setembro 22, 2026
As sondas do Sistema Solar: um panorama de Lunik a New Horizons, e o que veio depois
Este artigo é diferente dos outros deste catálogo sobre exploração espacial: em vez de contar a história de uma missão ou de uma família de sondas em detalhe, ele funciona como um panorama, um índice organizado por destino, que resume mais de sessenta anos de exploração robótica do Sistema Solar. A ideia é dar uma visão de conjunto — quem foi primeiro em cada lugar, que sondas romperam recordes — e apontar para onde aprofundar em cada tema, nos outros artigos deste site sobre exploração espacial.
Lua: o primeiro alvo
A exploração robótica do Sistema Solar começou pela vizinha mais próxima da Terra. A partir de 1959, a União Soviética lançou a série de sondas Lunik (também chamadas Luna), e a terceira delas, ainda naquele ano, conseguiu um feito notável: fotografar pela primeira vez o lado oculto da Lua, a face que nunca vemos da Terra porque a Lua tem rotação sincronizada com sua translação ao redor do nosso planeta. Nos anos seguintes, as sondas soviéticas do programa Luna e os veículos robóticos Lunokhod dividiram a corrida lunar com as missões americanas Ranger, Surveyor e Lunar Orbiter, que prepararam o terreno, literalmente, para os pousos tripulados do programa Apollo entre 1969 e 1972.
Vênus: o planeta mais hostil já explorado de perto
Os primeiros sobrevoos bem-sucedidos de Vênus vieram da série americana Mariner, a partir de 1962. Mas foi a União Soviética que dominou a exploração direta do planeta, com o programa Venera: em 22 de outubro de 1975, a Venera 9 se tornou a primeira sonda a pousar em Vênus e enviar dados da superfície, sobrevivendo por apenas 53 minutos antes de sucumbir à pressão descomunal e à temperatura de forno da atmosfera venusiana — condições que continuam sendo, até hoje, um dos maiores desafios de engenharia espacial já enfrentados. Sondas posteriores, como a americana Pioneer Venus e, já nos anos 1990, a Magellan, deixaram de tentar pousar e passaram a mapear o planeta inteiro por radar, capaz de enxergar através da espessa cobertura de nuvens que esconde a superfície venusiana da observação direta.
Marte: o planeta mais visitado
Marte concentra a maior quantidade de missões robóticas depois da Lua, com um histórico de sucessos e fracassos contado em detalhe nos artigos Missões a Marte: de Mariner a Phoenix e Viking, Spirit e Opportunity: os rovers que superaram as previsões e Água e vida em Marte: o que sabemos. Em resumo: os primeiros sobrevoos vieram da Mariner nos anos 1960, os primeiros pousos funcionais do par Viking em 1976, e o primeiro rover móvel da Mars Pathfinder em 1997, cujo pequeno robô Sojourner abriu caminho para os rovers maiores das décadas seguintes, incluindo o Opportunity, que em 2004 trouxe provas fortes de que Marte teve água líquida em abundância no passado.
Planetas gigantes: o Grande Tour
A exploração dos planetas gigantes começou com as sondas Pioneer 10 e 11, lançadas pelos Estados Unidos no início dos anos 1970: a Pioneer 10 sobrevoou Júpiter em 1973 e a Pioneer 11 fez o mesmo em 1974, seguindo depois para um sobrevoo de Saturno em 1979 — as primeiras sondas a atravessar o cinturão de asteroides e a chegar perto desses dois planetas.
O feito mais espetacular veio com as sondas gêmeas Voyager 1 e 2, lançadas em 1977 para aproveitar um alinhamento planetário raro, que só se repete a cada 176 anos, permitindo usar a assistência gravitacional de um planeta para ganhar velocidade rumo ao próximo — uma espécie de "estilingue" gravitacional. A Voyager 1 sobrevoou Júpiter em 1979 e Saturno em 1980, antes de seguir para fora do plano do Sistema Solar. A Voyager 2 fez o "Grande Tour" completo: Júpiter em 1979, Saturno em 1981, Urano em 1986 e Netuno em 1989, sendo até hoje a única sonda a ter visitado os dois planetas gelados mais distantes do Sistema Solar. As duas sondas carregam o famoso disco de ouro, um registro com sons, imagens e música da Terra, preparado com a colaboração do astrônomo e divulgador científico Carl Sagan, destinado a uma eventual civilização extraterrestre que um dia encontre as sondas no espaço profundo.
Décadas depois, a exploração de Júpiter e Saturno ganhou sondas orbitadoras dedicadas: a Galileo orbitou Júpiter de 1995 a 2003 e estudou de perto suas luas geladas, e a missão conjunta Cassini-Huygens orbitou Saturno de 2004 a 2017, soltando o módulo europeu Huygens para pousar na superfície de Titã, a maior lua do planeta, em 2005 — o pouso mais distante já feito por uma sonda até então.
