto do catálogo Caldwell a residir no hemisfério celeste norte — depois dela, os 58 objetos restantes da lista ficam todos no sul. Este guia explica por que ela é tão difícil, como encontrá-la e o que realmente esperar ao apontar o telescópio.
Texto em revisão. Este é um guia de teste do novo formato de objeto, parte da cobertura dos catálogos Messier e Caldwell completos. As fontes estão listadas no final e as divergências entre elas, nas pendências.

Ficha técnica e designações
Visão geral: uma galáxia anã do Grupo Local
O Grupo Local reúne cerca de 80 galáxias conhecidas, dominado por três espirais grandes — a Via Láctea, Andrômeda (M 31) e o Triângulo (M 33) — e uma multidão de galáxias anãs, muito menores e mais fracas. IC 1613 é uma dessas anãs: uma galáxia irregular, sem a estrutura organizada de um disco espiral ou o formato suave de uma elíptica, só uma distribuição desordenada de gás, poeira e estrelas. Mobberley resume o choque de quem vê uma fotografia dela pela primeira vez: "você não consegue deixar de pensar que isso é algum tipo de piada de mau gosto" — sem núcleo definido, sem braços, "parece uma pilha de lixo" (Mobberley).
IC 1613 em números. A galáxia tem magnitude ao redor de 9,5 a 10 (o SIMBAD traz V 10,01; o catálogo do site, 9,54; os livros, 9,2) espalhada por uma área de cerca de 16′ × 15′ segundo o SIMBAD — quase metade do diâmetro aparente da Lua cheia — o que resulta num brilho superficial baixíssimo, da ordem de magnitude 24 por segundo de arco quadrado (Mobberley). É esse contraste entre "magnitude razoável" e "brilho por ponto pouquíssimo" que torna o objeto tão mais difícil do que o número sozinho sugere.
Distância e tamanho real. A distância de cerca de 2,3 milhões de anos-luz (Mobberley) é próxima da distância de Andrômeda, mas um pouco maior que a nossa; a essa distância, o tamanho aparente corresponde a um diâmetro real de cerca de 10.000 a 13.000 anos-luz, uma fração do tamanho da Via Láctea. Para efeito de comparação, é uma prima pequena e desarrumada das duas galáxias mais famosas do Grupo Local.
Descoberta. IC 1613 foi descoberta fotograficamente pelo astrônomo alemão Max Wolf em 1906 (Mobberley) — bem depois da maioria dos objetos Messier e Caldwell mais brilhantes, o que por si só já denuncia o quão discreta ela é.
Parentes de baixo brilho. Mobberley a compara diretamente a outras duas anãs do catálogo Caldwell, NGC 147 e NGC 185 (Caldwell 17 e 18), satélites de Andrômeda: da mesma família de objetos "distantes, grandes e sem beleza" — mas, em suas palavras, IC 1613 é "ainda mais feia e mais difícil de ver".
Estruturas notáveis
- A distribuição irregular de brilho. Sem núcleo ou braços definidos, o que se vê (em fotografias profundas ou telescópios muito grandes) é uma névoa desigual, mais concentrada em algumas regiões de formação estelar do que em outras.
- Estrelas individuais resolvidas. Telescópios de 500 mm ou mais, em alto aumento, conseguem resolver algumas dezenas de estrelas de magnitude 17, formando o "brilho" central da galáxia (Bakich).
- A vizinhança de galáxias fracas. Bakich observa que há muitas outras galáxias ainda mais fracas nos arredores, na direção leste — um lembrete de que essa região de Cetus/Peixes é rica em membros distantes de grupos de galáxias.
Como localizar
IC 1613 fica numa região pobre em estrelas guia, perto da fronteira entre Cetus e Peixes. A estrela brilhante mais próxima é Algenib, no canto sudeste do Quadrado de Pégaso; a partir dela, salte cerca de 13° para o sul e 13° para leste (Mobberley). Uma rota mais curta parte de épsilon Piscium (magnitude 4), saltando cerca de 5¾° ao sul e ½° a leste (Mobberley); Bakich sugere partir da dupla 26 Ceti (magnitude 6,1), cerca de 0,8° a sudoeste da galáxia. Como o campo é pobre em referências, vale a pena confirmar com uma carta detalhada e ir por etapas com um buscador de campo largo ou binóculo.

