setembro 22, 2026

Triângulo: guia da constelação de Mothallah e da Galáxia M 33

Carta estelar do Triângulo como aparece do Brasil, olhando para o norte: Mothallah rotulada, o desenho fino do triângulo formado por três estrelas, o limite oficial da constelação junto de Áries, e a galáxia M 33 marcada em verde a oeste de Mothallah

O Triângulo não tenta chamar atenção. É uma figurinha discreta e sem grandes histórias, presa entre Áries e Andrômeda, com só uma estrela um pouco mais brilhante que as demais. E, ainda assim, ele guarda um dos objetos mais visados por quem gosta de testar os limites do próprio céu: a galáxia M 33, a terceira maior do nosso Grupo Local, ao lado da Via Láctea e de Andrômeda. Neste guia você vai aprender a achar o Triângulo a partir de Hamal ou do Quadrado de Pégaso, conhecer Mothallah, sua estrela principal, e saber o que esperar de M 33 num binóculo ou telescópio pequeno.

Texto em revisão. Este é um artigo de teste, escrito a partir de fontes de referência; as fontes estão listadas no final.

Uma constelação pequena entre Áries e Andrômeda

O Triângulo (Triangulum, abreviatura Tri) é uma constelação boreal pequena, de apenas 132 graus quadrados — menos de um décimo do tamanho do Escorpião. Está limitado ao sul por Áries, a oeste e ao norte por Andrômeda e a leste por Perseu e novamente Áries (Mourão, verbete Triangulum, p. 805). Apesar do tamanho modesto, é fácil de achar: fica logo ao norte de Hamal, a estrela mais brilhante de Áries (Mourão, p. 805).

A figura é exatamente o que o nome promete: três estrelas de brilho médio (Mothallah, beta e gama Trianguli) desenhando um triângulo isósceles fino, com Mothallah no vértice mais estreito (Philip's, verbete Triangulum, p. 412). Não é um objeto vistoso a olho nu, mas o desenho geométrico simples faz dele uma boa referência para "saltar" de Áries até Andrômeda e Perseu.

Não encontramos, nos livros de apoio consultados, uma mitologia grega elaborada para o Triângulo — Mourão e o Philip's tratam a constelação de forma técnica, sem lenda associada (ver seção de mitologia abaixo). É um caso, como o do Cavalo Menor e de outras constelações discretas, em que a graça está mais na geometria e no que ela aponta (M 33) do que numa história.

Quando e como achar

Melhor época. O Triângulo está centrado perto de 2 h de ascensão reta, entre as mesmas coordenadas de Áries. Ele culmina (fica no ponto mais alto) por volta das 21 h locais em meados de dezembro, junto com Áries — a boa temporada de observação vai de outubro a fevereiro.

Para onde olhar. O Triângulo fica ao norte do equador celeste; do Brasil, ele culmina voltado para o norte, alto no céu mesmo nas cidades do Sul.

Cidade Altura máxima de Mothallah
Boa Vista (RR) 61°
Manaus (AM) 67°
Recife (PE) 72°
Brasília (DF) 74°
Rio de Janeiro (RJ) 67°
São Paulo (SP) 66°
Porto Alegre (RS) 59°

Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir da declinação de Mothallah (SIMBAD, +29,58°) e da latitude de cada cidade, pela fórmula altura = 90° menos a diferença entre latitude e declinação; valores arredondados. O Triângulo é visível do Brasil inteiro.

Carta estelar do Triângulo como aparece do Brasil, olhando para o norte: Mothallah rotulada, o desenho fino do triângulo formado por três estrelas, o limite oficial da constelação junto de Áries, e a galáxia M 33 marcada em verde a oeste de Mothallah
Carta estelar do Triângulo como ele aparece do Brasil ao olhar para o norte: o norte fica embaixo e o leste à direita. As linhas de constelação são as oficiais do d3-celestial. O contorno tracejado dourado largo é o limite oficial da constelação. Em verde-claro, o objeto de céu profundo citado neste artigo. Estrelas: catálogo HYG v4.1 (CC BY-SA 4.0); limites de constelação: IAU. Gerada por Astronomia no Telhado com o Carina.

Passo a passo.

  1. Comece por Hamal, a estrela alaranjada mais brilhante de Áries. O Triângulo fica logo ao norte dela (acima, para quem olha para o norte com a carta acima).
  2. As três estrelas do triângulo (Mothallah, beta e gama) formam uma figura fina e alongada, com Mothallah na ponta mais estreita, voltada para Áries.
  3. Outra referência: o Triângulo fica a meio caminho entre Áries e as estrelas do "pé" de Andrômeda, perto também do canto do Grande Quadrado de Pégaso (mais a leste/norte).
  4. M 33 fica cerca de 4° a oeste-noroeste de Mothallah (à esquerda dela, na carta) — sem nenhuma estrela guia forte no caminho, então use um binóculo de campo largo para "varrer" essa região em céu escuro.

As estrelas do Triângulo

Estrela Posição Brilho visual (mag.) Tipo espectral Distância aproximada
Mothallah (alfa) vértice mais estreito 3,42 F5 III (gigante) cerca de 64 anos-luz
Beta Tri base do triângulo 3,00 A5 III (gigante) cerca de 127 anos-luz
Gama Tri base do triângulo 4,00 A1 Vnn cerca de 117 anos-luz

Brilhos, tipos espectrais e paralaxes consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo, catálogo Gaia DR3). As distâncias vêm de 3.261,56 dividido pela paralaxe em milissegundos de arco.