Cometas e asteroides: alvos pequenos, encontros rápidos
Em 1986, a sonda europeia Giotto fez o primeiro sobrevoo de perto do núcleo de um cometa, enviando as primeiras imagens diretas do núcleo do cometa Halley durante sua passagem daquele ano. Foi um marco técnico importante: cometas viajam a velocidades altíssimas em relação às sondas, tornando o encontro extremamente arriscado. Nas décadas seguintes, outras missões como a ICE (que já havia cruzado a cauda de outro cometa antes mesmo da Giotto) e a Deep Impact, que chegou a lançar um projétil contra o núcleo de um cometa para estudar sua composição interna, ampliaram o conhecimento sobre esses corpos gelados. Já entre os asteroides, a sonda NEAR Shoemaker fez o primeiro pouso controlado em um asteroide, o Eros, em 2001, depois de orbitá-lo por cerca de um ano.
Plutão: o último dos "planetas clássicos" a ser visitado
Plutão, reclassificado como planeta anão em 2006, foi por muito tempo o único mundo do Sistema Solar nunca visitado de perto por uma sonda. Isso mudou em julho de 2015, quando a sonda americana New Horizons sobrevoou Plutão e sua maior lua, Caronte, revelando um mundo geologicamente muito mais ativo e complexo do que se esperava, com montanhas de gelo de água e vastas planícies de nitrogênio congelado.
Números e recordes
| Recorde | Sonda | Ano |
|---|---|---|
| Primeira foto do lado oculto da Lua | Lunik 3 (Luna 3) | 1959 |
| Primeiro sobrevoo de outro planeta | Mariner 2 (Vênus) | 1962 |
| Primeira sonda a orbitar outro planeta | Mariner 9 (Marte) | 1971 |
| Primeiro pouso funcional em outro planeta | Venera 9 (Vênus) | 1975 |
| Primeiro sobrevoo de perto de um núcleo de cometa | Giotto (Halley) | 1986 |
| Única sonda a visitar os quatro planetas gigantes | Voyager 2 | 1979-1989 |
| Primeiro pouso controlado em um asteroide | NEAR Shoemaker (Eros) | 2001 |
| Primeiro sobrevoo de Plutão | New Horizons | 2015 |
O que veio depois: da New Horizons ao espaço interestelar
Os livros que serviram de base para este panorama foram escritos até meados dos anos 2000, então param antes de vários marcos importantes da exploração espacial mais recente. Vale destacar:
- A New Horizons, que sobrevoou Plutão em 2015 e seguiu viagem para sobrevoar um pequeno objeto do Cinturão de Kuiper, Arrokoth, em 2019 — o corpo mais distante já visitado de perto por uma sonda até aquele momento.
- A Juno, em órbita de Júpiter desde 2016, estudando o interior profundo do planeta e suas intensas auroras polares.
- A Rosetta, da Agência Espacial Europeia, que orbitou o cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko a partir de 2014 e soltou o pequeno módulo Philae para pousar em sua superfície — o primeiro pouso controlado já feito no núcleo de um cometa.
- A OSIRIS-REx, da NASA, que coletou uma amostra do asteroide Bennu e a trouxe de volta à Terra em 2023, somando-se a missões japonesas de retorno de amostra de asteroides (Hayabusa e Hayabusa2).
- A Parker Solar Probe, lançada em 2018, que já entrou várias vezes na coroa solar, mais perto do Sol do que qualquer objeto feito pelo ser humano jamais esteve.
- No campo de Marte, o avanço foi grande demais para resumir aqui — veja o artigo dedicado às missões a Marte para a cronologia completa, do Curiosity ao Perseverance.
- Quanto às sondas Voyager, hoje sabemos que a Voyager 1 cruzou a fronteira da heliosfera — a "bolha" de partículas e campo magnético soprada pelo Sol — e entrou no espaço interestelar em 2012, seguida pela Voyager 2 em 2018. As duas continuam enviando dados, décadas após o lançamento, embora precisem desligar instrumentos aos poucos para economizar a energia cada vez mais escassa de seus geradores nucleares, que perdem potência com o tempo; a expectativa geral, sem uma data exata garantida, é de que consigam manter algum contato por mais alguns anos.
Curiosidade: mensagens ao cosmos
Várias dessas sondas carregam mensagens simbólicas destinadas a uma eventual civilização extraterrestre que as encontre no espaço profundo, muito depois de encerrarem contato com a Terra: as placas metálicas das Pioneer 10 e 11, com uma silhueta humana e um mapa da posição do Sol em relação a pulsares próximos, e o disco de ouro das Voyager, muito mais elaborado, com sons e imagens da Terra. Essa história, junto com o programa SETI de busca por sinais de outras civilizações, está em outro artigo do site.
Considerações finais
Em pouco mais de sessenta anos, a exploração robótica passou de uma única foto borrada do lado oculto da Lua a sondas que já pousaram em cometas e asteroides, orbitaram todos os planetas do Sistema Solar (com exceção ainda hoje de uma missão orbital dedicada a Urano ou Netuno) e cruzaram a fronteira para o espaço interestelar. Este panorama serve de ponto de partida: os artigos individuais deste site sobre Marte, e outros que devem ser publicados sobre Vênus, Voyager, os planetas gigantes, Plutão, cometas e asteroides, aprofundam cada um desses capítulos com muito mais detalhe.
Referências
- RIDPATH, Ian. Astronomia (Guia Ilustrado Zahar). 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar. Sondas espaciais e exploração do Sistema Solar, p. 34-35.