Quando e como observar
Com declinação de +2°, praticamente sobre o equador celeste, IC 1613 sobe bem alto no céu do Rio de Janeiro: a altura máxima na passagem meridiana é de cerca de 65°, uma posição excelente, com pouquíssima atmosfera no caminho. Mobberley e Bakich indicam a janela de setembro a dezembro (Mobberley) ou outubro (Bakich) como a melhor época — a primavera austral.
O primeiro gráfico mostra a altura do objeto ao longo do ano para o local do observatório; o segundo, o caminho de IC 1613 pelo céu nesta noite.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
2026-10-12 · 19:20 – 04:10
Esta noite no céu
- Melhor horário
- 23:30 · 65° N
- Horas acima de 45°
- 5,2 h
- Lua
- Lua crescente · 6 %
- Nota da noite
- 76 / 100
- Posição no céu
- 78
- Brilho
- 46 mag 9,5
- Enquadramento
- 100 ocupa 41 % do campo
Notas para SkyWatcher Explorer 200P + ZWO ASI294MC Pro (campo de 66′ × 45′).
- Crepúsculo civil (Sol até −12°)
- Crepúsculo náutico (−12° a −18°)
- Noite astronômica (Sol abaixo de −18°)
- Altura abaixo de 20°
- Altura abaixo de 30°
- Altura abaixo de 45°
- Hora cheia e meia hora
- Ponto mais alto
Valores hora a hora (tabela)
| Hora | Altura | Direção | Da Lua |
|---|---|---|---|
| 19:30 | 26° | ENE 75° | 148° |
| 20:00 | 32° | ENE 71° | 148° |
| 20:30 | 39° | ENE 67° | 148° |
| 21:00 | 45° | ENE 61° | 148° |
| 21:30 | 51° | NE 54° | 147° |
| 22:00 | 56° | NE 45° | 147° |
| 22:30 | 61° | NNE 33° | 147° |
| 23:00 | 64° | NNE 19° | 147° |
| 23:30 | 65° | N 1° | 146° |
| 00:00 | 64° | NNW 344° | 146° |
| 00:30 | 61° | NNW 329° | 146° |
| 01:00 | 57° | NW 317° | 146° |
| 01:30 | 52° | NW 307° | 145° |
| 02:00 | 46° | WNW 300° | 145° |
| 02:30 | 40° | WNW 294° | 145° |
| 03:00 | 33° | WNW 289° | 145° |
| 03:30 | 27° | WNW 285° | 144° |
| 04:00 | 20° | WNW 282° | 144° |
Cálculo de baixa precisão (cerca de 0,3°), no fuso horário do local. Serve para planejar, não para apontar telescópios.
Calculado para o local do observatório (Rio de Janeiro).
O que ver
| Instrumento | O que esperar |
|---|---|
| A olho nu e binóculo | Invisível: o brilho superficial é baixo demais mesmo para um binóculo grande em céu escuro. |
| Telescópio de 100 a 200 mm | Muito difícil sob céu urbano; em céu bem escuro, alguns observadores relatam uma névoa fraquíssima, quase indistinguível do fundo do céu (Bakich). |
| Telescópio de 300 mm ou mais | Mobberley recomenda pelo menos 20 cm; uma mancha redonda, difusa e uniforme, sem estrutura visível, é o máximo esperável visualmente. |
| Telescópio de 500 mm ou mais, alto aumento | Começam a se resolver algumas dezenas de estrelas fracas (magnitude 17) que compõem o "corpo" da galáxia (Bakich). |
Expectativa honesta: este não é um alvo para impressionar. Mobberley resume sem rodeios: "não é uma galáxia que você vai correr lá fora para fotografar; ela não tem beleza nenhuma" — e recomenda, com humor, "procure algo mais bonito para olhar". Vale observá-la mesmo assim, pelo que representa: uma vizinha real do nosso Grupo Local, tão diferente das espirais grandiosas quanto pode ser uma galáxia.
