setembro 22, 2026
Sextante: guia da constelação quase invisível que homenageia um instrumento de navegação

Se o Corvo e a Taça já são discretos, o Sextante é ainda mais apagado: nenhuma de suas estrelas passa da 4ª magnitude, e a constelação inteira cabe dentro de um quadrado de céu vazio ao sul de Regulus. Mourão a descreve como uma homenagem do astrônomo polonês Johannes Hevelius ao seu próprio instrumento de trabalho, e é exatamente isso que ela é: um nome no mapa, sem quase nada para ver a olho nu. Mas, para quem tem um telescópio de porte médio, ela esconde a Galáxia do Fuso, uma lenticular vista de perfil que vale o desvio.
Um instrumento de navegação no meio do nada
O Sextante (Sextans, abreviatura Sex) ocupa cerca de 314 graus quadrados do céu, ao sul de Regulus, a estrela mais brilhante do Leão (Mourão, verbete Sextans, p. 770). Foi criado por Johannes Hevelius em 1687, que batizou a constelação com o nome do sextante que usava em seu observatório em Danzig, hoje Gdańsk, na Polônia (Mourão, verbete Sextans, p. 770). O instrumento em si, usado para medir a altura dos astros acima do horizonte, deriva de aparelhos de reflexão mais antigos, como o oitante, e recebeu esse nome porque seu arco graduado cobre um sexto de círculo, 60 graus (Mourão, verbete Sextante, p. 770).
Ironicamente, a constelação que homenageia um instrumento de precisão é uma das menos precisas de se enxergar no céu: Mobberley a descreve, ao localizar a Galáxia do Fuso, como "uma das constelações mais sem graça que se conhece" (Mobberley, Caldwell Objects, p. 129), com um desenho triangular formado só por uma estrela de 4ª magnitude e duas de 5ª.
Quando e como achar
Melhor época. O Sextante culmina por volta das 21 horas locais em torno do início de abril, um pouco antes da Taça e do Corvo. A boa temporada de observação vai de fevereiro a maio.
Para onde olhar. O Sextante fica quase exatamente sobre o equador celeste, então passa muito alto em todo o Brasil, mais alto ainda no Norte do país.
| Cidade | Altura máxima de alfa Sextantis |
|---|---|
| Boa Vista (RR) | 87° |
| Manaus (AM) | 87° |
| Recife (PE) | 82° |
| Brasília (DF) | 75° |
| Rio de Janeiro (RJ) | 67° |
| São Paulo (SP) | 67° |
| Porto Alegre (RS) | 60° |
Altura máxima acima do horizonte, calculada por nós a partir da declinação de alfa Sextantis (SIMBAD) e da latitude de cada cidade; valores arredondados.

Passo a passo.
- Ache Regulus, a estrela azul-branca que marca o ponto do "L" invertido da cabeça do Leão.
- Desça cerca de 15 graus para o sul: nenhuma estrela brilhante marca a passagem, então é melhor confirmar com um aplicativo ou carta na primeira vez.
- Alternativamente, use Alphard, a estrela laranja de Hidra: o Sextante fica entre Alphard e Regulus, um pouco mais perto de Regulus.
- Procure um triângulo apagado de três estrelas de 4ª e 5ª magnitude; é tudo o que a constelação oferece a olho nu.
A estrela do Sextante
| Estrela | Posição | Brilho visual (mag.) | Tipo espectral | Distância aproximada |
|---|---|---|---|---|
| alfa Sextantis | vértice norte do triângulo | 4,49 | A0 III | cerca de 426 anos-luz |
Brilho, tipo espectral e paralaxe consultados no SIMBAD (CDS, Estrasburgo); distância calculada por 3.261,56 dividido pela paralaxe em milissegundos de arco.
Nenhuma estrela do Sextante recebeu um nome próprio consagrado pelo uso: mesmo a mais brilhante é conhecida apenas por sua designação de Bayer, alfa Sextantis. É uma gigante branca (A0 III) sem nada de particularmente notável, exceto o papel de âncora para quem tenta localizar a constelação.
A Galáxia do Fuso
O único alvo de peso do Sextante é NGC 3115, a Galáxia do Fuso (Spindle Galaxy, Caldwell 53), uma galáxia lenticular vista quase perfeitamente de perfil, de magnitude 8,9. Fica cerca de 9,5° a leste e 1° ao norte de Alphard, passando perto de gama Sextantis pelo caminho (Mobberley, Caldwell Objects, p. 129). Apesar de não ser um objeto Messier, seu brilho superficial é generoso, e ela costuma surpreender observadores que a comparam a uma NGC 891 (Caldwell 23) desfocada, com um núcleo denso e dois níveis de halo mais fraco ao redor em fotografias (Mobberley, p. 129). Um telescópio de 15 cm já mostra sua forma alongada em céu limpo; a partir de 20 cm, o núcleo brilhante se destaca com clareza. Em abril de 1935, o astrônomo Samaha descobriu ali a supernova 1935B, cerca de 1 minuto de arco a noroeste do núcleo (Mobberley, p. 129).
Como bônus de campo, um pouco mais ao norte, já perto do limite com Leão, fica o par de galáxias em interação NGC 3166 e NGC 3169 (magnitudes 10,6 e 10,9), citado apenas de passagem: não encontramos descrição nos livros de apoio consultados, mas é um alvo conhecido para quem tem telescópio de 20 cm ou mais e já esgotou a Galáxia do Fuso.
Mitologia e história: um nome sem mito
Diferente do Corvo, da Taça e da Hidra, o Sextante não carrega nenhuma história mitológica: é uma das constelações modernas, criadas na época dos grandes atlas celestes europeus dos séculos XVII e XVIII para preencher espaços vazios do céu com instrumentos científicos, animais exóticos ou objetos do cotidiano dos astrônomos. Hevelius, que também batizou Escudo (Scutum) e Lince (Lynx), entre outras, escolheu homenagear o próprio sextante que usava para medir posições estelares, um gesto de astrônomo prático mais do que de contador de histórias (Mourão, verbete Sextans, p. 770).
Roteiro de observação
| Instrumento | O que ver |
|---|---|
| A olho nu | Pouca coisa: em céu muito escuro, um triângulo apagado de três estrelas. |
| Binóculo (10×50) | O mesmo triângulo com mais contraste; não espere brilho. |
| Telescópio de 15 a 20 cm | NGC 3115 (Galáxia do Fuso), já mostrando sua forma alongada. |
| Telescópio de 20 cm ou mais | O par NGC 3166/3169, para quem quiser um desafio extra. |
| Astrofotografia | NGC 3115 com boa definição de núcleo e halo, e o par NGC 3166/3169 em exposição longa. |
Dicas de campo:
- Escolha uma noite sem Lua entre fevereiro e maio, com céu bem escuro.
- Use Alphard como ponte principal: a Galáxia do Fuso fica a cerca de 9,5° dela, quase na mesma latitude celeste.
- Não espere reconhecer a "forma" do sextante a olho nu; a constelação existe mais no mapa do que no céu.
Referências
- MOBBERLEY, Martin. The Caldwell Objects and How to Observe Them. New York: Springer, 2009. Caldwell 53 (NGC 3115), p. 129 (impressa 116).
- MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. Verbetes "Sextans" e "Sextante", p. 770.
- SIMBAD Astronomical Database. Centre de Données astronomiques de Strasbourg (CDS). Consulta a brilho, tipo espectral e paralaxe, em 22 set. 2026.
- HYG Database (v4.1), David Nash / Astronexus, licença CC BY-SA 4.0, usado na carta estelar; limites das constelações da IAU e linhas do d3-celestial.