Mothallah é a estrela mais fraca das três principais em brilho absoluto, mas dá nome à constelação (o nome árabe significa, segundo o Philip's, algo como "o triângulo" ou "o vértice"). É uma gigante levemente evoluída, do tipo espectral F5, listada pelo SIMBAD como binária espectroscópica — ou seja, tem uma companheira próxima demais para separar visualmente, detectada só pelo espectro. Vieira cita para ela cerca de 65 anos-luz, próximo do valor atual do SIMBAD (Vieira, p. 77).

Beta Trianguli, na base do triângulo, é na verdade a estrela mais brilhante da constelação (magnitude 3,00), embora não dê nome a ela — um caso, como Beta Cassiopeiae ou Beta Ceti, em que a ordem alfabética grega não corresponde exatamente ao brilho. É uma gigante branca do tipo A5, também binária espectroscópica pelo SIMBAD.

Gama Trianguli fecha o triângulo, uma estrela branco-azulada quente e de rotação rápida (a designação "Vnn" indica linhas espectrais alargadas pela rotação). O Philip's também cita 6 Trianguli, uma estrela dupla mais fraca (amarela e amarelo-pálida, magnitudes 5,3 e 6,8, separação de 3,9 segundos de arco), boa para telescópio pequeno, mas fora do alcance de olho nu (Philip's, p. 412).

M 33, a Galáxia do Triângulo

O único objeto de céu profundo do catálogo do site dentro do Triângulo é a M 33 — Galáxia do Triângulo, também chamada Galáxia Cata-Vento (Pinwheel Galaxy) — apelido que ela divide, de forma confusa, com M 101, na Ursa Maior (Philip's, verbete Pinwheel Galaxy, p. 308). M 33 é uma espiral vista de frente, do tipo SA(s)cd, com braços frouxamente enrolados em torno de um núcleo pequeno (SIMBAD; Philip's, p. 308).

Com magnitude 5,7, M 33 fica no limite da visão a olho nu em céu muito escuro, mas o baixo brilho superficial — a luz espalhada por uma área de cerca de 60 por 35 minutos de arco, quase do tamanho da Lua cheia — faz dela um alvo mais difícil do que a magnitude sozinha sugere, mesmo com binóculo ou telescópio (Philip's, p. 308; Kambič, p. 468-469). Por isso, M 33 é um teste clássico de céu escuro: observadores experientes a usam para avaliar a transparência do céu numa determinada noite.

M 33 é a terceira maior galáxia do Grupo Local, atrás só da Via Láctea e de Andrômeda (M 31), com um diâmetro de cerca de 50 mil anos-luz — cerca de metade do diâmetro da nossa Galáxia (Philip's, p. 308; Kambič, p. 468-469). Foi catalogada por Messier em 1764 (Kambič, p. 468). A distância varia entre fontes: 2,4 milhões de anos-luz pelo Philip's, cerca de 2,7 milhões pelo Ridpath e cerca de 3 milhões por Kambič — valores próximos, mas não idênticos, típicos de medidas por diferentes métodos e épocas.

Perto de M 33, dentro do Triângulo, fica R Trianguli, uma estrela variável do tipo Mira que oscila entre a magnitude 5,4 e 12,6 ao longo de cerca de 267 dias — um alvo interessante para quem gosta de acompanhar variáveis, embora exija uma carta de comparação e paciência (Kambič, p. 468, 472).

Mitologia e história

Diferente de constelações como Escorpião ou Órion, o Triângulo não carrega um mito grego rico nos livros que consultamos: Mourão e o Philip's descrevem a constelação apenas por sua posição e suas estrelas, sem uma lenda associada (Mourão, p. 805; Philip's, p. 412). É uma das 48 constelações originais listadas por Ptolomeu no Almagesto, então sua origem é antiga, mesmo sem um mito de destaque — diferente das constelações modernas de Hevelius ou Lacaille, que têm origem claramente instrumental ou cartográfica.

Vale registrar que existe também o Triângulo Austral (Triangulum Australe), uma constelação austral sem relação direta com esta, criada muito mais tarde pelos navegadores holandeses Keyser e de Houtman — as duas são frequentemente confundidas pelo nome, mas ficam em lados opostos do céu.

Roteiro de observação

Instrumento O que ver
A olho nu O contorno fino do triângulo, com Mothallah na ponta mais estreita; em céu muito escuro, talvez um vislumbre de M 33 como uma manchinha.
Binóculo (10×50) M 33 como uma mancha oval tênue e grande, melhor com aumento baixo e campo largo; as três estrelas do triângulo no mesmo campo.
Telescópio pequeno (70 a 100 mm) M 33 com mais contraste em céu escuro (evite luar); a dupla 6 Trianguli, separável com calma.
Telescópio de 200 mm ou mais, em céu escuro Início da estrutura espiral de M 33 e algumas regiões HII mais brilhantes dentro dela.

Dicas de campo:

  • Escolha uma noite sem Lua entre outubro e fevereiro, em céu o mais escuro possível — M 33 é o motivo principal para visitar essa constelação, e ela é sensível à poluição luminosa.
  • Comece por Hamal, em Áries, e suba até Mothallah; de lá, aponte cerca de 4° a oeste para M 33.
  • Se M 33 não aparecer de primeira, tente visão desviada (olhar um pouco ao lado do centro do campo) e aumentos baixos.

Referências

  • KAMBIČ, Bojan. Viewing the Constellations with Binoculars. New York: Springer, 2010. M 33 e R Trianguli, p. 468-472.
  • MOORE, Patrick (ed.). Philip's Astronomy Encyclopedia. London: Philip's, 2002. Verbetes "Triangulum" (p. 412) e "Pinwheel Galaxy" (p. 308).
  • MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbete "Triangulum" (p. 805).
  • VIEIRA, Fernando. Identificação do céu. Triângulo, p. 77.
  • SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilhos, tipos espectrais, paralaxes e dados de M33, em 21 set. 2026.
  • HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.