Astrofotografia: estratégia de captura
Enquadramento
Com cerca de 16′ de diâmetro, IC 1613 pede um campo moderado a amplo. Com um telescópio de 1.000 mm de focal e uma câmera como a ASI294MC Pro, o campo de cerca de 1,1° × 0,75° enquadra a galáxia inteira com folga, deixando espaço para o céu de fundo — importante aqui, porque o desafio principal é justamente separar a galáxia desse fundo.
Desafios do alvo
- Brilho superficial baixíssimo. É o desafio central: a galáxia é grande, mas fraca demais por ponto. São necessárias muitas horas de exposição total, sob o céu mais escuro possível.
- Sem cor dominante. Ao contrário de uma nebulosa de emissão, não há uma linha espectral forte para um filtro de banda estreita realçar; o ganho vem de tempo total de exposição e de um céu escuro, não de filtros especiais.
- Céu urbano. Sob Bortle 7, como no Rio de Janeiro, é provável que a galáxia se perca quase inteiramente no gradiente do céu de fundo; um filtro de poluição luminosa de banda larga pode ajudar um pouco, mas não substitui um céu escuro.
Equipamento e filtros
Mobberley recomenda imagens profundas e sem filtro como a melhor estratégia para esse tipo de alvo — o problema não é a cor, é a quantidade de fótons coletados. Uma câmera colorida de tiro único funciona, mas exige tempo total generoso; em câmera monocromática, um conjunto de luminância mais RGB, com pesos maiores para a luminância, tende a aproveitar melhor o tempo de céu escuro disponível.
Exemplo de sessão (ponto de partida)
| Tipo de quadro | Quantidade | Exposição | Finalidade |
|---|---|---|---|
| Light | 60 a 100 | 180 a 300 s | Acumular o máximo de sinal possível sobre um alvo de baixo brilho |
| Dark | 30 | igual aos Lights | Calibração do ruído térmico |
| Flat | 30 | automática | Correção de vinheta e poeira |
| Bias ou dark-flat | 50 | mais curta possível | Calibração do ruído de leitura |
Esses números são um ponto de partida, e não vêm dos livros: ajuste-os ao seu sensor, ao seu telescópio e, sobretudo, à escuridão real do seu céu.
Smart telescopes e campo de visão
Um smart telescope como o Seestar S50 (campo de cerca de 1,3° × 0,7°) enquadra IC 1613 inteira com espaço de sobra, mas o resultado tende a ser modesto: mesmo com o empilhamento automático do aparelho, o brilho superficial baixo da galáxia é um desafio real para qualquer instrumento pequeno. É um alvo mais interessante para dizer "eu fotografei uma galáxia do Grupo Local" do que para uma imagem espetacular. Escolha o seu modelo no mapa abaixo para ver o retângulo do campo sobre o objeto.
Carrega o mapa do CDS (Estrasburgo) e imagens DSS2 direto do servidor deles; nada é carregado antes do clique.
Considerações finais
IC 1613 não vai ganhar nenhum concurso de beleza, mas é um objeto honesto sobre o que a maioria das galáxias realmente é: não espirais grandiosas como M 31 ou M 51, mas pequenas nuvens irregulares de estrelas, como esta ou como as Nuvens de Magalhães em escala reduzida. Observá-la é um exercício de humildade e de técnica — vale mais pela jornada de encontrá-la do que pela vista final. Se você gosta de galáxias do Grupo Local, veja também o guia de NGC 247, vizinha de constelação e membro do Grupo do Escultor, um pouco mais ao sul.
Referências
- BAKICH, Michael E. 1,001 Celestial Wonders to See Before You Die: The Best Sky Objects for Star Gazers. New York: Springer, 2010. Objeto nº 781 (IC 1613 / Caldwell 51).
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 51, p. 112-113.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a coordenadas, dimensões e fotometria de IC 1613, em 21 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, para a carta de localização; mapa Aladin Lite e imagem DSS2 do Centre de Données astronomiques de Strasbourg.