setembro 22, 2026
Taça: guia da constelação discreta que carrega a copa de Apolo

Nem toda constelação precisa ser espetacular para merecer um lugar no céu. A Taça é uma das mais discretas das 88: nenhuma estrela chega à 3ª magnitude, não há aglomerados ou nebulosas fáceis dentro dos seus limites, e a maioria dos observadores passa direto por ela a caminho de vizinhas mais chamativas, como o Corvo. Ainda assim, ela carrega uma das histórias mais completas da mitologia celeste, o castigo que Apolo aplicou a um corvo mentiroso, e vale a pena aprender a reconhecer seu contorno de taça sobre a cabeça da Hidra.
Uma taça discreta sobre a serpente
A Taça (Crater, abreviatura Crt) ocupa cerca de 282 graus quadrados do céu (Mourão, verbete Crater, p. 247) e fica encaixada entre a Hidra, que a sustenta por baixo, e o Corvo e Virgem, a leste. Seis estrelas de 4ª a 5ª magnitude desenham um contorno que, com um pouco de imaginação, lembra mesmo uma taça ou copo com pé, apoiada sobre o longo corpo da Hidra (Mourão, verbete Crater, p. 247).
É uma das 48 constelações originais listadas por Ptolomeu no século II, então sua presença no céu é antiga, mesmo sem nenhuma estrela de destaque (Moore, Observer's Year, p. 163-164).
Quando e como achar
Melhor época. A Taça culmina por volta das 21 horas locais em torno do fim de abril, um pouco antes do Corvo. A boa temporada de observação vai de março a junho.
Para onde olhar. Como o Corvo, a Taça fica ao sul do equador celeste e passa bem alta no céu do Brasil, perto do zênite nas regiões central e sudeste.
| Cidade | Altura máxima de Alkes |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 69° |
| Manaus (AM) | 75° |
| Recife (PE) | 80° |
| Brasília (DF) | 87° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 85° |
| São Paulo (SP) | 85° |
| Porto Alegre (RS) | 78° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir da declinação de Alkes (SIMBAD) e da latitude de cada cidade; valores arredondados.

Passo a passo.
- Ache primeiro o Corvo, o quadrilátero vizinho e bem mais fácil de reconhecer (veja o guia do Corvo).
- A Taça fica logo a oeste do Corvo, um pouco mais baixa e mais espalhada, sem a mesma nitidez de contorno.
- Alkes, a estrela mais brilhante, marca a base da taça, no canto sudoeste da figura.
- As demais cinco estrelas (delta, gama, beta, teta, zeta e épsilon Crateris) sobem e descem formando as bordas e a alça da taça; nenhuma delas tem nome próprio.
A estrela da Taça
| Estrela | Posição | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|---|
| Alkes (alfa) | base da taça | 4,07 | K0 III (gigante alaranjada) | cerca de 160 anos-luz |
Brilho, tipo espectral e paralaxe consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo); distância calculada por 3.261,56 dividido pela paralaxe em milissegundos de arco.
Alkes, cujo nome árabe significa "a taça", é uma gigante alaranjada, a única estrela da constelação com nome próprio reconhecido. As demais estrelas do contorno, delta (3,56), gama (4,06), beta (4,46), teta (4,70), zeta (4,71) e épsilon (4,81) Crateris, são todas mais fracas e sem nome, o que resume bem o caráter modesto da constelação: nenhuma delas chegaria perto do topo de uma lista de estrelas notáveis do céu.
O céu profundo da Taça
O catálogo de objetos do site lista apenas três galáxias fracas dentro dos limites da Taça, todas além da 10ª magnitude e fora do alcance de binóculos ou telescópios pequenos: NGC 3962 (magnitude 10,65), NGC 3511 (11,02) e NGC 3955 (11,84). Nenhuma delas aparece descrita nos livros de apoio consultados para este guia — um sinal de que a Taça realmente não costuma render alvos de observação visual. NGC 3962, a mais brilhante das três, marcada na carta acima, é uma opção para quem já esgotou os alvos mais fáceis da vizinhança e quer testar um telescópio de 20 cm ou mais sob céu bem escuro.
Mitologia: parte do mesmo castigo do Corvo
A Taça compartilha o mito com o Corvo e a Hidra: Mourão conta que Apolo enviou o corvo para lhe trazer água numa taça, e o pássaro se atrasou comendo figos, inventando depois a desculpa de que uma serpente de água havia bloqueado a fonte. Apolo baniu os três ao céu, a taça para sempre fora do alcance do corvo sedento (Mourão, verbete Corvus, p. 243; veja o guia do Corvo para a história completa). Assim como a Hidra e o Corvo, a Taça é uma das 48 constelações de Ptolomeu, então essa associação mitológica já é conhecida desde a Antiguidade greco-romana.
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | O contorno completo da taça, em céu bem escuro e sem Lua; um bom exercício de reconhecimento de forma. |
| Binóculo (10×50) | O campo em volta de Alkes e o contraste entre as seis estrelas do contorno. |
| Telescópio de 20 cm ou mais | NGC 3962, para quem quiser um alvo extra de galáxia fraca na vizinhança do Corvo. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre março e junho, com céu bem escuro — a Taça não se destaca em céu com poluição luminosa.
- Use o Corvo, bem mais fácil de achar, como ponto de partida: a Taça fica logo a oeste dele.
- Não espere brilho: o valor da Taça está em completar o desenho da região, não em objetos individuais de destaque.
Referências
- MOORE, Patrick. The Observer's Year: 366 Nights of the Universe. 2. ed. London: Springer, 2005. Crater, noites de 23 a 25 de maio, p. 163-164.
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Corvus" (p. 243) e "Crater" (p. 247).
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Antenas, Corvo e Taça, p. 197.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilho, tipo espectral e paralaxe, em 22 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.